Notas iniciais
Oie! Espero que tenham tido uma ótima semana ♥, agradeço a quem está acompanhando a história até aqui, vocês são demais. Tenham uma boa leitura.

As unhas de Amanda cravaram-se em meu braço, mas eu não consegui sentir dor naquele instante. A garota encarava fixamente o irmão que se mantinha assustadoramente quieto e congelado na posição em que levou o tapa. Ienaga estava séria, não sei se havia reprovado ou aprovado a atitude do vice-líder cujo peito subia e descia sob a respiração descompassada.

— Nunca mais nos chame de ratos de laboratório. – Eduardo sibilou.

A tensão acumulou-se no ar e em um piscar de olhos, Victor revidou. Um soco na lateral do rosto de Eduardo foi o bastante para o derrubar.

Amanda berrou e ordenou que o irmão parasse, todavia, os garotos estavam no chão entre o gaveteiro e a mesa, desferindo socos, joelhadas, grunhidos e xingamentos.

— Não, isso não... – Érica murmurava em pânico. Não tinha muito para se quebrar no espaço de reuniões, então eu esperava que sua onda não nos afetasse diretamente.

Ledo engano.

O gaveteiro tombou com o chute de um dos garotos e o notebook escorregou de encontro ao piso, estalando ruidosamente. Ainda fitando o aparelho, escutei Ienaga emitir um grito entredentes que eu assimilei ser de dor. Desviei o olhar, encontrando o pé da líder sob o móvel de ferro.

Me movi rapidamente para ajudá-la, esquecendo por um segundo que Amanda tinha as unhas em meu braço. Tarde demais, cinco arranhões ensanguentados foram desenhados por minha pele, ardendo logo em seguida. Praguejei baixinho e foquei-me no mais importante: puxar o gaveteiro por duas de suas quinas.

O peso fez-se maior do que aparentava ser, mas tornou-se suportável de repente. Ao meu lado, Yara ajudava-me a puxar o móvel sem dizer nada.

A líder foi liberta e imediatamente jogou seu chinelo para longe, conferindo os dedos prensados. Fechei os olhos fortemente, evitando registrar a cena, contudo, tive de abri-los ao ouvir outro berro de Amanda que ainda tentava apartar a briga.

— Para, Victor, para! – ela dobrou os braços por debaixo das axilas do irmão e o puxou para trás, afastando-o de Eduardo.

O vice cuspiu uma mistura de sangue e saliva e limpou o suor do rosto com o antebraço, sua face repleta de cortes vermelhos demonstrava total raiva.

— Eduardo. Chega. – Ienaga ordenou, a voz vacilante de dor.

Do outro lado, Érica segurava a cabeça com as mãos, curvada e murmurando “não, não, não” repetidas vezes.

— A onda. – Yara balbuciou e olhou de soslaio para o pé da líder, assustada.

Meu maxilar doía pelo tanto que rangi meus dentes. Os garotos disparavam ofensas, Amanda gritava, Ienaga tentava-se manter de pé e Yara voltou para acalmar Érica

“Está tudo errado. Errado. Errado. Isso é errado. Nós somos errados.”, esse pensamento fez minha cabeça zunir.

Erros. Erros. E mais erros.

Em uma dose súbita de adrenalina, espalmei as mãos na mesa em um estalo ardido e coloquei um pé nela. Ignorei a falta de equilíbrio e coloquei o outro, enfim levantando-me para chamar a atenção do grupo.

Respirei fundo, as palavras tornaram-se um bolo em minha garganta, implorando para saírem ao mesmo tempo em que tinham medo de serem expostas. Meu estômago embrulhou de aflição e insegurança, mas eu precisava vomitar aquilo.

— Que droga de União é essa?! – bradei exaltado. – Já foi um sacrifício conseguir membros e vocês ainda querem brigar com os que temos? Assim nunca vamos conseguir por um fim nisso! – eu berrava tão furiosamente que mal reconhecia minha voz. – Fizemos uma decisão, não foi? A decisão de nos unirmos nesse grupo e lutarmos pela nossa liberdade. E daí se somos ratos de maternidade? Caramba, que se dane! Pelo menos fomos atrás de respostas, diferente dos adultos!

