Academia de Poderes Inúteis

16 Culpamos a adolescência


Notas iniciais
Olá! Um bom domingo a todos! Tenham uma ótima leitura ♥

Eu definitivamente não imaginava que a Amanda fizesse o tipo de beleza da Yara. Esperava que ela dissesse que a pessoa mais bonita da sala era o Eduardo ou até mesmo...

— Me declarar, okay. – Yara suspirou. Ela ergueu sua pelúcia para o alto e aproximou o focinho rosa de seu nariz. – Eu te amo e espero que passemos o resto da vida juntas. É isso.

O silêncio que se estendeu pelo esconderijo chegou a ser cômico e terrivelmente esquisito.

— Isso não vale! – acusei. – M-Miau! – acrescentei em um murmúrio.

— Você disse “alguém”, não especificou. – Yara abraçou sua pelúcia de maneira convicta.

— Alguém vivo… Miau. – falei incrédulo.

— Muito bem, eu não nego desafios. – ela colocou a vaquinha no cobertor, levantou-se e virou-se de costas para a roda. – Eu gosto da sua idiotice.

Não sei porque gastei tanto tempo processando aquilo se a explicação veio logo em seguida:

— Tá, mas isso vale para qualquer um dessa sala. – Victor zombou.

— Exatamente. – Yara voltou-se para nós e se sentou.

— Sem graça. – cruzei os braços e desviei o olhar.

— Ora, ora, ora, parece que o gatinho se esqueceu de miar. – Eduardo acusou com um sorriso malicioso.

Deve ter saído fumaça dos meus ouvidos de tanta vergonha. Afundei o rosto quente e vermelho nas mãos, choramingando e me castigando por ter duvidado do ditado: “tudo o que vai, volta”.

Para quem eu deveria me declarar? No 9º ano da antiga escola, pensei em me declarar para a garota que eu tinha uma pequena queda na rodinha, mas ela já havia deixado bem claro que não gostava de mim no 8º ano. Então resolvi dizer a um dos meus amigos que o achava bonitinho. Ele me chamou de gay.

— E-Eu… – balbuciei perdido.

Quem? Quem?

Analisei todas as opções. Victor: nem pensar. Eduardo: seria estranho. Ienaga: eu preferia a morte. Amanda: não queria levar um fora dela. Yara: só ter dito aquilo no refeitório já me deixou constrangido.

— Érica! – ergui a cabeça e inflei as bochechas. – S-Seu cabelo… Azul. Tipo… O mar. É legal. G-Gosto disso em você. – apertei meu cobertor entre os dedos.

— Hã… Obrigada? – Érica fez uma careta.

Soltei o ar que nem sabia que estava prendendo e limpei o suor das mãos na bermuda. O jogo foi encerrado ali e cada um encontrou um canto para colocar seu travesseiro e adormecer sob a comanda de que acordaríamos cedo a fim de voltarmos aos dormitórios sem sermos pegos.

— Ei, União. – Ienaga chamou, sua voz perdendo-se no escuro. – Nós vamos ir atrás da Hanna Sato.

Não houve uma resposta imediata. Escutar aquele nome me deixou enjoado.

— E como pretende fazer isso? – Yara questionou um minuto depois.

— Primeiro, temos que fugir daqui. – a líder sussurrou.

— Com seu pé desse jeito? Negativo. – Eduardo se opôs.

— Ah, eu consigo. – Ienaga defendeu-se.

— Não vamos passar do portão, Laura. – ele respondeu em um tom preocupado.

— Ah, calem a boca e vão dormir. – Victor resmungou.

— Mudança de planos. Fugiremos quando meu pé melhorar.

Roncos e respirações leves ecoaram pelo esconderijo, marcando que todos haviam sido levados pelo sono, exceto eu. Estava cansado, mas incapaz de dormir. Olhei para o teto mesmo que não o visse e dobrei os braços embaixo da cabeça, concentrando-me nos sons da madrugada.

Chequei a hora em meu celular uma última vez, vendo que passava das três da manhã.

— Não consegue dormir? – alguém sussurrou ao meu lado.

