Academia de Poderes Inúteis

14 Um nome, duas notícias


Notas iniciais
Boa noite ♥! Desculpem a demora para postar, só consegui revisar agora a noite, o capítulo acabou dando 15 páginas. Sem mais delongas, tenham uma boa leitura.

Se passaram cinco minutos. Dez minutos. Quinze minutos. Vinte minutos. Vinte e cinco. E por fim, meia hora.

A essa altura, eu caminhava de um lado para o outro no final da escada, os nós dos dedos brancos da força que eu fazia por causa da ansiedade. Oscilava entre olhar para o relógio do celular e a porta fechada do terraço. Por que estava demorando tanto? Se algo tivesse dado errado, teria escutado alguém gritando de dor, não é?

Expirei, franzi as sobrancelhas e afundei o celular no bolso, cansado de tanta espera. Érica havia me enviado uma mensagem perguntando sobre Yara e eu temia que o quarto delas estivesse sofrendo os danos da onda de azar.

Subi os degraus nas pontas dos pés, coloquei as mãos na porta cinza-escuro e colei o ouvido ali, na tentativa de captar algum barulho do outro lado. Nada.

Duas pessoas não podiam fazer tanto silêncio assim, principalmente se uma delas estava interessada na outra.

Apreensivo, comecei a morder o lábio inferior. E se algo realmente tivesse dado tão errado àquele ponto?

Me questionei se deveria bater na porta, mas o silêncio dava a entender que eu não teria uma resposta. O rangido da porta ecoou pelo terraço assim que pressionei sua maçaneta para baixo e a empurrei lentamente.

A primeira coisa que notei foi a lua, cheia e brilhante no meio de inúmeros pontinhos brancos e luminosos no céu. A segunda coisa foi uma garota sentada no chão e encostada no alambrado, com o queixo erguido observando as estrelas.

Não havia mais ninguém ali além dela.

— Não me diga que o jogou daqui de cima. – indaguei, apesar de ser uma piada, tinha um fundo de verdade.

Yara me fitou de soslaio e abraçou os joelhos.

— Não tinha ninguém. – ela disse quando fechei a porta.

O tom que usou era o mais normal possível, sem um pingo de chateação ou irritação, o que me fez pensar que eu não compreendi a situação.

— A menos que ele tivesse o poder de ser invisível. – deu de ombros. – O que eu acho bem impossível.

Hesitei um pouco antes de caminhar lentamente em direção ao alambrado, sentando-me ao seu lado, mas ainda mantendo nossa “distância segura”.

— Talvez ele seja tímido. – balbuciei sem graça, não acreditava no que estava acontecendo.

— Ou talvez tenha sido uma zoação. – Yara retrucou, a voz inexpressiva.

— Quem faria isso com você? – a encarei indignado.

Ela somente arqueou uma sobrancelha. Yara não era a menina mais doce da academia, você sentia que apanharia só de olhar para ela ou receberia uma resposta afiada, contudo, ela não merecia aquele tipo de brincadeira.

— Nem sei porque eu vim. – ela pousou uma mão no joelho. – Acho que deixei minha curiosidade falar mais alto. – balançou o bilhete rasgado com a outra.

Não sabia o que dizer, acabei ficando cabisbaixo como se tivesse sido eu quem levou um bolo.

— Já que ninguém veio, é melhor eu voltar para o meu quarto.

Com os cantos dos olhos, observei-a apoiar as mãos no chão para se levantar. Em um gesto rápido, segurei parte de seu antebraço impedindo-a de continuar. O que foi idiotice, pois eu não tinha ideia do que fazer em seguida.

— Eu vim. – soltei sem pensar.

E o que vi realmente me surpreendeu. Yara ficou séria durante um tempo, todavia, os lábios que se mantinham em linha reta, se curvaram em algo semelhante a uma risada. Não era uma risada do tipo: “que piada engraçada!” ou “estou tão feliz que vou rir!”, não. Estava mais para alívio ou nervosismo, sentimentos que ela não demonstrava facilmente.

— É, você veio. – ela voltou a olhar para o céu.

