Academia de Poderes Inúteis

18 O que não tem remédio...


Notas iniciais
Olá! Não estou mais postando no sábado, mas sim no domingo (temporariamente)! Como foi a semana de vocês? Estou muito feliz com os comentários ♥ Tenham uma ótima leitura!

Minha mãe costumava dizer que “o que não tem remédio, remediado está”. Já que era assim, voltei para o meu quarto. Kaíque continuava a roncar com metade de seu corpo caindo para fora da cama e o cobertor embolado no torso.

Impulsionado pelas expressões pensativas de Ienaga e Eduardo durante a espera de Heitor, caminhei nas pontas dos pés, ajoelhei-me diante da cabeceira do meu colega e peguei o celular que repousava ali. Apertei o botão de ligar, entretanto, nada aconteceu. Apertei outra vez e nada. Pelo visto, estava desligado.

“Não, não tem como.”, balancei a cabeça negativamente e retornei para o meu lado do quarto para pegar minha toalha.

É, o dia havia começado cedo.

>>>

A segunda-feira chegou. Nossa semana de provas estava marcada para dali 7 dias, sendo assim, procurei prestar mais atenção nas aulas, fazer anotações da matéria e estudar no tempo livre. Depois de uma cansativa e sugadora de almas aula de física, me sentei no jardim para almoçar.

Equilibrei o caderno em um dos joelhos e bati a lapiseira na folha balbuciando as fórmulas. Céus, como eu odiava física.

Mordi meu sanduíche. Mamãe me mataria se soubesse que ao invés de estar comendo corretamente no refeitório eu estava me entupindo de pão. Na verdade, ela já me mataria ao receber a ligação do diretor.

Limpei os farelos no queixo e liguei o celular. As mensagens de Stefanie pularam na tela. As primeiras eram fotos de meus bichinhos aparentemente saudáveis e alegres, diferente dos primeiros dias quando estavam um tanto abatidos por minha falta.

Deslizei o dedo e cheguei a parte que temia.

Stef: Cara, você está tãooo ferrado. [12:34]

Stef: Tentou fugir da escola, sério? Que bocó. [12:34]

Mordi o lábio inferior, apreensivo.

Eu: Então a mãe já sabe? [12:35]

Stef: Ah, sabe. E como sabe. Mas disse que só vai te ligar à noite, quando você não estiver ocupado. [12:35]

Eu: Cadê ela? [12:35]

Stef: Saiu para entregar mais alguns currículos e almoçar com o Fábio. [12:36]

Apertei o aparelho firmemente.

Stef: Se tiver sorte, ela voltará mais calminha. [12:36]

Eu: Não tem graça. [12:36]

Stef: Tem sim. Você é um cabeça de vento mesmo, por que tentou fugir? [12:37]

Eu: Não é da sua conta. [12:37]

Ela enviou um emoji mostrando a língua. Se eu bem a conhecia, devia estar gargalhando de pernas para o ar.

Mastiguei meu sanduíche que de repente havia perdido o gosto. Minha cabeça pendeu no tronco da árvore e eu fechei os olhos por um instante, lembrando-me do desastre que foi nossa fuga.

Um estalo na cabeça me acordou. Expirei concentrado e digitei rapidamente.

Eu: Stef, preciso de um favor. [12:39]

Stef: Lá vem. [12:39]

Eu: Você está do lado de fora, tem mais acesso do que eu. [12:40]

Stef: Falando assim, parece que você está na cadeia. [12:40]

Eu: Preciso que descubra algo sobre uma pessoa. Qualquer coisa que conseguir. [12:40]

Stef: Nome. [12:41]

Um pequeno sorriso dançou em meus lábios. Minha irmã era tremendamente curiosa e uma expert em stalkear as pessoas. Bastava um nome e ela encontraria uma ficha inteira do sujeito.

Eu: Hanna Sato. [12:41]

Stef: Ok. Te mando mensagem de noite. Vou voltar a estudar. [12:42]

Suspirei satisfeito e torci internamente para que Stefanie achasse informações além da que já tínhamos.

Dei tapinhas em minhas bochechas, retomando o foco para meu caderno. Resmunguei mais algumas linhas, fazendo traços e anotações banais com a lapiseira. Impossível, não conseguia entender de jeito nenhum.

