Abusada ll - Sequestrada
20 Saudades...
Notas iniciais
Franklin
Naquele dia, acordei de mau humor. Eu havia ficado acordado até tarde na noite anterior, pois além de ter feito hora extra no meu trabalho de meio período, também tive que estudar para um ridículo teste de filosofia que teria no dia seguinte... Realmente, humanas não é pra mim.
Mas o que importa é que penei para levantar da cama naquela manhã, mas depois de alguns minutos, acabei conseguindo. Troquei-me rápido e desci correndo para preparar meu café. Por um lado, morar com os avós era bom, pois não tinha que cuidar dos meus irmãos o tempo todo, mas sentia falta deles e do meu pai também...
Mas não consegui ir embora... Não depois do que aconteceu... E se a polícia precisasse de mim para mais alguma coisa? Algo importante que pudesse fazer Emily voltar?... E se ela voltasse e eu não estivesse aqui para recebê-la?... Não, isso era inadmissível.
Foi por isso que no dia seguinte ao desaparecimento de sua amiga, bati o pé para o meu pai e disse que ficaria na cidade nem que tivesse que dormir embaixo da ponte. Foi difícil convencê-lo, mas me mudei para a casa dos meus avós e arranjei um emprego numa loja qualquer para que não atrapalhasse os velhos durante a tarde e também tivesse algum dinheiro guardado.
Naquele dia fui para a escola de ônibus como normalmente fazia desde que tinha me mudado, já que a casa em que morava era muito mais longe que a antiga. Fui para a sala onde teria minha primeira aula, de geografia, e não tinha nem colocado a mochila na carteira quando Oliver apareceu dizendo:
— Fala ai Frank.
— Ei.
— Seguinte, mais tarde, depois da aula, eu e a galera ‘tamo indo ‘pro viaduto. ‘Bora lá?
— Não vai dar.
— Por quê?
— Tenho que trabalhar hoje à tarde.
— A qual é, seu trabalho começa mais tarde. Passa lá antes.
Suspirei. Eu conhecia bem aquele viaduto... Sinceramente, foi-se a época em que eu ficava embaixo de uma ponte fumando maconha e bebendo vodca com um monte de moleque mimado e metido a ‘fodão.
— Eu já disse, não vai dar. Talvez na próxima.
— Puta merda. Mas ‘cê ta ficando muito careta, não acha não? Até parece que é todo certinho assim... O que ‘rolou? Alguma ‘mina que ta pegando?
— Não. Só amadureci.
Quem diria, em? Finalmente, com dezesseis anos nas costas eu amadureci. Parei de beber e de fumar. Não tinha mais tempo para essas coisas, muito menos dinheiro. Tornei-me mais responsável, parte disso porque estou vivendo “sozinho” agora. Até me dediquei mais aos estudos! E também, estou tentando perder minha timidez...
Queria que Emily tivesse me visto assim...
Havia terminado de enrolar o beck de maconha em cima da minha coxa, depois o peguei e mostrei para ela, dizendo:
— Viu? Fácil, não é?
— É... — Emily não estava confortável com aquilo — Não sabia que você fumava.
— Comecei há pouco tempo.
Eu disse enquanto procurava o isqueiro no bolso da minha calça. Estávamos na pracinha atrás da minha casa. Estava muito animado e queria mostrar para ela minha mais nova atitude de rebeldia. Não sabia o porquê, mas me sentia um adulto daquele jeito.
— Quer um pouco?
— Não... Eu tenho que ir. Tá escurecendo.
Ela se levantou do banco onde estávamos sentados e começou a caminhar na direção de sua casa. Eu não queria que ela fosse embora, então a chamei:
— Ei Emily! Calma aí! — corri até alcança-la para não ter que elevar o tom da minha voz — Por que está indo?
— Não me sinto confortável com você fazendo isso.
— Ah qual é. Todo muito faz isso. Um monte de amigos nossos da escola.
— Bom, ninguém quem eu seja muito próxima.
— Para de ser careta. É divertido, olha.
Disse aproximando o cigarro. Ela desviou e ficou mais brava ainda.
— Tira isso daqui! Eu não gosto do cheiro... Não queria que você fumasse ou fizesse essas coisas.
— Tá sendo muito dramática.