O sangue bombeava em meus ouvidos e as palavras saíam feito uma enxurrada, ultrapassando qualquer filtro de educação. Eu só precisava gritar, só precisava que me ouvissem.

— Nós vamos ter nossa vida normal de volta. E é a pseudo morta Hanna que nos dará. Ela queira ou não. – cerrei os punhos.

A queimação em minhas narinas não era vontade de chorar, por mais que eu achasse que tinha lágrimas de raiva acumuladas. Pelo contrário, o espirro veio rápido e certeiro, transformando-se em uma pequena chama que evaporou no ar. A fumaça e o cheiro de queimado foram as únicas coisas que restaram, mas o suficiente para acionar os sprinklers no teto, já que minha subida na mesa acidentalmente me aproximou deles.

Houve um apito e os rápidos esguichos de água fria dominaram cada canto do espaço de reuniões, molhando nossas roupas, peles e cabelos. Fechei os olhos, a sensação de refrescância entrando em choque com a camada morna de suor.

“Quanto tempo até um inspetor chegar aqui?”, esse pensamento distanciou-se em minha mente.

Uma risada me fez abrir os olhos. Abaixo de mim, Eduardo sustentava o corpo no antebraço esquerdo dobrado no chão e tocava sua testa com a mão direita, cobrindo uma ferida aberta. Sua boca estava curvada, demonstrando seu riso.

— Você disse ratos de maternidade. – seus olhos fitaram o nada. – Bom, é melhor do que de laboratório.

Pisquei brevemente ainda atordoado por ter gritado e acionado os splinklers. Não costumava me exaltar, talvez isso explicasse o porquê do meu corpo estar tremendo e do meu coração ter acelerado tanto.

— Eu estava precisando disso. – Eduardo penteou os cachos úmidos para trás. – Deus, eu perdi mesmo a cabeça, né? – inclinou o rosto para cima.

— Ah, você acha? – Ienaga sentou-se pesadamente no chão.

— Tsc. – Victor descansava os cotovelos nos joelhos e tinha Amanda ajoelhada ao seu lado. – Se vai começar uma briga, é melhor ser bom. Você bate muito mal.

Apesar da frase, o garoto tinha um corte na sobrancelha e outro no lábio.

— Eu deixo você ter razão dessa vez. – Eduardo suspirou. – Aproveite, será a única. – adicionou em um sussurro e deitou-se no chão molhado.

Érica concentrava-se em acalmar sua respiração enquanto afastava os cabelos grudados em sua testa, já Yara me encarava de queixo erguido, balançando a cabeça lentamente. Encolhi os ombros e abri e fechei os punhos, fitando-a de volta com certa determinação.

— Todos dispensados. – Ienaga ditou.

— Espera… E o que faremos? – engoli em seco, o coração disparado.

— O que você disse. – as palavras escaparam em um resmungo dos lábios entreabertos. – Mas agora não. – fechou os olhos e franziu as sobrancelhas, parecia terrivelmente esgotada.

Eduardo ergueu-se para examinar o estado da líder e falou algo baixinho para que somente ela ouvisse. Um tanto frustrado, desci da mesa quase escorregando ao tocar o chão.

Amanda e Victor foram os primeiros a se retirar da sala, a garota desculpando-se em um murmúrio e o garoto praguejando alto. Eu, Érica e Yara ajudamos a arrumar a sala, porém, Eduardo disse que ele cuidaria do resto. Aparentemente precisava ficar sozinho com Ienaga. Me perguntei se eles iriam discutir mesmo que não fosse do feitio deles.

No caminho trombamos com um inspetor muito irritado por estar sendo importunado no final da tarde de um sábado. Optamos por contar a verdade (ou quase isso): estávamos “brincando” por ali, eu espirrei e ativei os splinkers, mas estava tudo sob controle (ele fez uma careta para nossa explicação). Apenas esperávamos que ele não fosse checar a sala e encontrasse o chão encharcado e dois alunos machucados.

