Notas iniciais
Oie! Pessoal, meu notebook está passando por umas limpezas, então se eu não postar em algum final de semana desse mês, esse pode ter sido o motivo, okay? Tenham uma boa leitura ♥!

Um guarda trajando uniforme bege destrancou o cadeado e desenrolou a corrente, abrindo o portão para nós. Heitor foi na frente, conduzindo-nos de braços abertos e Miguel se encarregou de nos vigiar por trás.

Em meio ao amontoado de alunos, acabei perdendo o restante da União de vista, exceto por Amanda que mantinha-se ao meu lado e olhava tudo ao redor com um semblante de admiração.

Uma comoção se formou perto de Heitor, fazendo com que a fila irregular parasse de andar. Fiquei nas pontas dos pés e inclinei a cabeça para entender o que estava acontecendo e meus olhos reviraram fortemente ao constatar que se tratava de Bianca reclamando da lama em seus tênis de marca e de um possível ataque de mosquitos. Uma das garotas de seu grupo forçou um sorriso e empurrou a amiga para fora do caminho.

Livres do ocorrido, seguimos caminho tomando cuidado para não afundar os pés na lama e por fim nos reunimos aos outros dois grupos. Destacado no meio de um deles, Felipe tinha os braços cruzados e o cenho franzido.

Assim que a fila em que eu me meti se separou, a cabeça do garoto virou em minha direção por um segundo. Depois, para conferir que não estava louco, voltou-a novamente e empalideceu ao me encarar. Sua surpresa durou pouco, logo sendo substituída por uma raiva inconsolável. Franzi as sobrancelhas e virei o rosto.

— Certo, cambada reunida. – a voz do diretor ecoou. – Tenho algumas coisas para explicar. – pigarreou e subiu em um toco de madeira.

Rodeamos o homem, dividindo-nos em carregar feições de entusiasmo ou puro tédio. Ele arrancou um papel amassado do bolso da bermuda e o desdobrou ruidosamente, estalando-o e afastando-o do rosto para ler. Alguém entregou-lhe um megafone branco e vermelho e ele o ligou, provocando um ruído agudo e ensurdecedor misturado a um chiado infernal.

— Para início de conversa, montaremos as barracas aqui. – anunciou e usou o indicador para apontar o chão.

Tive de cobrir um dos ouvidos para não comprometer minha audição.

— Não temos barraca! – um garoto ergueu a mão.

— Vocês não, mas nós sim. – Heitor gesticulou para uma mulher e um homem que desmontavam uma pilha de lonas enroladas. – Lembrem-se que compartilharão as barracas com seus colegas de quarto.

Meus ombros caíram de frustração. Havia cogitado a mínima ideia de ficar longe de Kaíque por pelo menos três dias.

— Ora, ora, ora.

Ao meu lado, o garoto de cabelos medianos deu um sorriso de falsa pena, assustando-me com sua chegada.

— Chegou atrasado, garoto espirro. Ouvi alguns alunos dizerem que você se prendeu com a gracinha para…

— Segundo! – Heitor cortou os murmúrios. – Barracas das garotas de um lado e dos garotos do outro. A cinco metros tem dois banheiros com cabines e chuveiros. Assim como a divisão das barracas, as garotas ficam com o da esquerda e os garotos com o da direita.

— Escutou, né, Norte? – Kaíque sussurrou em meu ouvido.

— Vem cá, que tal você calar a boca? – rebati estressado.

Ele ergueu as mãos e abaixou um pouco a cabeça sem esconder o sorriso presunçoso.

Heitor continuou a falar sobre o horário das refeições e toque de recolher, além das atividades que teríamos. Por fim, assoviou e fez um sinal exagerado com o braço, o que atraiu três mulheres e dois homens em volta do toco.

— Esses cinco serão os inspetores do acampamento. – o diretor bocejou. – Conheçam minha equipe do R.C.E., começando com a Bárbara, vice-chefe.

A mulher de coque frouxo deu um passo à frente. Tinha olheiras profundas e olhos caídos cor de mel. Usava roupas leves debaixo de um cardigã bege.

