Academia De Fadas
26 Capítulo 26 — Sinal
Notas iniciais
Capítulo 26 — Sinal (parte I)
— Sou apaixonado por você.
Sua frase deixa seus lábios na mesma intensidade que seus olhos observam qualquer reação de minha parte. Não consigo deixar seus olhos hipnotizantes da minha visão. Meu corpo estremece abaixo do seu, ao mesmo tempo em que me sinto paralisada.
Apaixonado... por mim? Hã?
Começo a duvidar de minha audição. Natsu? Aquele meu melhor amigo palhaço? Sempre pronto para me irritar ou me xingar... O mesmo que sempre me acolheu? Aquele que invade sempre minha casa, ou que sempre faz de tudo para eu rir... o que está acontecendo?
Os pensamentos se misturam em minha mente. Eu deveria rir dessa piada sem graça? Eu o faria, se parecesse brincadeira. Continuamos nos encarando, sem dizer mais nada. Ele parece enxergar além da minha alma, e eu quase posso sentir seu nervosismo e dúvida. Não sei o que pensar, não sei se quero...
Em um impulso, ele fecha os olhos e sela seus lábios nos meus, interrompendo qualquer outro pensamento que pudesse invadir minha mente. Fecho os olhos também, sentindo seus lábios se entreabrindo, sua língua quente invadir minha boca. Apesar do meu coração totalmente acelerado, não me sinto assustada. Vou cedendo, pouco a pouco. Deixo que nossas línguas se entrelacem, enquanto sinto sua mão passar por minhas costas, me puxando para mais perto.
É estranho, é bom. É um beijo diferente de qualquer outro que eu já tenha dado na vida. É calmo, e desesperado. É tímido e intenso. Mais que isso, posso sentir enquanto nos beijamos... ele não está brincando. Ele está mesmo apaixonado por mim. Me pergunto como não reparei, como não vi que todas suas indiretas levavam a isso.
Levo minhas mãos até seus cabelos, puxando-o mais para mim. Não quero pensar em mais nada, não quero saber se está certo ou errado. Meu coração, meu corpo, meus pensamentos, todos querem isso.
Ao perceber minhas mãos, ele morde o canto do meu lábio, o que me arrepia inteira. Suas mãos deslizam até minhas cochas descobertas com meu short curto, agarra-as com força e em um movimento súbito me levanta. Não vejo para onde ele vai, não abro meus olhos. Sinto que se eu os abrir, morrerei de vergonha por toda eternidade. Descubro nosso destino ao sentir ele me deitando delicadamente em algo macio. Seus lábios não deixam os meus por nenhum instante.
Não precisamos de ar, precisamos um do outro.
Logo seu peso repousou sobre mim. Nossas pernas brincam uma com a outra, sinto sua mão acariciar meus cabelos. Aperto-o nas costas. Deus... isso é bom...
Finalmente, ele afasta seus lábios dos meus. Tenho medo de abrir meus olhos e essas sensações sumirem, mas não há tempo para medos, sua língua desliza por meu pescoço, solto um gemido involuntário. Posso sentir seu sorriso perto de mim. Natsu me morde de leve, meu corpo se derrete. Posso sentir algumas contrações onde eu não deveria sentir.
Então ele volta a me olhar, e dessa vez me encontro também o olhando. Deveria ter ficado de olhos fechados, pois no momento em que nossos olhares se cruzam novamente, um nervosismo sobrenatural invade todo meu corpo. Mas... posso ver... o quanto ele também está nervoso. Seu sorriso de convencimento não está mais presente, e o que resta é uma expressão em pânico, me olhando, esperando.
— Lucy... eu sempre te quis — Sussurrou de maneira tão falha que mal pude escutá-lo.
Mas foi o suficiente para estremecer. Estou tão sem reação, gostaria de poder fugir dessa situação, como também gostaria que ela não acabasse nunca. Será que um dia irei me entender?
Continuo observando todas suas feições, a mandíbula firme, contornos perfeitos, olhos profundos. Não sei o que dizer...
—Natsu... — começo a falar algo que não faço ideia do que é.
Ele desce por meu pescoço, deixando beijos por todo caminho. Aproxima-se de minha orelha, sinto sua respiração ofegante. Seus dentes me mordiscam de leve na parte sensível de minha orelha, fazendo com que um arrepio passe por todo meu corpo até a ponta dos pés.
— Hm? O que foi? — murmura, e eu gemo. Droga de reações impensadas.
Seu corpo cola mais ao meu. Sinto sua ereção perto de mim, no instante que meu corpo cede. Ele me enlouquece... Minhas pernas tremem, sinto meu intimo estremecer junto. Não sei o que acontece aqui... Mordo meu lábio inferior com alguns pensamentos impuros que nem eu mesma já me imaginei ter.
Nesse momento, Natsu sorri para mim e volta a me beijar. Suas mãos me seguram firme, enquanto seus lábios parecem ter sede dos meus. Agarro firme em suas costas, passando minhas pernas por elas. Uma de suas mãos vai diretamente para minha cocha, segurando-a firme, apertando sua ereção contra mim. Solto gemidos de excitação ao sentir seu movimento, seu beijo desesperado e intenso. Sinto que posso morrer a qualquer momento.
Oh... ele está tão...
Ouço vozes se aproximando da porta. Na mesma velocidade que meu coração acelerou, empurro Natsu com tudo para trás.
E a porta se abre.
— NÃO ERZA, NÃO ENTRA AI NÃO! — Escuto Levy gritar, assim que vejo-a passar pela porta juntamente com Erza, que segura a chave na maçaneta pelo lado de fora.
