Abusada ll - Sequestrada
23 Ratos e Água...
Notas iniciais
Meu corpo todo estava encolhido... Eu nunca imaginei que pudesse ficar tão pequena... Voltar para aquele lugar... Para a estaca zero...
Senti-me de novo com meus quatorze anos de idade. Na época, eu achava que as roupas que estava usando eram poucas, mas agora, eu daria tudo para tê-las de volta. Charlie não deve ter limpado ou aberto esse lugar desde que me tirou daqui. Meus olhos lacrimejam pelo odor fétido e espirro, tusso e trinco os dentes de frio.
Mantinha-me encolhida em um casulo, pois além de estar tremendo por conta da baixa temperatura, tinha medo dos ratos... Ah os ratos... Nunca fui uma pessoa fresca daquele tipo que se assusta com insetos e pragas como ratos. Mas ficar no mesmo ambiente que tantos era, simplesmente, horrível.
Primeiro de tudo, o cheiro da urina e das fezes deles apenas servia para que eu odiasse ainda mais aquele lugar... E também havia os olhos deles... Eu os enxergava. Milhões de olhinhos pequeninos e brilhantes nos cantos. Às vezes, parados, às vezes, passando como uma chama. Eles me assombravam e me perseguiam até em meus sonhos... Eu já não sabia mais se estava acordada ou se estava dormindo.
Mentira, eu sabia sim. Quando estava acordada eles me mordiam. Alguns arriscavam chegar perto de mim e mordiscavam meus dedos do pé... Quando estava acordada sentia seus dentes roerem minha pele e me darem picadas, mas quando estava dormindo... Eles me atacavam aos milhares, abrindo buracos em meu corpo, comendo minhas carnes e roendo meus ossos.
Eles subiam em mim, passeavam no meu cabelo. Arrepios subiam pela minha espinha e eu tremia da ponta do dedão até meu coro cabeludo... Às vezes, isso servia para afastá-los, mas com o tempo, eles ficaram insistentes, a ponto de eu ter que sair pulando pelo quarto para tirá-los de cima de mim... Eles iriam me soterrar.
Meu medo constante de pegar uma doença era enorme. Ao invés de me sentar no pano (que estava mais encardido do que a última vez em que estive ali) me sentei no chão abaixo dele que até então estava descoberto... Era bem mais frio, porém acreditava que era mais seguro...
Voltei para aquele sufoco de não saber mais como o tempo passava... Eu estava lá há horas? Dias? Semanas? Anos?... Eu sei que parece impossível passar tanto tempo sem comer ou beber... Mas em meio ao desespero... Parece que o mundo inteiro foi destruído e a única sobrevivente é você a quem os deuses concederam a imortalidade para pregar uma peça... Bom, a você e aos ratos... Meus companheiros constantes...
Às vezes pensava em comê-los... Mas jamais conseguir pegar um... Além do mais, acredito que, mesmo se conseguisse, não o comeria, pois, como já disse, tenho medo de pegar alguma doença...
Às vezes também, pensava que Charlie havia os posto ali de propósito. Seus lacaios, suas câmeras. Sempre me machucando para que eu não perdesse o costume e me vigiando. Pensava que eles se revezavam em turnos e que quando saíam contavam tudo o que acontecia comigo para Charlie que recompensava os que haviam me mordido mais vezes com grandes pedaços de queijo... Pensando melhor, não... Os ratos de Charlie não comeriam queijo como os de desenhos... Eles comeriam carne humana podre... Eu os via, em meus pesadelos, se empanturrando de carne podre e Charlie no meio deles, como o Rei dos Ratos, rindo maleficamente...
Acho que estava ficando louca...
E ainda havia o pior de tudo. Pior do que a fome, a sede, o frio, os ratos... A dor... A dor da perda... Eglantine... Minha doce irmã... Pensava em nossos momentos juntos... Seu cabelo, antes em tons dourados e, mais tarde, num exótico azul... Sempre tão compridos e macios... Ah como amava passar a mão por eles... Acariciá-la... Abraçá-la... Ah o que eu não daria por um abraço seu? Nem que fosse um daqueles bem rápidos que ela me dava antes de sair... Apenas um roçar de mãos, que fosse... Eu queria tanto vê-la, tocá-la, cheirá-la, senti-la... Mas isso era impossível...
Porque ela se matou.
Não.
Porque EU a matei.
Eu matei minha irmã.
Sou uma assassina.
Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã. Eu matei minha irmã.
Imaginava-a gritando, berrando em minhas mãos. Perguntando-me por que eu fiz isso?
Eu a matei.
Eu a matei quando me rendi a Charlie. Eu a matei quando não contei a verdade a ninguém... Eu a matei, ponto final.
E o que seria de mamãe? Sem Eglantine para preencher o espaço que eu deixei vazio? