Acaso ou destino

23 Capítulo 22 — Ecos do vínculo


A madrugada começava a ceder quando Jacob atravessou a floresta carregando Sarah nos braços.

A batalha ficara para trás, mas ainda os acompanhava no cheiro de terra revolvida, nas roupas manchadas e no silêncio incomum dos lobos que seguiam o casal. Ninguém comemorava a derrota dos Volturi. A vitória tivera um preço alto demais, e a imagem de Sarah sem vida permanecia na memória de todos.

Ela mantinha a cabeça apoiada no peito de Jacob, ouvindo as batidas fortes e constantes do coração que a chamara de volta. A cada passo dele, a centelha em seu interior respondia. Não era apenas calor ou energia. Era uma presença viva, um fragmento do lobo que agora fazia parte dela.

Sarah fechou os olhos.

— Está sentindo alguma coisa? — Jacob perguntou imediatamente.

Ela tornou a abri-los.

— Como sabe que pensei em alguma coisa?

— Não sei. Apenas senti você se afastar.

— Estou em seus braços.

— Não desse jeito.

Jacob diminuiu os passos.

Seth e Leah seguiam logo atrás. Billy vinha mais distante, ajudado por Embry e Quil, enquanto Ateara caminhava ao lado dele. Sam conduzia o restante do grupo, atento à floresta, embora a ameaça imediata tivesse partido.

Sarah ergueu o rosto para Jacob.

— O que sentiu?

— Um vazio.

— Dor?

— Não. Foi como se você tivesse entrado em um lugar onde eu não podia acompanhar.

A resposta a inquietou.

— Eu só fechei os olhos.

— Sei disso.

— Talvez ainda esteja assustado.

— Estou.

Jacob não tentou negar.

— Quando seu coração parou, tudo dentro de mim ficou em silêncio. O lobo, a floresta, as pessoas... Não havia nada. Então você voltou e, desde aquele momento, consigo sentir quando sua atenção se distancia. Não escuto seus pensamentos, se é isso que está imaginando. Mas sinto o espaço que você ocupa dentro de mim.

Sarah tocou o peito dele.

O coração de Jacob acelerou sob sua mão.

— Eu também sinto você.

— Desde quando?

— Desde que acordei. Antes, sua centelha parecia uma força separada da minha, como uma chama protegida dentro de uma redoma. Agora não existe mais redoma.

Jacob parou.

Os outros perceberam e interromperam a caminhada.

— O que isso significa? — ele perguntou.

— Ainda não sei.

Leah se aproximou.

— Ela precisa descansar antes de descobrir todos os mistérios do universo.

— Concordo — Jacob respondeu.

Sarah lançou-lhe um olhar de advertência.

— Você não precisa concordar tão depressa.

— Morreu uma vez nesta noite. Isso me concede o direito de concordar com qualquer pessoa que mandar você descansar.

— Não existe esse direito.

— Acabei de criá-lo.

Seth tentou esconder um sorriso.

Sarah apontou para ele.

— Não o incentive.

— Eu não disse nada.

— Seu rosto disse.

— Vocês podem discutir depois que chegarmos em casa — Billy interveio. — De preferência quando nenhum dos dois estiver coberto de sangue.

A palavra casa atingiu Sarah de maneira inesperada.

Durante muitos anos, casa fora apenas o lugar onde permanecera com Sophia. Depois da morte da mãe, passara a representar corredores vazios, caixas fechadas e lembranças que doíam demais. Em La Push, porém, a palavra começara a ganhar outro significado.

Casa era onde Billy a esperava.

Onde Ateara guardava respostas que nem sempre queria oferecer.

Onde Leah fingia irritação para esconder o afeto.

Onde Seth falava demais para impedir que o silêncio se tornasse pesado.

E onde Jacob a carregava como se soltá-la fosse impossível.

Sarah passou os braços com mais firmeza ao redor do pescoço dele.

Jacob olhou para ela.

— O que foi?

— Nada.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Agora sei quando não está dizendo a verdade.

— Não estou mentindo.

— Então diga o que pensou.

Sarah olhou para as árvores.

— Pensei que estou indo para casa.

A expressão dele se suavizou.