As duas param na porta e encaram nós dois. Estudando nossas reações, nossas posições e seja lá o que mais. KAMI-SAMA! O que irão pensar de mim? Natsu também fica paralisado encarando as duas. Sinto meu rosto esquentar, como se todos já soubessem o que rolou nesse quarto. Engulo a seco. Meu coração parece sair do peito, minhas mãos soam, e sinto meu cabelo totalmente despenteado com essa loucura.
Natsu limpa a garganta, claramente tão nervoso quanto eu.
— Até que enfim, cara — diz naturalmente, levantando-se em um pulo — Achei que ficaria aqui para sempre com essa... — tentou continuar a frase, mas travou sem motivo. Ele arriscou um olhar para mim, que desviei na hora — com essa... — gaguejou novamente, depois jogou os braços pro ar — Enfim, piscina?
— Hm... Eu... — Erza começou a falar com certa dúvida — Bom, estava te procurando Lucy, você disse que me faria companhia na piscina e sumiu — sorriu, ignorando toda a esquisitice. Amém.
Recomponho-me, passando a mão pelo cabelo, tentando disfarçar minha tremedeira. Levanto da cama também.
— A-ah, claro. Eu estava indo — gaguejo cada sílaba.
Olho ao redor, tentando me encontrar. Olho para Natsu, seus olhos fixos em mim. Viro a cabeça e continuo a procurar minha mochila caída em algum lugar. Finalmente a encontro perto do sofá, olho para o chão e vejo a parte debaixo do meu biquíni, a parte fugitiva. Foi quando meu cérebro deu um estalo, foi nisso que o Natsu tropeçou. Kami-sama... se eu não fosse tão desastrada com minhas coisas, nada disso teria acontecido. Isso é bom ou ruim?
— Lu-chan? — Levy me chama ao ver meus devaneios ao segurar meu biquíni.
Olho para ela, me lembrando do que ela fez. Dou um olhar de fúria e vou para o banheiro sem olhar para mais nada. Sem olhar para Natsu. Nada disso aconteceu. Nada disso aconteceu. Esse é o lema.
Fecho a porta do banheiro e encosto nela logo após. Minhas pernas ainda tremem, meu coração ainda está acelerado, minha respiração intensa, meu corpo todo estremece. Lembro da sensação de suas mãos me tocando, fecho os olhos e quase posso senti-lo novamente. O que foi tudo isso... Levo a mão até a boca, sentindo tudo fora do lugar. O que eu fiz?
Tento me acalmar, mas não consigo. Tento compreender o que houve minutos atrás, mas não acho explicação. Porque cedi tanto? Fico imaginando o que aconteceria se elas não tivessem chegado. Tudo aquilo pioraria. Eu estava excitada! Pelo meu melhor amigo, meu Deus. Isso é muito errado! Que droga de consciência atrasada! Nem com Sting cheguei a esse ponto... Kami-sama! STING! Que porra que eu tô fazendo? Puta que pariu. Puta que pariu. Puta que pariu. Odeio palavrões, mas não consigo expressar de outro modo o que estou sentindo agora. PUTA MERDA!
Isso não pode estar acontecendo. Como vou encarar Natsu agora? E Sting? Por que a droga do meu corpo não me obedeceu? Por que diabos eu não me afastei como disse que iria?
“Sou apaixonado por você”.
Sua voz soa em meus ouvidos como se estivesse escutando agora novamente. Apaixonado por mim... apaixonado. Natsu. Por mim. Meu coração que a esse ponto se acalmara, volta a acelerar. Ninguém nunca se declarou para mim.
— Lucy, está viva? — Escuto Erza berrar do outro lado — Quer ajuda para se vestir?
Acordo de meu transe, o que tem ocorrido muito ultimamente. Respiro fundo, e tento não pensar mais em nada. Troco de roupa com a mente em branco. Isso não está acontecendo. É um pesadelo. Fim.
Saio do banheiro, vendo as garotas me esperando. Levy me olha curiosa.
— Levy-chan, vou te matar — digo sem mais, me encaminhando para a porta.
— Calma Lu-chan! Você acha que eu faria isso de propósito? — Faz sua voz de inocência que eu sei que é fachada, continuei a olhá-la feio, enquanto Erza apenas nos segue sem entender. Levy suspira, derrotada — Okay, foi mesmo de propósito. Mas foi pelo bem de vocês! Vai me dizer que não rolou nada?
NADA? Rolou tudo! Esse é o problema!
— Deixa pra lá, vou descer. Depois conversamos, Levy — digo com entonação.
— Ah Lu-chan! Estou curiosa — Choramingou atrás de mim.
— Você merece isso.
Fim de papo.
―×―
Saio do dormitório, sentindo meu rosto ainda quente. Estou tão envergonhada com tudo, e ainda pior que isso, estou confusa. Quando me lembro de pequenos flashes do que houve lá dentro, nem me reconheço. Nunca me imaginei em tais situações, e entendo o porquê. Nunca me senti assim com ninguém. Natsu sempre me passou segurança, em qualquer coisa. Lembro de um trabalho que fazíamos juntos, tudo estava dando errado, comecei a enlouquecer, então ele simplesmente pôs a mão no meu ombro, sorriu e disse “Calma, vai dar certo”. E deu.
Mas acho que isso o fez se tornar meu melhor amigo. Ele sempre esteve do meu lado, desde o primeiro dia de aula. Sempre me passou otimismo. Sempre perdoou minhas idiotices, e olha, foram muitas. Ele me acolhe, me faz rir, me mostra um lado bom em algo que eu nunca imaginaria algo bom. E pensar em tudo isso agora, realmente, é uma droga.
