Acaso ou destino
22 Capítulo 21 — O retorno da luz
Por um instante terrível, ninguém se moveu.
A batalha havia cessado, mas não porque a paz tivesse sido alcançada. O silêncio nascera do horror.
Sarah permanecia imóvel nos braços de Jacob.
A luz que pouco antes atravessara a clareira, revelando os crimes escondidos de Aro e arrancando dele o dom que sustentara séculos de poder, desaparecera por completo. A lua continuava no céu, pálida entre as nuvens, mas já não parecia capaz de alcançá-la.
Jacob apertou o corpo de Sarah contra o peito.
— Sarah...
A voz dele saiu irreconhecível.
Não havia resposta.
Carlisle chegou até os dois em menos de um segundo e se ajoelhou. Os dedos frios tocaram o pescoço de Sarah, procurando um pulso que ele já temia não encontrar. Em seguida, aproximou o ouvido do peito dela.
Nada.
O olhar que dirigiu a Jacob confirmou o que ninguém queria aceitar.
— O coração dela parou.
Jacob balançou a cabeça.
— Não.
— Jacob...
— Não!
O grito atravessou a clareira.
Alguns lobos recuaram, atingidos pela dor dele como se fosse uma onda física. Billy fechou os olhos, segurando com força os braços da cadeira. Ateara permaneceu imóvel, mas o rosto envelheceu muitos anos naquele único instante.
Carlisle apoiou Sarah no chão com cuidado.
— Preciso tentar reanimá-la.
Jacob não soltou a mão dela.
— Faça.
Carlisle iniciou as compressões. Cada movimento parecia brutal contra o corpo imóvel, mas era necessário. Depois de alguns segundos, inclinou a cabeça de Sarah e tentou fazê-la respirar.
Nada mudou.
Jacob fitava o rosto dela. Havia sangue seco perto da têmpora, fios negros espalhados sobre a neve e uma serenidade impossível em suas feições. Ela parecia apenas adormecida, mas a ausência completa de sua presença feria mais do que qualquer imagem de morte.
Dentro dele, o lobo se debatia.
Não era a fúria comum da transformação. Era algo mais profundo, mais antigo, uma força que se recusava a compreender um mundo no qual Sarah não existisse.
— Volte — ele pediu. — Você disse que ficaria.
Carlisle continuou tentando.
Uma vez.
Duas.
Três.
Nenhuma reação.
Ao redor deles, vampiros e lobos permaneciam imóveis. Nem mesmo Aro tentou fugir. Privado de seu dom, ele observava a cena com uma expressão estranha, dividido entre o medo e um fascínio cruel.
Caius, ainda enfraquecido pela perda parcial do veneno, estava caído na neve sob a vigilância de Leah. Selene permanecia cercada pelos Denali, incapaz de recorrer ao poder que Sarah lhe arrancara.
Marcus foi o primeiro a desviar os olhos de Sarah.
Ele se voltou para os guardas Volturi.
— Ninguém se move.
Sua voz não foi alta, mas atravessou a clareira com o peso de muitos séculos.
Jane olhou para Aro, esperando uma ordem. Alec fez o mesmo. Contudo, pela primeira vez, a obediência dos dois pareceu hesitante.
Aro abriu a boca.
— Matem os lobos. Capturem a garota antes que...
— Ela está morta! — Jacob rugiu.
O tremor que sacudiu seu corpo fez a terra estremecer sob seus joelhos.
Aro calou-se.
Jacob voltou-se para Sarah, recusando-se a olhar para qualquer outra pessoa.
Carlisle interrompeu as compressões por alguns segundos e procurou novamente o pulso.
Seu silêncio foi uma resposta.
— Continue — Jacob ordenou.
— Jacob, já faz tempo demais.
— Continue!
Carlisle fitou o rosto dele. Em mais de trezentos anos de existência, presenciara mortes demais. Conhecia o limite entre insistência e desespero. No entanto, também conhecia Sarah.
Ela já havia atravessado aquele limite por outras pessoas.
Carlisle retomou as compressões.
Jacob abaixou a cabeça, encostando a testa na mão de Sarah.
Foi então que sentiu.