— Está.

Dessa vez, ninguém fez qualquer comentário.

Jacob retomou a caminhada.

Carlisle não acompanhou o grupo além da divisa.

Antes de se separarem, examinara Sarah mais uma vez e fizera recomendações detalhadas. Embora seus sinais vitais estivessem normais, ninguém compreendia completamente o que seu corpo sofrera. Carlisle queria que ela permanecesse sob observação, mas respeitara a decisão de Billy e dos anciãos.

Edward, Bella e os demais Cullens aguardavam fora do território Quileute.

Edward não cruzara a fronteira nem durante a batalha. Permanecera no limite estabelecido pelo tratado, ao lado de Bella, recebendo as informações levadas por Carlisle e pelos aliados. Agora, observava Sarah nos braços de Jacob com uma expressão difícil de interpretar.

— Ele ainda não consegue ouvir você — Bella comentou, olhando para Sarah.

Edward desviou os olhos da floresta e encarou a esposa.

— Não.

— Nem Jacob?

— Antes eu conseguia ouvir os pensamentos dele. Agora não há nada.

Jacob parou alguns metros antes da linha que separava os territórios.

— Isso incomoda você? — perguntou.

Edward sustentou seu olhar.

— Incomodaria se eu acreditasse que tenho o direito de entrar na mente de todos.

— Uma resposta surpreendentemente sensata.

— Não transforme isso em elogio.

Bella aproximou-se da divisa, mas não a ultrapassou.

Seus olhos dourados percorreram Sarah, demorando-se nas marcas de sangue e no cansaço evidente de seu rosto.

— Quando Carlisle disse que você havia morrido...

Ela não terminou.

Sarah percebeu que havia sinceridade em sua voz. As diferenças entre elas continuavam existindo, assim como as lembranças de ciúme e desconfiança. Contudo, a batalha retirara algumas máscaras.

— Eu voltei — Sarah respondeu.

— Graças a Jacob.

— Graças ao que existe entre nós.

Bella assentiu lentamente.

— Alice não consegue ver o futuro de vocês.

— Nunca conseguiu por causa dos lobos — Jacob disse.

— É diferente agora — Bella explicou. — Antes, ela via espaços vazios sempre que as decisões de vocês interferiam no futuro. Agora é como se houvesse uma luz encobrindo tudo ao redor dos dois. Ela não consegue ver Sarah, você nem qualquer pessoa diretamente protegida pelo vínculo.

Edward olhou para Jacob.

— E eu não consigo ouvir ninguém enquanto está em contato com a energia de Sarah.

Sarah franziu a testa.

— Ninguém?

— Quando você voltou à vida, houve alguns segundos em que todas as mentes desapareceram. Não apenas a sua e a de Jacob. Carlisle, Bella, os Volturi, os lobos... todos ficaram em silêncio.

— Ela criou uma barreira — Bella concluiu.

— Não fui eu — Sarah disse. — Eu estava inconsciente.

Os olhares se voltaram para Jacob.

Ele apertou Sarah instintivamente contra o peito.

— Não olhem para mim. Eu só estava tentando trazê-la de volta.

— Talvez tenha feito mais do que isso — Carlisle ponderou. — A graça de Sarah estava dentro de você. Quando a devolveu, ela respondeu à sua vontade.

Jacob negou com a cabeça.

— Não tenho os poderes dela.

— Ainda não sabemos o que você tem — Sarah falou.

— Tenho você viva. É suficiente.

— Para você, talvez. Para mim, não. Se a minha força pode agir através de você, precisamos entender como funciona.

— Depois que descansar.

Sarah abriu a boca para discutir, mas a expressão de Jacob a fez desistir.

— Depois que eu descansar — concordou.

Carlisle entregou a Billy uma pequena bolsa com materiais médicos.

— Se houver qualquer alteração na respiração, no pulso ou na temperatura, mande alguém me chamar. Permanecerei perto da fronteira até o anoitecer.

Billy assentiu.

— Agradeço, Carlisle.

Sarah olhou para o médico.

— Você também precisa descansar.

— Não preciso dormir.

— Mas precisa assimilar o que aconteceu.

Carlisle sorriu discretamente.