— Letícia, secretária. – Heitor prosseguiu.

Letícia tinha volumosos cabelos pretos, trajava um conjunto brilhante e a boca era marcada pelo brilho labial. Os garotos ao meu redor assoviaram e trocaram cotoveladas.

— Vitória, assistente.

A terceira mulher era a mais nova entre elas. Marchou, a postura ereta e o peito cheio. O rabo-de-cavalo firme foi preso por um laço amarelo que combinava com seu macacão engomado.

— Miguel que vocês já conhecem. – o homem disse sem ânimo.

O estagiário acenou envergonhado.

— E Fábio, publicitário.

Assim que o homem projetou-se para frente, a informação veio feito um tapa em minha cabeça. A imagem piscou diante de meus olhos, materializando o print do perfil do Facebook que Stefanie me mandou uma vez.

O mesmo penteado no cabelo louro escuro, o mesmo nome e o mesmo cargo. Se tratava de Fábio Almeida, o cara que estava saindo com minha mãe.

— Eles são os responsáveis por vocês. – Heitor ditou. – Agora, comecem a montar o acampamento.

Foi impossível montar alguma barraca com a presença daquele homem. E eu não estava nem me referindo ao Heitor, mas sim ao Fábio. Ele auxiliava alguns garotos a ajustar a estrutura de metal e por fim colocar a lona por cima, facilitando todo o processo. Os garotos sorriram animados e trocaram high-fives com o adulto como se fossem melhores amigos.

— Tsc. – joguei as varetas prateadas no chão.

— O que foi, não sabe montar uma barraca?

A alguns passos, Yara observava meu progresso, o desdém estampado em sua face.

— Eu sei. – resmunguei.

Irritado, procurei por Kaíque que deveria estar me ajudando, mas ao invés disso preferiu matar o tempo em algum canto.

— Tem que parar de deixar tão na cara. – Yara recolheu as varetas, instantaneamente mudando a cor delas.

— Deixar na cara o quê? – me senti envergonhado.

— Que não gostou do Fábio. Você está olhando feio para ele desde a apresentação. – a garota puxou a lona com o pé, estendendo-a no chão.

— Não estou… – balbuciei. Okay, não adiantava mentir para Yara. – Você guarda segredo?

Yara revirou os olhos e fez um gesto para que eu prosseguisse. Agachou-se no chão e começou a conectar as varetas, resolvi imitá-la para acelerar o trabalho que eu e Kaíque deveríamos estar fazendo.

— Ele e minha mãe estão saindo. – sussurrei incomodado.

— Ah, ciúmes. – Yara ergueu as sobrancelhas.

— Não é ciúmes. – minha voz saiu esganiçada.

— Você quer a minha opinião? – ela puxou a barraca e inseriu as varetas dentro das abas. Repeti seu movimento, um pouco mais desengonçado.

— Não. – respondi encabulado.

— Mas eu vou dar mesmo assim. – Yara levantou-se, levando a barraca para cima. Outra vez, a imitei. – Está assustado com a possibilidade da sua mãe, a mulher de quem teve toda a atenção por quinze anos, se envolver com outra pessoa e ter menos tempo para você.

Era exatamente isso, entretanto, eu não iria concordar com ela.

— Claro que não! – retruquei indignado.

Voltamos ao chão, cada um se ocupando em prender as estacas de metal entre as abas exteriores da barraca e fincá-las no chão. Foi consideravelmente fácil por a terra estar molhada.

— Escuta, Norte. – ela suspirou. – O amor que sua mãe tem por você é diferente do que ela pode vir a ter por esse cara. Ninguém vai tomar seu lugar.

Essa frase teve o mesmo efeito de um soco no estômago, levando-me de volta à realidade. O misto de hesitação e insegurança viraram um nó em minha garganta.

Nos erguemos outra vez e puxamos a cobertura azul escura (que tornou-se verde-musgo) para cima da barraca, dando-lhe uma proteção extra.

— Digo por experiência própria. – Yara balbuciou.