Muito fraca, escondida sob o desespero e a dor, havia uma pulsação que não vinha do corpo dela.
Vinha do seu.
Jacob ficou imóvel.
O próprio coração batia depressa, golpeando as costelas. Entretanto, entre uma batida e outra, existia algo diferente. Um calor que não lhe pertencia por completo. Uma presença luminosa, delicada e firme, repousava dentro dele.
A centelha de Sarah.
Ela ainda estava ali.
O vínculo consolidado entre eles não desaparecera quando o coração dela parou. A graça que Sarah depositara nele continuava viva, protegida pela força do lobo. E, dentro do corpo imóvel de Sarah, a centelha de Jacob também permanecia.
As duas partes ainda se procuravam.
— Carlisle, pare.
Carlisle interrompeu as compressões.
— Jacob...
— Ela está em mim.
Carlisle franziu a testa.
— O quê?
Jacob levou uma das mãos ao próprio peito.
— A força dela. A luz. Ela ainda está aqui.
Ateara deu um passo à frente.
— A centelha compartilhada.
Jacob ergueu os olhos para ele.
O ancião observava os dois com uma compreensão assustada.
— A união não apenas misturou as forças — Ateara explicou. — Criou um caminho entre elas. Sarah protegeu parte da essência dela dentro de você, e recebeu a sua em troca.
Jacob tornou a olhar para Sarah.
— Então eu posso devolver.
— Talvez — Ateara respondeu. — Mas não tente arrancar a força de dentro de você. Ela não responde à violência.
— O que devo fazer?
O ancião se aproximou e se ajoelhou do outro lado de Sarah.
— A mesma coisa que ela fez quando o escolheu. Abra o caminho.
Jacob passou um braço sob os ombros de Sarah e a trouxe novamente contra o peito. Depois, colocou a mão dela sobre o próprio coração.
A pele de Sarah estava fria.
— Você me ouviu quando eu não conseguia dizer nada — ele murmurou. — Então me escute agora.
A clareira desapareceu para Jacob.
Não havia mais Volturi, lobos, testemunhas ou ameaça. Existia somente Sarah.
— Eu sei que você está aí. Sei que tentou me proteger até de você mesma. Guardou minha centelha em vez de usá-la para sobreviver porque teve medo de me ferir.
Os dedos dele fecharam-se ao redor da mão dela.
— Mas você não precisa escolher entre nós dois. Nunca precisou. Isto não pertence apenas a você ou a mim. É nosso.
O primeiro sinal surgiu no peito de Jacob.
Sob a pele, exatamente sobre o coração, uma luz prateada começou a se formar. Os traços lembravam a marca de Sarah: a lua crescente envolvendo a silhueta de um lobo.
Bella levou uma das mãos à boca.
Carlisle aproximou-se, mas não interferiu.
A luz cresceu lentamente, espalhando-se pelo braço de Jacob até alcançar os dedos entrelaçados aos de Sarah. No momento em que tocou a pele dela, a marca em seu pulso respondeu.
Muito fraca.
Quase invisível.
Mas respondeu.
Jacob respirou fundo.
— Volte para mim, Sarah.
Seu coração deu uma batida forte.
Depois outra.
Na terceira, a luz atravessou as mãos unidas e entrou no corpo dela.
Jacob arqueou-se, sentindo o ar abandonar seus pulmões. O próprio pulso começou a desacelerar.
— Jacob! — Billy chamou.
Carlisle percebeu imediatamente.
— O ritmo cardíaco dele está caindo.
Ateara ergueu a mão, impedindo-o de intervir.
— Espere.
— Ele pode morrer.
— Se interrompermos agora, podemos perder os dois.
Jacob quase não ouviu a conversa. A dor em seu peito era intensa, como se o coração estivesse sendo puxado para fora. Ainda assim, ele não soltou Sarah.
— Pegue o que precisar — sussurrou. — Mas volte.
A luz envolveu os dois.
A respiração de Jacob falhou.
Seu coração diminuiu para uma batida lenta, pesada, separada da seguinte por um intervalo assustador.
Então também parou.
Billy soltou um som sufocado.