A brisa da noite espalhou o silêncio entre nós. Não um silêncio incômodo, pelo contrário, tornou-se leve e necessário. Admiramos o céu, pelo menos até nossas cabeças doerem de estarem viradas para cima, mas foram bons minutos. Imaginei que se uma estrela cadente rasgasse a escuridão e eu dissesse para fazermos um pedido, Yara me corrigiria dizendo que não se tratava de uma estrela.

— Vamos. Ainda dá tempo de falar com o Thiago. – Yara ergueu-se dando tapinhas em seu short.

Descemos do último andar para o primeiro, longos lances de escada com direito a conversas banais do tipo que ocorre entre amigos que se conheciam há tempos, não dois estranhos que se esbarraram na entrada da escola e rosnavam um para o outro quando diziam algo ao mesmo tempo.

Como o previsto, Thiago estava ao fundo do corredor usando óculos escuros e tendo uma sacola plástica entre seus pés. Alguém caminhava na direção oposta à nossa, escondendo alguma coisa atrás das costas.

— O que vocês vieram fazer aqui?! – Thiago retirou os óculos, incrédulo.

— Sabe aquele favor? Viemos cobrá-lo. – Yara foi direta.

Ele torceu a boca, incerto.

— Vamos lá, é uma via de mão dupla. – argumentei. – Você nos ajuda a te ajudar.

— Qual o favor? – ele resmungou e olhou por cima de nossos ombros, checando se estávamos sozinhos.

— É simples. Pergunte a todos os seus clientes em que hospital nasceram. Anote as respostas e nos entregue no final da semana. – Yara falou baixinho.

A expressão de Thiago deixou claro o que ele achou daquilo: loucura.

— Que diacho de pergunta é essa? – ele franziu as sobrancelhas.

— O tipo de pergunta que precisamos da resposta. – assenti determinado.

— Isso é muito esquisito. – Thiago alfinetou.

— Moleque, você vende “bebidas vindas do seu suor”, quer mesmo competir para ver quem é mais esquisito? – rebati.

Ele respirou fundo e suas bochechas ficaram vermelhas e infladas.

— Certo. Eu faço. – bufou. – Com a condição de que continuem guardando o meu segredo.

Eu e Yara passamos o polegar e o indicador pela boca, simulando um zíper. Por fim, voltamos ao dormitório, conferindo se ninguém havia nos visto conversando com Thiago.

— Que dia longo! – espreguicei-me e bocejei. – Preciso ir dormir. – olhei para a garota.

— É, eu também. – seus ombros estavam um pouco encolhidos.

— Está chateada? – perguntei em um tom baixo.

— O quê? Não! – Yara me encarou como se eu tivesse xingado sua mãe. – Só estou cansada também.

— Não precisa se fazer de durona o tempo inteiro, sabia? – coloquei a mão na cintura e dei um sorriso sincero.

— E você não precisa esconder o que acha de mim além de durona, Henrique. – ela provocou.

Arregalei os olhos, não acreditando que ela havia me chamado pelo segundo nome, reservado somente para minha mãe (quando ela brigava comigo) e professores.

— Não me chame assim. – tenho certeza de que ruborizei.

— Boa noite. – Yara soltou uma risada abafada e deu um passo para trás.

Virei-me para ir embora, porém, sua voz me fez parar.

— Valeu, Norte.

>>>

Logo outro final de semana em que ficaríamos presos dentro dos muros brancos da Academia de Progresso Ideal chegou. Troquei mensagens com Stefanie desde que acordei até depois do almoço, quando ela teve de ir ao salão trabalhar na faxina.

Mas claro que ela não se foi antes de me infernizar.

Stef: Achei o tal Fábio no Facebook outro dia. [13:13]

Stef: Você não vai acreditar. [13:14]

Eu: Vindo de você, não mesmo. Menina mentirosa do caramba. [13:14]

Stef: Ele trabalha no R.C.E. [13:15]

[Stef enviou uma imagem]

Era um print de um perfil do Facebook com o nome de Fábio Almeida. Abaixo da foto de um homem de cabelos louro escuros e óculos de sol havia uma seção de informações: veio de Minas Gerais, cursou publicidade e trabalhava na empresa Resolvedores de Casos Específicos.

Eu: Ah, não. [13:16]

Tinha se tornado um senso comum torcer a boca para o R.C.E. e depois da atitude de Heitor, o chefe deles, a situação foi de mal a pior.

