Acaso ou destino

26 CAPÍTULO 26- O último pensamento



A primeira coisa que Aro viu foi a morte de Sarah.

Não como um relato ou uma imagem distante, mas como Jacob a havia vivido: o coração dela parando, o desespero rasgando o vínculo entre os dois e a força do lobo recusando-se a aceitar o vazio. Em seguida, viu a centelha atravessar Sarah, o beijo que restaurara sua força e a entrega que consolidara o elo.

Viu Maya. Viu Helena. Viu os planos traçados em La Push e a entrada secreta sob as pedras.

Durante um único instante, todos os pensamentos lhe pertenceram.

Edward levou as mãos à cabeça e caiu de joelhos. Demetri cambaleou na passagem. Maya apertou Helena contra o peito enquanto imagens que não eram suas atravessavam sua mente.

Jacob ficou imóvel.

Aro o aprisionara na pior lembrança.

Outra vez, Sarah estava sem vida em seus braços. Outra vez, o mundo terminava sob seus dedos. A cela, Volterra e o inimigo desapareceram. Restou apenas o corpo dela, frio e silencioso.

— Jacob! — Sarah gritou.

Ele não reagiu.

Aro voltou os olhos para ela. Seu coração continuava batendo de forma irregular, e as veias brilhantes se espalhavam por seu corpo.

— Extraordinário — murmurou. — Tantos séculos tocando mãos para encontrar fragmentos, e agora basta desejar.

Sarah sentiu a invasão chegar. Aro procurou suas lembranças mais profundas e encontrou a escuridão do hospital, o instante em que ela desistira de respirar e a dor de abandonar todos que amava.

Ele a obrigou a reviver cada segundo.

Mas havia algo em Sarah que Aro não compreendera.

Ela não estava mais sozinha dentro de si.

A centelha de Jacob pulsava em seu peito, independente da distância entre os corpos. Sarah procurou por ele através do elo e encontrou o homem perdido na lembrança de sua morte.

Estou aqui.

Jacob ergueu a cabeça.

Aro franziu o cenho e tentou aprofundar o controle.

Estou viva.

O som que escapou de Jacob não foi humano. Ele rompeu a prisão mental com a força de quem já enfrentara aquela perda e se recusava a vivê-la outra vez.

Avançou.

Aro tentou antecipar o golpe, mas milhares de pensamentos o atingiam ao mesmo tempo. Jacob chocou-se contra ele, lançando-o contra a parede. A pedra se partiu. Antes que o vampiro pudesse se levantar, Jacob segurou seu braço e o torceu.

Um rasgo se abriu na pele de Aro.

Sangue vermelho escorreu.

Todos pararam.

Edward foi o primeiro a compreender.

— O sangue dela não está devolvendo seu poder — disse, ainda recuperando o equilíbrio. — Está expulsando o veneno.

Aro olhou para o próprio braço. A ferida não se fechava com a velocidade de um vampiro. Sob a pele, a luz avançava como fogo líquido, substituindo o frio imortal por calor.

— Não — sussurrou.

O acesso simultâneo às mentes falhou. Os pensamentos se tornaram ruído e, depois, desapareceram.

Aro tentou alcançar Sarah outra vez. Nada aconteceu.

— O que você fez comigo?

— Eu não fiz — respondeu ela. — Você bebeu o sangue por escolha própria.

Ele recuou, horrorizado. Por séculos, desejara possuir todos os dons. Agora, a graça que tentara roubar estava desmontando a existência que conhecia.

Maya ajudou Helena a se afastar da parede. Ao vê-las, Aro pareceu compreender que ainda podia usar uma delas para escapar. Moveu-se numa velocidade enfraquecida e estendeu a mão para Maya.

Sarah e Jacob avançaram juntos.

A barreira nasceu entre eles sem que precisassem se tocar. Prata e âmbar atravessaram o ar, formando um impacto que lançou Aro para trás. Ele caiu perto dos fragmentos do recipiente que Helena destruíra.

Seu corpo começou a convulsionar.

— Sarah — chamou ele.

Pela primeira vez, não havia comando em sua voz. Havia medo.

Jacob se colocou diante dela.

— Não chegue perto.

— Ele está morrendo — disse Sarah.

— Depois de tudo o que fez, talvez seja isso que mereça.

Helena levantou o rosto.

— Não.

Maya a encarou, surpresa.

Helena se apoiou na filha para permanecer em pé.

— Morrer agora seria fácil. Ele precisa viver e dizer os nomes. Todos eles. Precisa mostrar onde estão os corpos, quem desapareceu, quem foi caçado, quem ainda está preso por causa dele.

Aro ouviu. O coração falhou uma batida e depois retomou num ritmo caótico.

Sarah se ajoelhou a uma distância segura.

— Há duas forças disputando seu corpo — explicou. — O veneno tenta preservar o vampiro. A graça tenta devolver o que existia antes. Se eu não interferir, as duas podem destruir você.

— Pare isso.

— Não posso devolver o que você tinha.

Os olhos dele se arregalaram.

— Posso estabilizar a transformação — continuou Sarah. — Você sobreviverá como humano. Sem imortalidade. Sem velocidade. Sem o dom de ler pensamentos. Ou posso me afastar e deixar que seu corpo escolha sozinho.

Aro olhou ao redor. Viu Helena livre, Maya junto dela, Jacob protegendo Sarah e Edward novamente de pé. Tudo o que possuíra fora reduzido àquele chão de pedra.

— Se eu me tornar humano... — começou.