— Isso pode levar algumas décadas.

Marcus e os Volturi já haviam partido, escoltando Aro, Caius e Selene para longe de Forks. Os Denali e os outros aliados permaneceriam na região até que houvesse confirmação de que nenhum guarda retornaria.

Antes de seguir para La Push, Sarah se despediu de Carlisle e Bella. Edward manteve-se um pouco afastado.

— Sarah — ele chamou quando Jacob se virou.

Ela olhou para trás.

— Aro não desistirá apenas porque perdeu o dom — Edward disse. — A mente dele continua sendo perigosa.

— Eu sei.

— Se houver uma maneira de recuperar o que você retirou, ele tentará encontrá-la.

Jacob respondeu por ela:

— Não chegará perto o bastante.

Edward não discutiu.

— Espero que esteja certo.

Sarah observou-o por mais alguns segundos.

— Aro passou séculos acreditando que conhecer os pensamentos dos outros o tornava invencível. Agora terá de enfrentar o próprio silêncio. Talvez descubra que nunca soube compreender ninguém.

— Ou talvez o silêncio o torne ainda mais desesperado — Edward advertiu.

— Nesse caso, estaremos preparados.

Jacob atravessou a floresta com Sarah, afastando-se da fronteira.

Edward permaneceu do lado oposto.

Ele não os seguiu.

A casa de Billy estava aquecida quando chegaram.

Emily e Sue haviam preparado o quarto e providenciado roupas limpas, água e comida. Sarah insistiu em tomar banho sozinha, mas Jacob permaneceu do lado de fora da porta, atento a cada ruído.

— Você continua aí? — ela perguntou através da madeira.

— Sim.

— Pretende ficar vigiando a porta?

— Pretendo.

— Jacob, estou tomando banho.

— Sei.

— Não vou desaparecer pelo ralo.

— Não estou disposto a correr o risco.

Sarah balançou a cabeça, embora sorrisse.

A água quente escorreu por seus cabelos, levando a sujeira e o sangue. Quando fechou os olhos, porém, viu novamente a floresta silenciosa onde encontrara os pais.

Sophia parecia saudável.

Benjamin estava em paz.

A lembrança não provocava apenas tristeza. Pela primeira vez, Sarah podia pensar neles sem imaginar dor, doença ou morte.

Ela levou a mão ao peito.

O coração batia regularmente.

Sob o ritmo natural havia outro, quase imperceptível.

Jacob.

Sarah abriu a porta alguns minutos depois. Vestia uma camisa larga que Sue deixara e uma calça confortável. Os cabelos molhados desciam pelas costas.

Jacob estava sentado no chão do corredor.

Levantou-se no mesmo instante.

— Demorou.

— Foram quinze minutos.

— Pareceram duas horas.

— Estou bem.

Ele estudou seu rosto.

— Está triste.

Sarah suspirou.

— Você realmente sente.

— Não exatamente. É como uma pressão no peito que não é minha.

Ela estendeu a mão.

— Venha comigo.

Jacob a acompanhou até o quarto. Sarah sentou-se na cama, e ele permaneceu diante dela.

— Eu vi meus pais quando meu coração parou.

Toda a tensão abandonou o rosto de Jacob.

Ele se sentou ao lado dela.

— Sophia e Benjamin?

— Estavam juntos em uma floresta. Minha mãe não estava doente. Meu pai parecia exatamente como eu imaginava que seria.

— Eles falaram com você?

— Disseram que eu deveria voltar.

Jacob olhou para as mãos.

— E você quis?

Sarah percebeu o medo escondido na pergunta.

— Uma parte de mim quis ficar com eles.

Ele assentiu, mas não a olhou.

— Entendo.

— Jacob.

— Você passou a vida sentindo falta deles. Não vou fingir que não entendo.

Sarah tocou o rosto dele, obrigando-o a encará-la.

— Eu quis ficar porque os amava. Voltei porque amo você e porque ainda tenho uma vida para viver. Uma coisa não diminui a outra.

— Se eles não tivessem mandado você voltar...

— Eu teria ouvido sua voz.

— Isso não responde.