Já que Stefanie ficou offline, decidi fuçar toda a vida do sujeito em seu perfil. Para começar, analisei o vira-lata caramelo em sua foto de capa. Tudo bem, quer dizer que descobri quem esteve passeando com minha Siri.

Rolei pelas publicações: fotos de passeios, do cachorro (se chamava Barrilzinho), da família e compartilhamentos que adultos costumam fazer e não tem muita graça. Em resumo, um sujeito normal, que aliás era quatro anos mais novo que minha mãe.

Mãe: Tenha um bom final de semana, meu amor. Terminei de alimentar todos os seus bichinhos e limpar as casinhas. Deu trabalho, viu! Depois vou ver se a Siri quer passear. [13:21]

E vários emojis de coração. Agradeci e enviei alguns também. Ela ficou offline e me perguntei se Barrilzinho e seu dono estavam inclusos no passeio.

“Os adultos não ligam”, essa frase ecoou no fundo de minha mente. Receoso e seguindo parte de meu rancor, digitei.

Eu: Você não sente minha falta, mãe? [13:23]

Mãe: O quê? Que tipo de pergunta é essa, Norte? [13:23]

Não respondi. Fiquei encarando a tela brilhosa, o pescoço afundando nos ombros e o ar saindo quente pelas narinas.

Mãe: Eu sinto. Todos os dias. Eu sinto saudades de te ver acordar, de te abraçar, de fazer seus pratos favoritos e de reclamar sobre a quantidade de copos que você deixa na escrivaninha. [13:25]

Mãe: Quando recebi a ligação do R.C.E. e depois a carta, tive um aperto no peito. Mas percebi como você voltava triste da escola desde que descobriu seu poder e não queria mais ver seus amigos. Imaginei que você ficaria melhor se estivesse rodeado de outros adolescentes com poderes. [13:26]

Mãe: Eu… Me enganei?[13:26]

Fechei os olhos, expirando. Alguns adultos podiam não ligar, mas minha mãe sim. Era egoísmo de minha parte esperar que ela me tirasse dali tão rapidamente quando estava tão preocupada em relação a perda de seu emprego e as contas que devia pagar. Ela faria algo assim que pudesse.

Eu acreditava nela.

Eu: Não. Na verdade, acho que fiz alguns amigos legais aqui. Valeu, mãe. [13:27]

>>>

Perto das quatro da tarde meu celular vibrou com uma mensagem inesperada.

Yara: Esconderijo. 15 minutos. [15:41]

Achava fascinante seu jeito de poupar palavras. Arrumei a cama que estava abarrotada depois de tanto tempo deitado e passei um desodorante por cima da camiseta. Kaíque estava com metade do torso no chão e as pernas em sua cama, concentrado em seu videogame portátil.

— Você não faz nada da vida? – afastei as cortinas, deixando que a luz entrasse no quarto. Ele chiou de descontentamento.

— É claro que eu faço. – Kaíque ergueu as sobrancelhas. Ou as abaixou. Não sei, ele estava de ponta cabeça.

— Tipo? – sentei-me em sua cama, olhando-o de cima.

— A curiosidade matou o gato, garoto espirro. – ele deu um sorrisinho. – Eu sou só deslocado, não desocupado.

— Sei. – suspirei. – Por que está usando essa camiseta? – reparei no tecido rosa amarrotado com a estampa da personagem Sailor Moon.

— Às quartas usamos rosa. Nunca assistiu Meninas Malvadas? – Kaíque revirou os olhos.

— Hoje é sábado. – respondi incrédulo.

— Ah… É. – o garoto já não prestava mais atenção em mim, havia voltado a se concentrar em seu jogo.

Essa resposta foi o suficiente para eu abandonar Kaíque com seu entretenimento/sujeira de cada dia e ir ao esconderijo. Todos estavam sentados quando cheguei, incluindo Amanda e Victor, o qual exalava uma terrível aura de “eu não queria estar aqui”.

— Norte! – Amanda acenou e deu tapinhas em uma cadeira ao seu lado.

Eu morreria se me sentasse ali? Arrisquei.

— Enfim, todos aqui? – Ienaga segurava uma folha de papel dobrada. Usava um blusão preto com logo de banda e uma bermuda desbotada. – Aqui e ali estão as respostas que confirmarão ou não nossa terceira característica. – apontou para Yara que carregava um bloco de notas.

