Notas iniciais
desculpem a demora

Charlie

Qual dessas roupas Emily iria gostar? Eu sei que não pode ser preto, já que ela gosta de roupas claras, e também não pode ser branco, já que ela diz que parece um fantasma vestindo essa cor... Mas são tantas opções! Argh, ao seria tão difícil presentear aquela menina se ela viesse no shopping comigo de vez em quando...

Mas eu não posso arriscar. Emily ainda é muito mal criada pra sair de casa, mesmo que sobre minha supervisão... Fora que, às vezes, ainda vejo matérias de “desaparecida” dela na internet e pôsteres e faixas em algumas ruas também... Mas que droga! Por que o mundo não se esquece dela? Que saco, ela tá ótima seus sem-o-que-fazer! É só deixa-la quieta, custa tanto assim? Eu deveria ter me apaixonado por uma sem teto qualquer, pois não estariam tão preocupados em achá-la...

Mas voltando ao assunto. Hoje acordei com a mais bela visão, Emily completamente nua ao meu lado da cama e, como ela estava adormecida, tive um tempo para observá-la antes que acordasse e saísse de perto de mim, ou se cobrisse ou me lançasse um daqueles olhares de medo ou repulsa que tanto odeio. Mas, poxa, como minha Emily cresceu. Parece que foi ontem que eu a vi nos corredores da escola, com aquele lindo uniforme, a cabeça meio baixa, toda tímida e fofinha... Minha Emily estava se tornando uma mulher. Minha mulher. Só minha e de mais ninguém.

E é por isso que resolvi comprar um presente adequado para a minha mulher.

Enquanto divagava entre dois modelos de vestidos diferentes e ainda tinha em plano de fundo o corpo nu de Emily ao meu lado, senti uma mão suave tocar meu ombro. Pensei que era a vendedora e me virei prestes a perguntar se havia o tamanho de Emily daqueles vestidos quando avistei quem eu menos esperava ver... Charlotte Gomez. Mãe de minha Emily.

E ela estava horrível. Céus, ele parecia mais velha que minha avó morta. As raízes de seus cabelos estavam castanhas evidenciando a sua verdadeira cor de cabelo e seus olhos estavam leitosos e caídos, carregados de rugas que os deixavam ainda menores. Ela não usava um pingo de maquiagem e estava bem claro que apenas colocara aquele terninho no corpo antes de sair de casa. Cruzes. Lembrete para mim mesmo: nunca descer a tal ponto na vida.

Ela me olhou atentamente e disse:

— Você não é Charlie Ross?

Acalme-se Charlie, não tem como ela saber de alguma coisa. Você não está fazendo nada. Talvez seja melhor fingir que não a reconhece inicialmente. Mantendo minha feição neutra, eu respondi:

— Sim. Pois não?

— Ah perdão, talvez não se lembre de mim. Você foi diretor da escola onde minha filha estudava, Emily Gomez. Lembra-se dela?

— Hum... A Emily inteligente?

Ela olhou para o chão e sorriu fracamente, seus olhos pareciam ter ficado ainda mais distantes quando disse:

— Sim, ela era.

— Desculpe, é que são tantos alunos que, às vezes, me foge — eu ri fracamente tentando quebrar a tensão — Mas a Emily, realmente, foi uma aluna marcante. Tão inteligente e meiga. Como ela está?

Eu senti que sua respiração falhou. Ela disse:

— Na verdade, ela... Ela está... Bom, não sabemos onde ela está...

Fiz uma cara de espanto e confusão e perguntei:

— Como assim? Está dizendo que ela desapareceu? Quando?

Charlotte suspirou longamente e disse, a beira das lágrimas:

— Já faz pouco mais de três anos...

Eu levei uma de minhas mãos até seu ombro e apertei-o de leve, oferecendo certo conforto. Adotei um olhar de pena e disse:

— Sinto muito Sra. Gomez... Eu estive no exterior durante um tempo e não soube da notícia...

— Sim, tudo bem.

— Mas a polícia está procurando? Como andam as investigações?

Ok. Talvez não tenha sido tão ruim assim encontrar Charlotte ao acaso nesse shopping. Quem sabe não consiga alguma informação que a polícia não tornou pública?

—No inicio eles procuravam com tanto afinco, mas agora... Sinto que estão perdendo as esperanças... Há essa sargenta, Valentina Marcuzzo, ela parece querer resolver esse caso custe o que custar... Mas é difícil, pois não há quase nenhuma prova.

— Jura? Mas ela não pode ter simplesmente desaparecido do nada!

Ela suspirou de novo... Aquilo estava começando a me deixar levemente incomodado... Nunca tive exatamente uma mãe nem qualquer possível figura materna... Como será que é quando seu filho desaparece sem mais nem menos?... Deve ser horrível... Eu já tive um filho, mas não senti nada do que ela está sentindo agora com Emily...Por algum motivo, isso faz com que eu sinta uma pequena dorzinha no meu peito... Talvez seja o que chamam de compaixão... Talvez eu não seja um monstro completo afinal...

Entretanto, Charlotte me livrou desses pensamentos ridículos quando me respondeu:

—Eu sei... Mas há suspeitas de que Emily fugiu... Minha Emily...

E ela não aguentou mais e começou a chorar logo ali. Eu revirei os olhos por dentro, mas por fora adotei uma expressão completamente preocupada e acompanhei Charlotte até uma poltrona no canto da loja. Algumas vendedoras perceberam a situação e se aproximaram, então pedi que elas trouxessem um copo de água para que a mulher se acalmasse.

Eu peguei sua mão e disse:

— Olha, eu sei que a situação parece difícil agora... Mas eu tenho certeza de que vocês vão se encontrar ainda. — Mentira! — Veja bem, eu não conhecia Emily muito bem, mas tenho certeza que uma jovem como ela não iria querer que a mãe ficasse tão triste como eu estou vendo... Além disso, ela é uma garota muito esperta, tenho certeza de que está tudo bem com ela.

O copo de água finalmente chegou e após bebê-lo, a mãe de Emily finalmente pareceu se acalmar um pouco. Eu não quis bombarbeá-la com zilhões de perguntas sobre o sequestro de Emily, afinal, ela poderia pensar que é um pouco suspeito isso, então me contentei apenas em ouvi-la.

Quando terminou Charlotte disse que fora uma péssima ideia sair de casa, mesmo que fosse apenas comprar um presente de aniversário para sua irmã, e resolveu voltar. Ofereci uma carona como um bom cavalheiro e disse a ela que não se preocupasse em me ligar se quisesse algum apoio, apenas por educação.

De qualquer forma, a mãe de Emily fora finalmente embora e aquela dor esquisita no meu peito sumiu com ela. Depois desse episódio foi mais fácil escolher um presente para minha garota e sair daquele shopping alguns minutos depois, ansioso para ver minha Emily. Exatamente onde eu a havia deixado.