Arregalei os olhos e automaticamente usei a luz da tela para iluminar quem quer que fosse. Amanda deu um pequeno e fechado sorriso, afofando seu travesseiro próximo ao meu.

— Não. – suspirei pesadamente.

— É, eu também não. – ela colocou as mãos cruzadas sobre a barriga. – O que vai acontecer com a gente agora?

Balancei a cabeça lentamente e desliguei o celular, um pouco confuso por ela ter deitado ali.

— Às vezes… Saber demais é o pior para nós. – falou baixinho.

— Do que você está falando? – virei de lado, mantendo uma das mãos debaixo da cabeça.

Amanda ficou quieta de repente e me questionei se ela tinha dormido. Sua respiração serena soou a poucos centímetros de distância de mim e meu coração acelerou-se.

— Boa noite, Norte. – ela balbuciou.

— B-Boa noite. – respondi abobado.

Tentando pegar no sono, repassei o dia inteiro em minha cabeça. E uma das falas que escutei prenderam-se em um loop até que eu enfim adormecesse.

“Eu gosto da sua idiotice.”

>>>

Outubro terminou em um piscar de olhos, o mês foi dividido entre pequenas reuniões, coleta de dados (Thiago continuava a nos entregar anotações sobre o nascimento de seus consumidores. Todos no hospital Carvalho), aulas exaustivas, mensagens de saudades da minha família e raras aparições de Heitor e Miguel pelos corredores.

Havia chegado a hora de executarmos nosso plano de fuga. Em uma sexta-feira quente e abafada de novembro, tivemos nosso mais especial encontro no espaço de reuniões.

Ienaga estava completamente curada e falava pelos cotovelos sobre sua impecável estratégia: todos dormiriam cedo naquela noite para acordarmos às 4 da manhã, quando um caminhão de suprimentos chegaria para descarregar algumas coisas na academia. Às 04:30 entraríamos no caminhão vazio que nos levaria a cidade e lá estaríamos por conta própria.

Tudo isso foi traçado no quadro branco da sala das cadeiras e arrastado para o espaço de reuniões com direito a efeitos sonoros (péssimos) de ação feitos por Ienaga.

— E como voltaremos? – Amanda ergueu a mão.

— Aí é que está… – a líder apontou-lhe o canetão. – Não voltaremos.

— O quê?! – todos gritamos em coro.

E lá vamos nós, de volta às loucuras da União Rebelde.

— Teremos todo esse trabalho para fugir e iremos voltar? – Ienaga pousou os dedos na testa, cansada.

— Nossos pais irão achar estranho se aparecermos em casa de repente. – Yara pontuou.

— Iriam, caso não recebessem uma carta do R.C.E. – Ienaga sorriu convencida.

— Eles não vão receber uma carta do R.C.E. – cruzei os braços.

— Não que eu queira me gabar, mas sou um ótimo falsificador de assinaturas. – Eduardo desdobrou o papel que tinha em mãos.

O texto na folha era totalmente impresso, com exceção da assinatura à caneta no final. Busquei em minha memória onde havia visto aquela caligrafia, lembrando-me da carta de convocamento que recebi do R.C.E. Inconscientemente soltei um “uau” enquanto Eduardo distribuía algumas cópias para todos.

— Quanto tempo até eles descobrirem a mentira? – Victor sentou-se em cima da mesa, estava carrancudo como sempre.

— Aí depende de quão bons mentirosos vocês são. Precisarão manter essa fachada até o caso da Hanna andar. – Ienaga olhou para o quadro branco, analisando-o com a mão no queixo.

Érica levantou a mão rapidamente e pude perceber que ela exalava aflição e ansiedade.

— Vamos mesmo fugir sem uma certeza de que Hanna está viva? – questionou temerosa.

— Se tudo der errado pelo menos estaremos fora daqui. – a líder abriu os braços, a empolgação visível. – E então, abraçarão essa missão ou não?

Era loucura? Sim. Podia dar muito errado? Com certeza. Duvidava que Ienaga conseguisse fazer algo do lado de fora? Óbvio. A gente iria morrer, no mínimo.

— E como irá lidar com sua desvantagem vampírica sem estar protegida no esconderijo? – perguntei.