Ela bufou e disse:
— Vou pra casa. Só tenta evitar fazer isso perto de mim.
Ela saiu andando e dessa vez eu não a impedi. Acendi o beck e dei uma aspirada. Quando soltei a fumaça ainda gritei:
— Até amanha na aula!
Eu me lembro dessa vez, em que tinha mostrado a Emily que fumava... Lembro-me que ela não tinha gostado. Tínhamos apenas treze anos. Depois da conversa, eu realmente havia parado de fumar perto dela e não tentei fazer com que ela me acompanhasse também. Nas festas em que íamos juntos só bebia um copo ou dois, igualmente... Mas era um frequentador quase diário do “viaduto”.
Às vezes eu via a cara de decepção dela quando via algum dos meus cigarros na minha mochila ou no meu quarto... Ou ainda quando um dos meninos vinha falar comigo sobre esses assuntos... Meus olhos arderam com essa lembrança... Esse também foi um dos motivos pra ter parado depois que ela tinha sumido.
A aula passou rápido, pois havia tido dois horários de física, minha matéria favorita. Mas ainda estava abalado com esses pensamentos inoportunos que tive antes da aula e andava muito cabisbaixo. Foi passando pelo portão da escola que vi Eliza.
Ela havia crescido agora com seus dezesseis anos. Seu cabelo estava maior e havia feito progressiva, aniquilando os cachos. Também havia começado a jogar no time de basquete da escola e ficou com um corpo bonito e atlético... Mas, ainda assim, não era meu tipo.
Ela pregava um cartaz na parede do colégio. Tinha uma foto da Emily com a dita “DESAPARECIDA” em letras grandes e garrafais... Ela sempre fazia isso no final da aula.
Ao seu redor havia duas meninas, algumas bajuladoras do primeiro ano. Quando passei por perto ouvi uma delas falando:
— Você é tão legal por estar fazendo isso por essa garota.
— É. Queria ter uma amiga assim.
E Eliza respondeu:
— É o mínimo que eu posso fazer. Estou em dívida com ela.
— Ah que isso Eliza. Você não tem culpa de nada.
— Talvez ela tenha!
Eu quase gritei e até eu mesmo me surpreendi quando ouvi minha própria voz. As meninas se viraram e olharam para mim. Eliza fez o mesmo e arregalou os olhos quando me viu. Ela disse:
— Ah. Olá Frank.
— Talvez a culpa tenha sido sua também! Talvez ela tenha sido de todos nós!
Ela abaixou a cabeça e disse baixinho:
— Não diga besteiras.
— SE VOCÊ NÃO TIVESSE IDO ANDAR POR AI COM AQUELA PIRANHA DA JÉSSICA, TERIA DADO MAIS ATENÇÃO A ELA! E EMILY TERIA ALGUÉM COM QUEM CONVERSAR SOBRE O QUE ESTAVA PASSANDO E NÃO TERIA AQUELA IDEIA MALUCA DE FUGIR!
— Você também teve culpa nisso! Você ia se mudar! Você que a fez chorar quando disse isso!
— Não se atreva a comparar sua filha da putagem com a minha mudança! Você preferiu a Jéssica porque sabia que ela podia te levar para as festas legais e te mostrar os caras legais! Enquanto a Emily? Há! O que uma garota tímida e excluída como ela poderia oferecer a você?!
— Não foi por causa disso! Eu tinha que ter ficado do lado da Jéssica porque não sabia se Emily estava falando a verdade!
— Como não sabia?! Eu vi com meus próprios olhos!
— Bom, pois devia ter me falado isso naquela época!
— Mas eu não sabia que esse era o motivo pelo qual vocês tinham brigado!
— Então, talvez a culpa da Emily ter sumido seja mais sua do que minha!
Eu fiquei com tanta raiva daquela garota que eu não resisti e simplesmente me joguei pra cima dela já querendo acertar um soco no olho maquiado daquela vadia. Mas não foi uma das minhas ações mais gloriosas...
Primeiro, obviamente, chamaram a diretora e ela nos separou e nos deu uma bronca. Claro que por eu ter começado, recebi uma suspensão de dois dias. E se vocês acham que foi covardia atacar uma garota... Bom, digamos que Eliza com seus braços fortes de arremesso se deu muito melhor do que eu, que passo o dia estudando, renovando estoques e cuidando de caixas... E para encerrar também teve o fato de que tive que aguentar esporro da minha avó por ter “batido em mulher” (apesar de que eu duvido que tenha conseguido fazer isso) e provavelmente iria ganhar um do meu pai quando ele ficasse sabendo da história.