— Vocês acham que eu piorei a situação? – Érica perguntou ao sentarmos na escada, nenhum de nós estava a fim de voltar para o dormitório.

— Não. – Yara respondeu instantaneamente. – A culpa foi daqueles dois idiotas que começaram a brigar.

Encostei a cabeça na parede e suspirei cansado. As informações dançavam em minha cabeça e meu estômago chacoalhava.

— Eu fiquei assustada e confusa. – Érica confessou chorosa. – Tudo o que somos agora… É por causa de alguém que pode ou não estar morta?

Eu não olhava para nenhuma das duas, concentrava-me apenas em meus tênis sujos. A imagem de Hanna Sato assombrava-me a cada vez que eu fechava as pálpebras.

Nossos poderes não se tratavam de um evento sobrenatural, um milagre ou uma evolução. Tudo indicava que a responsável era uma ex-enfermeira. E isso foi pior do que qualquer uma das outras opções. Raiva, tristeza e frustração misturaram-se dentro de mim. Eu enfim tinha alguém para culpar por qualquer coisa que desse errado na API. Mas por que eu não conseguia me sentir no mínimo conformado?

Porque era impossível se conformar com aquilo.

— Eu vou para o meu quarto. – balbuciei cabisbaixo.

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Desabei na cama sem me importar em retirar a roupa úmida ou os tênis. Meus pensamentos a mil me impediam de fazer coisas simples. Fiquei olhando para o teto até eu me sentir cansado e a vista escurecer. Devo ter dormido por pelo menos três horas, pois quando acordei já havia anoitecido.

As cortinas balançavam suavemente com a brisa e os grilos cantavam do lado de fora. Estava sozinho, nenhum sinal de Kaíque. Tremendamente enjoado para aguentar o jantar, decidi ficar ali mesmo e pesquisar mais sobre Hanna Sato no celular.

Nada. Absolutamente nada além daquelas duas notícias. Hanna sumiu da face da Terra. Talvez eu estivesse pensando demais como Ienaga e Eduardo, longe do surto de adrenalina, refleti que ela devia mesmo estar morta.

Rolei na cama por pelo menos mais uma hora, ignorando as mensagens de mamãe e Stefanie, não tinha cabeça para aquilo naquele estado. Minhas roupas e meu mau cheiro começaram a me incomodar por volta das 21:30, então resolvi tomar banho e colocar a roupa folgada que usava para dormir.

Tive dor de cabeça, entretanto, os alunos não podiam guardar remédios (a menos que seus pais tivessem entregado uma receita na secretaria, por exemplo, meu antialérgico) em seus quartos e eu não queria descer na enfermaria. Coloquei os fones nos ouvidos e massageei as têmporas, procurando relaxar e dormir pelo resto da noite.

Toc. Toc. Toc.

Fui acordado pelo bater de algo. Estava em uma posição bizarra, praticamente caindo da cama. Desenrolei o lençol preso na perna e percebi o quão dolorido meus membros se encontravam. Ah, eu também babei no travesseiro.

Arranquei os fones, julgando que o barulho vinha da música. Toc. Toc. Toc.

Virei a cabeça visualizando o montinho na cama de Kaíque e ouvindo seu ronco. Esfreguei os olhos e segurei o relógio da cabeceira, os números vermelhos marcando 01:37.

Toc. Toc. Toc.

Ah, a porta.

Joguei os pés no chão de maneira desengonçada e cambaleei, colocando todo meu peso na maçaneta. Bocejei ao abrir a porta, contudo, engoli todo o ar assim que registrei Yara e Érica, ambas carregando travesseiros e usando camisetas largas por cima dos shorts curtos e estampados.

“Estou alucinando.”

Toquei o batente não acreditando que Yara apertava uma vaquinha de pelúcia no antebraço.

— Não vão dormir aqui. – foi a primeira coisa que falei, a voz arrastada de exaustão.

— Como se alguém quisesse dormir no mesmo quarto que o Kaíque. – Yara fez uma careta.