Ergui a cabeça em um impulso, me dando conta do quão pouco sabia sobre Yara. Tinha noção de que adorava caldo-de-cana, era boa na maioria dos jogos e dormia com uma vaquinha de pelúcia. Fora isso, ela sequer tocava no assunto sobre os pais ou a amiga falecida da antiga escola. Refleti se podia perguntar sobre sua situação ou se isso a deixaria constrangida ou irritada.

— Céus… Você… – entreabri os lábios sem ter uma frase formulada.

— Eu? – ela colocou uma mão na cintura.

— É quase indecifrável. – disparei inconsciente.

— Há coisas que não tem porquê dizer. – Yara testou o zíper da barraca.

— E isso não te deixa mal? Sufocada? – engoli em seco.

— Se você quer saber… – ela ficou ereta, a distância entre nós medida por poucos centímetros. – Não mais.

— Não precisa guardar tudo para si. – murmurei. – Eu… – ruborizei. – Olha…

Tudo o que eu quis dizer pareceu sumir de minha boca. Desejava falar que ela podia confiar em mim, que eu a escutaria e tentaria ajudá-la como ela sempre fazia comigo. Queria mostrar que era… Um amigo.

— E você é quase transparente. – Yara conteve uma risada.

— O que quer dizer? – minhas bochechas ferverem.

— Yara!

Ao longe, a garota de cabelos azuis acenava com uma mão e com a outra formava uma meia concha em volta da boca. Yara não se deu ao trabalho de me responder, despediu-se e correu ao encontro de Érica.

— Transparente? – sussurrei.

Minha reflexão foi interrompida pelo barulho agudo e o chiado do megafone sendo ligado. Heitor voltara para o toco, virando o foco dos alunos outra vez.

— As atividades previstas para hoje não podem ser realizadas por motivos de: lama, chuva, terra molhada, lama. E eu não quero alguém reclamando de tornozelo torcido ou algo do tipo. Então, irei fazer um teste com todos.

Vitória marchou novamente até o toco, deu um papel para o diretor e bateu uma desnecessária continência.

— Vocês sabem por que viemos aqui, não é? Para vermos se estão aptos a voltarem para casa, viverem em sociedade e blá blá blá. – Heitor revirou os olhos. – Por isso, quero saber quais seriam suas reações em algumas situações. Garoto dos piercings na orelha, se alguém mexesse com você na rua, o que você faria?

Todos voltaram seu olhar para o tal garoto dos piercings que mantinha os braços cruzados.

— Eu obviamente quebraria o sujeito. – Victor respondeu indiferente.

— Com o seu poder? – indagou o diretor.

— Não. – o garoto arqueou uma sobrancelha.

— Ótimo, aprovado. Fábio, dê um adesivo sorridente para ele. – Heitor ordenou.

Fábio abriu uma cartela de adesivos redondos e amarelos, colando um no uniforme de Victor. O garoto fez uma careta descontente.

— Esses adesivos definirão sua saída para as férias ou não. – o diretor berrou no megafone. – Precisam de no mínimo três para um resultado positivo. Podem ganhá-los por bom comportamento.

Os burburinhos espalharam-se junto a risadas.

— Próxima pergunta, se forem abordados por um repórter, o que fazem? Garota do cabelo rosa, sua vez.

Bianca saltou e pousou a mão no peito em um ato exagerado de glamour. Ela sorriu de orelha a orelha e jogou as madeixas para trás, exclamando:

— Óbvio que eu daria uma entrevista com todos os detalhes!

— Reprovada. Letícia, coloque um adesivo raivoso nela. Vocês ganham um desse a cada penalidade, se conseguirem cinco, tchau tchau férias.

Letícia puxou sua cartela de adesivos redondos e vermelhos, fixando-o gentilmente no uniforme da garota. Bianca ficou boquiaberta de indignação, alegando que aquilo era um engano.

— Regras são regras. – Letícia mandou uma piscadela.

— Seus poderes saem do controle em um lugar público, o que você faz, garota do cabelo azul? Meu Deus, todo mundo aqui tem o cabelo pintado?