— Posso me sentar?

— Faz o que quiser. – essas palavras saíram automaticamente. Arregalei os olhos e cobri a boca.

De pé ao meu lado Amanda deu um sorriso divertido, apertava o caderno contra o peito e segurava uma garrafa de água.

— Se estiver de mau humor, tudo bem. – ela gesticulou para outra direção.

— Não, não! Desculpe, não sei o que deu em mim. – neguei com a cabeça, envergonhado.

— O que está estudando? – Amanda jogou o rabo-de-cavalo para trás e sentou-se na grama.

— Física. – murmurei.

— Está em qual parte? – ela aproximou-se tanto que sua bochecha quase encostou na minha.

Seu cheiro doce sufocou-me. Era ótimo de se sentir, contudo, mortífero para minhas narinas. Arfei, pronto para espirrar.

— Abacaxi! – a garota exclamou apontando-me um dedo.

— Abacaxi? – franzi as sobrancelhas, confuso.

— Viu, você se esqueceu de espirrar. – ela riu.

E havia mesmo. Funguei.

— O que foi isso? – questionei admirado.

Amanda deu de ombros e batucou em meu caderno, prosseguindo:

— Seu raciocínio está errado.

— Oh, obrigado. – revirei os olhos.

— Me dê. – pegou minha lapiseira, nossos dedos tocando-se no processo. – Se fizer desse jeito… – rabiscou por cima de minha letra. – Fica mais fácil.

Varri os olhos pelo caderno, compreendendo sua explicação. Conforme Amanda fazia novas anotações, eu realizava perguntas sobre o conteúdo. Em certo momento nossos ombros colaram-se e parte de seu cabelo castanho cobria meu campo de visão.

— O que acha agora? – ela me fitou empolgada.

Meu rosto aqueceu-se e eu me castiguei por provavelmente estar vermelho.

— Valeu, me ajudou muito. – balbuciei sem jeito.

— Ei. – sua mão encostou na minha discretamente. – Sobre o acampamento…

— Opa, tem espaço para mais duas?

Ergui a cabeça subitamente sendo surpreendido por Érica e Yara, ambas segurando seus cadernos e estojos. A segunda estava mais distante, indiferente como de praxe. Já a de cabelos azuis sorriu abertamente para nós e acomodou-se na grama sem esperar uma resposta.

— As provas são na semana que vem e eu já me sinto enjoada. – Érica abriu seu caderno com capa de trevos de quatro folhas. – Ah, podem continuar conversando. – abanou a mão e caçou algo em seu estojo.

— Não, não era nada. – Amanda balançou a cabeça e afastou-se de mim.

Yara posicionou-se próxima a Érica, abriu seu próprio estojo e entregou uma borracha para a amiga. Ficamos quietos, cada um mexendo em seu material de estudos.

Cansado de física e julgando saber o suficiente pela ajuda de Amanda, mudei para química. Fixei-me em Yara, havia tido algumas aulas de química com ela e sabia que era boa na matéria.

— Psiu, Yara, me ajuda? – pedi.

Ela desviou os olhos da folha de Érica, retirando seu indicador do caderno da amiga. Por um breve instante, juro que a vi trocar contato visual com Amanda.

— Hã… Acho que a Amanda pode te ajudar. – a voz soou incerta. – Érica, vamos rever essa parte. – voltou a caminhar o dedo pelo caderno da de cabelos azuis.

Yara nunca tinha me negado ajuda na lição. Geralmente ela me chamava de idiota e explicava bruscamente, mas de um jeito que eu entendia. Pensando nisso, sequer absorvi o esclarecimento de Amanda.

— Tsc. – Yara resmungou quinze minutos depois.

— O que foi? – Érica usou a ponta do lápis para coçar a testa.

— Geografia. – a garota bateu o caderno no rosto.

— Vamos lá, não é tão ruim. – sorri de canto. – Particularmente, sou muito bom em geografia.

— Se chamando Norte, é um pouco esperado. – Yara rebateu abaixando o material.

— Se for assim, você deveria se parecer pelo menos um pouco mais com uma sereia. – provoquei.