Devo ter feito cara de paisagem, não conseguindo formular um motivo para aquelas duas estarem na minha frente à uma da madrugada. Meu cérebro gerou a possibilidade de fechar a porta e considerar aquilo um sonho.

— Vamos ao esconderijo. – Érica entrelaçou a mão na de Yara.

— Por? – eu estava prestes a dormir de pé.

— Apenas nos siga, okay? – ela mordeu o lábio inferior.

Quis ter uma confirmação de Yara, a qual veio em forma de uma cabeça assentindo. Suspirei, conferi meu colega de quarto, peguei meu travesseiro e calcei os chinelos.

Aos sábados, a vigilância costumava ser menor. Os inspetores ficavam mais molengos e cansados, tirando cochilos nas salas que pudessem ou fazendo vista grossa por terem preguiça demais para dar uma advertência.

Mesmo assim, tivemos todo o cuidado do mundo para chegar ao esconderijo. Nos esgueiramos pelas paredes, descemos as escadas lentamente e andamos nas pontas dos pés.

E enfim, Érica deu três batidas na porta do esconderijo onde o bilhete da União Rebelde permanecia grudado por fita adesiva. Uma fresta iluminada surgiu na escuridão do almoxarifado revelando uma Ienaga que nos analisou de cima a baixo e permitiu nossa entrada.

Fui envolvido pelo ar abafado e a mudança de cenário: as cadeiras foram afastadas para dar espaço aos travesseiros e cobertores estendidos no chão. Pisquei os olhos sem compreender.

— Organizamos isso durante o jantar. – Yara colocou-se ao meu lado. – Érica achou que os membros deveriam se entender.

— Uma festa do pijama. – estalei a língua.

— Não é bem uma festa do pijama. – ela murmurou.

A avaliei de cima a baixo, dizendo em seguida:

— Estamos nos reunindo para dormirmos todos juntos. E você está de pijama.

Yara fuzilou-me com o olhar, os braços automaticamente cruzando-se em frente ao corpo e a expressão constrangendo-se.

— E tem uma vaquinha de pelúcia. – arqueei uma sobrancelha.

— Isso… – ela prendeu o ar. – Não é da sua conta, Henrique. – balbuciou e afastou-se envergonhada.

Ruborizei por ela ter me chamado pelo segundo nome. Quis ignorar aquilo, então foquei-me no vice-líder que tinha acabado de sair do espaço de reuniões usando o pé para empurrar um balde cheio de panos. Ele sorriu ao me ver, o rosto repleto de curativos.

Outras vozes preencheram a sala, uma animada e meiga e a outra estressada e mal-humorada. Ienaga terminava de fechar a porta após a entrada de Amanda e Victor (que não se importou em deixar os hematomas à mostra). A líder mancou pela sala e sentou-se em um dos cobertores demonstrando os dedos do pé devidamente enfaixados.

— Então…. Temos uma briga e depois uma festa do pijama? – decidi sentar-me também.

— Érica pensou que fosse bom nos redimirmos. – Ienaga bocejou. – E ela tem razão. Já temos poucos membros e não podemos perdê-los. Por isso, sejam bem-vindos à festa de reconciliação da união! – abriu os braços.

Os restantes dos membros acomodaram-se, abraçando seus travesseiros ou deitando sobre eles. Eduardo foi e voltou do espaço de reuniões algumas vezes trazendo doces e refrigerantes que reconheci serem da máquina. Fagulhas eram criadas todas as vezes que ele e Victor se encaravam por acaso, com direito a muxoxos e músculos tensos.

O clima foi amenizando depois de vinte minutos quando nossos ombros relaxaram e nos permitimos entrar na temática da festa. Conversas foram surgindo aos poucos, curtas, banais e em tom baixo.

Yara sentou-se a alguns passos de mim e se entretinha em pentear os curtos cabelos de Érica enquanto a garota tagarelava sem parar com Amanda que estava ao meu lado (por mais que Victor deixasse claro o quanto odiou a cena).