Carlisle avançou, mas uma onda invisível o obrigou a recuar. Não era uma barreira agressiva. Era o próprio vínculo se fechando ao redor de Jacob e Sarah, protegendo o que acontecia entre eles.
Por um breve instante, nenhum dos dois teve pulso.
Ainda assim, no centro daquela luz, uma única batida ecoou.
Não no peito de Jacob.
Nem no de Sarah.
Entre eles.
Sarah despertou em uma floresta que não conhecia.
Não havia neve no chão. A terra estava coberta por folhas úmidas, e o ar trazia o cheiro de chuva, madeira e flores silvestres. Acima das árvores, uma lua enorme iluminava o caminho.
Sarah caminhou sem sentir dor.
Suas roupas estavam limpas. Não havia sangue em suas mãos. O peso que carregara durante tantos anos havia desaparecido.
Por alguns segundos, ela pensou que estivesse sonhando.
Então viu a mulher junto ao rio.
Sophia estava de costas, observando a água. Os cabelos negros desciam até a cintura e se moviam com o vento. Quando se virou, seu rosto não carregava os sinais da doença.
Era a mãe de quem Sarah se lembrava antes da dor.
— Mamãe...
Sophia sorriu.
Sarah correu para ela.
O abraço era quente. Real. Tão real que Sarah fechou os olhos e se agarrou à mãe como a criança que um dia fora.
— Senti tanto a sua falta.
— Eu sei, minha menina.
— Eu tentei fazer tudo certo.
— E fez mais do que qualquer pessoa poderia exigir de você.
Sarah abriu os olhos.
Um homem estava parado a poucos passos.
Ela nunca o vira daquela maneira, mas o reconheceu imediatamente. Não pelas fotografias que Ateara lhe mostrara, nem pelos traços que encontrava no próprio rosto. Reconheceu-o porque alguma parte de seu coração sempre soubera quem ele era.
Benjamin.
O pai aproximou-se devagar.
Havia tristeza em seus olhos, mas também orgulho.
— Sarah.
Ela o abraçou antes que ele pudesse dizer outra coisa.
Benjamin envolveu a filha nos braços, e durante alguns instantes os três permaneceram juntos à margem do rio, unidos no lugar em que o tempo parecia não existir.
— Foi Aro quem mandou Andreas atrás de você — Sarah disse, olhando para o pai. — Eu vi.
— Eu sei.
— Ele tirou você de nós.
— Tirou minha vida. Não tirou aquilo que construímos.
Sarah baixou os olhos.
— Eu não consegui salvar todo mundo.
Sophia tocou o rosto da filha.
— Você nunca foi enviada ao mundo para impedir toda perda.
— Então por que recebi esse poder?
— Para escolher o que fazer com ele — Benjamin respondeu. — Essa sempre foi a parte que Aro não conseguiu compreender.
Sarah olhou para a floresta.
— Estou morta?
Nenhum deles respondeu imediatamente.
Ao longe, ouviu um som abafado.
Uma voz.
Volte para mim, Sarah.
Ela virou a cabeça.
O vento atravessou as árvores, trazendo a voz de Jacob novamente.
— Ele está me chamando.
Sophia sorriu.
— Desde o instante em que você chegou.
Sarah levou a mão ao peito.
— Eu não sinto meu coração.
— Porque ele está segurando-o por você — Benjamin disse.
A luz da lua pareceu pulsar.
Sarah olhou para os pais e compreendeu.
A dor atravessou seu rosto.
— Se eu for, vou perder vocês outra vez.
Sophia segurou as mãos dela.
— Não, meu amor. Você nos perderia se ficasse.
Sarah tentou conter as lágrimas.
— Não quero deixá-los.
— Nós não estamos presos a este lugar — a mãe explicou. — Vivemos em tudo o que você se tornou. No amor que ofereceu mesmo depois de conhecer a crueldade. Na coragem de não se transformar naquilo que a perseguiu.
Benjamin aproximou-se.
— E ainda há uma vida esperando por você.
A voz de Jacob voltou a atravessar a floresta.
Pegue o que precisar. Mas volte.
Sarah sentiu o desespero dele como se fosse seu.