Começo a andar em direção a piscina onde posso ver Lisanna e Cana conversando, tento não olhar para os lados apenas para não ter que encarar aqueles olhos intensos outra vez. Sei que uma hora será inevitável, mas enquanto eu conseguir, irei evitar este reencontro.
Entro na piscina, tensa. Sinto a água gélida e me abraço numa tentativa de me aquecer. Sei que deveria ter pulado para não passar tanto frio, mas minha mente não está funcionando assim tão bem no momento.
— Lucy! — Lisanna sorri ao me ver. No mesmo instante, quando encaro seus olhos azuis, uma onda de culpa invade minha consciência. O... que... foi que eu fiz?
— O-oi — cumprimentei sem graça.
— Olha quem apareceu! Onde estava safada? Você sumiu e seu namorado não está por aqui — Cana disse como se soubesse tudo o que eu fiz. Olho para ela espantada, mas ela está rindo. Ela só está brincando Lucy, sossega. Ninguém sabe, ninguém sabe.
— É, tive alguns contratempos para me trocar.
O que não é mentira.
Elas não questionaram, apenas tiraram sarro da minha cara. Continuamos conversando normalmente, o que é bom, mas lá no fundo cada palavra que saía da boca delas parecia me atacar por dentro. Normalmente isso é mal de quem faz coisa errada. Bom, estou com esse mal. Erza e Levy também se juntam a roda, o que melhora o clima, porém a confusão em mim não vai embora.
Não aguentando tanta pressão que na verdade nem deve existir, vou para um canto na escada e apoio meus braços na borda da piscina. Olho para o céu e fico em meu mundo, apenas pensando. Às vezes acho que esse dom que nos foi passado é um tipo de tortura embutida, porque pensar em tais circunstâncias nunca nos leva à alguma coisa boa. Podíamos conseguir apenas não pensar em nada. Não pensar em como traímos um namorado e uma amiga ao mesmo tempo, e nem como o gosto dos lábios do seu melhor amigo é bom.
Que merda.
Desvio o olhar da escuridão do céu, e olho ao redor na piscina. Vejo Erza também em um canto, pensativa. O que estaria pensando? Como não gosto de meus pensamentos, gostaria de invadir a mente de outras pessoas para ver o que há. Erza é tão misteriosa para mim, sempre tão decidida, forte e amigável. Mas quando a vejo assim, encostada em algum lugar, pensando tão profundamente, parece haver no fundo alguma cicatriz, algum passado. Acho que todos temos coisas que queremos esquecer.
— Lu-chan? — Levy se aproxima, me fazendo parar de olhar para o outro lado da piscina.
Olho feio para ela e desvio o olhar para algum outro lugar para mostrar minha indignação.
— Qual é Lu, não pode ficar assim comigo para sempre! — resmunga ao meu lado.
— Na verdade, eu posso e devo. E nem se passou uma noite para ficar dizendo “para sempre” — retruco mal humorada, sem a encarar.
Houve um tempo em que nunca me imaginei brava com Levy. Sabe, ela sempre esteve do meu lado para tudo, sempre me acolheu. Somos parecidas em praticamente tudo, em ideias, claro. Logo que nos conhecemos, nos identificamos, somos gêmeas de mente. É uma daquelas amizades que você imagina que é para sempre. Até, lógico, sua melhor amiga fazer uma droga dessa contigo.
— Eu estava pensando em você! Porque ficou tão brava? Foi apenas uma brincadeira.
— Brincadeira?!? — grito, fazendo com que todos olhem para gente, então abaixo o tom — Já pensou em quantas consequências essa brincadeira poderia ter Levy? Se estava pensando em mim porque não me consultou antes? Somos amigas, não somos?
Ficamos nos encarando. Meu pulmão infla do meu desabafo. São tantas palavras tão mais ofensivas que querem deixar minha boca. Nunca fui uma pessoa explosiva, nunca tive motivos para isso.
— Desculpa Lu-chan, não achei que você ficaria assim. Nunca faria algo que pudesse estragar nossa amizade, ou que magoasse você.
Olho em seus olhos e vejo que ela realmente está arrependida. Eu a perdoaria na hora, tenho um coração mole insuportável, mas quando me lembro de tudo o que passei e que vou passar por causa dela, a cena muda.
— Mas você fez — respondo sem pensar.
Então simplesmente a deixo e vou novamente onde as garotas estão. Meu coração está acelerado e despedaçado. As frases da minha pequena discussão com a Levy passam e repassam em minha mente. Acho que nada é para sempre. Aceite Lucy.
Apenas olhei para trás a tempo de ver Levy saindo da piscina e indo para o dormitório. Tenho quase certeza que pude ver seus olhos vermelhos, sinto um pesar em meu coração, mas não me desculparei, foi ela quem errou. “E ela já pediu desculpas”. Não importa. Ainda me sinto nervosa. Acho que estou de cabeça quente, talvez eu deva ir para casa. Ficar aqui não ajudará em nada, até as próprias paredes parecem me julgar. Não consigo me distrair, tudo parece fora do lugar, assim como era antes de eu sair de casa. Esse ciclo que insiste em me perseguir.
Olho sem querer para a churrasqueira, onde Natsu está e só percebo que estou observando-o, quando ele também me olha. Não desvio o olhar imediatamente, apenas continuo analisando nossa situação. Sua expressão está séria, assim como estava lá dentro. É estranho vê-lo assim no final das contas. Será assim de agora em diante? Eu gosto tanto do antes... Mas foi tudo tão intenso.
Desvio o olhar para as pequenas ondas que se formam com o movimento das pessoas. Hora de ir para casa.