Observei os movimentos sutis de sobe e desce que a mão delicada de Yara fazia nos fios azulados, achando aquilo bonitinho. Abracei os joelhos e deixei escapar um suspiro bobo. Mas nada fugia do radar de Yara.

Ela me fitou de cenho franzido, a questão estampada em seu rosto: “Que é?”. Apenas abaixei a cabeça, envergonhado.

— Vou apagar a luz para os inspetores não suspeitarem. – Ienaga avisou e apertou o interruptor.

No centro da sala uma lanterna foi acesa por Eduardo e colocada de pé em um espaço livre no chão.

— Aliás, como vocês conseguiram esse esconderijo? – perguntei admirando o local. – Tipo, os outros grupos não têm um desse, têm?

— Verdade. – Amanda concordou. – O “esconderijo” do Super Gatinhas é o quarto da Bianca. Tenho arrepios só de lembrar o que acontecia lá dentro. – arregalou os olhos e cerrou os dentes.

— Ho ho ho, os outros grupos não se comparam a nós. – Ienaga riu convencida.

— Ienaga colocou na cabeça de que precisávamos de um esconderijo, então eu disse que sem querer desapareci com a chave dessa sala. Aquele estagiário pediu para não contarmos a ninguém e ficou por isso mesmo. – Eduardo encostou-se na líder.

— Já falei que essa versão não tem graça. Falta emoção. – Ienaga cruzou os braços e fez biquinho.

— Tudo bem, da próxima vez digo que lutamos por esse lugar em uma guerra de três dias. Melhor?

Ienaga mostrou-lhe a língua.

— E onde está a chave? – Amanda indagou.

A líder puxou um cordão de dentro da camiseta, balançando a chave que estava presa nele. Por fim, guardou-o novamente.

— Deve ser legal ter vindo para cá com um amigo. – Érica comentou.

— Do que está falando? – Eduardo arqueou uma sobrancelha.

— Ué, você e a Ienaga já eram amigos antes daqui, não eram? – a garota torceu o nariz.

— Hã… Não. – a líder negou com a cabeça. – Por que pensou isso?

Confesso que fiquei surpreso. Não tinha parado para refletir sobre quem conhecia quem, entretanto, para mim era óbvio que Ienaga e Eduardo possuíam uma amizade de longa data.

— Quero dizer, vocês são tão ligados, sabem tanto um sobre o outro, trocam esses olharezinhos! – Érica argumentou afobada, gesticulando.

O vice-líder riu por um instante e explicou:

— Nós nos conhecemos aqui no primeiro dia de experimentação. Ela estava apostando queda de braço com os garotos e eu quis tentar a sorte.

— E você perdeu, né? – Victor desdenhou.

— Estamos falando da Ienaga, claro que eu perdi. – Eduardo revirou os olhos. – Não contente com minha derrota, pedi por algumas revanches.

— E você perdeu todas. – ela deu um soquinho no ombro do garoto, sorrindo. – Depois me acusou de trapacear, sendo que isso nem faz sentido.

— E ela xingou toda a minha próxima geração. – ele abafou uma risada. – Olhamos feio um para o outro por cinco minutos e ali resolvemos que seríamos parceiros inseparáveis.

— Ainda não me esqueço que você disse que eu podia ser a Mônica do seu Eduardo. – Ienaga prendeu uma risada.

— E você respondeu que eu podia ser a Bella do seu Edward. – Eduardo zombou.

Inconscientemente, procurei por Yara. O rosto concentrado em trançar o cabelo da amiga deixava-a bonita na meia-luz. Minhas bochechas ficaram quentes e eu desviei o olhar, expirando silenciosamente.

Continuamos a jogar conversa fora por pelo menos mais meia hora até Amanda propor:

— Podíamos jogar algo.

— Que tal verdade ou desafio? – Érica levantou uma das mãos, empolgada.

— Wow, clichê das festas de pijama. Eu topo! – Ienaga animou-se.

— Não valendo desafios de beijar, tudo bem. – Victor estava deitado de costas para todos, até achávamos que tinha dormido.

— Por quê? – Eduardo questionou em um tom malicioso.