E, por baixo dele, algo ainda mais forte.
Amor.
Não a imposição de um vínculo. Não uma profecia. Não uma obrigação moldada pela magia.
Uma escolha.
A escolha de Jacob.
A escolha dela.
— Ele está entregando a centelha — Sarah percebeu.
— Não — Sophia corrigiu com suavidade. — Ele está lembrando a você que ela nunca deixou de ser sua. Assim como a dele continua dentro de você.
Sarah fechou os olhos.
O coração de Jacob apareceu na escuridão como uma fogueira. Ao redor dele, a graça dela permanecia viva, protegida pelo lobo. Dentro de si, Sarah encontrou a centelha dele, fraca, mas resistente.
As duas forças estenderam-se uma para a outra.
— E se eu não for forte o suficiente?
Benjamin sorriu.
— Então não seja forte sozinha.
O rio começou a brilhar.
Sarah abraçou os pais uma última vez.
— Eu amo vocês.
— Nós sabemos — Sophia respondeu.
Benjamin beijou a testa da filha.
— Viva, Sarah. Essa será a nossa vitória.
Ela se afastou com lágrimas nos olhos.
Do outro lado da floresta, uma luz prateada abriu-se entre as árvores. Sarah caminhou em sua direção. Depois correu.
A voz de Jacob tornou-se mais clara a cada passo.
— Volte.
Sarah atravessou a luz.
O coração de Sarah bateu.
Uma única vez.
Carlisle levantou a cabeça.
— Esperem.
O peito dela se ergueu em uma inspiração brusca. O ar entrou em seus pulmões como se fosse o primeiro que já recebera.
No mesmo instante, o coração de Jacob voltou a bater.
Os dois despertaram juntos.
Sarah abriu os olhos e encontrou o rosto dele acima do seu.
— Jacob...
Ele soltou uma respiração que se partiu entre riso e choro.
— Você voltou.
Sarah ergueu a mão trêmula e tocou o rosto dele.
— Você veio me buscar.
Jacob encostou a testa na dela.
— Eu iria a qualquer lugar.
Ele a abraçou com cuidado, enterrando o rosto em seus cabelos. Sarah sentiu os ombros dele estremecerem.
— Pensei que tivesse perdido você — ele confessou.
— Não perdeu.
— Seu coração parou.
— O seu também.
Jacob afastou-se apenas o necessário para olhá-la.
— Como sabe?
Um sorriso fraco surgiu nos lábios dela.
— Eu estava nele.
Carlisle aproximou-se e tocou o pulso de Sarah. Seu rosto, normalmente controlado, revelou um alívio profundo.
— O ritmo está estabilizando.
Ele passou a mão sobre o peito dela, escutando com atenção.
— Forte e regular.
— E Jacob? — Sarah perguntou imediatamente.
Carlisle examinou-o também.
— Igualmente estável.
Jacob não desviava os olhos dela.
— Você está sentindo dor?
Sarah fechou os olhos por um instante. A exaustão ainda percorria seu corpo, mas não havia o vazio que a consumira antes. A centelha de Jacob queimava dentro dela, quente e constante. Não dependia do toque dele. Não diminuía com a distância de poucos passos quando Carlisle pediu espaço para examiná-la.
Ela se restaurava sozinha.
Ou, mais precisamente, já não estava inteiramente sozinha.
— Estou voltando — respondeu.
A marca em seu pulso brilhou. No peito de Jacob, o mesmo símbolo permaneceu desenhado em prata por alguns segundos antes de desaparecer sob a pele.
Sarah passou os dedos sobre o local.
— Ela ficou.
— O quê?
— Minha graça dentro de você. Pensei que tivesse sido consumida quando me trouxe de volta, mas continua aí.
Jacob colocou a mão sobre o coração dela.
— E eu continuo aqui.
— Sim.
Os olhos dos dois se encontraram.
— Agora sabemos — Sarah murmurou. — Nem mesmo a morte conseguiu romper o caminho.
Antes que Jacob pudesse responder, a voz de Aro cortou o momento.
— Comovente.
Jacob virou-se imediatamente, colocando-se entre ele e Sarah.
