Academia de Poderes Inúteis
19 A história do meu nome
Notas iniciais
Minha mão congelou-se na fria e sólida maçaneta. Os olhos faltaram saltar do rosto e o queixo só ficou no lugar por estar grudado.
— Felipe, vamos conversar. – vacilei ao dizer.
— Conversar? Agora você quer conversar? – ele disparou.
Yara empurrou-me e encostou o ouvido na superfície de madeira, perguntando em alto e bom som:
— O que pretende fazer nos prendendo aqui?
— Fazer com que aprendam uma lição. Nunca mais entrem no meu quarto.
— Como você descobriu? – tive a coragem de perguntar.
— O Informante me disse.
Automaticamente, eu e Yara sustentamos um contato visual de pura perplexidade e indignação. Meus ombros se arrepiaram e eu cerrei os dentes. Havíamos escutado aquele nome tantas vezes pela boca de Ienaga e Eduardo que mesmo sem conhecê-lo, acabamos confiando no sujeito.
— Achei que o Informante fosse nosso aliado. – sussurrei.
— Eu também. – Yara mordeu a unha do polegar. – Felipe, não pode nos deixar aqui por três dias! – gritou.
— Deviam ter pensado nisso antes de mexer comigo.
Um tilintar indicou que as chaves foram retiradas da fechadura. Apertei a maçaneta outra vez, em vão. Inquieto e furioso, chutei a porta, fazendo-a tremer.
Em meio ao pânico, o ruído de outra porta batendo invadiu meus ouvidos. Era a porta da sala das cadeiras, ou seja, a entrada do esconderijo. Felipe havia nos deixado.
— Eu não acredito que ele fez isso. – Yara usou seu braço para afastar-me da porta.
A garota estralou o pescoço e os dedos, recuou alguns passos e, inflando as bochechas, desferiu um forte e preciso chute diretamente na maçaneta. Nada aconteceu. Ela não hesitou em repetir o golpe pelo menos três vezes até a parte fina e retangular cair, o tinido ecoando pela sala.
A peguei do chão e analisei o buraco a qual pertencia, não sabendo se aquilo foi bom ou ruim. Empurrei a porta com força, todavia, ela sequer moveu-se. Inspirei e expirei tentando manter a calma que já não existia mais.
— Não sabe abrir portas com grampos? – indaguei.
Yara tateou a própria cabeça, passando os dedos por debaixo das mechas, tendo cuidado para não desmanchar seus coques laterais. Ela mordeu o lábio inferior e negou em um balançar de cabeça.
— Podemos ligar para a… – exclamei esperançoso e bati as mãos nos bolsos. Ergui as sobrancelhas ao perceber que meu aparelho não estava guardado na bermuda e sim na mochila.
— Já era. – Yara bateu as costas na porta e deslizou caindo sentada no chão. Sua mochila também ficou do lado de fora.
Incapaz de aceitar a derrota, esmurrei a porta e bradei o mais alto que pude, agarrado a ideia de que alguém nos ouviria e viria nos salvar.
— Ninguém vem até o almoxarifado. – a garota cobriu seus ouvidos.
Berrei de raiva. Cobri o rosto com as mãos e me permiti cair no chão, os membros tremendo.
— Não devíamos ter invadido o quarto dele. – falei roucamente.
— Não devíamos. Mas o fizemos. – Yara disse secamente. – São as consequências.
— E o Informante… Ele traiu a União! – levei os cotovelos aos joelhos e apoiei o peso da cabeça na mão.
— Se eu souber quem é esse cara… – ela cerrou os dentes e apertou a manga de seu uniforme, quase arrancando-a.
Nossas respirações descompassadas se estabeleceram aos poucos. As mãos agitadas iam dos cabelos para os bolsos e dos bolsos para a porta em uma tentativa falha de abri-la.
— Vão perceber que sumimos, não é? – ri de maneira nervosa, as batidas do coração tornando-se intensas.
Yara olhou para o relógio em seu pulso. 13:18.
— Os ônibus já devem ter saído. – ela resmungou.
— Mas… Os inspetores. Eles devem passar por aqui, não é? – engoli em seco.
— Vamos torcer para que sim. – Yara abraçou os joelhos, encolhendo-se.
Bati a cabeça na parede, murmurando palavras de sorte e fechando os olhos ao imaginar que em breve seríamos salvos. Não iriam se esquecer de nós. Não podiam se esquecer de nós.
Dobrei os joelhos e cruzei os braços sobre eles, colocando o rosto ali.
— Sorte, é? – Yara deu uma risada abafada. – Lembra de quando a gente se conheceu?