Saí da piscina e dessa vez fui até o primeiro banheiro que encontrei para me trocar. Tomo uma pequena ducha, lavando meus cabelos de todo cloro. Guardo meu biquíni em uma sacola plástica e me visto. Pego todas minhas coisas para socar na bolsa, quando vejo a blusa de Natsu. Suspiro e a pego. Abraço ela, como se abraçasse meu velho amigo. Acho que só preciso de um abraço... Eu só...
Uma lágrima escorre por meu rosto.
O que estou fazendo?
Respiro fundo. Não quero chorar. Limpo o rosto e soco tudo de uma vez na bolsa. Chega de pensamentos, chega dessa noite.
Saio do banheiro, e dou um tchau coletivo de longe. Muitos me olham com suspeita. Escuto Erza gritar “Por que já vai?”. Não respondo, apenas apresso meus passos e vou. Passo pelo arco de entrada e aumento meus passos ainda mais. Não é tão perto e já está escuro. Tenho um pouco de medo de ruas escuras e estreitas. Vou pelo meio da rua onde há luz.
O silêncio da noite faz tudo parecer mais calmo, mas logo os pensamentos me invadem novamente. Penso no olhar determinado de Natsu ao se declarar, em seus braços fortes me segurando, em seu beijo quente. Meu coração acelera só de pensar e perceber que não foi apenas um sonho, ou pesadelo. O que está acontecendo comigo? Você já não havia decidido? Há três meses atrás, quando tinha acabado de entrar no colégio, quando soube de Lisanna. Você decidiu deixá-lo, você decidiu que seriam apenas amigos, Lucy. Porque está voltando atrás?
Quando sai de casa, disse a mim mesma que tudo mudaria, que faria amigos. Quando entrei no colégio, e realmente fiz amigos, os coloquei sempre em primeiro lugar na minha vida. Eles se tornarão minha família. E em apenas uma noite eu consegui perder tudo isso.
Começo a me questionar sobre meus sentimentos por Sting, o que não torna nada mais fácil. Será que apenas me deixei levar pelo calor do momento? Não, eu realmente gosto dele. Ele é bom comigo... Mas talvez eu tenha me precipitado demais. Não sei. Porque me sinto tão diferente com Natsu? Não deveria ser assim. Me odeio.
Finalmente avisto meu apartamento. Devo ter corrido sem perceber, nem reparei nas ruas envolta. Só agora sinto minhas pernas arderem como se eu tivesse corrido uma maratona. Bom, talvez eu tenha corrido, só não percebi. Acalmo meus passos, e assim que meu coração se acalma também, ouço passos perto de mim. No momento que viro para ver se estou imaginando coisas, algo toca meu pulso.
Então o vejo.
Natsu respira fundo, fadigado e parecendo ter corrido quilômetros por hora.
— O que faz aqui? — pergunto com o coração em mãos. Isso não é bom.
Ele respira forte olhando para o chão até finalmente me encarar.
— Lucy... — diz com um suspiro, sua voz parece não sair — Eu... estava falando sério.
Fico paralisada sem entender o que ele quer dizer com isso. Ele estava me seguindo e eu nem reparei?
— Sobre o que você está falando? — replico, rindo. Tento demonstrar naturalidade, como se nada tivesse acontecido, mas acho que minha reação não demonstra exatamente isso. Acho que está mais para “Algo realmente aconteceu e eu estou nervosa pra caramba”. Dá para reparar isso quando desvio meu olhar.
Sua mão desliza por meu braço como ele sempre faz, e eu sempre arrepio. Natsu dá um passo para mais perto de mim. Sua mão passa por meu pescoço e segura meu queixo, me fazendo olhar para ele.
— Estou mesmo apaixonado por você.
Uma parte de mim quer fugir, e outra se derrete. Porque é tudo tão complicado? O que você quer que eu diga Natsu? Não posso te dar a resposta que você quer ouvir. Pare de fazer meu coração acelerar como bem entender, seu maldito de cabelos rosas.
Sua outra mão para em minha cintura e me puxa para si.
— Fica comigo — diz ofegante — Termina com o Sting.
Ficar com ele... terminar... Como eu poderia tomar uma decisão dessas de uma hora para outra?
— É apenas uma competição entre vocês dois? Não gosto de joguinhos — tento me manter firme.
— E eu disse que não estou brincando — retrucou sério e rápido — Mas se precisar jogar para você ficar comigo, eu não ligo.
Minha respiração falha novamente. Não sei o que fazer... Ficamos em silêncio. Eu surtando, ele esperando. Tudo o que eu já pensei se enrola em minha mente. Afasto-me de seus braços, olhando para o chão.
— N-natsu... eu não posso fazer isso. Gomem ne — digo as últimas palavras, abrindo a porta do prédio e correndo para o meu apartamento.
Bato a porta e me jogo no chão. Minhas pernas tremem, meu coração desaba. Será que vou me arrepender? Penso nele sozinho lá fora, tentando imaginar o que ele está sentindo. Olho para o teto. Sinto seu toque em meu braço, seu cheiro forte.
CHEGA LUCY!
Natsu... sai da minha cabeça.
Podemos sorrir, que ninguém irá perceber
Podemos fingir, então todos esquecerão
Mas por quanto tempo conseguiremos mentir?
Para nosso próprio coração.
―×―
O domingo amanheceu com um sol radiante, desse modo até parece que nada aconteceu. Dizem que cada dia é um dia novo, mas como começar algo novo sem resolver os problemas velhos? Minhas olheiras gigantescas não me deixam esquecer a tragédia do dia de ontem. Custei a dormir, revirei-me na cama diversas vezes, pensando em centenas de situações possíveis até ser vencida pelo cansaço.
