Acaso ou destino
27 CAPÍTULO 27 -A escolha do amanhã
O julgamento começou três semanas depois.
Não houve trono.
Marcus recusou o salão onde os Volturi haviam transformado poder em espetáculo e escolheu uma câmara circular, iluminada pela luz que atravessava altas janelas. Representantes de diferentes clãs ocuparam a mesa: Denali, Amazônia, Irlanda, Egito, Romênia e outros que durante séculos haviam evitado Volterra.
Sarah acompanhou tudo de La Push. Carlisle instalara uma transmissão protegida, e a decisão de permanecer na reserva não fora medo. Sua presença física poderia transformar o julgamento em disputa pela graça que carregava. Diante da tela estavam Jacob, Billy, Ateara, Sam e Maya. Helena ainda se recuperava sob os cuidados de Carlisle, mas exigira prestar depoimento.
Thomas falou primeiro.
Contou sobre os nomes apagados dos registros, sobre as famílias separadas e sobre os guardas que desapareciam quando questionavam ordens. Maggie confirmou cada mentira que reconhecera. Carlisle descreveu as experiências com sangue, o uso de humanos e vampiros como instrumentos e as consequências do que Aro fizera com Helena, Sarah e Maya.
Helena falou durante quatro horas.
Não levantou a voz. Citou datas, lugares, nomes e métodos. Relatou o sequestro, as ameaças contra Sophia, os anos de isolamento e cada tentativa de Aro de transformar a herança de sua família em arma.
Quando terminou, ninguém se moveu.
Marcus foi o último a testemunhar.
— Durante muito tempo, confundi apatia com neutralidade — disse. — Vi o que ele fazia e permaneci ao lado dele. Minha dor não é justificativa. Portanto, qualquer sentença pronunciada aqui também precisa reconhecer minha omissão.
Aro ouviu tudo sentado numa cadeira simples. Em apenas três semanas, a humanidade já começara a alterá-lo. Havia sombras sob seus olhos, fios grisalhos nas têmporas e uma fragilidade que nenhum manto poderia esconder.
Quando recebeu permissão para falar, apoiou as mãos na mesa.
— O mundo que protegi existiu porque alguém aceitou fazer o que os outros temiam — afirmou. — Sem ordem, nossa espécie teria sido descoberta e destruída. Chamam de tirania aquilo que lhes garantiu sobrevivência.
Na tela, Sarah inclinou-se para a frente.
— Medo pode impor silêncio — respondeu. — Não pode transformar abuso em autoridade. Você não protegia um povo. Protegia o lugar que ocupava acima dele.
Aro olhou diretamente para a câmera.
Por um segundo, pareceu buscar a mente dela por hábito. Nada encontrou.
O conselho deliberou até o anoitecer.
Aro não seria executado. Permaneceria humano e seria mantido numa propriedade isolada, com cuidados médicos, livros e vigilância permanente. Sua principal obrigação seria registrar todos os crimes, desaparecimentos, esconderijos e prisioneiros relacionados ao antigo governo. Cada informação seria verificada. Cada mentira acrescentaria restrições à sentença.
Caius recusou a humanidade completa. Recebeu uma dose parcial do processo e foi reduzido a um estado intermediário, mais fraco e incapaz de comandar forças contra outros clãs. Viveria confinado e sob observação.
Selene perdeu o acesso ao dom que usara para manipular pessoas. Entregaria todos os registros de sua família e seria monitorada pelo conselho.
Chelsea manteve a própria vida por ter cooperado, mas jamais poderia usar sua influência sobre vínculos sem consentimento explícito.
Jane e Alec deixariam Volterra. Eleazar e Carmen os receberiam em Denali, onde seriam vigiados, mas também teriam a oportunidade de descobrir quem eram longe das ordens de Aro.
Marcus renunciou a qualquer posição de comando.
Antes de partir, visitou Aro.
— Para onde irá? — perguntou o antigo líder.
— Aos lugares que Didyme desejava conhecer.
— Ela está morta.
— Sim. E foi você quem a matou.
Aro desviou os olhos.
Marcus se aproximou da porta.
— Durante séculos, pensei que minha vida tivesse terminado com a dela. Agora compreendo que permanecer ao seu lado foi a forma mais longa de morrer. Não farei isso novamente.
— Vai me abandonar aqui?
Marcus olhou para o irmão pela última vez.
— Não. Vou apenas parar de abandonar a mim mesmo.
Os meses seguintes foram feitos de coisas pequenas.
Helena reaprendeu a dormir sem correntes. Assustava-se com portas fechadas e às vezes passava horas em silêncio, incapaz de aceitar que ninguém entraria para levá-la. Maya não tentou apressá-la. Sentava-se por perto, contava histórias sobre Grace e oferecia café — quase sempre ruim, como prometera.
A relação entre as duas não nasceu pronta. Houve perguntas sem resposta, raiva, culpa e dias em que a proximidade doía. Ainda assim, ambas continuaram voltando.
Quando Helena esteve forte o suficiente, Maya a levou a La Push.