Ergui minimamente a cabeça, deixando óbvia minha resposta. Ela fez um sinal como se quisesse me ouvir dizer algo.
Mordi a parte interna da bochecha e cerrei os dedos, o sentimento de hesitação mesclando-se ao de constrangimento. Eu devia desculpas à ela desde o dia em que a conheci.
— D-Desculpe. – falei baixinho.
— Por? – ela queria me ver sofrer.
— Por derrubar o vaso com as cinzas da sua avó. Eu sinto muito mesmo. Devia ser muito importante para você. – foquei em suas írises escuras. – Era a sua avó… E…
— Certo, já pode parar. – Yara ergueu a mão. – Além de que, não eram as cinzas do corpo da minha avó como você está pensando. – desviou o olhar.
— Não?! – ruborizei.
— Não. Eram as cinzas do cigarro dela. – ela revirou os olhos. Fiz uma careta. – Minha avó paterna tem a mania de dizer que coisas aleatórias dão sorte. E se você pensar assim, se torna realidade.
— E se tornam mesmo? – indaguei curioso.
— Céus, você quebrou o vaso antes mesmo de entrarmos na academia. Claro que não dão sorte. Mas ela me obrigou a trazer o maldito vaso. – Yara torceu o nariz.
— Espera, quer dizer que ela ainda está viva? – fiquei boquiaberto.
— Aquela lá não morre mais. Diz que é graças às suas bugigangas de sorte. – ela reclamou. – Então, se talvez não tivéssemos nos trombado, não estaríamos nessa situação.
Tudo porque Stefanie disse que minha cabeça era grande e eu tive a necessidade de retrucar.
— Bom, você teria que guardar o vaso no seu quarto. Onde provavelmente a onda de azar da Érica o quebraria. – comentei relaxando um pouco os ombros.
— É, trocamos seis por meia dúzia. – Yara fez um biquinho. – Parece que eu teria azar de qualquer jeito nessa academia. – levantou os braços. – Não é, Norte?
Notei que eu a encarava, registrando cada detalhe seu: como as mechas de cabelo se comportavam em seu penteado, o contraste que a pele vermelha fazia com a blusa branca e os olhos escuros que brilhavam feito o céu estrelado. Automaticamente, corei e virei o rosto.
— É. – respondi acanhado.
— Então, não vai me contar a origem do seu nome?
E isso apenas piorou a vermelhidão em minhas bochechas.
— Quer mesmo saber? – balbuciei sem jeito.
— Temos tempo para isso, não temos? – ela apontou para a maçaneta quebrada.
Respirei fundo, juntando coragem. Podia contar nos dedos quantas pessoas sabiam sobre aquela história, incluindo mamãe, Stefanie e dois amigos do fundamental que se mudaram de cidade e nunca mais tive contato.
— Prometa que não irá contar para ninguém. – franzi as sobrancelhas.
— Prometo. – ela sorriu de canto.
Encabulado, estendi-lhe o dedo mindinho. Ela o analisou por um instante, mas logo apertou-o com seu próprio dedinho.
— Se você descumprir, seu dedinho irá cair. – ameacei.
— Posso viver com isso. – Yara assentiu.
Soltamos os dedinhos. Mais confiante, endireitei a postura, pigarreei e comecei:
— Voltando do consultório após descobrir que estava grávida, minha mãe foi abordada por uma vidente no centro comercial. Animada pela notícia de ter um segundo filho, mamãe aceitou uma sessão. E, bem, a vidente lhe disse algo mais ou menos assim: “você recebeu a confirmação de suas expectativas hoje, mas temo em lhe dizer que sua vida está prestes a entrar em conflito.”
Engoli em seco, esforçando-me para lembrar dos pedaços que mamãe e Stefanie me contaram. Pigarreei outra vez, a garganta seca de tanto gritar.
— A vidente estava querendo dizer que meu pai abandonaria minha mãe. E que caso ela não quisesse perder o bebê por causa do estresse e da tristeza, deveria visitar o norte do país. Mamãe se sentiu extremamente ofendida e chateada, alegando que aquilo nunca aconteceria.
— E aconteceu. – Yara afirmou.
— Aconteceu. – balancei a cabeça, sério. – Duas semanas depois, meu pai… – cerrei os dentes. – Eu não consigo chamá-lo de pai, foi mal. Vou usar o nome dele, espero que não se confunda. – massageei as têmporas. – O Rodrigo disse que não tinha como continuarem juntos. Ele fez as malas em um dia e deixou nossa casa no outro.