Aro permanecia cercado, mas a postura arrogante retornara. Sem o poder de tocar alguém e conhecer cada pensamento, parecia menor. Não menos perigoso, porém mais exposto.
— A anomalia sobreviveu — continuou. — Isso apenas comprova tudo o que eu disse. Enquanto ela existir, nenhum de nós estará seguro.
Sarah tentou se levantar.
Jacob apoiou-a.
— Vá devagar.
— Estou bem.
— Você morreu há poucos minutos.
— E voltei.
— Isso não torna a frase menos preocupante.
Apesar de tudo, Sarah sorriu. Depois se colocou de pé ao lado dele.
Não atrás.
Ao lado.
Marcus avançou para o centro da clareira.
— Aro perdeu o direito de pronunciar qualquer julgamento.
— Você não tem autoridade para decidir isso — Caius rosnou.
Leah pressionou uma das patas contra o peito dele. Caius soltou um grunhido de dor.
— Cuidado com as palavras — Sam advertiu. — Seu corpo já não é tão resistente quanto antes.
Caius encarou Sarah com ódio.
— Restaure-me.
— Não.
— Você desfez o veneno em minhas veias. Reverta.
— Eu poderia — Sarah respondeu. — Mas não o farei.
— Então está me condenando à morte.
— Não. Estou impedindo que continue usando sua força para matar. O que acontecerá com você será decidido em um julgamento verdadeiro.
Aro soltou uma risada baixa.
— Julgamento? Diante de quem? De lobos? De testemunhas humanas? De clãs que quebraram nossas leis?
Maggie deu um passo à frente.
— Diante daqueles que ouviram suas mentiras e viram suas memórias.
— Memórias projetadas por ela — Aro rebateu. — Uma fabricação.
Maggie sustentou o olhar dele.
— Isso é mentira.
Um murmúrio percorreu os guardas Volturi.
Aro voltou-se para Marcus.
— Irmão, você sabe o que deve fazer. Ordene que ataquem antes que essa rebelião se espalhe.
Marcus o observou em silêncio.
Por séculos, aquele olhar estivera vazio. Agora, porém, havia dor e lucidez.
— Não sou seu irmão.
A expressão de Aro endureceu.
— Marcus...
— Meu irmão não teria assassinado Didyme. Não teria usado Chelsea para me prender ao lado dele. Não teria transformado meu luto em uma corrente.
Chelsea abaixou a cabeça.
Marcus voltou-se para ela.
— Diga a verdade. A ligação que criou em mim foi uma ordem de Aro?
Chelsea hesitou.
Aro lançou-lhe um olhar cortante.
— Não responda.
Sarah sentiu a energia ao redor da vampira. O poder de Chelsea ainda existia, mas as amarras que ela criara durante séculos estavam quebradas. Pela primeira vez, a decisão lhe pertencia.
— Foi — Chelsea admitiu.
Aro recuou um passo.
— Traidora.
— O senhor me ordenou que reforçasse a lealdade de Marcus depois da morte de Didyme — ela continuou. — E que alterasse os vínculos da guarda sempre que alguém demonstrasse dúvidas.
Jane fitou Chelsea.
— Os nossos também?
Chelsea não respondeu.
Não precisava.
Alec segurou o braço da irmã.
A dor no rosto de Jane surgiu rapidamente, antes que sua expressão se fechasse outra vez.
Marcus se dirigiu aos guardas.
— A influência de Chelsea foi desfeita. Portanto, escolham por vontade própria. Podem continuar servindo a um líder que os manipulou, assassinou a própria irmã e matou humanos e imortais para preservar o poder. Ou podem baixar as armas.
Demetri olhou para Aro.
Sem a ligação artificial e sem a certeza de uma autoridade absoluta, sua postura mudou. Foi o primeiro a se afastar.
Felix o acompanhou.
Depois vieram Santiago e vários outros.
Jane permaneceu imóvel.
Aro estendeu a mão para ela.
— Jane. Minha querida. Você sabe quem a salvou.
Sarah sentiu o medo escondido sob a raiva da jovem vampira. Viu a lembrança de fogo humano, perseguição e sofrimento. Aro havia aparecido como um salvador e transformado a gratidão de Jane em dependência.