— E-Eu… – Érica arregalou os olhos. – Eu procuro algum lugar para me esconder e ligo para meus pais me buscarem. – abaixou a cabeça.

— Perfeito, adesivo sorridente. – Heitor assentiu. – Vejamos… Algum estranho tenta se passar por uma autoridade e diz que quer levá-los para uma pesquisa. E aí, garota de sombreiro?

Ienaga destacou-se no meio da multidão pigarreando e iniciando um curto discurso:

— Eu finjo que acredito, vou com ele, descubro seus planos e no momento certo o prendo e o entrego para a polícia por tentar sequestrar uma adolescente.

— Óbvio que não, você não deve seguir estranhos, menina louca. – o diretor franziu o cenho – Dê dois adesivos raivosos, essa mereceu.

A líder bufou ao ganhar as duas formas redondas e vermelhas em seu uniforme. Passando o braço por seus ombros, Eduardo riu discretamente.

— Continuando… Alguém descobre que vocês têm poderes e pede uma demonstração. Garoto loiro da raiz aparecendo, qual sua resposta?

Demorei para entender que se tratava de mim e todos os olhares me cercavam. Engoli em seco, formulando uma resposta no mínimo satisfatória e merecedora de um adesivo sorridente:

— Eu nego e… Me afasto.

— É, bom. Fábio, dê uma carinha feliz para ele.

O homem aproximou-se de mim, assoviou ao destacar o adesivo da cartela e colou-o firmemente em meu peito. Antes de se afastar, demonstrou um sorriso cúmplice. Imaginei se ele sabia quem eu era ou só estava tentando ser legal.

As perguntas se seguiram por pelo menos mais dez minutos, metade dos alunos havia conquistado adesivos e a outra metade poderia ganhá-los mais tarde em outra sessão de perguntas. Cutuquei a carinha sorridente em meu uniforme e torci a boca ao lembrar-me de como Fábio colocou-a ali.

— Dá para acreditar? – Ienaga reclamava de seus adesivos vermelhos.

— Às vezes, sua genialidade é grande demais para as pessoas à sua volta. – Eduardo brincou e colocou uma quantidade generosa de protetor solar em sua mão. – Vire para mim.

Ienaga inflou as bochechas e aproximou seu rosto ao de Eduardo, fechando levemente os olhos. O vice-líder sorriu e espalhou o protetor solar pela pele da garota, acumulando-o no nariz e maçãs do rosto. Ela soltou o ar que prendia nas bochechas, assemelhando-se a uma criança birrenta.

— Não vai arder tanto agora. – Eduardo soprou e levantou minimamente o sombreiro da líder.

Me senti deslocado com a intimidade dos dois. Estávamos sentados em troncos de madeira dispostos por toda a área do acampamento. Na extremidade do banco improvisado, Yara desenhava algo na terra com um graveto. O aperto em meu peito foi inexplicável.

— Mudando de assunto. – Ienaga colocou seus óculos escuros. – Não sei se perceberam, mas o Felipe está com sangue nos olhos.

— É, eu percebi. – Yara respondeu baixinho.

Próximo às árvores Felipe fugia de um grupo de pombos que aparentemente o seguira desde a academia. Ele gritava e abaixava-se enquanto Ana Carolina os espantava com uma revista dobrada. Bianca ria e fotografava tudo. Havia surtado por não ter internet ou sinal ali, sendo privada de postar stories, todavia, resolveu voltar à “moda antiga” e somente fotografar para publicar em outra oportunidade.

Falando em sinal, puxei meu celular. A bateria estava cheia, mas em contrapartida o triângulo vazio de sinal me impedia de usar o 4G ou ligar para minha família. A ansiedade quanto ao que Stefanie tinha ou não para me dizer consumia-me.

O céu decidiu empalidecer de vez e as nuvens amontoaram-se escuras e pesadas, ameaçando derrubar uma chuva tenebrosa a qualquer momento. Em diversas áreas do acampamento Heitor caminhava com o mesmo papel em mãos e disparava perguntas para alunos aleatórios, dando-lhes um adesivo amarelo ou vermelho.

