Academia De Fadas
25 Capítulo 25 — Quarto, cócegas e sentimentos
Notas iniciais
Capítulo 25 — Quarto, cócegas e sentimentos
Lucy
— Ferrou — Natsu exclamou, ainda forçando a maçaneta com as duas mãos e com o pé na porta.
Não, não, não, não. Isso não pode estar acontecendo. Não mesmo. Presa aqui com o Natsu? Em um quarto? SOZINHA? Kami-sama, me tira daqui. Só pode ser brincadeira. Não acredito. Calma Lucy, calma. Ele deve estar zoando com você, deve ser isso.
Fico olhando fixamente para ele tentando abrir a porta, em vão. Minha perplexidade ultrapassa os limites da anormalidade. Não, não... Continuo repetindo mentalmente para mim mesma. Por quê? Sou uma garota tão boazinha, por que essas coisas acontecem comigo?
— Fala sério — reclamou para si mesmo, largando a maçaneta — Como isso foi acontecer? — continuou seu monólogo olhando inconformado para a porta.
Ele não parece estar fingindo.
Que merda.
Natsu se virou e olhou para mim. Continuei congelada atrás da porta. Ficamos em silêncio, não há o que ser dito nessa situação. É claro que ficarmos nos encarando não é lá uma solução para o caso, mas...
Ele suspirou, andou até a cama e sentou-se.
— Vai ficar aí para sempre? — voltou a me encarar atrás da porta.
— Foi de propósito não foi? — Disparei do meu mais íntimo ser. Ele me olhou, pasmo — Seu pervertido descarado! Tenho certeza que foi você que planejou isso! — comecei a gritar.
No impulso de bater nele, sai de trás da porta sem perceber. Ele me fitou, olhei para mim mesma, lancei-lhe meu mais amaldiçoador olhar e bati a porta do banheiro com tudo. Não acredito. Encosto minha cabeça com raiva na porta.
Isso não está acontecendo. Respiro fundo. Tento pensar de uma maneira otimista, ou pelo menos positiva. Claro, tirando a parte de que não tem nada de positivo em ficar presa em um quarto com um cara que não é meu namorado. Apesar de que ficar em um quarto com meu namorado também é assustador.
Tento me acalmar, coloco minha roupa novamente. Nada de biquínis.
Quanto mais longe eu ficar, melhor. Isso, vou ficar aqui no banheiro até alguém sentir nossa falta e vir nos procurar. Bato na minha testa. Do que estou fugindo? Natsu é meu melhor amigo. Já fiquei com ele em cômodos vazios mais do que com qualquer garoto. Eu nunca me importei. Por que diabos estou me importando agora? Ele nunca faria nada contra minha vontade. Que merda estou pensando que ele iria fazer? Estou louca.
— Para de drama e sai logo daí, não vou fazer nada — Sua voz soou do outro lado da porta. Ele ouve pensamentos?
Abro a porta vagarosamente, até vê-lo jogado na cama, com as mãos atrás da cabeça. Ele se virou ao ouvir o som da porta.
— Nada que você não queira, claro.
Mostro a língua para ele em deboche. Ele riu. Eu não vejo graça. Minhas pernas devem estar claramente trêmulas. Saio do banheiro e encosto na parede logo ao lado. Distância, não é assim tão má ideia. Começo a olhar para as paredes, chão, ou qualquer coisa que não fosse o indivíduo deitado à minha frente me encarando. Olho para ele, apenas para ter certeza que ele está mesmo me fitando, e está.
— É bom você não tentar nada! — aponto em sua direção. Sinto meu rosto arder com a situação.
Ele apenas riu mais, o que não me deixa muito confortável.
— Essa distância que você está tentando inutilmente manter entre nós dois, é medo? — ele diz de forma confiante, olhando de onde ele está até mim.
— C-claro que não. Por que eu teria medo de você? — falei dando mais alguns passos. Passos curtos, claro. Quanto mais longe melhor.
Ele sorriu, olhando para o teto dessa vez.
— Pois deveria ter.
Sinto um calafrio ridícula pela minha espinha, ignoro a sensação e me aproximo um pouquinho mais.
— Cala a boca — repreendo, mais por nervosismo do que por realmente ter me irritado — Dá pra você explicar porque eu estou presa aqui com você agora?
Natsu arqueou as sobrancelhas ao me encarar de volta. Sento no canto da cama, mas pronta para sair correndo caso eu precise... Correndo? Para onde você iria e porquê? Estou pirando.
— E porque você acha que eu tenho a resposta para essa pergunta? — replicou de maneira sarcástica.