— Ele não a salvou para que você fosse livre — Sarah disse. — Salvou-a porque queria o seu poder.
Jane lançou-lhe um olhar hostil.
— Não finja que me conhece.
— Não conheço. Mas conheço a diferença entre amor e posse.
Jacob segurou a mão de Sarah.
Jane acompanhou o gesto.
Por um instante, a raiva em seu rosto cedeu lugar à incerteza.
Alec puxou-a para trás.
— Basta — ele disse.
Jane olhou para o irmão.
— Alec...
— Não vou atacar por ele.
A decisão dele rompeu o que restava da guarda.
Jane não abaixou a cabeça, mas se afastou de Aro.
A expressão do antigo líder tornou-se feroz.
— Vocês não existiriam sem mim.
— Talvez seja esse o problema — Marcus respondeu. — Você passou séculos convencendo todos de que a existência deles dependia de sua aprovação.
Ele se aproximou de Aro.
— Está acabado.
Aro olhou ao redor, procurando algum vestígio de lealdade. Encontrou apenas rostos que finalmente podiam encará-lo sem que ele soubesse seus pensamentos.
Seu maior medo não era a morte.
Era o silêncio dentro das outras pessoas.
— O que pretende fazer comigo? — perguntou.
— Levá-lo de volta a Volterra — Marcus respondeu. — Você, Caius, Selene e todos os que participaram conscientemente de seus crimes serão julgados diante dos clãs reunidos.
Caius riu com desprezo.
— Os Volturi não são julgados. Nós somos a lei.
— Não mais — Carlisle declarou.
Marcus assentiu.
— A guarda permanecerá apenas para proteger o segredo de nossa existência até que novas regras sejam definidas. Nenhum clã voltará a concentrar sozinho o poder de acusar, julgar e executar.
— E você acredita que os outros aceitarão isso? — Aro perguntou.
— Eles aceitarão a oportunidade de falar sem temer que você destrua suas famílias e roube seus dons.
Aro voltou os olhos para Sarah.
— Tudo isso por sua causa.
Jacob rosnou.
Sarah, porém, soltou a mão dele e deu um passo à frente.
Ainda estava fraca, mas sua presença percorreu a clareira. Não como uma explosão de poder. Como uma luz firme, impossível de ignorar.
— Não — ela disse. — Tudo isso aconteceu por causa das escolhas que você fez.
— Você poderia ter me matado.
— Poderia.
— E não teve coragem.
— Tive.
Aro pareceu surpreso.
Sarah sustentou o olhar dele.
— Foi por ter coragem que escolhi deixá-lo vivo. A morte seria rápida. Agora terá de ouvir cada pessoa que feriu. Terá de viver sem invadir pensamentos, sem controlar vínculos e sem se esconder atrás do poder que roubou dos outros.
— Pensa que isso é misericórdia?
— Não. Penso que é justiça.
Aro avançou de repente.
O movimento foi rápido, mas Jacob já estava entre os dois. Antes que Aro pudesse tocar Sarah, Jacob o segurou pelo pescoço e o ergueu do chão.
Os guardas se tensionaram.
— Jacob — Sarah chamou.
Ele não desviou os olhos de Aro.
— Dê-me um motivo.
Aro tentou libertar-se, mas Jacob o mantinha imóvel. A graça de Sarah dentro dele formou uma barreira luminosa sobre sua pele, queimando as mãos do vampiro.
— Jacob — ela repetiu, aproximando-se.
Ele olhou para ela.
Sarah tocou seu braço.
— Ele será julgado.
— Ele tentou atacar você.
— E falhou.
— Pode tentar de novo.
— Então falhará de novo.
Jacob respirou fundo. Depois soltou Aro, lançando-o aos pés de Marcus.
— Se chegar perto dela outra vez, não haverá julgamento.
Marcus não repreendeu a ameaça.
Dois antigos membros da guarda seguraram Aro pelos braços. Outros foram buscar Caius e Selene.
Caius resistiu, mas sua força já não era suficiente.
— Isto não acabou! — gritou enquanto era erguido. — Ela é uma ameaça! Os humanos descobrirão! Os clãs irão caçá-la!