Eu nunca o conheci ou sequer o vi, mas sabia seu nome pelas vezes em que ouvi Stefanie xingá-lo quando simplesmente tinha raiva por ter nascido.
— Que canalha. – ela comentou indignada.
— Vendo que o que a vidente disse se realizou, minha mãe voltou ao centro para procurá-la. Porém… Não a encontrou. Com medo de me perder, mamãe resolveu fazer uma curta viagem pelo norte do país com a Stefanie.
— E então? – Yara aproximou-se um pouco, entretida.
— Ocorreu tudo bem até o oitavo mês. Só que aí minha mãe começou a ter alguns problemas que podiam me comprometer. Por isso, ela se lembrou das últimas palavras da vidente: “você fará uma promessa”. E foi o que fez. Prometeu que se eu nascesse saudável e sem complicações, meu nome seria Norte.
Conferi o rosto de Yara cujas sobrancelhas estavam erguidas e os olhos piscavam rapidamente. Imaginei que ela iria rir ou faria uma montanha de perguntas como meus amigos, todavia, a única coisa que saiu de sua boca foi:
— Eu gostei.
— Gostou?!
— É uma origem legal. – ela deu de ombros. – Exceto pela gravidez de risco. E o Rodrigo. – acrescentou em um murmúrio.
Dei uma risada abafada e estiquei as pernas que já estavam dormentes. Yara podia ser dura comigo na maioria das vezes, mas fiquei comovido por ela dizer o nome dele ao invés de chamá-lo de “meu pai”.
Ao analisar a situação, me lembrei de uma conversa que tivemos na escada há um tempo, antes mesmo de entrarmos para a União Rebelde. Voltei a olhá-la, ponderando se podia fazer aquele questionamento ou não.
— Yara. – chamei. A garota levantou a cabeça. – Posso te perguntar uma coisa?
— Vá em frente. – ela gesticulou dispersa.
— E quanto aos seus pais e a sua guarda?
As írises de Yara ficaram opacas e seu olhar perdeu o foco. Pude notar a tensão em seu corpo. Ela suspirou pesadamente e entreteu-se em arrumar a franja. Concluí que não deveria ter aberto a boca.
— Me desculpe. – resmunguei.
— Não, tudo bem. É só que… – ela encolheu os ombros. – Eu não quero ir embora de São Paulo.
— E por que iria?
Yara entreabriu a boca para responder, entretanto, foi interrompida por gritos afobados que vieram do lado de fora e uma batida forte na porta. Assustados, nos colocamos de pé e demos alguns passos para trás por precaução.
O “click” que se ouviu foi milagroso. As vozes combinadas e estridentes invadiram a sala junto de nossos colegas da União Rebelde que praticamente caíram dentro do espaço de reuniões em meio aos empurrões.
— Yara! – Érica jogou-se na colega de quarto, abraçando-a fortemente.
— Céus, vocês dois! – Ienaga pousou as mãos em meus ombros, apertando-os.
Esbocei um sorriso amarelo para a líder, aliviado por nosso resgate.
— Tivemos de parar o ônibus, sabiam? – Eduardo riu.
— Norte, você está bem? – Amanda abriu espaço entre a líder e o vice. Ofegava e tinha as bochechas coradas.
— Eu pensei que fosse ficar por aqui durante três dias. – coloquei a mão no peito, suspirando.
— Fala sério, não pensaram que não daríamos pela falta de vocês, né? – Ienaga exclamou convencida.
— C-Certo, é hora de voltar para o ônibus. Estão nos esperando. – Miguel chegou logo atrás. Usava um conjunto esportivo e um chapéu de pesca, demonstrando seu sério problema quanto a combinações de roupas.
— E bem irritados. – Eduardo adicionou em um cochicho.
— Aliás, essa sala não estava inutilizável pela falta de chaves? – o estagiário olhou ao redor.
Ienaga moveu-se rapidamente em direção a porta, os braços atrás do corpo e o som metálico indicaram que havia arrancado as chaves da fechadura.
— Você chegou atrasado. A porta estava emperrada e não trancada. – Eduardo mentiu com uma naturalidade incrível.
— E o que os dois estavam a fazer aqui? – Miguel fitou-nos. Sua expressão dizia claramente: “já se meteram em confusão antes e agora também?”.
— N-Nós… – olhei para a lousa onde restavam somente riscos mal apagados.
— Você sabe como é a juventude, não é, Miguel? – o vice me interrompeu.