— Porque eu não quero que nenhum de vocês beije minha irmã. – o gêmeo virou-se para o grupo, franzindo as sobrancelhas.

— Você me mata de vergonha, sabia? – Amanda afundou o rosto nas mãos.

— Por mim tudo bem. Também não quero beijar ninguém. – Yara respondeu de modo neutro.

Torci a boca imaginando que não via tanto problema em beijar alguém dali, apesar de ser vergonhoso fazê-lo na frente de todos. Compactuei em silêncio com a condição de Victor.

— Certo. – Ienaga terminou seu suco de garrafa em um gole. – Vamos usar isso. – colocou o recipiente no centro da sala junto a lanterna. – Fundo pergunta, tampa responde.

Nos reunimos em um círculo em volta da garrafa e a lanterna. Já que Érica quem teve a ideia, ela foi a primeira a girar.

A garrafa rodopiou por alguns segundos até o fundo parar em Yara e a tampa em Victor, que escolheu verdade.

— Qual o seu poder? – a garota perguntou.

Tive um estalo na cabeça percebendo que eu também não sabia.

— Tsc. – ele franziu as sobrancelhas. – Amanda? – olhou para a irmã.

— Okay, pode fazer. – a gêmea suspirou e levantou-se.

— O chão é lava. – ele também se levantou. – Um…. Dois… – caminhou na direção de Amanda.

A garota rapidamente subiu em uma cadeira e aguardou pelo fim da contagem. O irmão revirou os olhos e tocou seu braço, murmurando a palavra “cancelar”. Por fim, Amanda voltou os pés ao chão, não demonstrando nenhum efeito de seu poder.

— Espera, seu poder é cancelar outros poderes?! – Ienaga ficou boquiaberta, deixando alguns salgadinhos mal mastigados caírem em sua blusa.

— Apenas o da minha irmã. – ele fitou a própria mão, analisando-a. – Já tentei com outros alunos, mas acho que só funciona por sermos gêmeos.

— Então, podia ter usado no dia em que… – comecei e me arrependi na metade da fala. – Eu estava a segurando no colo. – pigarreei e abaixei a cabeça para disfarçar.

Esperava algum tipo de xingamento ou ameaça de morte, contudo, Victor apenas cruzou os braços e virou o rosto.

— Não funciona quando estou de mau humor. – resmungou.

— Então você nunca consegue usar seu poder, né. – Eduardo alfinetou.

— Tá pedindo por um segundo round? – Victor rosnou e voltou para o seu lugar.

Eduardo esboçou um sorrisinho de canto, deu de ombros e indicou a garrafa que devia ser girada. Ao dar algumas voltas pela roda, o fundo parou em Ienaga e a tampa novamente em Victor.

— Eu outra vez? Afe, desafio.

— Te desafio a trocar de lugar com a Érica até o final do jogo. – Ienaga cantarolou.

Todos movemos nossos olhares para o lugar onde a garota estava sentada: bem ao lado de Eduardo. Ai.

— Só pode estar zoando. – Victor fechou a cara.

— Festa de reconciliação, lembra? – a líder ergueu as mãos em um gesto inocente.

O garoto bufou e marchou até o lugar marcado, ordenando rispidamente que Érica saísse. A garota levantou-se a contragosto, resmungando chateada.

— Eu não mordo. – Eduardo debochou. – Só se você pedir.

— Você realmente quer apanhar. – Victor girou a garrafa.

Houveram desafios simples como falar com o sotaque do Miguel pelo resto do jogo, fazer uma dança ridícula, lamber o pé de alguém e perguntas bobas do tipo: “pior fora que já levou?”, “quem daqui você levaria para uma ilha deserta?”, “já foi no quarto de outra pessoa à noite?” (essa última foi para mim, e olha, foi estranho dizer que já estive no de Felipe, apesar de que eu não contei o que fui fazer lá). Meu celular marcava 02:46 quando a garrafa apontou fundo para mim e tampa para Yara. A garota sussurrou “desafio” e me encarou, esperando pela sentença que eu daria.