— Porque eu cheguei aqui antes — devolvi, começando a me irritar.
— Pff — Debochou, me deixando ainda pior — Olha nervosinha que pensa que sou um psicopata tarado. Eu estava lá de boa na minha, perto da churrasqueira, curtindo o cenário, quando a Levy perguntou se eu não ia entrar na piscina. Ela, repito, a Levy me deu a chave do quarto para me trocar. Então pare de ter fantasias eróticas comigo.
— Que? — gritei inconformada, mas com a última parte — Para de sonhar — falei, virando a cara para o outro lado.
Deixando meu surto de lado, eu não acredito que a Levy-chan fez isso comigo. Minha melhor amiga. Inacreditável.
Natsu riu do meu jeito desesperador e estabanado de ser.
— Acho que ela não sabia que estava aqui, foi tudo um mal entendido, então pare de me acusar — Defendeu-se novamente, dessa vez mais sério.
Ah! Com certeza ela não sabia. Ratinha maldita.
— Sabe, você é a pessoa que eu mais confio, me dói saber o quanto desconfia de mim.
Olho para ele no mesmo instante. Natsu não me encara de volta. Sua frase meio que me pega de surpresa. Mentira, me pega completamente de surpresa. “Pessoa que eu mais confio”? Eu ia começar a dizer que ele estava brincando e tudo o mais, mas sua expressão... parece mesmo magoada. Sinto-me mal. O que eu achei que ele iria fazer? Ele é meu melhor amigo. Caramba Lucy, você ganhou o prêmio de otária do ano.
— Desculpe — digo cabisbaixa — Sou desesperada por natureza, você sabe.
Ele finalmente voltou a sorrir, o que me acalmou.
— É, eu sei — concordou e piscou para mim.
Engulo em seco. Estou começando a pensar que o medo não é dele... é de mim. Respiro fundo para não entrar em pânico de novo.
— Bom, vou ligar para a mald... para a Levy-chan, daí ela nos tira daqui. A porta deve ter emperrado ou sei lá — Ou talvez uma baixinha cretina tenha nos prendido aqui.
Pego minha bolsa perto de Natsu e começo a vasculhar, procurando meu celular. Olho onde sempre o deixo, e não está. Por que vivo mudando as coisas de lugar? Procuro nos bolsos menores, depois nos do canto, nos maiores. Nada. Nada.
— Não pode ser... — sussurrei para mim mesma.
— O que foi?
— Esqueci... meu celular em algum lugar — Esfrego a mão em meu rosto, indignada com minhas proezas — Devo ter deixado lá na mesa enquanto conversava, não sei — Grunhi, querendo arrancar minha cabeça fora.
— Tsc, mas é muito idiota mesmo — Zombou. Olho feio para ele, mas sou ignorada, como sempre.
Natsu põe a mão no bolso dentro do calção enquanto ainda ri de mim. Mas vejo sua expressão de sarcasmo se transformar em dúvida. Ele senta-se com tudo na cama, pegando sua calça e batendo a mão no bolso, na frente, atrás. Depois mexeu em sua mochila, até finalmente seu olhar voltar para mim, demonstrando o mesmo desespero que o meu.
— Mas é muito idiota mesmo... — digo com total ironia.
— Fica quieta — jogou-se novamente na cama — O jeito é esperar.
Esperar? Fala sério. Ele está muito tranquilo para alguém que está trancado em um quarto que nem sabe que horas conseguirá sair. Tranquilo até demais. Inacreditável. Enquanto eu só quero dar o fora, para ele olhar o teto está de boa. Não acredito nele.
— Então, o que quer fazer? — perguntou com um sorriso amigável.
Olho de lado para ele.
— Você está se divertindo com isso né?
— Claro que não, porque você acha isso? — continuou sorrindo.
— Por causa desse seu sorriso idiota estampado na cara — respondo ainda com meu tom irritado.
Seu sorriso desapareceu no mesmo instante. Olho para os lados antes de fixa-lo novamente. O que aconteceu? Ele sentou-se novamente, estralou o pescoço de um lado para o outro, depois me olhou novamente.
Vish.
―×―
Levy
Olho para o relógio da parede. Como será que estão as coisas por lá? Bato os dedos na mesa, impaciente. Droga, queria tanto ver a cena quando eles descobriram que estão presos lá. Mas não posso estragar esse momento. Vou me conter em pensamentos. Sorrio sozinha. Sou uma ótima amiga.
— Levy! Você viu onde o Natsu se meteu? — Lisanna vem em minha direção, encolhida com o frio ao sair da piscina.