Pensei nas coisas que aconteceram ontem de diversas formas, tentei ver o lado positivo, tentei imaginar que ficaria tudo bem, que hoje, Natsu ainda seria meu melhor amigo, Sting meu namorado, Levy minha melhor amiga, e o mais importante, eu ainda seria... a pessoa que eu era, ou gostaria de ser.
Sonho ou pesadelo? Foi tudo tão intenso e profundo que não consigo imaginar tudo isso sendo um pesadelo. Talvez pensar assim faça com que tudo se torne um pesadelo no final das contas. Não estou me entendendo mais.
Jogo água no meu rosto novamente e enxugo, olhando novamente para meu reflexo pálido no espelho. Quem estou me tornando? Trair meu primeiro namorado? Sou ridícula. Tantas, tantas garotas gostariam de estar em seu lugar, Lucy. Simplesmente por você namorar o cara mais lindo e desejado do colégio, ou talvez de Magnólia. Mas elas não o conhecem tão bem, ele não é apenas um rosto bonito, ele é carinhoso e fofo. E eu o trai. Com meu melhor amigo. Kami-sama...
Preciso parar de pensar nessas coisas, eu tenho que...
“Bip”
Hum?
Volto para meu quarto, vendo a luz do meu celular piscando mostrando ter uma nova mensagem. Quem pode ser? Tudo menos o Natsu. Talvez seja a Levy.
“Oi amor, como foi o churrasco ontem? Se divertiu? Estou indo dar uma volta pelo parque com meu gato. Queria que você o conhecesse, o Lector é bem legal. Enfim, se puder dar uma passada por lá, me avise. Saudades.” — Namorado Fofo.
Leio a mensagem e tenho um ataque cardíaco no momento em que ele menciona o churrasco, como se pudesse ler meus erros. Minha consciência pesa. Talvez eu deva mesmo tomar um ar, fingir que nada aconteceu e seguir com a minha vida. Ou ser honesta com Sting... Só queria que algo me guiasse para o caminho certo.
“Oi amor, foi bom. Claro, adoraria. Te encontro lá”
Sou mesmo uma namorada horrível.
Respiro fundo e tento me manter animada para revê-lo depois de uma noite turbulenta. Só vou agir como se nada tivesse acontecido. Está tudo bem, foi apenas alguns errinhos que qualquer pessoa cometeria... É Lucy, isso não está colando. Nem para mim.
Visto um short preto e uma blusa branca, calço minha rasteirinha, amarro meu cabelo de lado e saio de casa. Tento manter minha mente em branco para não demonstrar nenhum tipo de arrependimento enquanto encontro Sting, mas como eu já disse, discrição não é o meu forte. Vou andando devagar, sem pressa de vivenciar o inevitável, ver Sting.
Infelizmente, mesmo que devagar, se você não está parado, então uma hora chegará ao seu destino. Entro pelo caminho do parque, observando as árvores e toda a paisagem que as acompanha. Lembro-me da vez passada que estive aqui, ainda não estava namorando Sting e ele me chamou para passear. Fiquei tão nervosa e animada, estar com ele era como um sonho para mim. Quase nos beijamos pela primeira vez aqui, e Natsu apareceu.
Às vezes me pergunto... Será que desde aquela época...? Não pode ser.
— Hey gata, está perdida?
Volto ao mundo real em um solavanco procurando pela voz próxima. Sting sorri para mim, e depois que eu descongelei, sorri também.
— Oi amor, acho que estava em outro mundo — “brinquei”.
— Me levando para ele junto com você, está tudo bem — respondeu da mesma maneira brincalhona.
Ele me abraça e eu o abraço também. Sabe, é bom e aconchegante. Além de tudo, parece certo. Apesar de não exalar a mesma intensidade de calor e cheiro como Natsu, tudo parece estar em seu lugar. Talvez toda aquela exaltação fosse apenas por se fazer algo errado.
Olho em seus olhos claros por um tempo, ele se aproxima e me beija, segurando minha cintura. Sua pegada é forte e te faz querer se derreter em seus braços. Em seus braços e lábios, sinto que fiz a escolha certa. Mas porque será que quando estamos separados, meu coração diz que fiz a maior burrada da minha vida?
Escuto um miado, me fazendo acordar e nossos lábios se separam.
— Opa, estamos sendo mal educados — disse com um sorriso de orelha a orelha.
Olho em seu pé e vejo um gato esfregando-se em sua perna. Seu pelo é brilhoso e marrom, e usa um colete azul. Só de olhá-lo, meu sorriso se alargou. Agacho perto do mesmo e passo a mão por seu pelo macio.
— Oi bonitinho, seu dono esqueceu de você é? — falei dando uma piscadinha para Sting.
— Ei, a culpada é você, tá engraçadinha? — disse, agachando-se ao meu lado — Amor, esse é o Lector, meu fiel companheiro. Lector, essa é a Lucy, minha namorada perfeita.
Ele dá risada e eu tento acompanhar. “Namorada perfeita”. Se eu tenho esse título, apenas lamento pelas namoradas imperfeitas.
Sentamos em um dos bancos, Lector fica em meu colo. A sensação de estar aqui é boa, é calma. Ao contrário de quando estou com Natsu que tudo parece uma baderna. Não preciso de grandes emoções na minha vida. Quero permanecer na calmaria. Embaixo das árvores o vento sopra meus cabelos, enquanto Sting conta suas aventuras com seu gato. Damos risadas, brincamos, jogamos indiretas.
Está tudo bem... as coisas estão bem como estão.
[...]