— Responde, sim. Você estava me chamando. Mesmo naquele lugar, eu sentia o que estava fazendo. Seu coração parou porque tentou alcançar o meu.

A mandíbula de Jacob se contraiu.

— Faria novamente.

— Eu sei. É isso que me assusta.

— Não havia escolha.

— Sempre há uma escolha.

— Não para mim.

Sarah afastou a mão.

— Não diga isso.

— É a verdade.

— Não. É medo falando. Se acredita que sua vida deixa de ter valor quando a minha está em perigo, então nosso vínculo não é amor. É destruição.

Jacob levantou-se e caminhou até a janela.

— Você esperava que eu simplesmente aceitasse sua morte?

— Esperava que não se matasse para me acompanhar.

— Eu não planejei morrer.

— Seu coração parou.

— Porque o vínculo precisava sincronizar os dois.

— Você não sabia disso.

Jacob se virou.

— Também não sabia que conseguiria trazê-la de volta. Apenas sabia que uma parte de você continuava dentro de mim. O que queria que eu fizesse, Sarah? Que ficasse ajoelhado ao seu lado enquanto Carlisle desistia?

Ela permaneceu em silêncio.

Jacob aproximou-se novamente.

— Não estou dizendo que minha vida não vale nada. Estou dizendo que, naquele momento, a única chance de salvar você passava por mim. Eu aceitei o risco.

— Sem saber o preço.

— Você fez a mesma coisa durante a batalha.

A acusação a atingiu.

— Foi diferente.

— Não foi.

— Eu estava protegendo todos.

— E eu estava protegendo você.

— Jacob...

— Você usou sua força até o coração parar. E, mesmo quando poderia ter puxado minha centelha para se sustentar, decidiu preservá-la porque teve medo de me ferir. Fez essa escolha sozinha. Não me perguntou se eu preferia entregar parte da minha força para mantê-la viva.

Sarah desviou os olhos.

— Você sentiu isso?

— Senti quando tentei trazê-la de volta. Sua graça estava protegendo minha centelha como se fosse a última coisa importante dentro de você.

Ele se ajoelhou diante dela.

— Não pode pedir que eu valorize minha vida e, ao mesmo tempo, trate a sua como uma moeda que pode gastar por todos.

Sarah sentiu as lágrimas se acumularem.

— Se eu não tivesse usado o poder, Aro teria vencido.

— Talvez. Não estou dizendo que fez a escolha errada. Estou dizendo que não pode me condenar por ter feito a minha.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Sarah entrelaçou os dedos aos dele.

— Então precisamos estabelecer uma promessa.

— Qual?

— Nenhum de nós se sacrificará sem confiar no outro. Não tomaremos decisões como se estivéssemos sozinhos.

Jacob pensou antes de responder.

— Mesmo quando houver apenas alguns segundos?

— Principalmente quando houver apenas alguns segundos. Agora podemos nos sentir. Talvez possamos usar isso.

— E se não houver outro caminho?

Sarah apertou a mão dele.

— Então atravessaremos juntos. Mas não porque uma vida vale menos do que a outra.

Jacob levou os dedos dela aos lábios.

— Concordo.

— De verdade?

— De verdade.

— E vai parar de vigiar a porta do banheiro?

— Isso não fazia parte da promessa.

Sarah riu.

A tensão se desfez entre eles. Jacob se levantou e sentou-se ao seu lado. Ela apoiou a cabeça no ombro dele.

— Tente descansar — pediu.

— Só se você ficar.

— Não pretendia sair.

Jacob deitou-se ao lado dela. Sarah fechou os olhos e permitiu que o cansaço finalmente a alcançasse.

Dormiu ouvindo dois corações.

Pouco mais de duas horas depois, um grito veio da sala.

Jacob despertou imediatamente.

Sarah abriu os olhos no mesmo instante.

— Seth — disseram juntos.

Jacob saiu do quarto primeiro, mas Sarah o seguiu. Quando chegaram à sala, encontraram Seth sentado no chão, segurando o braço. Cacos de uma caneca estavam espalhados perto dele.

— O que aconteceu? — Sarah perguntou.

— Eu deixei cair e tentei pegar — Seth explicou.