Bom, depois disso eu fiquei extremamente puto e decidi faltar o trabalho hoje e me dirigi para o lugar onde eu menos esperava aparecer: o viaduto onde Oliver e os outros estavam. Todos com quem eu costumava andar nessa época estavam lá, alguns deles eu já até havia ficado, mas não me importei.
Oliver já foi ficando todo animadinho, dando um grande sorriso e dizendo:
— Fala Franklin.! ‘Cê falou que não ia vir cara.
— É, resolvi dar uma passada.
— Fiquei sabendo que tu arregaçou uma mina ‘lá na escola, mas pelo que eu to vendo, parece que foi o contrário.
Ele dizia isso, pois o canto da minha boca tinha ficado meio roxo devido a um soco que Eliza havia me dado... Pelo menos ela deve ter machucado a mão indiretamente com isso. Dei uma risada sem graça e disse:
— É, pois é... Tem fumo ai?
— Sempre tem. Hoje o Alê que tá vendendo.
Tirei meu dinheiro da carteira e o paguei pegando apenas um cigarro de maconha. Depois que eu o acendi, puxei o máximo de fumaça que consegui, segurei por um longo tempo e finalmente assoprei, já sentindo um ligeiro efeito. Ouvi gargalhadas ao meu lado e Oliver dizendo:
— É, o cara continua bom. Toma um gole.
Ele me ofereceu uma das garrafas de vodca que tinham. Estava sendo passada de mão em mão e todos estavam bebendo no gargalo mesmo. Eu costumava achar isso nojento, mas dessa vez pouco me importei. Peguei o líquido das mãos do menino e bebi grandes goles, sentindo minha garganta e meu estômago protestarem.
Afinal, o que raios eu estava fazendo aqui?! Eu tava limpo, porra! Eu disse que ia parar! Por que eu não consigo simplesmente largar isso aqui e ir embora?!
Emily não iria querer isso...
Travei meu maxilar e bebi mais um longo gole de vodca, depois traguei fundo o cigarro em minhas mãos... Aquilo aliviava... A saudade, a impotência... Aquilo aliviava tudo... Mas mesmo assim... “Não queria que você fumasse ou fizesse essas coisas.”
Mas você não está aqui agora, não é?! Não está aqui para me fazer companhia e para me levar para o caminho certo! Por que você tinha que ter desaparecido?!
Eu estava tão triste e com tanta raiva que simplesmente peguei a garrafa de vodca que ainda segurava e joguei-a com toda força na pilastra vazia mais próxima. O vidro se espatifou em milhões de pedaços e a bebida escorreu até o chão sujo.
Atrás de mim, Oliver gritou:
— O que você tá fazendo, cara?! Ficou maluco?!
Ele veio até mim e me virou pelo ombro, fazendo com que eu o encarasse. Seu olhar estava raivoso, mas quando me viu se transformou em algo entre surpresa e confusão:
— Cara, você está chorando? A “nóia” já bateu?
— O que?
Foi quando percebi que ele tinha razão... Eu estava chorando... Aquilo me deixou tão... Puto!
Peguei o resto do dinheiro que tinha na minha carteira (quase o salário de um mês) e entreguei para aquele idiota. Eu disse:
— Toma. Pra pagar pelo transtorno. Não me chame mais. Tchau.
Depois me virei e sai correndo... Precisava ter dado o dinheiro, pois conhecia aquele pessoal e muitos deles não era flor que se cheire... Ou seja, eu teria que dar algo para fazer com que eles não fossem atrás de mim.
Eu apenas corria, sem perceber exatamente para onde ia. Qual foi minha surpresa quando me vi parado na frente do condomínio de Emily... Foi aqui perto que ela desapareceu... Sentei-me na beirada da calçada e fiquei puxando meus cabelos enquanto chorava e até gritava... Não importava que os outros pensassem que eu era louco... Poderiam até chamar a polícia que eu não ligava...
Só queria a minha melhor amiga de volta...
Onde será que ela está?
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