Hum... acho que me esqueci desse grande detalhe. Lisanna. Olho para ela, pesando em minha consciência. Levy, essa garota é apaixonada pelo Natsu por anos. Essa garota é sua amiga. E o que você fez? Prendeu esse cara que ela é apaixonada com outra garota! Você é terrível! Mas essa outra garota é minha melhor amiga.
— Levy? — Lisanna me chama novamente, virando a cabeça para focar em meus olhos perdidos.
— Ah, eu... quero dizer, ele... deve... sei lá, ter ido ao banheiro? — minto descaradamente. Me sinto horrível, de verdade. Mas fiz tudo seguindo minha intuição, se faço algo por mim, não posso me sentir mal.
— Hm... talvez eu devesse lig...
— NÃO! — grito antes que pudesse pensar, ela me olha confusa — Quero dizer, pra que né? Já, já ele aparece — todo meu corpo treme com as mentiras. Algo apita em minha mente “Ela vai descobrir, vai brigar com a Lucy, virar a cara para mim, e dizer o quanto sou uma pessoa horrível e...”
— Ah, mas agora já estou ligando... — diz com o celular na mão.
Ai meu Kami-sama... Sinto que por um momento meu coração parar de bater, meus pulmões param de trabalhar e meu corpo inteiro para. Até um celular começar a tocar, perto da churrasqueira e o Gray gritar para o mundo “NATSU SEU CELULAR TÁ TOCANDO, PORRA!”.
Ufa...
— O jeito é esperar ele voltar não é? — sorri, mantendo a postura e calma que eu não tenho.
— Tem razão... Estou sendo muito desesperada? — pergunta cabisbaixa.
Sinto uma pontada no peito. Suspiro e coloco a mão em seu ombro.
— E quem consegue entender o desespero que temos por razões do coração? — digo suavemente — Tudo pode ser uma confusão, mas no final, tudo se encaixa.
Ela sorri para mim, com a confiança revigorada.
— Obrigada Levy! Você tem razão. Sei que um dia, eu e ele voltaremos ao que sentíamos antes, tenho que ser paciente, certo?
Nã-na-ni-na-não. Não entendeu nada.
Dou uma risada nervosa e concordo com a cabeça. Seus olhos parecem explodir de alegria, e ela volta para a piscina saltitante. Meu Deus, sou uma péssima consoladora.
―×―
Lucy
— Acho que terei que fazer você se divertir um pouco também — sorri maligamente enquanto se aproxima de mim.
Meu coração passa a acelerar e querer sair de minha boca. O que eu fiz? Volte Natsu.
— O-o que você vai fazer? — Digo com receio.
Ele sorri de lado, e antes que eu pudesse fugir para qualquer lugar, passou seu braço pela minha cintura e me derrubou com tudo na cama.
— O... o que diabos? — gaguejo, tentando entender o que está acontecendo, ao mesmo tempo em que minha respiração fica cada vez mais densa.
— Não tem graça em me divertir sozinho, Lucy — profetiza, me empurrando suavemente até o meio da cama, mantendo-se em cima de mim.
Começo a me debater em nervosismo. Não sei o que há, não sei o que está acontecendo, mas meu coração está tão acelerado que posso ter um infarto a qualquer instante.
— Nem pense em fazer nada! Eu vou gritar, g-gritar muito alto, entendeu? — tentei ao máximo parecer ameaçadora, mas convenhamos, não sou nada ameaçadora. Além do mais, acredito que meus tapas inúteis em seu abdômen e minhas pernas trêmulas não ajudavam com o disfarce de durona.
— Shh — sussurrou, mudando sua expressão de um modo perverso. Suas mãos foram deslizando até minha cintura, me causando um arrepio acusador.
Não, eu não estou pronta para isso. E ele é meu amigo. Isso é errado. Eu tenho namorado. Eu disse que me afastaria. Apesar de seu corpo em cima do meu, me causar algumas sensações novas e estranhas... O QUÊ? Não, não, não. Lucy não se renda. Eu não posso simplesmente perder minha virg...
De repente, uma vontade súbita de rir surgiu. Passei a rir desesperadamente, enquanto ele me fazia cócegas. Sério... Cócegas. Não que me desaponte, pois estou aliviada, mas odeio cócegas também. Começo a rir sem tempo para descanso, enquanto me debato embaixo dele para fazer que pare.
— Natsu... não, para com isso! — grito entre minhas risadas, batendo inutilmente de novo nele. Tentei chutá-lo e me defender de suas garras, ao mesmo tempo em que não consiguia parar de rir.