Engoli em seco e percebi que Amanda fez o mesmo. Já havíamos inteirado os gêmeos sobre o assunto, a garota se mostrou incrédula e Victor disse que aquilo era besteira, apesar de ter ficado subitamente interessado no quadro branco e fazer várias perguntas para Ienaga.

— Se estão prontos para saber, vamos para o espaço de reuniões. – Eduardo destrancou a porta.

Nos movemos para a próxima sala, nos acomodando nos cantos como costumávamos fazer pela falta de cadeiras. A luz foi acesa e Yara entregou o bloco para Ienaga. De repente o clima ficou apreensivo e ninguém ousava dizer algo. Parecia até a revelação de um teste de DNA.

Eduardo pegou o costumeiro canetão, o destampou e pressionou a ponta no quadro. Ienaga respirou fundo e desdobrou a folha que tinha em mãos, mostrando que na verdade eram duas grampeadas uma na ponta da outra.

— Esses são os resultados que eu e Eduardo conseguimos. – chacoalhou os papéis. – Tem vinte e uma respostas aqui. – olhou para o rosto de cada um, séria.

Um silêncio sugestivo e ameaçador tomou conta do ambiente.

— Dias, conseguiram a resposta para minha pergunta? – Ienaga respirou fundo.

Amanda assentiu ligeiramente e entregou um post-it cor-de-rosa para a líder.

— Quantas? – perguntou.

— Sete. Uma delas sendo minha e do Victor. – Amanda assentiu.

— Bom. – Ienaga agitou o post-it e o leu. – Hospital Carvalho. Nas sete.

Meu estômago se revirou de ansiedade, indo até minha garganta e entalando ali. Eduardo fez seis riscos na vertical e um na horizontal, traçando os anteriores.

A líder abandonou o post-it rosa e focou-se em suas folhas grampeadas, lendo linha por linha, algumas detalhadas com nomes e datas. Ao final, haviam vinte e oito riscos na lousa, além dos cinco da outra semana (eu, Yara, Ienaga, Eduardo e Érica).

Ienaga fez uma pausa, olhou outra vez para o rosto de cada um, registrando nossas expressões. Amanda empalideceu, Victor ficou sério, Yara neutra e Érica apreensiva. Quanto a mim, não conseguia esconder meu enjôo.

Após os minutos de tensão e o nó na barriga, a líder foi virando o bloquinho de notas entregue por Thiago enquanto Eduardo anotava as respostas. A contagem terminou com 65 riscos no quadro branco, misturando-se às palavras e siglas.

— Vocês sabem o que isso significa? – Ienaga encarava a superfície branca.

Talvez eu não quisesse saber. Porque era confuso. Porque aquilo talvez não nos levasse a lugar nenhum. Porque o que estávamos fazendo era idiotice diante dos olhos dos adultos.

— Sessenta e cinco de noventa e seis. Sessenta e cinco alunos nasceram no hospital Carvalho em dois mil e três. – o maxilar de Ienaga estava tenso. – Não podem mais negar que algo aconteceu nesse lugar, naquele ano. – bateu com o punho cerrado na lousa.O som seco adentrou nossos ouvidos e nos acordou de nosso estado de nervos.

— Tem a margem de erro, é claro. Trinta e um alunos podem ter nascido em outro lugar. – Eduardo brincou com o canetão, fazendo-o sumir.

Minha cabeça zuniu e latejou como uma maneira de avisar o quão atordoado fiquei. Érica perguntou o que aquilo significava e Ienaga deu uma longa gargalhada em tom insano.

— Minha cara colega, isso significa que temos um lugar e data para a origem de nossos poderes. – a líder escondeu o rosto com uma das mãos.

Eduardo pressionou o botão de ligar do notebook e a tela preta transformou-se em uma área de trabalho cheia de atalhos.

— Chega. – Ienaga engoliu o riso e ajeitou sua franja. – Desculpem. – pigarreou e tirou sujeiras imaginárias de sua bermuda.

— E agora? – Yara indagou.

— E agora, recorremos a internet. – Eduardo gesticulou com a cabeça, pedindo para que nos aproximássemos do notebook.