— Qual é, nunca assistiu Hora de Aventura? – Ienaga mexeu em algo no canto da sala. – Tcharam! Meu maravilhoso artefato anti-sol! – abriu um guarda-chuva preto de tamanho gigantesco.

— Um guarda-chuva. – arqueei uma sobrancelha.

— É, um guarda-chuva. – ela mostrou a língua.

— Sei não. – resmunguei. – É tudo muito incerto. – torci a boca.

Eu queria sair da academia, claro, contudo, aquele jeito não parecia nada favorável. E, geralmente, as coisas não davam muito certo para nós.

— Tentamos, se falharmos, fazer o quê? Culpamos a adolescência que nos deixa burros e inconsequentes. – Eduardo colocou uma mão na cintura e balançou a outra.

— Uau, que convincente. – Yara ergueu as sobrancelhas.

— Que saco! – Victor berrou de repente, assustando a todos nós. – Eu topo qualquer coisa que me dê a mínima garantia de que não vou mais aturar vocês.

— Victor! – Amanda o beliscou.

Fiz uma careta, reformulando todo o plano em minha mente. Continuar na academia tendo uma vida de estudante “normal” até decidirem nos liberar ou fazer as coisas andarem por nós mesmos?

Colocando assim a resposta se tornava óbvia. O máximo que podia acontecer era a polícia ser envolvida por causa do sumiço de sete adolescentes com poderes. Mas até o máximo tinha chão.

É, a adolescência realmente nos deixa burros e inconsequentes.

— Eu sei que vou me arrepender. – suspirei pesadamente. – Porém, eu topo.

— Não podemos deixar só os idiotas irem. – Yara franziu o cenho. – Eu vou também.

— Ei! – rebati ofendido.

— Se a Yara vai, eu estou dentro! – Érica entrelaçou o braço ao da colega de quarto.

— Não posso ficar longe do meu irmão. – Amanda assentiu determinada. O gêmeo ruborizou e cruzou os braços. – Contem comigo.

— Ownt, estou orgulhosa dos meus bebês! – Ienaga sorriu de orelha a orelha. – Avante, União Rebelde, avante! – socou o ar.

Atrás de si, Eduardo balançou a cabeça levemente e continuou as explicações, visto que nossa líder caiu em êxtase. Deveríamos levar uma mochila com somente o necessário e deixarmos nossos quartos sem levantarmos suspeitas. Por fim, combinamos que nosso ponto de encontro seria no hall de entrada às 04:10.

Saímos do esconderijo dando um adeus para aquele lugar por tempo indeterminado e retornamos aos nossos dormitórios, talvez cochichando alto demais. Querendo ou não, a ideia havia nos animado mais do que deveria.

Assim que chegamos ao nosso andar, me despedi de Yara e Érica, marcando de descermos juntos para o hall. Em meu quarto, Kaíque aparentava estar dormindo, transformando aquilo no momento perfeito para arrumar minha mochila.

Retirei todos os livros e cadernos, jogando-os debaixo da cama, junto de minha coleção de mangá. Senti um aperto no peito ao pensar que não poderia levá-los, todavia, tive certeza de que eles voltariam para mim algum dia.

Enfiei uma jaqueta no fundo da mochila, seguido de fones de ouvido, carregador, um bloco de notas, algumas guloseimas da máquina e garrafas vazias (encheria de água ao amanhecer). Fechei o zíper com certa dificuldade e coloquei a mochila ao lado da cabeceira.

— Arrumando sua mochila para o sábado?

Meu rosto perdeu a cor e hesitei ao me virar na direção da voz arrastada de Kaíque. O garoto estava de pé atrás de mim, olhando por cima de meus ombros.

— Pois é. – murmurei constrangido.

— Entendi. – ele levantou as sobrancelhas lentamente, mostrando estar sonolento. Esperava que ele dissesse mais alguma coisa, entretanto, o garoto apenas caminhou vagarosamente e desapareceu porta a fora.

Suspirei aliviado por Kaíque estar grogue demais para fazer mais perguntas ou perceber minha inquietude. Troquei de roupa, ajustei o alarme para 04:00 e preparei a minha cama para dormir.

