Acaso ou destino

25 CAPÍTULO 25- Sob as pedras de Volterra



Helena já não media o tempo pelos dias.

Naquela cela, enterrada sob as pedras de Volterra, o sol era apenas uma lembrança. Ela contava as horas pelos passos dos guardas, pela troca dos turnos e pelo silêncio que surgia quando alguém importante atravessava os corredores subterrâneos.

Naquela noite, o silêncio chegou primeiro.

Depois vieram passos rápidos, desiguais, muito diferentes da elegância calculada que Aro sempre exibia. Quando a porta se abriu, Helena ergueu a cabeça devagar. O homem que entrou ainda carregava o rosto que durante séculos inspirara temor, mas já não possuía o poder que sustentava sua autoridade.

Aro estava pálido até mesmo para um vampiro. Os olhos rubros brilhavam com febre, e havia urgência em cada movimento.

Nas mãos, ele trazia uma pequena caixa de madeira escura. Colocou-a sobre a mesa e retirou de dentro um recipiente de cristal, uma lanceta e uma bolsa vazia.

— Você parece decepcionada em me ver — disse ele.

Helena observou os objetos sem responder.

— Sarah foi mais forte do que eu esperava — continuou Aro. — Mais forte do que todos nós esperávamos. E o lobo... o vínculo entre eles alterou tudo.

Ao ouvir o nome da filha, Helena sentiu o peito apertar. Não permitiu, porém, que a emoção chegasse ao rosto.

— Se ela venceu você, por que ainda está sorrindo?

Aro tocou o recipiente de cristal com a ponta dos dedos.

— Porque derrotas também ensinam.

Ele retirou do bolso um pequeno frasco, no qual uma gota espessa de sangue parecia reter luz própria.

— Sangue de Maya — afirmou.

Helena o encarou por alguns segundos e soube, antes mesmo de pensar, que era mentira. A ligação que a unia à neta não reagiu. A gota continha graça, sim, mas sua vibração era mais profunda, mais ardente.

Era sangue de Sarah.

Aro percebeu que ela compreendera e seu sorriso se tornou mais estreito.

— Quero saber até onde a dádiva dela pode ir — disse. — E você vai me ajudar.

— Não.

— Não preciso da sua permissão.

Ele se aproximou. Helena sentiu o metal da corrente vibrar quando tentou se afastar. Aro abriu a bolsa, preparou a lanceta e falou sobre sangue como se estivesse descrevendo uma experiência comum: separaria a graça do veneno, observaria a reação e usaria o corpo dela para descobrir a dose que poderia suportar.

Helena ouviu tudo. Não gritou. Não implorou.

Quando ele segurou seu braço, fechou os olhos e procurou, bem no fundo de si, a presença de Maya. Encontrou a neta como uma centelha distante, mas viva. Atrás dela havia outra luz, maior e marcada pelo lobo.

Sarah.

Helena reuniu a pouca força que ainda tinha e empurrou um pensamento através daquela ligação.

Não venham pelo caminho que ele espera.

Aro pressionou a lanceta contra sua pele.

Escutem as pedras.

Do outro lado do oceano, Grace Ward abriu os olhos.

O som dos aparelhos preencheu o quarto, acompanhado pelo suspiro aliviado de Carlisle. Maya permanecia sentada ao lado da cama, segurando a mão da avó com tanta força que os próprios dedos haviam perdido a cor.

— Maya... — murmurou Grace.

— Estou aqui.

Grace tentou se mover, mas Carlisle pousou uma mão cuidadosa em seu ombro.

— Devagar. Você perdeu muito sangue, mas está estável.

Os olhos de Grace encontraram os da neta.

— Sua mãe...

Maya engoliu o choro.

— Eu vou buscá-la.

— Não sozinha.

— Nunca mais sozinha.

Quando Maya deixou o quarto, Sarah a esperava no corredor. Jacob estava ao lado dela, atento a cada alteração em sua respiração. Desde que o beijo e a aceitação haviam consolidado o elo entre os dois, a centelha dele permanecia viva dentro dela. Sarah já não precisava do contato físico para recuperar as forças; a mesma magia que habitava Jacob pulsava em seu sangue, e a energia de Sarah também existia nele. O elo alcançava Maya e, por meio dela, tocava a antiga herança de Sophia.

— Ela acordou — disse Maya.

Sarah a abraçou.

— E sua mãe está viva. Eu consigo senti-la.

O plano para a viagem começou naquela mesma madrugada.

Carlisle organizou um avião particular. Alice revisou rotas e futuros possíveis até admitir que a presença dos lobos e a natureza da graça deixavam suas visões fragmentadas. Edward se ofereceu para seguir com o grupo, e Jasper, Emmett, Rosalie e Bella partiram como parte da distração que seria criada em Volterra.

Sam permaneceria em La Push para proteger a reserva. Leah e Seth acompanhariam Jacob. Embry e Quil ficariam com a alcateia.

Antes da partida, Billy chamou o filho para perto. Jacob se ajoelhou diante da cadeira do pai, e por um momento não era o alfa, o guerreiro ou o homem ligado a uma força antiga. Era apenas o filho que se preparava para atravessar o oceano em direção ao perigo.

— Traga todos de volta — pediu Billy.

Jacob assentiu.

— Vou trazer.

— E não tente liderar sozinho. Um alfa que acredita carregar tudo nas costas acaba esquecendo a força de quem caminha ao lado dele.

Jacob olhou para Sarah. Ela sustentou seu olhar, firme.