Nos reunimos em volta do gaveteiro, apertados uns contra os outros, mas o calor e suor eram o menor de nossos problemas. Na verdade, fiquei feliz por estar entre Amanda e Érica, assim eu não cairia ao desmaiar. Agilmente, Eduardo digitou na barra de pesquisa do Google: “Hospital Carvalho 2003”.

Apareceu uma rota de como chegar ao hospital e outros links irrelevantes. Eduardo foi descendo a tela em silêncio. Quando mostrou que não havia nada ali, Ienaga tomou-lhe o mouse e clicou na aba de notícias.

Após alguns segundos, uma manchete preencheu a tela.

Enfermeira do Hospital Carvalho é demitida após famílias suspeitarem do tratamento na maternidade.

Hanna Sato de 28 anos foi desligada de sua função depois que pais relataram haver pontos avermelhados nos braços dos recém-nascidos sob seus cuidados.

27/08/2003.

“Saindo do hospital, reparei que minha filha estava com um pontinho vermelho no braço. Meu marido disse que era como se ela tivesse tomado uma injeção e não tivessem colocado um curativo. Mas não podia ser isso, né?”, contou Berta Garcia (24), uma das mães que esteve no hospital.

Segundo câmeras de segurança do local e relatos de outros funcionários, não houve nenhuma ação suspeita feita pela enfermeira.

“Isso só pode ter sido uma coincidência ou um mal entendido, eu nunca faria nada aos recém-nascidos.”, alegou Hanna.

Após a acusação, a enfermeira passou a faltar frequentemente no trabalho e foi demitida por justa causa.

Ienaga fez menção de descer a tela, mas Érica a impediu dizendo que não havia acabado de ler. Todos nos entreolhamos tensos e esperamos que a garota deixasse de semicerrar os olhos para a tela e sussurrasse o que lia.

Não consigo afirmar se não sabíamos o que dizer ou se não queríamos dizer. Na verdade, nossos olhares apreensivos falavam por si só enquanto apenas esperávamos uma conclusão da Ienaga.

Permitindo que o mistério corresse, a líder desceu a tela e uma imagem foi carregada. Haviam duas mulheres, uma com o rosto borrado e a outra de traços japoneses e cabelos pretos amarrados em um grandioso coque no alto da cabeça, além de vestir um uniforme branco.

Tive um mau pressentimento no mesmo instante e um arrepio alfinetou minha espinha, o que me fez encolher no lugar.

— Essa mulher. – Ienaga colocou o dedo sobre a japonesa na foto. – Tem algo a ver com quem somos.

Demorei um tempo para registrar sua última frase. Meus olhos arregalaram-se e o corpo paralisou-se. Tentei visualizar os outros membros, esperando que alguém a contrariasse, todavia, todos mantinham-se igualmente incrédulos.

Aquela seriedade, autoridade e convicção me fizeram imaginar que Ienaga (e talvez Eduardo) já houvessem pesquisado aquilo antes mesmo da apuração das respostas. Tudo havia sido preparado antecipadamente.

Fixei meus olhos na foto, não sendo capaz de acreditar naquela teoria. Poderia estar errada. Tinha de estar errada. Mas o fato de alguém com acesso à maternidade, o ano de nossos nascimentos e o hospital em que nossas mães deram à luz… Tudo se encaixava.

— E esses “pontos avermelhados”? – Érica apontou para a tela do notebook.

A costumeira troca de olhares entre Ienaga e Eduardo aconteceu, o que apenas piorou tudo. O vice tomou a palavra:

— Não há outras imagens além da foto da Hanna, então só podemos apostar na fala da Berta. Marcas de injeção.

Fiquei estático e o suor acumulou-se nas palmas da mão. Não contaria para ninguém daquela sala, contudo, tinha medo de injeções e geralmente tentava fugir quando precisava tomar alguma.

— O que nos leva a presumir que Hanna aplicou uma injeção nos recém-nascidos e não fez curativos para não se dedurar ainda mais, pelo menos, até o dia de sua demissão. – Ienaga afastou os cabelos úmidos de suor.

A data da notícia era de agosto. Juntei os pauzinhos em minha cabeça, encontrando o motivo para não existir a chegada de alunos novos em setembro, já que Hanna não tinha mais acesso à maternidade nesse período.