Meu colega de quarto retornou dez minutos depois carregando dois sanduíches embalados em plástico filme e um copo de plástico com tampa, cujo líquido esbranquiçado devia ser leite.

— Quer um? – ele me estendeu a mão dos sanduíches.

Fiquei comovido por sua nobre atitude, porém, fui preenchido imediatamente pela desconfiança. Cruzei os braços e arqueei uma sobrancelha, acusando:

— Você? Oferecendo comida?

— Meu estômago não está bom o suficiente para comer os dois. – Kaíque suspirou. Notei que ele parecia um pouco abatido, talvez doente. – Mas se você não quiser, guardo para mais tarde. – deu de ombros.

Meu estômago roncou, alertando-me de que estava vazio desde o jantar. Se aquela era a última vez que eu veria Kaíque como meu colega de quarto, não faria a desfeita de negar.

Peguei o sanduíche da mão que continuava estendida, agradecendo sinceramente. Sentei-me e desembalei, aspirando o delicioso cheiro do pão e seu recheio.

— Então, Norte… – Kaíque colocou o outro sanduíche em sua cabeceira e continuou a segurar o copo. – Aonde pretende ir amanhã?

Dei uma mordida generosa, saboreando o lanche.

— Não sei do que está falando. – respondi de boca cheia.

— As reuniões da União andam terrivelmente longas… E você colocou algumas coisas interessantes na sua mochila. – ele inclinou a cabeça e semicerrou os olhos.

— Impressão sua. – engoli e imediatamente dei outra mordida.

Algo estava errado. Muito errado.

Começou pela sensação de ardência em minha língua e se espalhou feito uma queimação pelo céu da boca e garganta. Era como se eu houvesse mastigado fogo.

Arregalei os olhos, entendendo do que se tratava.

— O q-que tinha nesse sanduíche? – arfei.

— Ah, uma coisinha chamada pimenta. Muita. Muita pimenta. De todos os tipos que consegui. – Kaíque sorriu maldoso.

O fuzilei com o olhar e automaticamente abanei meu rosto que começava a suar. Minha língua ficou dormente enquanto todo o resto latejava e queimava. Em sinal de esperança, Kaíque balançou o copo de leite.

— Me dá isso. – balbuciei ofegante.

— Só se me contar o que estão planejando. – ele cruzou as pernas.

E então eu compreendi seu plano.

— Ora, seu… – meus olhos lacrimejaram. – N-Nunca!

— Você quem sabe. – ele tomou o leite pelo canudinho. Ao final do gole, suspirou de satisfação.

Uma lágrima solitária escorreu por minha face, misturando-se ao suor. Não conseguia mais raciocinar, a única coisa que desejava era algo para beber.

— Se você tem medo que eu conte a alguém, aqui vai um consolo… – Kaíque comentou. – Ninguém quer saber da sua vidinha chata… Além de mim, seu fiel colega de quarto. – tocou o peito, presunçoso. – Estou somente fazendo meu bom papel de curioso, garoto espirro. Ou seria garoto pimenta?

— Eu te odeio. – rosnei.

— Três segundos antes de eu desintegrar isso. – ele chacoalhou o copo. – Um…

Existiam pessoas sacanas. Existiam pessoas que mereciam xingamentos com direito a bipes de censura da televisão. E existia o Kaíque.

— Dois…

Não, eu não iria vender o maior plano da União por um copo de leite, por mais que eu estivesse morrendo igual um peixe fora d' água. Não decepcionaria os outros membros. Não me rebaixaria ao nível do Kaíque.

— Vai se ferrar! – levantei-me abruptamente e escancarei a porta, voando pelo corredor e pulando dois degraus da escada por vez.

Escorreguei ao chegar no próximo andar, correndo com a vista borrada pelas lágrimas e enfim alcançando o bebedouro. Girei a torneira de maneira desengonçada e enfiei o rosto debaixo da água, engolindo-a em grandes goles, a ponto de fazer minha garganta doer.

Não adiantava. Não resolvia. O alívio foi embora tão rápido quanto veio.

— Vamos lá, eu não sou o filho da puta que você pensa que eu sou. Eu honro minha mãe, sabia?

Meus olhos desviaram-se da torneira para Kaíque. Uma das mãos estava afundada no bolso da bermuda e a outra segurava o copo de leite ainda líquido.