Para nos manter distraídos, Vitória tratou de nos ensinar a dar nós em uma corda e como usar uma bússola, alegando que isso sim era uma atividade de acampamento, o que ela não notou foi que ninguém estava realmente interessado. Do outro lado Fábio e Miguel iam e voltavam de algum lugar atrás das árvores carregando bacias cheias de canecas de plástico e galões de suco, pois a hora do lanche se aproximava.

— Esfriou, não acham?

Alguém sentou-se perto de mim, as pernas passando primeiro pelo tronco e os joelhos protegidos pela calça dobrando-se. De soslaio, vi Amanda erguer o zíper da jaqueta preta de tactel que fazia parte do uniforme.

— Acho e espero que amanhã seja melhor do que hoje. – Eduardo jogou seu pedaço de corda no colo de Ienaga. – Se estivesse calor, poderíamos nadar no rio e o Norte ia realizar o sonho de todo mundo de vê-lo de sunga. – brincou.

— Parei de usar sunga quando tinha dez anos. – desviei o olhar, ruborizando. – E espera aí, todo mundo q...

— Não sabem o que eu ouvi! – Érica chegou ofegante e exibindo um sorriso.

— Não sabemos. – Ienaga assentiu interessada.

— Eu estava no banheiro enquanto algumas garotas conversavam por lá. – ela acomodou-se próxima de Yara. – Amanhã à noite haverá uma caça à bandeira. – sussurrou.

— Ei!

Érica deu um sobressalto e soltou um gritinho esganiçado. Atrás de si, Fábio e Miguel seguravam as bacias e galões tendo os narizes torcidos e as sobrancelhas arqueadas.

— Devia ser uma surpresa. – Miguel fez biquinho.

— Aposto que a Bárbara e a Letícia contaram para algumas meninas. – Fábio suspirou.

— E agora? Deveríamos dar um adesivo raivoso por essa inflação? – o estagiário indicou Érica com a cabeça.

Fábio analisou a garota da cabeça aos pés, por fim soltou uma risada abafada e focou no colega de trabalho:

— Não podemos penalizar os adolescentes por fofocarem. Só não contem para mais ninguém, ouviram?

Confirmamos em silêncio. O homem seguiu em frente, cantarolando.

— Espera, estás a dizer para fazermos vista grossa? – Miguel correu atrás dele.

Após o lanche, tivemos uma pausa de 40 minutos e fomos instruídos a começar a formar as filas para o banho. Entrei na minha barraca para pegar a toalha e uma muda de roupa, encontrando Kaíque olhando para o teto e mordiscando um pedaço de capim. Imaginei se ele não iria para a fila.

Tomei um banho rápido e frio (única opção, esperava não ficar gripado) sob as ordens apressadas dos outros garotos que também queriam usar o chuveiro. Coloquei a toalha nos ombros e deixei a cabine, trombando-me com um baixinho que cheirava fortemente a sabonete. Sustentamos um contato visual por um segundo, imediatamente desviando e fingindo que não tínhamos nada para tratar.

Não podia denunciar Felipe sem me denunciar também. Acho que ali, no meio de pelo menos outros vinte garotos seminus e barulhentos, firmamos um acordo. Um acordo de guerra fria.

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A primeira noite foi construída pelo coaxar dos sapos, o cricrilar dos grilos, os gritos dos garotos quando perdiam no jogo de cartas (e logo censuravam a si mesmos com “shhhs!” mais altos que os próprios berros) e zíperes abrindo e se fechando, tornando óbvio que alguns ousavam visitar a área das meninas para você-sabe-o-quê ou tinham um problema sério de bexiga.

A cabeça de Kaíque pendia para o lado juntamente com a camiseta que ele usava para cobrir a vista. Nela ostentava um adesivo amarelo e dois vermelhos. Até poucos minutos utilizava uma lanterna para iluminar sua revista em quadrinhos.

Me remexi debaixo do cobertor. As costas doíam pela posição e o contato com o chão barrado somente pela lona fria.