Miguel arregalou os olhos, o rosto adquirindo uma coloração avermelhada e a boca abrindo-se em pura incredulidade:
— Entendem o quão errados estão? E que isso é proibido nas…
E ele iniciou um enorme, maçante e vergonhoso sermão sobre como beijar na escola era errado. Fuzilei Eduardo com o olhar, castigando-o por ter me colocado naquela situação. Ele apenas sorriu sem graça e deu de ombros.
— Nós entendemos e prometemos que nossos membros não farão mais isso. – Eduardo tomou a palavra. – Não, é? – nos encarou.
Concordei fervendo de vergonha. Pude notar as bochechas ligeiramente ruborizadas de Yara e seu breve afirmar de cabeça.
— Isso fica em segredo. Apenas dessa vez. – Miguel suspirou. – Agora devemos voltar ao ônibus, não tenho dúvidas de que nos deixariam aqui.
O estagiário foi primeiro, seguido de Victor que não demonstrava nem um pingo de felicidade ao nos resgatar e Amanda e Érica que diziam como estavam preocupadas. Antes que eu desse um passo, Ienaga estendeu o braço para me barrar.
— Achamos a chave no corredor. – ela agitou o cordão. – O que aconteceu?
— O Felipe nos trancou aqui. – Yara respondeu prontamente. – Descobriu que invadimos o quarto dele e decidiu se vingar.
— Como ele descobriu? – Eduardo ficou boquiaberto.
— O Informante. – hesitei ao revelar. – Ele disse que o Informante contou.
Ienaga e Eduardo realizaram seu costumeiro contato visual de quem compartilhava informações longe de nosso conhecimento.
— Aquele traíra! – a líder cerrou os dentes e punhos.
— Já que ele os traiu, agora temos o direito de saber quem é, não acham? – Yara foi certeira.
— Infelizmente, não é assim que as coisas funcionam. Não somos igual a ele, temos um trato e vamos cumprí-lo. – Eduardo cruzou os braços e franziu as sobrancelhas. – Ah, vamos precisar ter uma conversa séria com ele. – resmungou.
Até então, eu não via tanta necessidade em saber da verdadeira identidade do Informante, porém, a história virou outra quando ele revelou para o Felipe sobre termos invadido seu quarto. Um peso saiu de um dos meus ombros e foi para o outro.
— Melhor a gente ir. – Ienaga subiu o zíper de sua jaqueta. – Pelo menos, Felipe vai espumar quando ver vocês. E isso vai ser engraçado.
Passamos pelas escadas e corredores vazios e deixamos o hall de entrada. A chuva havia parado e a poças se acumularam pelo chão. Meu pé afundou-se na grama molhada e eu me arrependi profundamente por estar usando All Star para ir a um acampamento.
Ao ultrapassar o limite dos portões, demos de cara com um ônibus de viagem e alunos zangados espiando pelas janelas. Na porta, Heitor bocejava despreocupadamente.
Eduardo sussurrou para nós que os outros dois ônibus seguiram na frente e comentou sobre o azar de estarmos justo no que o diretor estava.
— Resgatou eles, Miguel? – o homem nos lançou um olhar crítico. – Espera, vocês de novo?! Quanto trabalho pretendem me dar ainda?
Eu quis sumir dali, mas como não podia, simplesmente afundei a cabeça nos ombros e me ocupei em ajeitar a alça da mochila.
— Senhor! – Miguel o repreendeu.
— É, que se dane. Entrem, entrem. – Heitor gesticulou rapidamente. – Acelera! – gritou ao motorista e bateu na carcaça do ônibus.
Caminhei pelo corredor apertado tendo cuidado para não esbarrar em nada ou em ninguém. Os alunos acomodados torceram os narizes e franziram o cenho ao me verem passar.
— Mandou bem, União. – Bianca resmungou, parando por um momento de ajeitar seu laço. Estava vestida de escoteira.
Ienaga não se importou muito com a parte de ter cuidado. Dava passos largos e apoiava-se onde desse na telha, tipo o bagageiro ou a cabeça dos outros passageiros.
— Yara, senta comigo! – Érica acenou do fundo do ônibus.
A garota de coques guardou sua mochila e instalou-se ao lado da amiga. No par de bancos atrás, jogaram-se Ienaga e Eduardo. Girei a cabeça procurando por um lugar vago.
— Norte, aqui!
A poucos passos de distância, a mão de Amanda erguia-se acima da cabeça em um movimento animado. Assim que a vi, o ônibus deu a partida e o solavanco súbito me fez tropeçar.
Queimando de vergonha, pedi desculpas para o garoto em quem tinha tropeçado e sentei-me junto da garota de rabo-de-cavalo.
— Valeu. – comentei e coloquei a mochila no bagageiro. – Mas… Você não devia estar com o Victor?