Um corte profundo atravessava sua palma. O sangue escorria pelo pulso.

Sue segurava um pano, tentando estancar o sangramento.

— Vai precisar de pontos — Sarah avaliou.

— Carlisle deixou material — Billy lembrou.

Sarah aproximou-se, mas uma vertigem a obrigou a apoiar-se na parede.

Jacob segurou-a pela cintura.

— Você não vai fazer isso.

— Sou médica.

— E acabou de voltar da morte.

— O corte precisa ser fechado.

— Então explique e eu faço.

Seth arregalou os olhos.

— Prefiro que Sarah faça.

— Obrigado pela confiança — Jacob resmungou.

— Você é mecânico. Não quero que trate minha mão como uma peça de carro.

Sarah se sentou diante de Seth.

— Pressione o pano com firmeza.

Jacob ajoelhou-se ao lado deles.

— Deixe-me ver.

Seth estendeu a mão. Jacob retirou o tecido com cuidado.

No momento em que seus dedos tocaram a pele ferida, a marca sobre seu peito aqueceu.

Jacob ficou rígido.

— Sarah...

Ela sentiu a energia antes que ele terminasse de chamá-la.

Uma luz muito tênue percorreu as veias do braço de Jacob e concentrou-se na ponta de seus dedos. O sangue na mão de Seth parou de escorrer.

Todos ficaram imóveis.

A ferida começou a se fechar.

Não de maneira instantânea, como ocorria quando Sarah liberava toda a graça, mas lentamente. As bordas do corte se aproximaram até restar apenas uma linha avermelhada.

Jacob afastou a mão.

— Eu não fiz isso.

Seth examinou a própria palma.

— Fez, sim.

— Não sabia o que estava fazendo.

— Ainda assim fez — Sarah murmurou.

Ela segurou o pulso de Jacob. A energia nele era diferente da sua. A graça havia se misturado à natureza do lobo, tornando-se mais quente e instintiva.

Billy observava o filho com uma expressão grave.

— A força de Sarah criou raízes em você.

Jacob olhou para as próprias mãos.

— Consigo curar?

— Aparentemente — Sarah respondeu.

— Não quero seus poderes.

A declaração surpreendeu a todos.

— Jacob — Billy começou.

— Não quero tirar nada dela.

Sarah levantou-se.

— Você não tirou.

— Como sabe?

— Porque não me sinto mais fraca. Na verdade...

Ela examinou a própria energia.

O pequeno esforço realizado por Jacob parecera atravessar o vínculo e retornar até ela como uma onda suave. Em vez de diminuir sua graça, a cura havia fortalecido a conexão entre os dois.

— O poder se restaurou — disse.

Ateara apareceu na entrada da cozinha. O ancião provavelmente observara os últimos instantes em silêncio.

— Porque não é mais uma reserva que pode se esgotar separadamente — explicou. — Tornou-se um ciclo.

Sarah olhou para ele.

— Já ouviu falar disso antes?

— Não exatamente.

— Mas sabe alguma coisa.

Ateara suspirou.

— Sei o que as histórias dizem.

Jacob se levantou.

— Então conte tudo. Sem enigmas desta vez.

O ancião caminhou até a mesa e se sentou.

— As narrativas sobre a Filha da Lua foram transmitidas por gerações. Algumas partes eram contadas nas reuniões. Outras permaneceram apenas entre os guardiões, porque poderiam atrair exatamente o tipo de ameaça que enfrentamos esta noite.

— Aro já conhecia a profecia — Sarah observou.

— Conhecia fragmentos.

— E Selene?

— Também.

— Então esconder informações não nos protegeu — Jacob disse. — Quase fez com que entrássemos na batalha sem compreender o que poderia acontecer.

Ateara aceitou a crítica em silêncio.

Billy aproximou a cadeira.

— Ele tem razão.

O velho guardião contemplou Sarah e Jacob.

— A parte final da profecia não falava apenas da união entre a lua e o lobo. Falava do que surgiria depois.

Jacob ficou tenso.

— Depois?

Ateara recitou lentamente:

— “Quando a graça encontrar abrigo no coração da fera, e a fera oferecer sua força ao coração da graça, já não haverá dois fogos. A lua caminhará sob o sol, o lobo carregará a luz, e aquilo que nascer da escolha não se curvará à morte.”