Ateara, que permanecia perto da porta, aproximou-se em seguida.

— Em Volterra, não confie apenas no que vê — aconselhou o ancião. — Lugares antigos aprendem a esconder caminhos. E homens como Aro sempre deixam uma mentira diante da verdade.

No avião, o silêncio demorou a se romper. Maya tentou dormir, encolhida junto à janela. Sarah adormeceu algumas horas depois, com a cabeça apoiada no ombro de Jacob.

Ele a observou por longo tempo.

— Você tem medo de que ela não volte? — perguntou Maya, sem abrir os olhos.

Jacob demorou a responder.

— Tenho medo de muitas coisas.

— Não parece.

— Parecer corajoso é uma parte pequena da coragem.

Maya finalmente o encarou.

— Você confia nela?

— Com a minha vida.

— E se a escolha dela colocar essa vida em risco?

Jacob olhou outra vez para Sarah.

— Então eu vou lembrá-la de que não precisa se sacrificar para merecer salvar alguém.

Sarah abriu os olhos.

— Eu ouvi isso.

— Era para ouvir.

Ela entrelaçou os dedos aos dele.

— Eu vou voltar.

— Nós vamos voltar — corrigiu Jacob.

Marcus os aguardava numa propriedade abandonada nos arredores de Florença. Parecia ainda mais antigo longe do trono, mas havia uma lucidez nova em seu rosto.

— Caius e Selene estão sob vigilância — informou. — Aro entrou em Volterra por um acesso subterrâneo que poucos conhecem. Ele não pretende defender o palácio. Pretende usá-lo como palco.

Sobre uma mesa, abriu um mapa envelhecido da cidade.

O grupo foi dividido. Marcus, Carlisle, Bella, Alice, Jasper, Emmett e Rosalie entrariam pela via principal, obrigando os guardas leais a Aro a se revelar. Sarah seguiria pelos túneis com Jacob, Maya, Edward, Leah, Seth e Demetri.

— Se Aro ainda tivesse seu dom, sentiria cada movimento antes de começarmos — observou Edward. — Agora, ele depende de informantes e armadilhas.

— E conhece essas pedras melhor do que qualquer um — completou Demetri.

Sarah tocou o desenho gravado no canto do mapa. Uma lua crescente cercava a cabeça de um lobo.

— Não melhor do que quem esteve aqui antes dele.

A entrada ficava sob uma antiga capela. O ar nos túneis era frio e carregava cheiro de terra, umidade e sangue antigo. Durante a descida, Maya parou de repente.

— Minha mãe falou comigo.

Todos se voltaram para ela.

— O que ela disse? — perguntou Sarah.

— Para não seguirmos pelo caminho que ele espera. Para escutarmos as pedras.

Poucos metros adiante, o corredor se dividia em dois. À esquerda havia um traço recente do perfume de Helena. Demetri inclinou a cabeça.

— Ela passou por ali.

Sarah fechou os olhos. O rastro era perfeito demais. Aro havia usado sangue, tecido ou alguma peça de Helena para conduzi-los.

Jacob apoiou a palma na parede direita.

— Aqui.

Uma vibração quase imperceptível atravessava a rocha. Sarah colocou a mão ao lado da dele. Sob os dedos, encontrou símbolos antigos: a lua, o lobo e uma sequência de marcas semelhantes às que existiam no ombro dela.

— É um caminho dos guardiões — disse Maya. — Minha avó conhecia a história.

O som de passos veio do corredor esquerdo. Edward ergueu a cabeça.

— Guardas. Muitos.

Leah e Seth trocaram um olhar.

— Nós cuidamos deles — afirmou Leah.

— Não se afastem demais — ordenou Jacob.

Edward seguiu com os dois, atraindo os guardas para longe. Demetri permaneceu na bifurcação para impedir que outros se aproximassem.

Diante da parede, Sarah, Maya e Jacob uniram as mãos. A graça respondeu primeiro em Sarah, correu para Jacob e alcançou Maya. A pedra estremeceu. Linhas de luz prata e âmbar percorreram os símbolos, revelando uma porta que não possuía fechadura.

Do outro lado, Helena gritou.

Não de medo.

De resistência.

Sarah empurrou toda a força do elo contra a parede. A passagem se abriu com um estrondo.

Aro estava inclinado sobre Helena. Um tubo levava o sangue dela a um recipiente de cristal. Ao ver Maya, Helena puxou as correntes com violência. A luz que atravessava a passagem encontrou seu corpo, e os elos se partiram.

Ela arrancou a agulha do braço, apanhou o recipiente e o lançou contra o chão.

O cristal explodiu.

— Mãe! — Maya correu até ela.

Helena caiu de joelhos, envolvendo a filha nos braços. Por um instante, o mundo subterrâneo deixou de existir. Havia apenas duas mulheres separadas por anos de crueldade, tentando reconhecer uma à outra através do choro.

Jacob avançou para Aro, mas o vampiro ergueu um pequeno frasco.

Sarah reconheceu o sangue antes que ele falasse. Era o que fora recolhido no campo de batalha, quando ela estivera entre a vida e a morte.

— Você chegou exatamente a tempo — disse Aro.

Ele bebeu.

O corpo inteiro se arqueou. Veias luminosas surgiram sob a pele, espalhando-se pelo pescoço e pelo rosto. Então um som impossível ecoou na cela.

Uma batida.

O coração de Aro pulsou.

E, no mesmo instante, ele arrancou de todas as mentes ao redor cada pensamento, cada lembrança e cada medo.