Não conseguia dormir pela falta de conforto e pelos sons externos, além dos devaneios que transbordavam em minha mente. A conversa com Yara rodopiava em loop dentro da minha cabeça, cravando estacas frias de realidade em meu coração. Não seria capaz de absorver suas palavras até ter contato com minha mãe novamente e muito menos relaxar estando tão próximo de Fábio.

Devo ter pego no sono às três da manhã, sendo acordado pelo barulho ensurdecedor de uma buzina e um panelaço improvisado às sete. Todos saíram de suas barracas no mínimo assustados e atordoados, recebendo mandamentos de estarmos prontos em uma hora para tomar café e iniciar o dia com uma trilha.

Meus olhos semicerrados e cansados observaram o céu de um azul desbotado e presenteado por pequenos raios de sol, não haveria nenhum vestígio de chuva se não fosse a terra ainda úmida e o cheiro forte de carvalho. No caminho para os banheiros, alguns garotos mexeram com as garotas por causa de seus pijamas curtos, sendo imediatamente retribuídos por toalhadas no rosto ou frascos de shampoo na testa.

O único sinal que tive das garotas da União foi depois do café enquanto amarrávamos nossos tênis e passávamos protetor solar para entrarmos na trilha guiada por Vitória.

— Olhem por onde andam! – a assistente ditou ao longe. – Expirem e inspirem e aproveitem a paisagem! Mas com cuidado, a floresta pode ser perigosa!

— Ela diz como se algum animal fosse cair em cima de nós. – Bianca riu convencida. – Esse lugar é protegido e regularmente cuidado, não deve ter…

Sua fala foi interrompida por um vulto marrom aterrissando em seu cabelo. Ela freou os pés, barrando toda a fila atrás dela. Houve um momento de paralisação e todas as vozes se cessaram abruptamente diante do que havia na cabeça de Bianca.

Sem poder se conter por nem mais um segundo, a garota berrou de modo estridente, agitando os pássaros que descansavam nas árvores e fazendo-os voar para longe.

Toda minha exaustão partiu-se ao perceber que outros vultos de cor marrom atingiam as cabeças, rostos ou ombros dos alunos na trilha, produzindo gritos escandalosos ou risadas esganiçadas. Vitória assoprava seu apito sem parar e gesticulava bruscamente para nos acalmarmos.

— Tá chovendo calango! – alguém gritou atrás de mim.

Algo acertou meu ombro e eu instintivamente afastei-o em um tapa, os dentes cerrados de aflição e o semblante alerta. Procurei o que havia tocado, achando um galho em meus pés. Olhando ao redor, as pessoas continham galhos enroscados em seus cabelos e roupas e somente Bianca lutava com um calango de verdade. Ou melhor, dava pulinhos sem sair do lugar enquanto sua amiga tentava tocar o bicho.

— Ha, obrigado por isso! – uma voz ecoou do alto.

Erguendo o rosto, vislumbrei o garoto de cabelos medianos sentado no galho de uma árvore gargalhando e segurando um punhado de gravetos. Ele retirou seus headphones amarelos, descansando-os no pescoço.

— Tinha que ser você! – Bianca bufou.

— Vocês estavam precisando de um pouco de diversão. – Kaíque jogou o restante dos gravetos no ar.

— Ei, você! Não pode subir aí! – Vitória abriu caminho por entre os alunos. – E não pode jogar um animal da floresta em uma colega!

— Menos mal, ela não é minha colega. – o garoto deu de ombros, colocou as mãos no galho e jogou o corpo para trás, pendurando-se até tocar o chão.

Vitória soltou o ar pelo nariz e em um movimento pesado tirou a cartela de adesivos de seu cinto, plantando um vermelho bem no meio do peito de Kaíque.

— Vamos continuar a trilha! – a assistente virou-se para frente marchando. Ela apenas não percebeu que tinha um calango em suas costas.



Notas finais
Vai ser uma guerra fria mesmo? Ienaga vai conseguir os adesivos sorridentes necessários? O que podemos esperar dessa caça à bandeira? Vamos conferir no próximo capítulo: "Temos uma fofoqueira entre nós" Beijos. —Creeper.