— A da lenda começa com “i”. – ela bufou. – Agora, me deixe estudar.

— Caso precise de ajuda… – dei de ombros.

— Tsc. –Yara repetiu.

Houve menos que cinco minutos de paz. Érica sacou seu celular e comunicou:

— Aquela Bianca postou um storie sobre uma novidade… Disse que sabe de algo bombástico e talvez revele antes do diretor no final do período.

— Ah, Bianca… – Amanda suspirou e inclinou o corpo para trás. – Para uma líder, é péssima em guardar segredos.

Às vezes me esquecia que Amanda já fez parte das Super Gatinhas. Parecia um delírio coletivo.

O sinal tocou, indicando o fim do almoço. Cada um conferiu suas grades de horários e chegamos a conclusão de que só nos veríamos novamente no esconderijo. Amanda e eu fomos os últimos a deixar o jardim, minha curiosidade falando alto:

— Ia dizer algo sobre o acampamento?

— Não. Deixa pra lá. – pegou suas coisas e saiu apressada.

Pelo seu tom, preferi não insistir e fui direto para a minha sala.

>>>

Ao final do período, os professores nos mandaram permanecer na sala por mais cinco minutos. Enquanto o restante dos alunos se aquietava e terminava de arrumar as mochilas, fucei as redes sociais.

Bianca havia postado uma foto sorrindo e fazendo sinal de “paz e amor”. Abaixo, a legenda dizia: “Aos que já estão sabendo, o que acharam da novidade?”

Os comentários variavam entre “demais, mal posso esperar!”, “legal” e “o quê?”. Pelo menos, ela guardou segredo por mais tempo do que eu esperava.

— Tenho um anúncio a fazer. – o professor pigarreou. – Após a semana de provas, vocês irão a um acampamento que durará três dias, onde o bom comportamento e controle dos poderes serão estritamente supervisionados.

Burburinhos espalharam-se pela sala, crescendo em uma velocidade absurda. Gritinhos de felicidade e murmúrios de insatisfação se dividiram.

— Enviaremos as autorizações para os seus pais, mas não se esqueçam de avisá-los vocês mesmos. – o homem continuou. – Na próxima semana passaremos uma lista do que devem levar e outra de regras.

Algumas questões banais foram feitas. Bocejei, os olhos lacrimejando de tédio.

— Caso tudo dê certo poderemos tirar boas férias em dezembro. – o professor esboçou um sorriso sincero e cansado.

A sala vibrou animada e os alunos ergueram-se um a um, as mãos para o alto e as mochilas pendendo nos antebraços. Aproveitando aquele entusiasmo, deixei meu lugar e saí de fininho enquanto o restante da turma rodeava o professor e comemorava.

— Não ficou animado com a notícia, garoto espirro?

Levantei as sobrancelhas, notando a presença de Kaíque. As mãos nos bolsos como de costume, a mochila de lado e a feição despreocupada. Tinha olheiras e o nariz avermelhado.

— Achei que ainda estava doente.

— Ah, por algum motivo a secretaria não acredita mais em mim. Disse que uma gripezinha não é doença. – deu de ombros.

Encarei-o no fundo dos olhos, torcendo a boca. Tinha algo para perguntar.

— Você estava acordado às quatro da manhã de sábado? – fui curto e grosso.

— Uau. – ele sorriu e ergueu as sobrancelhas. – Normalmente eu estaria. Sabe, preciso terminar de maratonar One Piece. O que acontece é que gripes realmente me derrubam.

Assenti e desci a escada.

— Por quê? – ele pulou um degrau, ultrapassando-me. – Aconteceu algo interessante?

— Nada. – chacoalhei a cabeça, acanhado.

— Bom, a ideia de passar três dias no mato também não me animou muito. Mas pode ser legal. Basta fazermos-o ser. – Kaíque deu um sorriso torto. – Nos vemos depois, garoto espirro.

Com a cabeça cheia e perdida, cheguei ao esconderijo. Todos se encontravam devidamente dispostos nas cadeiras, analisando o quadro branco em que Ienaga mexia.

— Atrasado. – ela atirou a tampa do canetão em minha cabeça. Reclamei baixinho.