O silêncio tomou a sala.

Seth foi o primeiro a falar:

— “Aquilo que nascer” significa um filho?

Sue lançou-lhe um olhar.

— Seth.

— Todos pensaram a mesma coisa.

Sarah sentiu o rosto aquecer. Jacob, porém, permaneceu sério.

— A profecia fala de uma criança?

— Talvez — Ateara respondeu. — Ou talvez fale do próprio vínculo. De uma nova força nascida da escolha de vocês.

— Você disse que a profecia foi interpretada de muitas maneiras — Sarah recordou. — Aro acreditava que eu criaria uma nova espécie.

— Aro via tudo através da ambição. Para ele, qualquer nascimento significava um exército, qualquer poder significava domínio.

Jacob cruzou os braços.

— E o que Selene acreditava?

A expressão de Ateara escureceu.

— Que a união de vocês poderia devolver aos seres sobrenaturais aquilo que perderam.

Sarah compreendeu antes dos outros.

— A alma.

— Ou a mortalidade — Ateara confirmou. — Talvez ambas.

Billy olhou para a mão curada de Seth.

— Jacob acabou de regenerar um ferimento.

— Isso é cura, não mortalidade — Sue ponderou.

— Em Sarah, a graça já fez o coração de Carlisle voltar a bater — Ateara lembrou. — Também retirou parte do veneno de Caius e o tornou vulnerável. Agora o poder passou para Jacob sem abandonar Sarah. A profecia pode estar se cumprindo de uma forma que ninguém previu.

Jacob voltou-se para ela.

— Nosso vínculo pode curar vampiros?

— Meu sangue já podia interferir no veneno — Sarah respondeu. — Mas devolver completamente a humanidade seria diferente.

— E perigoso — Billy advertiu. — Muitos desejariam essa possibilidade. Outros fariam qualquer coisa para destruí-la.

Sarah pensou em Aro.

Mesmo sem o dom, ele ainda possuía séculos de conhecimento, aliados escondidos e uma obsessão que não desapareceria com o julgamento.

— Foi por isso que Selene me caçou — disse. — Ela não queria apenas impedir a profecia. Queria controlar o que nasceria dela.

Ateara assentiu.

— E pode não ser a única.

Um movimento do lado de fora interrompeu a conversa.

Leah entrou rapidamente.

— Temos alguém na fronteira.

Jacob se colocou diante de Sarah.

— Volturi?

— Não. É Demetri.

— Ele voltou?

— Está sozinho e diz que precisa falar com Sarah e Jacob.

Billy franziu a testa.

— Se está na fronteira, permanecerá lá. Nenhum deles entra em La Push.

— Eu vou — Jacob decidiu.

— Nós iremos — Sarah corrigiu.

— Você deveria estar na cama.

— Demetri não teria abandonado o grupo de Marcus e voltado sozinho sem um motivo grave.

Jacob não gostou, mas sabia que ela tinha razão.

— Ficará ao meu lado.

— Essa já era a intenção.

Demetri aguardava do lado externo da divisa, parado entre as árvores.

Não havia sinal dos demais Volturi. Sam e parte da matilha mantinham-se no território Quileute, enquanto Carlisle, Bella e Edward se aproximavam pelo lado oposto.

Sarah e Jacob permaneceram dentro de La Push, separados de Demetri pela linha invisível do tratado.

— Por que voltou? — Jacob perguntou.

Demetri olhou para Sarah.

— Aro fugiu.

O corpo de Jacob se retesou.

— Como?

— Não sei. O transporte foi atacado antes de chegarmos à estrada principal. Houve uma explosão e quatro membros da guarda desapareceram com ele.

— Caius e Selene? — Sarah perguntou.

— Continuam sob custódia. Marcus enviou parte dos guardas para procurar Aro, mas acredita que o ataque foi planejado com antecedência.

Edward fitou Demetri.

— Ele está dizendo a verdade.

Sarah sentiu a própria energia reagir. A centelha de Jacob dentro dela tornou-se alerta, como um lobo erguendo a cabeça diante de um cheiro distante.