Depois de tomarmos um sorvete, começamos a caminhar pela longa estrada que passa por todo parque, em uma volta completa. Estou começando a me adaptar, como se meu sonho que nada aconteceu estivesse finalmente se realizando.
— Nossa, me lembro de um dia em que o Lector sumiu. Eu fiquei desesperado, fui às ruas com meus pais por toda parte. Então comecei ouvir alguns miados desconfortáveis, o maldito estava lá namorando. Safado — contou entusiasmado.
— Igual o dono, né? — brinquei e ele sorriu, passando seu braço em minhas costas.
— Claro que não — defendeu-se, mantendo seu sorriso.
Ri de sua reação olhando para sua falsa cara de inocência.
Então meu coração parou.
Assim que voltei a olhar para a estrada a frente, avisto Gray e Natsu caminhando. Eu paro de andar, Sting estranha e olha para frente, vendo os dois a poucos dez metros de nós. Ambos começam a andar vagarosamente também, até estarem na nossa frente e parar.
Meu corpo treme, minhas mãos suam. Tudo menos isso. Natsu olha para mim, eu olho para ele como se suplicasse não mencionar nada da noite anterior. Depois vejo claramente seu olhar passar de mim para as mãos de Sting em minhas costas. Sinto-me na situação mais horrorosa de todas. Será que posso simplesmente sair correndo?
— E aí? — Natsu cumprimenta com um sorriso sarcástico. Já o vi muitas vezes e por isso sei muito bem quando ele não está apenas sorrindo, mas no fundo está tirando sarro de mim.
— E aí? — Sting responde, me puxando para mais perto.
Gray olha para todos, provavelmente sentindo a mesma pressão que eu esteja sentindo, ou apenas brisando em todo ódio no ambiente.
— Aproveitando o domingo? — Natsu perguntou olhando para mim.
Fico calada. Seu tom de voz mostra indiferença e seus olhos frieza. Nunca o imaginei falar ou olhar assim para mim, ainda mais depois de ontem. Ainda mais depois de seu olhar... apaixonado? Não sei, era intenso da mesma forma que imagino ser um olhar deste tipo.
Começo a ficar com medo. Lembro-me da última noite, dele vindo atrás de mim, pedindo para que ficasse com ele. Eu disse não. Mas estava apenas recusando algo que nunca daria certo, e não nossa amizade. Não sei se ele pensa assim, nem ao menos sei se ele se manterá calado. Jogar toda nossa noite na cara de Sting seria um sonho para Natsu, nesse joguinho ridículo deles. Será que sou apenas parte de um jogo?
Meu coração acelera. Por favor Natsu... Não.
— Sim, o dia está bonito para se passar com a namorada, não concorda Natsu? — Sting responde por mim ao ver minha paralisia.
No momento em que ele termina a frase, olho-o assustada. Não o provoque Sting. Desse jeito... Natsu olha para mim e sorri. Não, não, por favor, não. Depois ele olha para o chão, morde o lábio.
— Concordo — diz sorrindo novamente — Bom passeio para vocês — começa a andar contra nós — Vamos Gray.
Então ele passa por mim, como se eu fosse nada. Se quer saber... Estou começando a acreditar que talvez, eu realmente não seja nada.
―×―
O domingo ensolarado passou, e as gotas da chuva resolveram aparecer perto das oito horas da noite. Depois de meu demorado banho para esquecer os acontecimentos agitados do dia, apoio-me no batente da janela. Vejo as gotas escorrerem pelo vidro da mesma forma que gotas caem de meus cabelos ensopados.
Se eu queria um sinal, ele deve ter fugido de mim.
“Bip”
Olho para meu celular jogado ao lado na cama. Abro a mensagem.
Talvez tivesse sido melhor não abrir.
“Sabe Lucy... fingi para mim mesmo e para o mundo, todo esse tempo, sobre meus sentimentos. Não ligo de fingir por mais tempo, não ligo que “isso” dure uma eternidade se for preciso. Mas não me venha dizer que o que aconteceu, não aconteceu. Pode mentir para os outros, pode tentar me enganar, mas por quanto tempo você vai se esconder de si mesma? Hoje seu olhar implorava “Não diga”, e eu o fiz. Não conseguiria ser tão baixo, mesmo com aquele idiota do seu namorado. Só não imaginei que você fosse. Leia isso como se fosse um sermão do seu melhor amigo. Não sei se recebo mais esse título. Boa sorte” — Natsu chatinho.
Domingo, por favor, acabe.
―×―
Uma semana se passou. Uma nova segunda se iniciava. Nunca houve outra semana mais tenebrosa do que essa que se foi. Passei intervalos na biblioteca, ou com Cana e Erza. Evitei Natsu a todo custo, evitei Levy, mesmo com ela vindo atrás de mim, pedindo milhões de desculpas até no trabalho, e evitei até mesmo Sting. Queria um tempo para mim, para pôr as coisas no lugar. Mas agora... Só me sinto mais perdida.
Abro meus olhos, sentindo-os pesar. O despertador toca desesperadamente ao meu lado, mas não consigo me mover ainda. Apesar do som ser muito desconfortável. Meu corpo dói. Dormi ainda pior do que ontem, e anteontem, e assim por diante. Ah, deve ser porque fiquei chorando até umas três horas da manhã. Suspiro. Até hoje, não respondi a mensagem de Natsu, apenas a li e reli diversas vezes e claro, chorei em todas elas.
Sabe, não havia nada que eu já não soubesse nela.
Finalmente bato no despertador, fazendo-o se calar. Olho ao redor, e vou zumbizando até o banheiro. Começo a me arrumar sem ânimo nenhum de ir à escola.