— Se isso for verdade. – murmurei, a garganta seca. Ienaga me lançou um olhar de desgosto pelo “se”. – Deveríamos achar a Hanna, não é? Ela é alguém importante para o nosso… Caso. – pigarreei.

Não entendi o porquê, mas Victor me olhou como se olhava para um idiota.

— Tem razão! – Amanda concordou e a feição de seu irmão tornou-se o retrato da indignação.

Eduardo balançou a cabeça em um gesto pesado, digitou Hanna Sato na barra de pesquisa e clicou no primeiro link, nos direcionando para um site diferente.

Mulher sofre acidente de carro próximo ao rio Paraná.

Testemunhas alegaram que a motorista perdeu o controle do veículo, fazendo-o capotar e cair no rio.

09/07/2004.

De acordo com as investigações e relatos de familiares, o carro pertencia à Hanna Sato, ex-enfermeira, de 29 anos. Não houveram outras vítimas no local do acidente.

O silêncio que se estendeu foi agonizante, juntamente à falta de ar causada por todos os membros estarem colados uns aos outros naquele calor infernal.

— Quer dizer que… Nossa única esperança… Está morta há quatorze anos? – Amanda engoliu em seco.

— Precisa rever o que chama de esperança. – Victor resmungou. – Ela não ia ajudar de qualquer forma, ia?

— Ela não está morta. – Ienaga ergueu o tom de voz.

— Pelo visto, está. – Yara ponderou.

Eduardo rolou a tela e sublinhou com o indicador uma das linhas da notícia que ainda não havíamos lido.

O corpo não foi encontrado.

— Isso é o que chamamos de esperança. – Ienaga deu um sorriso determinado. Estávamos constrangidos e atordoados demais para responder àquilo. A líder era uma pessoa legal, mas às vezes se esquecia de colocar os pés no chão.

— Bom, ela capotou o carro e caiu no rio, é difícil de acreditar que tenha sobrevivido. – Érica roeu uma das unhas.

A tampa do notebook foi fechada em um estalo que nos pegou de surpresa. A mão de Eduardo espalmava a superfície preta, as costas mostraram-se sutilmente curvadas e a cabeça baixa.

— Não acham muito conveniente? – sua voz saiu rouca. – Descobrem que ela está fazendo algo errado com os bebês. Começa a faltar, resultando em uma demissão por justa causa. E um ano depois… Morre?

Eu sentia que minha cabeça explodiria a qualquer momento.

— Quem garante que… Ela não forjou isso tudo? – Eduardo nos perfurou com suas íris amarelas.

— Isso está realmente me assustando. – Érica afastou-se, obrigando-me a pender para o lado vazio. Sua face brilhava de suor e ela tinha começado a arfar.

Todos arregalamos os olhos, sabendo o que deveríamos esperar de sua atitude. Yara correu para perto dela, falando para não se exaltar ou ativaria a onda de azar.

— Suponhamos que tudo seja culpa dessa ferrada da Hanna Sato. – Victor ignorou a situação de Érica e voltou-se para Eduardo. – E daí se ela tiver forjado tudo e estiver viva por aí? Ela não vai retirar nossos poderes. Já teria feito isso se quisesse.

— Exato. Ela não quer. Aliás, nem sei se podemos nos livrar desses “poderes”. Mas se a achássemos, teríamos algum tipo de progresso. – Ienaga rebateu duramente.

— “Se a achássemos”. Já viu o que somos? Ou o que é essa academia? Se cobrir é circo e se cercar é hospício. Ah, esqueci, já estamos cercados. Somos ratos de laboratório brincando de escola feliz, essa é nossa gaiola e os adultos e a Hanna não vão nos tirar daqui até decidirem se nos dissecam ou…

O som grave e espalmado cortou o ar, cessando imediatamente as palavras do gêmeo. A marca vermelha no rosto de Victor conectava-se grotescamente à mão trêmula de Eduardo.

Naquele momento, seus falsos olhos amarelos queimavam de fúria.

Notas finais
Hanna Sato está viva ou não? O que será da União agora que eles possuem essa informação? Os garotos irão brigar? Me contem nos comentários! Até o próximo capítulo: Mu e miau Beijos. —Creeper.