— Por que veio até nós em vez de ajudar na busca?

Demetri retirou um pequeno envelope do casaco.

— Porque encontraram isto dentro do veículo depois da fuga.

Ele colocou o envelope no chão e recuou. Jacob atravessou apenas o braço além da divisa para recolhê-lo, sem permitir que Demetri se aproximasse de Sarah.

No papel havia uma única palavra escrita:

Mitena.

Sarah sentiu o sangue gelar.

— Era o sobrenome da minha mãe.

— Havia algo dentro — Demetri explicou.

Jacob abriu o envelope. Dele caiu uma fotografia antiga.

Sarah a pegou.

A imagem mostrava Sophia ainda jovem diante de uma casa desconhecida. Ao seu lado estava Benjamin. Entre os dois havia uma mulher de cabelos claros, segurando um bebê.

No verso, uma frase fora escrita à mão:

A primeira sobreviveu. A segunda despertará.

— Quem são eles? — Jacob perguntou.

Sarah observou a mulher e a criança.

— Não sei.

Ateara, que acompanhara o grupo, aproximou-se. Quando viu a fotografia, toda a cor desapareceu de seu rosto.

— Você conhece essa mulher — Sarah percebeu.

O ancião não respondeu.

— Ateara — Jacob insistiu. — Quem é ela?

O velho ergueu os olhos para Sarah.

Havia medo em sua expressão. Não o receio cauteloso que demonstrara diante dos Volturi, mas um terror antigo, ligado a um segredo que acreditara enterrado.

— O nome dela era Helena Mitena.

Sarah apertou a fotografia.

— Era?

— Irmã mais velha de Sophia.

O mundo pareceu inclinar-se.

— Minha mãe nunca disse que tinha uma irmã.

— Porque acreditava que Helena estivesse morta.

Sarah olhou novamente para a criança na fotografia.

— E o bebê?

Ateara demorou a responder.

— Se a anotação de Aro for verdadeira, ela ainda está viva.

— Quem é ela?

O velho guardião fechou os olhos por um instante.

— Sua prima.

Jacob fitou Demetri.

— Aro foi atrás dela.

— É o que Marcus acredita — Demetri respondeu. — Antes de perder o dom, Aro guardava na memória tudo o que descobria. Mas também mantinha arquivos secretos que apenas ele conhecia. Pode ter preparado rotas, aliados e alvos para o caso de ser derrotado.

Sarah virou a fotografia.

“A segunda despertará.”

A mensagem não era apenas uma ameaça. Era uma promessa.

— Aro não está fugindo — ela concluiu. — Está procurando outra fonte de poder.

Edward permaneceu imóvel, tentando captar qualquer pensamento distante na floresta.

— Se essa mulher possuir a mesma linhagem de Sarah, ele pode tentar usar o sangue dela para recuperar o dom.

— Ou para criar algo que consiga enfrentar vocês — Bella acrescentou.

Jacob segurou a mão de Sarah.

A centelha entre os dois respondeu imediatamente, formando uma onda de calor que percorreu seus corpos.

Demetri recuou um passo.

— Há mais uma coisa. Antes de desaparecer, Aro deixou um dos guardas gravemente ferido. Ele transmitiu uma mensagem.

— Qual? — Sarah perguntou.

Demetri a encarou.

— Aro disse que você escolheu deixá-lo vivo. E que fará com que se arrependa dessa escolha.

Jacob soltou um rosnado baixo.

Sarah, porém, continuou olhando para a fotografia.

Durante toda a vida, acreditara que era a última descendente de sua linhagem. A última portadora de uma graça que muitos desejavam possuir ou destruir.

Agora havia outra mulher.

Outra herdeira.

Talvez alguém que tivesse passado a vida escondida, sem compreender a própria origem. Talvez alguém que, naquele exato momento, estivesse sendo caçada.

Sarah guardou a fotografia no envelope.

— Precisamos encontrá-la antes de Aro.

Jacob observou o cansaço em seu rosto.

— Nós a encontraremos. Mas não sairemos correndo sem saber para onde ir.

— Se ele chegar primeiro...

