Acampamento Supletivo
1 I P.o.V - Catarina
Não aguentava mais a aula de filosofia. A Roberta já estava estourando meus tímpanos com aquela voz de gralha. Ela até que parecia uma pessoa normal, quando não abria a boca e não olhando diretamente para a cara dela.
Ela é uma típica professora de filosofia:
CHATA!!!
Com seus 1,50 de altura, usava roupas antigas que pareciam penas, totalmente esdrúxulas e nada discretas. Os cabelos estavam sempre presos em um rabo de cavalo que nunca saia do lugar. E no meio da testa, entre as sobrancelhas, existia uma enorme pinta, na qual eu olhava pasmamente enquanto ela me fazia uma pergunta.
“Espera... droga ela me fez uma pergunta!!! O que será que ela disse??”
– Então, Catarina, pode me responder? – ela disse – eu perguntaria para o João Marcos, SÓ QUE ELE ESTÁ DORMINDO.
Olhei para o lado e me deparei com o João babando na mochila e debruçado sobre a mesa. Enquanto isso Sara nos olhava segurando uma risada nervosa, tremendo, com medo de ser expulsa da aula de filosofia DE NOVO graças ao João.
Nesse meio tempo a Roberta olhava para nossa cara enquanto a turma estava em silêncio e o João dormindo.
Eu e Sara começamos a cutucá-lo, balançá-lo e nada do garoto acordar. Quando finalmente, quase o derrubando da cadeira, ele acordou atordoado e com a marca da mochila na testa; como um zíper.
– Hã?... O quê?... Já é o almoço? – falou o João enquanto procurava algo escrito no quadro.
– Me respondam! – gritou ela.
– É... Professora, qual é a matéria da prova? – respondeu ele enquanto a turma caia na gargalhada.
Roberta abriu a porta furiosamente:
– Desçam, já!!!
. . .
Enquanto esperávamos na coordenação, João, Sara e eu conversávamos.
Ah é! João e Sara eram meus únicos amigos no colégio. Ou melhor: na minha vida.
Sara era uma figura engraçada. Tinha mais ou menos a minha altura, cabelo castanho escuro e os olhos... Bem, os olhos dela nunca tinham uma cor definida. Ora verdes, ora castanhos, pareciam esmeraldas que sempre mudavam de cor. Algo me intrigava com as unhas dela, pois a cada dia estavam de um jeito diferente. Uma vez ela me falou que era porque nunca conseguia mantê-las intactas, sempre quebravam ou descascavam ao longo do dia enquanto mexia em algo, como máquinas de seu grande interesse.
Aliás, já era de se esperar, pois ela era hiperativa. Muito hiperativa. Mesmo na hora da prova ela não parava de se mexer. Estava sempre pulando de um lado para o outro cantando, gritando e contando piadas (que por sinal, eram extremamente sem graça).
Já o João era poucos centímetros mais alto que eu e Sara, era moreno, com olhos castanhos escuros, tinha o cabelo bem curto e cortado à máquina. Ele era um tipo bem difícil de identificar: em alguns momentos ele tinha uma cara de nerd e um papo muito entediante; porém, em outros momentos ele conseguia ser tão burro e tão bobo que chegava a ser engraçado. Vale à pena ressaltar que, por incrível que pareça, ele não sabe reconhecer nem um pouco de sarcasmo, o que acaba sendo irônico em algumas situações. Mesmo assim, era muito ávido em questões lógicas, porém, totalmente desastrado em relações humanas (isso mesmo, ele tinha dificuldades de se relacionar com as outras pessoas, igual a todos nós).
Falando nisso, era um fato muito estranho, pois nós, e apenas nós três, nos falávamos.
Estávamos a conversar o fim de semana em que planejávamos passar vendo filmes e comendo besteiras na casa da Sara quando a Roberta apareceu e nos levou para a sala do diretor.
Entramos e sentamos em frente à mesa do diretor enquanto a professora continuava em pé. Havia uma placa na beira da mesa na qual eu consegui ler: “Prof. Ernani Cardoso” e mais abaixo algo que se tornara impossível de ler com minha dislexia.
– O que vocês fizeram dessa vez? – perguntou o diretor, já cansado de nos ver naquela sala.
– Eles não estavam passando muito bem durante a aula e disse que podiam descer – mentiu a professora.
Enquanto a Sara começava a brincar com a plaquinha do diretor, eu e João olhávamos indignados para a Roberta.
– Como assim? – Perguntei
– Isso é mentira, estamos ótimos – indagou João
A professora nos ignorou completamente:
– Professor Cardoso, eu acho que tem uma mãe esperando por você lá fora- falou Roberta.
– Não tem, não. – respondeu o diretor meio desnorteado — Caso tivesse, a Sônia teria me avisado. Ela é uma secretária muito competente e...
– TEM SIM! – Roberta havia mudado completamente seu tom. Sua voz ficou mais aguda, aumentando o volume.
O diretor, agora totalmente atordoado, olhou novamente para ela e seguiu em direção à porta, parecendo um zumbi. Olhamos pasmos para a Roberta, quando a porta rompeu o silêncio com um estrondo, nos tirando do transe em que havíamos ficado. Só escutamos então o barulho das trancas. Eu e João levantamos rapidamente enquanto a Sara continuava paralisada, rindo histericamente com a plaquinha já retorcida em suas mãos.
– O que deu em você? – berrei me dirigindo pra porta, correndo, tentando abri-la – abre a porta!!!
Ouvi a Sara dar um berro quando viro e me deparo com um ser arrepiante: meio mulher meio pássaro, com garras imensas e assustadoras, os seios pendentes, corpo de abutre e a cabeça da Roberta...
– Uma Harpia!
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