— Vai envelhecer — respondeu Sarah. — Vai sentir dor, fome, frio e cansaço. Poderá adoecer. Poderá morrer.

— E viverei?

Sarah não suavizou a resposta.

— Talvez. Se escolher agora.

O silêncio que se seguiu pareceu maior do que os túneis.

Aro fechou os olhos. Quando voltou a abri-los, a arrogância ainda estava lá, mas já não conseguia esconder o terror.

— Eu escolho viver.

Jacob olhou para Sarah.

— Tem certeza?

— Não estou absolvendo ninguém.

— Eu sei.

Ela estendeu a mão. Jacob a segurou, e a magia respondeu. O calor que existia nele passou para Sarah; a graça que existia nela retornou a Jacob. Não eram metades incompletas, mas duas forças inteiras que haviam aprendido a caminhar juntas.

Sarah pousou a outra mão sobre o peito de Aro.

O choque arqueou o corpo dele. A luz correu pelas veias, queimando o último veneno. Jacob sustentou Sarah quando a força do processo tentou arrancá-la de si mesma. Maya se aproximou e colocou a mão no ombro dela, acrescentando à corrente a herança que Sophia deixara em sua linhagem.

O grito de Aro atravessou as pedras.

Depois, tudo cessou.

Ele permaneceu deitado no chão, respirando. Seu rosto ainda era reconhecível, mas perdera a perfeição imóvel dos vampiros. A pele adquiriu cor. O peito subia e descia depressa.

Edward o observou por alguns segundos.

— Não ouço nada diferente — disse Aro, quase sem voz.

— Porque não há nada para ouvir — respondeu Edward. — Os pensamentos dos outros não pertencem mais a você.

Marcus entrou na cela acompanhado por Carlisle, Bella e Jasper. Atrás deles, os últimos guardas depunham as armas.

Marcus contemplou Aro no chão. Não houve satisfação em seu rosto, apenas o peso de muitos séculos.

— Ele será mantido em uma cela humana até o julgamento — declarou. — Terá alimento, água e cuidados médicos. Nada além disso.

— Você não pode... — Aro tentou se erguer, mas as pernas falharam.

— Posso — respondeu Marcus. — E, pela primeira vez, você terá tempo para escutar sem invadir a mente de ninguém.

Carlisle se aproximou para examiná-lo, mas um gemido baixo desviou sua atenção.

Helena desmaiava nos braços de Maya.

Sarah correu até elas. Carlisle verificou os ferimentos, a perda de sangue e os sinais de exaustão.

— Ela precisa sair daqui agora — disse.

Maya segurava a mãe como se temesse que alguém a arrancasse novamente.

— Ela vai sobreviver?

— Se me permitirem cuidar dela, acredito que sim.

Helena abriu os olhos com dificuldade. Procurou Sarah e estendeu a mão.

— Sophia? — perguntou.

Sarah se ajoelhou ao lado dela.

— Minha mãe morreu há muitos anos. Leucemia.

A dor atravessou o rosto de Helena.

— E Benjamin?

— Andreas o matou. Sob as ordens de Aro.

Helena fechou os olhos. Duas lágrimas deslizaram por suas têmporas.

— Eu os vi — continuou Sarah, com a voz baixa. — Quando meu coração parou, eu os vi juntos. Minha mãe estava em paz. Meu pai também. Eles me mandaram voltar.

Helena apertou os dedos dela.

— Então eles encontraram um ao outro.

— Encontraram.

Jacob se aproximou. Sarah tocou o braço dele.

— Este é Jacob.

Helena o estudou por um instante, como se reconhecesse nele algo que conhecia apenas pelas antigas histórias.

— O lobo que a trouxe de volta.

— Ela também me trouxe — respondeu Jacob.

Maya soltou uma risada entre lágrimas. Helena voltou-se para ela, e o silêncio entre as duas se encheu de anos perdidos.

— Meu nome é Maya Bennett — disse a jovem, tentando manter a voz firme. — Grace me criou. Ela me ensinou a ler, a brigar e a nunca aceitar café ruim.

Helena sorriu pela primeira vez.

— Meu nome é Helena. Eu sou sua mãe. E, quando pudermos sair daqui, gostaria de tomar esse café com você.

Maya encostou a testa na dela.

— Vai ser um começo.

Carlisle e Emmett improvisaram uma maca. Enquanto o grupo deixava a cela, Sarah olhou uma última vez para Aro. Ele permanecia encolhido sob um cobertor, tremendo de frio e ouvindo apenas o próprio coração.

Nos túneis, Jacob passou um braço ao redor da cintura de Sarah.

— Você transformou o vampiro mais antigo de Volterra em humano — disse.

— Nós transformamos.

— Isso vai assustar muita gente.

— Talvez deva assustar.

Ele parou.

— E quanto isso tirou de você?

Sarah procurou dentro de si. A centelha de Jacob continuava lá, firme, e a própria força também. Estava cansada, mas inteira.

— Menos do que teria tirado antes — respondeu. — A graça não precisa mais me consumir para agir. Ela aprendeu o caminho de volta.

Jacob a encarou, ainda desconfiado.

— Mesmo assim, você não vai sair andando daqui.

Antes que ela protestasse, ele a tomou nos braços.

Sarah apoiou a cabeça em seu peito e ouviu o coração que agora também vivia, em alguma medida, dentro dela.

Acima dos túneis, a madrugada começava a clarear Volterra.

Pela primeira vez em séculos, Aro não sabia o que ninguém pensava.

E, pela primeira vez, todos os outros estavam livres para escolher o que fazer com ele.