— Não chegará — Demetri interrompeu. — Marcus enviou rastreadores para todos os caminhos conhecidos. Eu também posso procurar Aro.

Jacob lhe lançou um olhar desconfiado.

— E por que deveríamos confiar em você?

Demetri não se ofendeu.

— Não deveriam. Ainda não. Passei séculos servindo aos Volturi e ajudei a localizar muitas pessoas que não mereciam ser encontradas. Mas, sem a influência de Chelsea, consigo enxergar o que fiz. Não espero perdão.

Ele olhou para Sarah.

— Apenas quero impedir Aro de usar meu dom para caçar mais alguém, mesmo que ele já não possa me ordenar.

Sarah sentiu a verdade em sua voz.

Não era um poder como o de Maggie. Era o vínculo reagindo às intenções ao redor, unindo a percepção humana de Sarah aos instintos do lobo de Jacob.

— Ele está falando a verdade — disse.

Edward a encarou.

— Você consegue saber?

— Nós conseguimos.

Jacob percebeu no mesmo instante. Ele também sentia a ausência de ameaça em Demetri, embora não soubesse explicar como.

— Isso é novo — murmurou.

Sarah assentiu.

A graça nela reconhecia a vida. O lobo nele reconhecia o perigo. Unidas, as duas forças enxergavam algo que nenhuma delas alcançaria separadamente.

Demetri inclinou a cabeça.

— Partirei antes do amanhecer. Se encontrar qualquer pista, falarei primeiro com Marcus e depois retornarei à fronteira.

— Não venha sozinho sem avisar novamente — Sam advertiu.

— Entendido.

Demetri desapareceu entre as árvores.

Carlisle permaneceu do outro lado da divisa.

— Vocês precisam de tempo para se recuperar antes de iniciar outra busca.

— Aro contará com isso — Sarah respondeu.

— Recuperar-se não significa permanecer indefesa. Enquanto descansa, podemos pesquisar Helena Mitena e a criança. Há arquivos humanos, registros de nascimento e fotografias.

— Alice poderá ajudar? — Jacob perguntou.

Bella negou.

— Se essa mulher carregar a mesma graça de Sarah, Alice talvez não consiga vê-la.

— E Edward não poderá ouvir sua mente — Sarah acrescentou.

Edward assentiu.

— Mas posso ouvir aqueles que se aproximarem dela. A menos que já esteja protegida.

Ateara continuava olhando para o envelope.

Sarah se voltou para ele.

— Você contará tudo o que sabe sobre Helena.

Não era uma pergunta.

— Contarei.

— Sem esconder partes da história.

— Sem esconder nada.

Jacob colocou-se ao lado de Sarah, o ombro encostado ao dela. Não precisava segurá-la para que a energia circulasse entre os dois, mas o contato transmitia uma certeza que nenhum poder poderia substituir.

Aro estava livre.

A ameaça continuava.

Contudo, Sarah não era mais a jovem que chegara a La Push carregando apenas uma caixa de lembranças e perguntas sem resposta. Também não era a mulher que enfrentara os Volturi acreditando precisar sustentar sozinha o peso de sua linhagem.

A força de Jacob vivia nela.

A graça dela vivia nele.

E, em algum lugar, outra descendente dos Mitena aguardava sem saber que a guerra já se movia em sua direção.

Sarah olhou para o céu.

O amanhecer tingia as nuvens de vermelho.

— Aro acredita que vai me fazer lamentar por tê-lo deixado vivo — disse.

Jacob acompanhou seu olhar.

— Vai descobrir que sobreviver a você não foi misericórdia.

Sarah apertou a mão dele.

— Não. Foi a oportunidade de escolher outro caminho.

— E se ele escolher a guerra?

A centelha dos dois pulsou em uníssono.

— Então não enfrentará apenas a Filha da Lua.

Jacob compreendeu.

A marca do lobo brilhou brevemente sob sua pele.

— Enfrentará nós dois.

Atrás deles, a floresta despertava.

Adiante, o mundo tornava a escurecer.

E, entre a luz e a sombra, a lua e o lobo preparavam-se para encontrar a herdeira perdida antes que Aro transformasse o último segredo dos Mitena em sua nova arma.