— Ah, o Victor preferiu sentar perto dos amigos dele. – usou o polegar para indicar o fundo.
Segui para onde ela apontava, vislumbrando Victor e outros três garotos jogando truco e conversando. Nunca passou pela minha cabeça que ele fosse capaz de ter outros amigos. Mas eu não podia dizer muita coisa.
— A gente vai se divertir no acampamento, né? – Amanda sorriu empolgada.
Inclinei um pouco o corpo a fim de apreciar a paisagem emoldurada pela janela. Árvores iam surgindo aos poucos e sendo deixadas para trás em um borrão, juntamente a placas e cercas de metal. O asfalto se encontrava mais escuro por causa da chuva e as nuvens cinzentas dissipavam-se aos poucos.
Eu e Amanda jogamos conversa fora no trajeto de uma hora. Em meio a nossos comentários, fiquei pensando em qual parte do caminho se deram conta de nosso sumiço e o quanto tiveram que voltar. Parecendo ler meus pensamentos, a garota cochichou:
— Fiquei preocupada quando não te vi em lugar nenhum. Estávamos a uns quinze minutos de distância e eu finalmente tinha parado de discutir com o Victor. Foi aí que reparei o lugar vazio ao meu lado e ao de Érica.
Ruborizei e virei o rosto por um instante na direção das duas colegas de quarto. Yara e Érica dividiam um fone enquanto assistiam algo no celular.
— Mas a Ienaga foi mais rápida… Assim que pensei em me levantar, ela já estava gritando para pararem o ônibus. – Amanda riu e encolheu os ombros.
Dei um meio sorriso e mastiguei o chiclete de hortelã que a garota havia me dado. Ela correspondeu o sorriso e espreguiçou-se, liberando um curto bocejo.
— Ei… – me cutucou. – Se importa de me emprestar seu ombro?
— Emprestar o quê? – fiz uma careta.
— Quero dormir um pouco. – Amanda deitou a cabeça em meu ombro e os cabelos sedosos caíram por meu braço.
A garota fechou os olhos de modo suave e os lábios rosados se entreabriram em uma respiração mansa. Sinto que fiquei mais vermelho do que deveria e rezei para que Victor estivesse devidamente entretido em sua partida de truco.
Queria dizer que consegui relaxar e tirar um cochilo também, mas foi completamente o contrário. Era mais desconfortável do que eu pensava ter alguém dormindo em seu ombro.
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O ronco do motor cessou e o ônibus parou de tremer, anunciando nossa chegada ao local. Minhas pernas e ombro já não existiam mais por debaixo do formigamento doloroso, então foi de grande alívio ver a porta se abrir e os alunos recolherem as mochilas do bagageiro.
Acordei Amanda com um toque e ela afastou-se automaticamente, assustada e com um fio de saliva escorrendo pelo queixo. Ri um pouco vendo-a esfregar os olhos feito uma criança sonolenta e cambaleando ao levantar-se.
— Ei, quem descer por último é a mulher do padre! – Eduardo bateu em meu banco e avançou pelo estreito corredor sem se importar em esbarrar nas pessoas.
— Isso não tem graça. – Ienaga passou murmurando por nós. Havia colocado óculos escuros e um sombreiro.
— Eu não quero ser a mulher do padre! – Érica pulou por cima das pernas de Yara e correu atrás de Eduardo, a mochila gigantesca balançando de um lado para o outro nas costas.
— O padre não tem mulher, idiotas. – resmunguei e recolhi minha mochila.
Prestes a seguir pelo corredor, alguém esbarrou em minhas costas. Soltei um grunhido em protesto e olhei para trás, arrependendo-me instantaneamente.
— Não pense que eu não estou de olho em você, loiro oxigenado. – Victor cerrou os dentes e ultrapassou-me imponente.
— Não ligue para ele. – Amanda revirou os olhos. – Vamos?
Meus pés alcançaram o chão lamacento ao saltar da escada do ônibus e pude imediatamente inalar o cheiro de terra molhada e escutar o canto distante dos passarinhos.
Ao lado de nosso ônibus, haviam outros dois estacionados e vazios. Poucos metros a frente, um alambrado prateado contava com uma cerca elétrica e um portão repleto de placas que indicavam que aquela era uma propriedade privada. Atrás das barras de ferro, árvores enormes de troncos grossos e copas vívidas estendiam-se até onde os olhos podiam ver.
— Muito bem, vamos entrar agora. – o diretor bradou e bateu as mãos atraindo a atenção de todos. – E já aviso que quem se perder do grupo vai virar comida de teiú!
Seriam longos três dias.
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