— Sério, achei que você abriria a boca. Mas já que isso não foi o suficiente para te fazer falar, eu tiro o meu chapéu para você. – ele me entregou o copo. – A vampira de Taubaté tem sorte de ter um membro tão confiável.

Arranquei a tampa do copo, virando-o em um único gole em minha boca e absorvendo toda a refrescância do leite gelado. Enxuguei o queixo, captando meus sentidos voltando aos poucos.

— Boa sorte no que for fazer, garoto espirro. – Kaíque deu as costas e acenou. – Se é algo que não pode contar, deve ser grandioso.

O ódio me consumiu e eu encarei raivosamente sua nuca, me consolando com a ideia de ter poderes de raio laser nos olhos ao invés de espirrar fogo.

E falando nisso, espirrei.

>>>

O despertador tocou às 04:00, baixo demais para o costume, entretanto, acordei por conta de meu sono frágil e inquieto graças a ocasião. Espiei a cama do outro lado do quarto onde Kaíque roncava debaixo de sua montanha de cobertores.

Joguei meu edredom para longe e calcei os tênis antes de tocar os pés no chão. Já havia dormido com a roupa que sairia: jeans básicos e camiseta preta. Fiz como Eduardo recomendou: coloquei os travesseiros na horizontal e os cobri para se passarem por mim o maior tempo possível.

Pendurei a mochila nos ombros e abandonei o quarto em silêncio. 04:05. Não ouvia-se nenhum som nos corredores naquele horário e tudo permanecia escuro.

Corri para o banheiro, escovei os dentes e passei uma água nos cabelos, agitando-os com os dedos. Àquela altura, Yara e Érica deviam estar saindo de seu quarto, então tratei de cumprir meu posto no início da escada.

04:09. Não conseguia parar de vigiar a tela do celular em uma mistura de ansiedade e apreensão. Os inspetores costumavam ir para os próprios quartos naquela parte da manhã, a fim de descansarem após passarem a madrugada vigiando os dormitórios.

O som de passos foi inconfundível. A poucos metros de distância Érica bocejava e esfregava os olhos sem parar, os cabelos presos em um rabo-de-cavalo baixo e as roupas amassadas. Yara seguia na frente, atenta e cautelosa, mas relaxou assim que me viu.

Nós três trocamos curtas palavras de bom dia e comentários sobre nossa noite de sono e a manhã que estava por vir. Enchemos nosso estoque de água às 04:13 e nos apressamos para chegar ao hall em 2 minutos.

Érica sussurrava como a academia era interessante em diferentes horários e que gostaria de poder aproveitar melhor ao invés de estar no meio de uma fuga.

Assim que pisamos no hall de entrada, quatro cabeças surgiram detrás do balcão, as sobrancelhas erguidas de surpresa logo abaixaram-se e suspiros de alívio foram perdidos no local vazio.

— Todos aqui. – Ienaga assentiu satisfeita, arregaçou as mangas do moletom e bateu ligeiramente o guarda-chuva fechado no ombro.

— Escutem, estão descarregando os suprimentos pela porta dos fundos da cozinha. – Eduardo cochichou. – E é por lá que teremos de passar para sair.

— É muito arriscado. – Yara opinou.

— Tudo o que estamos fazendo é arriscado, ô dos coques. – Victor revirou os olhos.

— Última chamada. – Ienaga estendeu a mão aberta em frente ao corpo. Eduardo imediatamente pousou sua mão sobre a dela.

Respirei fundo, sentindo o ar abafado do hall e o cheiro das montanhas de papel que vinham do balcão. Já havia levantado cedo da cama, não desperdiçaria tal ato. Coloquei a mão em cima da do vice-líder.

Minha pele foi coberta pela palma de Amanda, seguida por Victor e enfim Érica e Yara. Todos nos entreolhamos e afirmamos determinados.

Existiam três portas que davam para o refeitório: a principal acessada pelo primeiro andar, a dos fundos e a que ficava no segundo andar, onde havia algumas mesas extras cercadas por uma mureta de gesso que impedia os alunos desavisados de caírem daquela altura e criava um bom posto de observação sobre toda a parte de baixo do salão (ainda mais naquela hora da madrugada).