Sarah observou-o com serenidade.
— Talvez alguns tentem.
Jacob voltou para o lado dela.
Os lobos fecharam a formação atrás dos dois. Os Cullens e seus aliados fizeram o mesmo.
— Mas ela não estará sozinha — Jacob completou.
Caius foi levado em silêncio.
Marcus se aproximou de Sarah.
— Eu lhe devo mais do que posso reparar.
— Não me deve obediência.
— Não foi isso que quis dizer.
— Eu sei. Mas alguém precisa dizer antes que um novo ciclo comece. Não aceite o lugar de Aro para se tornar outro Aro.
Marcus inclinou levemente a cabeça.
— Assumirei a responsabilidade apenas pelo tempo necessário para realizar o julgamento e dissolver a antiga estrutura.
— E depois?
— Depois, cada clã terá voz. Inclusive aqueles que sempre foram tratados como inimigos.
Seu olhar passou pelos lobos.
Sam permaneceu sério.
— Os Quileute não se submeterão às leis de vampiros.
— Nem devem — Marcus respondeu. — Mas acordos podem ser feitos entre iguais.
Billy aproximou a cadeira alguns metros.
— Isso será discutido quando nossas terras estiverem livres de invasores.
Marcus assentiu.
— Partiremos antes do amanhecer.
Ele voltou-se para Sarah.
— Seu testemunho será necessário quando o julgamento começar. Mas não exigirei que vá a Volterra.
Jacob respondeu antes dela:
— Ela não vai.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
— Jacob.
— Você morreu hoje. Tenho direito a pelo menos uma objeção precipitada.
Apesar da exaustão, ela riu.
O som pareceu devolver calor à clareira.
— Meu depoimento poderá ser entregue por escrito — Sarah disse a Marcus. — Thomas também não será exposto novamente.
— Será suficiente, desde que Maggie confirme a veracidade.
Maggie assentiu.
— Confirmarei.
Carlisle aproximou-se.
— E eu apresentarei os registros médicos e tudo o que testemunhei.
Marcus olhou para ele.
— Durante muito tempo, considerei sua família ingênua por acreditar na possibilidade de viver sem matar humanos.
— E agora?
— Agora penso que talvez tenhamos usado a palavra impossível quando queríamos dizer inconveniente.
Carlisle ofereceu um sorriso discreto.
— É um começo.
Os Volturi começaram a deixar a clareira sob a vigilância dos próprios antigos guardas. Não marchavam mais como um exército perfeito. Pela primeira vez, pareciam indivíduos.
Aro foi o último a partir.
Antes de desaparecer entre as árvores, olhou para Sarah.
Não havia curiosidade em seu rosto.
Somente medo.
Sarah percebeu então que Aro nunca temera seu poder de matar. Temera aquilo que ela acabara de fazer.
Ela o obrigara a permanecer vivo sem poder controlar ninguém.
Quando a ameaça finalmente desapareceu, a tensão abandonou o corpo de Sarah.
Se Jacob não estivesse ao lado dela, teria caído.
Ele a segurou imediatamente.
— Chega.
— Eu consigo andar.
— Não disse que não consegue.
— Então por que está me carregando?
Jacob a ergueu nos braços.
— Porque eu consigo.
Sarah passou os braços ao redor do pescoço dele.
— Esse argumento é terrível.
— E mesmo assim está funcionando.
Carlisle observou os dois.
— Ela precisa descansar e ser examinada.
Jacob lançou-lhe um olhar desconfiado.
— Sem hospital.
— Concordo. Podemos cuidar dela na casa de Billy.
— Eu também posso opinar — Sarah lembrou.
Os dois olharam para ela.
— Casa de Billy — decidiu.
— Está vendo? — Jacob disse. — Concordamos.
— Depois de falarem como se eu não estivesse aqui.
Ele baixou os olhos para ela. A leveza desapareceu de sua expressão.
— Durante alguns minutos, você não estava.
Sarah tocou o rosto dele.
— Mas estou agora.
Jacob fechou os olhos contra a mão dela.