Esse final de semana passei em casa. Sting veio aqui, conversamos um pouco, nada fora do normal. Ele questionou meu jeito distante, eu apenas sorri e disse que a semana não tinha sido muito boa. Ele tentou me acalmar, me comprou chocolates, me levou para andar, me deu carinho. Às vezes até carinho demais. Mas nunca mais me senti, como me sentia antes.
Jogo água no rosto, penteio meu cabelo e vou em busca do meu uniforme.
— Ohayou.
Pisco os olhos mais algumas vezes para ter certeza que não estou dormindo ainda. Voz? Hm? Direciono meu olhar de onde imagino ter escutado o som, e meus olhos se abrem rapidamente.
— Sua cara está horrível, só para constar — Natsu “constata” sentado na minha poltrona.
— O que diabos...
— Me contaram que alguém anda matando muita aula, vim ver o que tem acontecido com a garota mais estudiosa da sala, ou pelo menos a segunda mais estudiosa — continua falando encostando suas costas na poltrona com seus braços jogados sobre os encostos.
Não sou uma boa conversadora da manhã. Normalmente minha voz nem costuma sair, a não ser que me acordem assustada ou atrasada. Natsu fala tão rápido e apressado que peno para acompanhar. Mas no final em minha mente só resta: “O que está acontecendo e porque ele está aqui?”.
— Você está bem? Porque sabe, apesar de você ter me ignorado a semana inteira, eu ainda me preocupo com você.
— Não te ignorei a semana inteira — defendo-me, encostando a porta do banheiro e me apoiando sobre ela.
— Claro que não, até porque quando eu acenava, você virava a cara, era apenas uma demonstração de simpatia. Lógico que isso foi apenas uma coincidência que ocorreu mais vezes do que você esperava, nunca seria de propósito, certo? — terminou o falatório, com um sorriso irônico nos lábios.
Suspiro vencida.
— O que quer? Não foi uma boa semana para mim — digo revirando os olhos.
— E acha que para mim foi?
Olho para ele, que tem um semblante triste em sua expressão. Séria, mas carregada de uma mágoa que eu não conseguiria descrever. Olho para o chão, e levo a mão até a boca para roer a unha.
— Não vou chegar atrasada hoje, pode indo na frente — tento tirá-lo dali de alguma forma.
— Posso esperar.
— Você irá ficar cansado.
— Estou confortável.
— Você pode se atrasar.
— Como? Se você não se atrasará hoje?
Teimoso. Ele me lança seu sorriso vitorioso. Bufo irritada, pego meu uniforme e entro no banheiro. A manhã será longa.
[...]
O tempo nublado continua a me perseguir, o vento pouco gélido também. Ando pelas ruas com meus pensamentos confusos, com minha mochila em um ombro só e com meu “ex?” melhor amigo ao lado. Não falamos nada enquanto caminhávamos, é como se fossemos estragar o silêncio. Como se o silêncio fosse a melhor opção no momento, e bom, eu não discordo.
Até porque, meu coração está acelerado, e estou tentando fingir indiferença, quando na verdade, pareço um vulcão em erupção de sentimentos.
— Ei Lucy... — interviu com a cabeça baixa, olhando seus próprios passos.
— Oi? — digo um pouco hesitante por ouvir sua voz.
— Você me odeia?
...
— O que? Claro que não! — respondo assustada por sua pergunta. — Quem deve me odiar é você! — Completo para deixar bem claro que eu não estou no direito de odiar ninguém.
Ele sorri, ainda sem me olhar. Percebo que me exaltei um pouco e volto a olhar para o chão também.
— Então não me tire da sua vida — murmurou.
Meu coração acelera com sua frase, olho para ele, sem palavras. Fico paralisada por um momento até conseguir voltar a mim.
— Não estou...
— Não importa — me cortou e finalmente me olhou — Pode escrever, você pode tentar me tirar da sua vida quantas vezes quiser, eu vou continuar no mesmo lugar, te esperando.
Meu rosto se avermelha completamente. O que? Assim do nada?
— Mas se possível, não me deixe esperando — Brincou, mas não consegui rir, o que fez o clima pesar novamente. — Ah — mudou de assunto — Devia falar com a Levy, ela está bem preocupada com você... Tente relevar.
Pensei em responder, mas ele já saíra na frente e passou pelo portão do colégio, que eu nem ao menos percebi estar tão perto. Acho que não será uma manhã como as outras. Acho que ficar perto de Natsu... sempre será bom.
―×―
Desta vez, sem fugir, entro na sala de aula. As garotas estão, como sempre, reunidas na carteira de Levy, conversando. Respiro fundo e ando até elas.
— Bom dia garotas! — digo sorridente.
Todas me olham assustadas. Como se eu fosse um monstro voltando das trevas, mas era apenas eu voltando de dias escuros. Depois de algum silêncio, todas sorriram e me cumprimentaram. Levy ficou me encarando e depois sorriu.
— Bom Dia Lucy!
Fiquei lá conversando com elas, sobre coisas banais, aquelas conversas que mesmo não levando a lugar algum, sem conclusão alguma, valem a pena, apenas pela companhia. Infelizmente, salas de aula não são simplesmente locais para bate-papo e o professor da primeira aula chegou, juntamente com o restante dos alunos.
Vou para meu lugar, e Natsu anda até seu lugar atrás de mim. Ele sorri, e dessa vez eu não ignoro. Acho que errei em toda essa semana. Tentei me afastar de tudo para pensar, mas acabei não pensando em nada. Achei que assim não magoaria mais ninguém, que assim todos ficariam melhores. Mas acho que se eu realmente quiser que as coisas voltem a ser como eram, então tenho que voltar a ser o que eu era. E bom, de tantas dúvidas, sempre tive certeza de algo: Eu amo meus amigos.