Já que escolhemos a terceira opção, subimos as escadas para o andar das salas de aula e avistamos no final do corredor, uma placa acima da porta cinzenta que dizia “Refeitório”. Em geral, nunca a trancavam, o que foi de grande sorte para nós.

Repassamos o plano diante da maçaneta intocada: nos esconderíamos atrás da mureta e procuraríamos por uma brecha para chegarmos aos fundos.

Assim que Ienaga esticou o braço para abrir a porta, uma voz bradou em nossas costas. Oscilante, familiar e irritada. Não tive coragem o suficiente para me virar, diferente de Eduardo que imediatamente assumiu uma postura destemida e entregou sua cara a tapa para quem quer que fosse em nossa dianteira.

— Vocês não vão fazer o que planejam!

— E é você que vai nos impedir? – o vice debochou.

Tocado pela familiaridade da voz, movi a cabeça por cima do ombro. Usando roupas folgadas e pantufas de leão, um Felipe de cabelos emaranhados ofegava e rangia os dentes para nosso grupo. Empalideci e diversos pensamentos pairaram em minha mente. E no fim de todos esses devaneios, apenas uma pergunta era crucial: “como ele descobriu?”.

Uma ruiva correu ao encontro do líder da Nova Era, vindo pelo caminho que havíamos feito. O pijama amassado, os cabelos presos em um coque mal-feito e a falta de óculos deixaram claro que Ana Carolina havia caído da cama.

— Que mensagem foi essa que você me… – ela parou assim que nos viu, os olhos arregalaram-se a boca formou um perfeito “o”.

— Eles estão tentando fugir. – Felipe rosnou. Nenhuma pomba por perto, já que naquele horário as janelas ficavam todas fechadas.

— F-Fugir? – Ana puxou seu roupão rosa, amarrando-o. – Isso é verdade, Norte? – me fitou incrédula.

Não pude respondê-la ou sequer sustentar seu olhar.

— Se nos odeia tanto assim, por que faz questão de nos impedir? – Ienaga tomou a palavra.

— Porque isso vai gerar problemas para a API! – o garoto gesticulou irritado.

— Olha, a API que se ferre! – Eduardo rebateu. – Estamos em busca da mudança de verdade, não igual a você ou a Bianca que só se importam em serem colocados em um pedestal.

As bochechas pálidas de Felipe queimaram em vermelho, seus punhos cerraram-se e a expressão endureceu-se.

— Repete. – ele ameaçou.

— Podem ficar com a falsa realidade que criaram e nos deixem ir atrás da nossa. – Eduardo abaixou a maçaneta e nos empurrou porta adentro.

Os grunhidos de raiva de Felipe foram ouvidos até mesmo depois da porta ter se fechado e estarmos na parte de cima do refeitório. O vice expirou frustrado e afastou os cabelos, resmungando algo para Ienaga.

— É, você irritou ele. – a líder concordou.

— Abaixem-se! – Amanda avisou e apontou para dois homens que atravessavam o salão abaixo de nós carregando caixas de papelão.

Meu coração falhou uma batida e eu imediatamente fui puxado para baixo pela mão de Amanda. De modo automático, cobri minha boca e comecei a rezar para que não fôssemos pegos.

Mas parece que aquele não era o momento para orações. Uma estrondosa batida na porta indicou que alguém queria entrar, sendo impedido pelo peso das costas de Ienaga e Eduardo.

— Droga, Felipe! – o vice praguejou.

Victor xingou, ajoelhou-se na altura da mureta e varreu o local com os olhos, voltando-se e dizendo que os homens não estavam mais ali.

— É isso, acabou. – engoli em seco e deixei que meus ombros caíssem.

— Ainda não! – Ienaga cerrou os dentes e forçou seu corpo contra a porta para que não fosse aberta. – Vocês descem primeiro, os alcançaremos depois.

Notas finais
Como o Felipe descobriu sobre a fuga? A União vai conseguir sair dessa? Para quem a Yara se declarou? Vamos conferir no próximo capítulo: "A bomba e o chá de cadeira" Beijos. —Creeper.