— Foi mal. – sussurrei e me instalei no chão com as costas coladas à parede.

— Voltando… – a líder pigarreou. – O Informante descobriu o provável local do acampamento.

— Quem é esse cara, afinal? – Érica inclinou a cabeça para o lado.

— Ele disse que ainda não é hora de se revelar. – Eduardo respondeu cruzando os braços.

— Enfim. – Ienaga soou impaciente. – Não é uma floresta completamente livre de onde poderíamos fugir. Se trata de uma área arborizada e cercada. É propriedade de um velho rico que faz doações para a academia.

E então desenhou algumas árvores (semelhantes a brocólis) dentro de um cubículo (eram para ser cercas?) no quadro branco.

— Pesquisei o lugar na internet. Tem cercas elétricas. Ou seja, liberdade o caramba! Vamos de uma gaiola para outra! – ela bufou.

Eduardo demonstrou um sorriso de apoio para consolar a melhor amiga.

— Sendo assim, nada de fugas. A menos que vocês queiram pul…

— Não! – respondemos imediatamente em um perfeito coro.

— É, imaginei. Disseram que avaliarão nosso bom comportamento. E sabe o que eu acho? – fez uma pausa exageradamente dramática. – Façam o que quiserem.

— Hã? – fui o primeiro a indagar.

— Se comportar perfeitamente bem para ganhar a chance de passar as férias fora daqui me dá nojo. Fala sério, somos o quê? Cachorrinhos sendo treinados em troca de um prêmio? – ela franziu as sobrancelhas. – É por isso que roubarei a frase do Deslocados: “não nos esforçamos para sermos os melhores, mas também não nos esforçamos para sermos os piores”. – colocou a mão na cintura e ergueu o queixo.

Acho que todos deixamos claro em nossas expressões que não entendemos nada.

— O que a Laura quer dizer… – Eduardo a segurou pelos ombros e a conduziu até uma cadeira. – É que depende da consciência de vocês. Não vamos mandar em cada passo dos nossos membros, vocês precisam pensar por si só. O resultado do acampamento é individual.

Houveram alguns “ah” de reflexão. Passei as mãos pelos cabelos, aprofundando-me naquele raciocínio. Minha saída da API dependia somente de mim, não da União inteira. Mesmo assim, tive uma sensação esquisita.

— É isso, meus bebês. – Ienaga expirou. – Quem quer jogar UNO? – animou-se repentinamente.

— Adoraria te ver perder para mim, mas preciso estudar. Vem, Amanda. – Victor ficou de pé.

— Eu e Érica também. – Yara puxou sua mochila.

— Mas… – a líder fez um biquinho. – E você, Norte?

— Também tenho que estudar, fica para próxima. – aproveitando que estava perto da porta, arrumei-me e segurei a maçaneta.

— Melhor seguirmos o exemplo dos nossos membros, Laura. – Eduardo afagou os cabelos da garota. – Vamos revisar história.

E foi assim que a semana se passou. Estudos, reuniões e noites de sono que não recarregavam as energias. A semana de provas foi ainda mais estressante, não via a hora daquilo acabar.

Na sexta-feira, ao ter em mãos a última prova do período, o branco em minha mente deu espaço a lembrança do sermão de minha mãe.

Ela estava furiosa. Falou por pelo menos meia hora, deixando meu ouvido dolorido. A voz vacilou entre raiva, decepção e tristeza. A enxurrada de palavras ficou parada em minha cabeça. Me desculpei inúmeras vezes, prometendo não fazer de novo (temendo não ser sincero, já que, afinal, fazia parte da União Rebelde). Nos despedimos com um “eu te amo” mútuo e o recado das rédeas encurtarem.

Bati as palmas das mãos nas bochechas, recobrando a consciência para onde deveria. Preenchi meus dados no cabeçalho e enfrentei a monstruosa prova de física, esforçando-me para relembrar os momentos com Amanda, sua mão rabiscando por meu caderno e a voz meiga lecionando.

Os ponteiros do relógio acima da lousa haviam feito uma volta completa. Levantei-me de ombros encolhidos e entreguei a prova para o professor que a corrigiu na hora.