Percebi que não fazia ideia do que dar a ela. Sondei suas pernas cruzadas em posição borboleta, a vaquinha de pelúcia repousando ali.

— Todas as suas frases têm de começar e terminar com “mu”. Ou você paga um castigo. – exclamei e indiquei sua pelúcia.

Ela franziu os lábios, hesitou e prosseguiu:

— Mu, qual o castigo, mu?

Tudo bem, eu não havia pensado tão longe. Revirei minha memória, me recordando de um castigo que me deram no 9º ano.

— Encenar uma declaração para alguém daqui. – bati as mãos nos joelhos.

— Mu, certo, mu. – Yara cerrou os dentes. Prendi uma risada por não conseguir levá-la a sério com aqueles “mus”.

Ela bufou e rodou a garrafa. Eduardo fundo e eu tampa. Havíamos estabelecido a regra de que a cada três escolhas de verdade, a quarta deveria ser desafio, então não tive outra opção além dessa.

— Já que você sacaneou a Yara, nada melhor que provar do mesmo veneno. – Eduardo apoiou o peso do corpo em uma mão, inclinando-se para trás. – Finja ser um gato até o final do jogo ou pagará o mesmo castigo.

— Ei, desde quando você está do lado dela? – resmunguei indignado.

— Você precisa miar, sabia? – ele sorriu malicioso.

Ruborizei do nariz as orelhas, o arrependimento batendo em minha nuca.

— M-Miau. – balbuciei cabisbaixo.

— Ownt! – Amanda, Érica e Eduardo pronunciaram.

Fiz menção de mover a garrafa, todavia, o vice-líder me impediu:

— Sem o polegar.

— Você quer me ver sofrer? – engasguei. Ele arqueou uma sobrancelha. – Miau. – acrescentei envergonhado.

— E se reclamar, vai ter que ronronar.

Ienaga e Victor sequer se esforçaram para disfarçar a risada, pelo contrário, eles zombaram de mim abertamente. Guardei o polegar sob os outros dedos fechados e dei um toque na garrafa, rodopiando-a.

Esperava que Eduardo não me cobrasse um banho de gato.

— Qual o garoto e a garota mais bonitos daqui, Edu? – Érica indagou assim que o garoto escolheu verdade.

— Ah, essa é fácil. – ele riu presunçoso. – A mais bonita é a Ienaga, óbvio. – Afagou os cabelos da líder, fazendo-a sorrir de canto.

— Puxa saco… – Victor revirou os olhos.

— E o mais bonito é o Victor. – Eduardo olhou de soslaio para o garoto.

— O quê?! – o gêmeo tossiu abismado.

Ao meu lado Amanda começou a tossir também. Seria essa a tal ligação de gêmeos ou ela só estava surpresa?

— Não é porque eu não vou com a sua cara que eu não acho ela bonita. – o vice balançou a mão, despreocupado. – Ou será que você é tímido? – deu um sorriso de canto.

— Gire a droga da garrafa logo. – Victor rosnou.

Mais algumas rodadas e já estávamos nos encostando uns aos outros, cheios de sono. Na verdade, não pude me encostar em Amanda (depois da briga de Victor e Eduardo, eu temia pelos meus dentes) e achei que seria estranho pender para o lado de Ienaga. Fiquei ereto mantendo os polegares escondidos e miando às vezes para espantar o cansaço.

— Acho que vou copiar um pouco a pergunta da Érica… – Amanda bateu o indicador no queixo. – Yara, quem é a pessoa mais bonita dessa sala?

— Você. – a garota respondeu certeira.

— E-Eu? – a gêmea corou e encolheu os ombros.

— Ei, você se esqueceu do “mu”. – Victor apontou.

Yara fez uma expressão de dor e me procurou como que para confirmar que deveria pagar o castigo. Meio abobado por sua resposta, somente assenti.



Notas finais
Eles irão atrás da Hanna? Sentimentos podem surgir de uma briga? Para quem Yara irá se declarar? Me contem o que acharam pelos comentários! Até o próximo capitulo: "Culpamos a adolescência" Beijos. —Creeper.