Tento escapar dessa tortura, mas ele é mais forte que eu. Suas pernas prendem as minhas, mantendo todo meu corpo vulnerável. Chega, chega! Penso comigo mesma, tirando forças do além e dou um soco em sua cara, empurrando-o para trás. Ele caiu para trás na cama.
— Ai Lucy! Isso doeu — disse com a mão em seu rosto, exatamente no ponto onde o acertei.
— Bem feito idiota, quem mandou fazer cócegas em mim! — Falo confiante, passando meus braços por minha barriga, sentindo meu abdômen arder.
Pensei que com isso tudo estaria acabado. Que inocente. Ele sorriu novamente, e voltou a se aproximar de mim. Sem dormir no ponto outra vez, saltei da cama, correndo para... lugar nenhum. Não há lugar para se esconder. Ele pula logo após, e começamos a correr em volta da cama. Ele é rápido.
— Natsu, para! — imploro, olhando para trás por um breve momento, vendo-o perto de mim.
— Sou um cara persistente, Lucy — replica com um sorrio sarcástico no rosto. Maldito.
Pulo por cima da cama para “cortar caminho”. Ele vai me pegar alguma hora. Olho para todos os lados, até ver a porta do banheiro. É lá mesmo que eu vou. Vou a todo vapor até a porta, estico o braço para ver se chego mais rápido até a maçaneta, mas um corpo se joga na frente da porta. Paro no mesmo instante, quase caindo em cima dele novamente.
Natsu tosse aparentemente exausto dessa perseguição, mas claro, não mais que eu. Ele respira fundo, pondo as mãos sobre os joelhos.
— Belo salto — elogio ironicamente, também sentindo minha respiração intensa.
— Chega de correr — Levantou-se novamente, pondo a mão sobre o peito.
— Chega de cócegas — retruco no mesmo instante, dando passos curtos para trás.
Seu sorriso aparece novamente. Droga.
— Não está se divertindo? — pergunta fazendo sua cara de falsidade iminente.
— Só na hora que te acertei em cheio — digo com um sorriso falso igual.
Dessa vez, ainda esperta, terminei a frase e voltei a correr, pois sabia que ele não aceitaria aquela resposta. Estava certa, corri rindo de sua expressão de irritação. Virei de frente para ele, correndo de costas, apenas para ver sua reação. Porém ele estava mais perto do que pude prever. Pensei em me virar, mas algo encostou em minhas pernas atrás. Ai meu Deus. Olhei apenas para ver o sofá inútil que estava atrás de mim.
— Perdeu — ele falou se aproximando de mim com seu sorriso vitorioso, até escorregar em algo.
Antes que eu pudesse pensar em alguma alternativa, seu corpo caiu sobre o meu, fazendo com que caíssemos desastradamente sobre o sofá.
— Ai — resmungo, sentindo meu corpo doer com a queda. Pelo menos o sofá amorteceu um pouco. Bem pouco, diga-se de passagem.
Abro os olhos, e sinto meu coração voltar a disparar quando vejo seus olhos fixos nos meus. Sinto sua respiração falha e intensa ao mesmo tempo. Nossos corpos já exaustos, colam um no outro após tanta corrida. Tento dizer algo engraçado, tento pensar em algum xingamento por seu desastre natural, mas nada deixa meus lábios, que a propósito estão muito próximos dos dele. Seus olhos me prendem, me inquietam, e me deixam sem fala alguma.
Penso no que está acontecendo. Porque meu coração está assim tão agitado, ou em como fomos parar daquela forma. Seu olhar está diferente... parece transmitir algo, talvez carinho, ou calor. Passo a me sentir desesperada, quando seus olhos passam de meus olhos para minha boca.
— Lucy... — sussurrou, chegando seu rosto mais perto do meu.
Permaneço imóvel, à mercê dele. Não consigo me mover, e começo a pensar que talvez eu não queira me mover. É errado, mas parece tão certo. Fecho meus olhos vagarosamente, enquanto sinto seus lábios roçarem os meus. Lembro dessa sensação, lembro de quando ele me beijou no baile. Quase posso ouvir o meu coração agitado.
— Hm? — murmuro fracamente. Não conseguiria pronunciar mais nada.
Sinto sua respiração se aproximando, juntando-se a minha. São tantas sensações por meu corpo que mal posso descrevê-las. Sua mão roça meu braço, delicadamente, me fazendo abrir os olhos novamente. Seus olhos estão fixados diretamente nos meus. Meu coração falha.
— Sou apaixonado por você.
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