Tirei um 6,5.

>>>

Na noite anterior a do acampamento Victor esfregou na cara de todos sua coletânea de provas com um 10 estampado em cada ponta. Amanda guardava suas folhas de 9,5 e Eduardo suas de 9 (com exceção do 7 em história). Yara e Érica comparavam seus bolos de papéis que variavam de 6 a 8. Ienaga disse que seus 7 estavam ótimos.

Pela primeira vez desde que me mudei para o dormitório, o lado de Kaíque ficou minimamente arrumado. Ele dobrou seus cobertores e recolheu as roupas no chão, socando-as em sua mochila para os três dias que passaríamos fora.

Reli as duas listas que nos entregaram, uma do que levar e a outra de regras. Conferi a primeira, tocando cada item reunido em minha cama e ajeitando-os na mochila.

— Repelente, boné, protetor solar, uniforme… – murmurei.

Fechei o zíper quase o estourando. Sentei-me no colchão e repassei as regras que diziam sobre garotas e garotos serem separados na hora de dormir; nossos pertences eram de nossa total responsabilidade; quem não se comportasse seria suspenso das atividades recreativas e ficaria de reforço em dezembro.

Durante a semana de provas os nossos pais receberam as autorizações e as enviaram de volta assinadas. Mamãe me ligou e disse que por mais que eu tivesse aprontado, merecia um pouco de diversão e que o ar livre me faria bem.

O ônibus sairia apenas depois do almoço no sábado, apesar disso, queria ter uma boa e longa noite de sono para me recompor depois de tantas provas. Quando estava prestes a me deitar, meu celular brilhou na cabeceira. O agarrei imediatamente visualizando a mensagem de Stefanie.

Stef: Hanna Sato, certo? [22:04]

Meu coração falhou uma batida.

Eu: Isso, descobriu algo? [22:04]

Stef: Conversamos amanhã. Minha bateria vai acabar e não estou em casa. [22:05]

Eu: Espera!!! [22:05]

Eu: Pelo menos me diz se descobriu. [22:05]

Tarde demais, o único e solitário visto cinza indicava que minha mensagem não chegou a ela. Larguei o aparelho e rezei para que a ansiedade me deixasse dormir.

>>>

O sábado iniciou-se normal, tomei banho, troquei a costumeira calça do uniforme por uma bermuda e chequei a mochila mais três vezes. Esperei uma mensagem de Stefanie, todavia, mamãe me avisou que ela saiu cedo para ir trabalhar no salão.

— Parece que esqueceram de avisar ao sol que sairíamos hoje. – Kaíque segurava as cortinas e admirava o céu cinzento. Ele levou as mãos aos cabelos, prendendo-os e depois vestindo o uniforme.

Aproveitando que o garoto distanciou-se da janela, toquei o parapeito e vislumbrei as nuvens escuras. Que dia péssimo.

A chuva caiu na hora do almoço obrigando a todos a se reunirem no refeitório. As vozes misturadas, o tilintar dos talheres e o ar abafado construíram um novo cenário na API. Almocei junto da União Rebelde, reparando ser uma das poucas vezes em que Ienaga dava as caras durante o dia. Ela optou por um sanduíche, já que a comida do almoço tinha alho.

— O ônibus vai sair em quinze minutos. Melhor nos arrumarmos. – Eduardo avisou depois de olhar o celular.

— Vou ao banheiro. – Amanda deixou a mesa.

— Vou com você! – Érica a seguiu.

— Eduardo, você tirou a placa do esconderijo e apagou a lousa? – Ienaga ergueu a bolsa de seu computador portátil. Por sorte, um dos professores o consertou depois dele ter caído.

— Espera, era para eu ter feito isso? – Eduardo arregalou os olhos.

— Sim, você é o vice-líder. – a garota segurou os óculos escuros que descansavam em sua cabeça.

— E você a líder. – ele pegou a mochila em seus pés.

— Então você não fez. – Ienaga suspirou.

— Prometi que ia ajudar as meninas a guardarem as mochilas no ônibus. – Eduardo sorriu sem jeito e deu um beijo carinhoso na bochecha da amiga. – Estou indo. Guardo seu lugar.