Ateara a recebeu diante do mar. Por muito tempo, os dois apenas se observaram, separados pelos anos e por tudo o que acreditaram ter perdido.
— Você envelheceu — disse Helena.
— E você continua sem delicadeza.
Ela riu. Depois chorou nos braços dele.
Os Cullen visitaram a região, respeitando os limites do tratado. Os encontros aconteceram fora do território da reserva. Edward não atravessou a fronteira e jamais ouviu as histórias que os anciãos guardavam apenas para seu povo.
Numa noite de fogueira, Billy e Ateara reuniram Sarah, Jacob, Maya e Helena. Voltaram a falar da antiga profecia, agora livres do medo de que cada palavra determinasse o futuro.
— Talvez nunca tenha sido sobre uma única criança — disse Sarah. — Talvez fosse sobre uma linhagem capaz de unir forças que sempre acreditaram ser inimigas.
— Ou talvez profecias sejam apenas possibilidades — respondeu Billy. — Elas apontam caminhos. Não obrigam ninguém a segui-los.
Jacob apertou a mão de Sarah.
— Gosto mais dessa versão.
Ela também.
Sarah voltou ao trabalho perto da reserva e manteve as pesquisas com Carlisle sob regras rígidas. Nenhum teste seria feito sem consentimento. Nenhum sangue seria armazenado em segredo. Nenhuma promessa de cura seria usada como forma de controle.
A notícia sobre Aro se espalhou, e alguns vampiros começaram a procurar Carlisle. Não queriam poder. Queriam a possibilidade de voltar a envelhecer, sentir calor e recuperar uma vida que acreditavam perdida.
Carlisle passou semanas estudando a questão antes de tomar sua própria decisão.
— Eu escolhi construir uma existência dentro do que me tornei — explicou. — Não considero minha vida uma condenação. Mas quero que a escolha exista para quem a deseja.
Bella também recusou.
— Passei tempo demais lutando para chegar à vida que tenho — disse, olhando para Edward. — Eu a escolho novamente.
Edward precisou de mais tempo, não porque desejasse abandonar Bella ou Renesmee, mas porque a ideia de silêncio na mente dos outros o atraía. No fim, permaneceu como era.
Rosalie pediu tempo para pensar. Esme disse que ficaria onde Carlisle estivesse. Emmett declarou que só aceitaria qualquer transformação se alguém garantisse que ele continuaria vencendo disputas de braço.
Pela primeira vez, a existência de uma alternativa não dividiu a família. Tornou cada permanência uma escolha consciente.
Um ano depois de Volterra, Jacob levou Sarah até a praia.
O céu estava limpo, e a lua desenhava um caminho prateado sobre o mar. Ele tinha vinte e quatro anos, mas naquela noite parecia carregar ao mesmo tempo o menino impulsivo que fora e o homem que escolhera se tornar.
— Você está estranho — disse Sarah.
— Sou sempre estranho.
— Mais do que o normal.
Jacob respirou fundo e retirou do bolso uma pequena caixa antiga. Sarah reconheceu a madeira trabalhada: pertencera à família de Billy.
Quando ele se ajoelhou, ela levou a mão à boca.
— Eu sei que o imprinting, a magia e todas essas histórias poderiam fazer parecer que isso já estava decidido — começou Jacob. — Mas não quero que nada fale por nós. Nem o lobo, nem uma profecia, nem o medo de perder você.
Abriu a caixa. O anel trazia uma pedra verde, profunda como os olhos de Sarah, cercada por pequenos detalhes prateados.
— Eu escolho você quando a magia está forte e quando estamos cansados demais para sentir qualquer coisa extraordinária. Escolho você quando concordamos e quando você me deixa louco. Escolho a vida comum, a impossível e todas as que couberem entre as duas. Sarah, quer se casar comigo?
Ela se ajoelhou diante dele na areia.
— Sim.
Jacob sorriu, mas Sarah segurou suas mãos antes que ele colocasse o anel.
— Preciso contar uma coisa.
O sorriso desapareceu.
— Você está bem?
Sarah guiou a mão dele até seu ventre.
Por alguns segundos, Jacob não compreendeu. Então fechou os olhos.
O vínculo se abriu entre eles, suave e luminoso. Sob o coração de Sarah existia outra pulsação, pequena demais para ser ouvida por ouvidos humanos, mas clara para a magia que ambos compartilhavam.
Jacob soltou o ar num riso emocionado.
— Uma menina.
— Você consegue saber?
— Não sei como. Eu só... sei.
Sarah tocou o rosto dele.
— Está com medo?
— Muito.
— Eu também.
— Então vamos ter medo juntos.
Ele colocou o anel em seu dedo e a beijou sob a lua.
Mais tarde, sentados diante do mar, falaram sobre construir uma casa em La Push. Não uma fortaleza, um esconderijo ou um lugar destinado por alguma lenda. Uma casa com janelas grandes, uma cozinha sempre cheia e espaço suficiente para receber Maya, Helena, Billy e todos os que haviam se tornado família.
O futuro permanecia desconhecido.
Dessa vez, isso não parecia uma ameaça.
Parecia liberdade.
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