No intervalo, estou terminando de anotar as explicações que o professor pôs no quadro de última hora.
— Como você é lerda — Alguém para ao lado de minha carteira. Olho para o indivíduo que quer me irritar logo no intervalo. Lógico que eu já sabia quem era.
— Desculpe senhor Flash, mortais inferiores como eu gostam de escrever de maneira legível — replico, terminando de copiar a última linha.
— E a garota afiada está de volta — brinca fazendo rolinhos com meus fios de cabelo — Seja como eu, não copie nada e saia na frente.
Dou risada de seus termos.
— Você é um maldito que tira nota do além, eu tenho que estudar.
Ele ri também.
Conversamos por um tempo, apenas um zoando com o outro. Isso me lembra tanto o antes, como se nada realmente não tivesse acontecido. Como se fossemos apenas os velhos e melhores amigos.
— Natsu, posso falar com a Lucy?
Olhamos para trás e vemos a Levy. Respiro fundo, hoje é o dia de enfrentar tudo pelo jeito. Deixar tudo no lugar.
— Ah — ele olha para mim, eu assinto — Tudo bem. Sendo expulso, beleza — fez seu drama de sempre, me fazendo rir, e saiu da sala.
Acompanhamos os passos dele até ele passar pela porta. Depois olhamos uma para a outra e começamos a rir.
— Natsu sendo Natsu — Ela diz parando de rir.
— É, ele é uma figura — concordo, olhando para minhas próprias mãos.
Ficamos em silêncio.
— Você está bem? — Levy pergunta para quebrar o silêncio — Esteve sumida semana passada inteira, fiquei preocupada...
Olho para ela, e vejo o quanto está sendo verdadeira. De verdade, sinto muito sua falta. Sinto falta de nossas longas conversas, de nossas fofocas, de arrumarmos os livros juntas, sinto falta até de seus planos mirabolantes, daqueles que não me envolvem.
— Estou, agora estou — tento sorrir — Passei por um período de muitos conflitos, acho. Agora tudo está melhorando — explico. Apesar de tudo, é sempre fácil me abrir para ela.
— Por minha culpa, né? — diz mexendo a boca de forma triste — Lu-chan, eu...
— Está tudo bem — corto ela e abro um sorriso — Aprendi muita coisa nesse tempo também, está perdoada.
Primeiro ela me olha como se eu estivesse brincando, depois seu sorriso se alarga e ela se joga para cima de mim, fazendo com que eu quase caia da cadeira.
— Obrigada Lu-chan, prometo nunca mais fazer nada que te magoe — diz exaltada cruzando os dedinhos.
Dou risada de seu gesto.
— Tenho que agradecer ao milagre que tocou seu coração viu? — brincou, ainda rindo.
Milagre, hm? Na verdade... Acho que foi um anjo. Daqueles que aparecem no seu apartamento e te arrastam para fora dele. Sorrio pensando nisso, acho que também devo desculpas a alguém.
―×―
Assim, as aulas se encerram. Guardo meu material com uma boa sensação no peito, fico sorrindo sozinha como se tivesse recuperado algo muito importante. E acho que recuperei.
— Vai direto para o trabalho hoje?
Olho para o lado, vendo Natsu já com sua mochila nas costas.
— Não... Combinei de... almoçar com o Sting... — Falei em pausas e hesitante. Apesar de estar tudo bem, falar de Sting para Natsu ainda não é nada reconfortante.
— Ah sim — respondeu sem demonstrar qualquer mágoa — Fale que amanhã no intervalo terei minha vingança no futebol — sorri amigavelmente.
Ele deve estar brincando.
— Ficaram amigos agora? — pergunto com suspeita — Não achei que fosse capaz disso.
Ele ri, começando a andar para fora da sala.
— Sou capaz de muitas coisas pelas pessoas que amo, Lucy — diz com um sorriso singelo — Até amanhã — despediu-se com um aceno de costas.
Fico petrificada na sala, sozinha. O que ele quis dizer? “Pelas pessoas que amo”. Olho para as carteiras vazias. Percebo que o tempo todo, ninguém mudou, apenas eu. Porque não enxerguei isso antes? Pedi um sinal, mas eu não queria vê-lo. Ele esteve o tempo todo, debaixo do meu nariz e eu o ignorei, como fiz com todos. Meu sorriso se abre naturalmente, me sinto leve.
Saio do colégio e Sting me espera na entrada, olhando para o relógio em seu pulso até finalmente me ver.
— Lucy! Estava preocupado, você demorou — disse vindo em minha direção.
— Desculpe, estava pondo as coisas no lugar — respondo distante. Sting arqueia as sobrancelhas sem entender.
— Algo errado? — perguntou vendo minha expressão. Como já disse não sou um poço de discrição.
Olho para ele, em seus olhos claros maravilhosos. Olho para seu mais profundo ser, como costumo fazer com as pessoas. E fazendo isso, percebo que nunca, nunca sentirei por esses olhos, o que senti naquela noite. Porque seus olhos claros não me veem como aqueles olhos escuros. Porque meus olhos não se ligam aos deles da mesma forma como se ligam com aqueles olhos intensos.
Eu disse que queria voltar a ser o que era, a viver como vivia.
— Sting.
— Oi?
— Acho melhor... a gente terminar.
Se lembra quando a gente
chegou um dia a acreditar
que tudo era para sempre
sem saber que o para sempre, sempre acaba.
(Por enquanto – Cássia Eller)
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