E desapareceu por entre os inúmeros alunos que se locomoviam pelo refeitório. A água e a sujeira impregnaram-se no chão graças aos calçados que experimentaram a chuva, tornando aquele lugar um lamaçal.

— Francamente. – Ienaga balbuciou. Ela se virou para nós, notando o modo como a olhávamos. – O que foi? – ergueu as sobrancelhas.

— Ah, nada. – respondi sem graça. – É que… Eu nunca vi ele te beijar. – pigarreei.

— É normal entre melhores amigos. – ela agitou a mão e sorriu convencida.

Inconscientemente, fitei Yara de soslaio.

— Nem vem, eu não vou te beijar. – a garota retribuiu meu olhar.

— Eu não queria. – franzi as sobrancelhas.

— Deixando os beijos de lado, algum de vocês pode ir no esconderijo e… – Ienaga exclamou.

— Tô fora. – Victor colocou os fones de ouvido e nos abandonou. Por algum motivo ele ficou mais carrancudo do que o normal.

— Norte, Yara! – a líder nos encarou, os olhos passando de ferozes para pidões. – Podem tirar a placa e apagar a lousa?

— Não é só deixar lá? Não é como se alguém fosse entrar no esconderijo. – bocejei.

— A sala precisa ficar destrancada. Lembra que falamos que perdemos a chave? – ela explicou. – Como vamos sair, seria comprometedor deixar provas de que estamos usando aquele lugar.

— E por que você não vai? – Yara arqueou uma sobrancelha.

— Porque tenho que guardar o notebook. – Ienaga fez biquinho. – Quebra essa pra mim, Yarazinha! – choramingou.

— Só se prometer que nunca mais vai me chamar assim. – a garota fez uma careta.

— Prometo. – a líder sorriu travessa.

Yara suspirou, deixando claro que só aceitaria fazer aquilo por não ter nada melhor.

— Vamos, Norte.

Ienaga entregou a chave para mim e partimos rumo ao esconderijo, os alunos que passaram por nós estranharam o fato de estarmos indo na direção oposta. Esbarramos em alguns e pedimos desculpas para outros, o ar cada vez mais quente e o piso mais encardido.

Livres do congestionamento, saltamos os degraus e adentramos nosso famigerado esconderijo. Yara arrancou a placa de folha de caderno da porta, deixando somente os pedaços de fita adesiva.

A garota largou sua mochila em uma cadeira e espreguiçou-se. Fiz o mesmo, aquele peso extra estava me matando. Chacoalhei o cordão da chave e a girei na fechadura do espaço de reuniões.

Fui diretamente ao gaveteiro, abrindo-o e procurando um apagador. A luz acendeu-se, avisando que Yara entrou depois de mim. Achei uma flanela laranja manchada e julguei que aquilo estaria bom.

Senti um aperto no peito ao ter de apagar todas as anotações na lousa, desde as que estiveram ali antes de nós até as que presenciamos serem feitas. Respirei fundo, consolando-me com a ideia de que Ienaga tinha tudo guardado em outro lugar.

Yara jogou o peso do corpo para um dos pés, observando-me em minha tarefa.

— Você bem que podia me ajudar. – resmunguei.

— Não quero. Termine logo. – ordenou entediada.

Em meio a nossa distração, a porta fechou-se em um estrondo. Teria sido apenas o vento caso um notável “click” não tivesse ressoado pela sala.

— Não me diga que deixou a chave do lado de fora. – Yara arregalou os olhos.

Engoli em seco e como se confirmasse, corri para a porta, atingindo-lhe com os punhos cerrados. Pressionei a maçaneta, empalidecendo ao ver que estava trancada.

— Ei, tem gente aqui! – berrei. – Abra isso agora! Não tem graça, Ienaga!

— Isso. – a voz masculina bradou no exterior. Estressada e fervorosa. – É por terem entrado no meu quarto e aberto a janela.



Notas finais
Felipe anda descobrindo muitas coisas, mas como? Alguém irá salvá-los? Stefanie vai descobrir algo sobre a Hanna Sato? Vamos esperar pelas respostas no próximo capítulo: "A história do meu nome" Beijos. —Creeper.