Ao redor, os lobos retomavam a forma humana e os aliados começavam a se reunir. A neve estava marcada pela batalha, mas a floresta permanecia de pé.
Billy esperou até que Jacob se aproximasse.
— Filho.
Jacob ajoelhou-se ainda segurando Sarah, permitindo que o pai tocasse o ombro dela.
Billy estudou seu rosto.
— Você nos assustou.
— Sinto muito.
— Não peça desculpas por voltar.
Ateara parou diante dela. Os olhos do ancião estavam úmidos.
— Sophia dizia que você encontraria o caminho mesmo na noite mais escura.
Sarah engoliu em seco.
— Eu a vi.
Ateara ficou imóvel.
— Sophia?
— E Benjamin.
Por um momento, toda a firmeza do velho desapareceu.
— Eles estavam juntos?
— Sim.
Ateara fechou os olhos, recebendo a resposta como quem esperara uma vida inteira por ela.
— Então meu irmão encontrou paz.
— Ele mandou que eu vivesse.
Ateara sorriu.
— Sempre foi teimoso.
— Parece ser uma característica da família — Jacob comentou.
Sarah tocou o peito dele com um dedo.
— Você não está em posição de falar sobre teimosia.
— Eu trouxe você de volta.
— Depois de deixar seu próprio coração parar.
— Funcionou.
— Poderia ter morrido.
— Você morreu.
Sarah abriu a boca, mas não encontrou resposta.
Jacob arqueou uma sobrancelha.
— Finalmente ganhei uma discussão.
— Não se acostume.
Ele sorriu e beijou sua testa.
Enquanto a levava em direção à casa, Sarah sentiu uma mudança dentro de si.
Antes, a centelha de Jacob era uma presença quente alojada em seu coração. Agora estava entrelaçada à sua própria graça. Não havia fronteira clara entre as duas energias. A força do lobo circulava com seu sangue, enquanto a luz da lua se movia dentro de Jacob a cada batimento.
Não precisavam estar tocando-se para restaurar um ao outro.
O caminho permanecia aberto.
Sarah apoiou a cabeça no peito dele.
O coração de Jacob batia forte.
Sob aquele som, ela percebeu um segundo ritmo, mais delicado. O eco de seu próprio coração respondendo dentro dele.
Jacob olhou para baixo.
— O que foi?
— Está ouvindo?
Ele ficou em silêncio.
Depois sorriu.
— Dois corações.
Sarah assentiu.
— Mesmo quando estamos separados.
— Então você nunca mais vai conseguir fugir de mim.
— Não pretendo fugir.
Jacob parou de andar.
O mundo continuou ao redor deles, mas ambos permaneceram imóveis sob as árvores. A primeira luz do amanhecer surgia no horizonte.
— Diga de novo — ele pediu.
Sarah ergueu a cabeça.
— Não pretendo fugir.
— Não essa parte.
Ela compreendeu.
O sorriso desapareceu, substituído por uma ternura profunda.
— Eu escolho você, Jacob Black. Sem profecia. Sem dívida. Sem medo. Escolho você porque o amo.
Ele a apertou contra o peito.
— Eu amo você, Sarah.
Jacob a beijou.
Não havia desespero naquele beijo, embora a lembrança da perda ainda estivesse próxima. Havia gratidão, promessa e a certeza silenciosa de que ambos haviam recebido uma nova vida.
Quando se afastaram, a lua começava a desaparecer diante da claridade do dia.
Sarah olhou para ela uma última vez.
Durante toda a vida, acreditara que carregava a lua dentro de si como uma responsabilidade. Uma herança de solidão, perseguição e sacrifício.
Agora entendia que a lua nunca brilhava sozinha.
Sua luz existia porque outra força a alcançava mesmo através da escuridão.
Sarah encostou a mão no peito de Jacob.
Ele fez o mesmo sobre o coração dela.
Uma luz prateada surgiu sob os dedos dos dois e desapareceu lentamente, absorvida pela pele.
Ao longe, os lobos uivaram.
Dessa vez, não era um lamento.
Era o anúncio de que a noite terminara.
E de que os dois corações que haviam parado juntos voltavam a caminhar para o futuro, carregando, cada um, a centelha do outro.
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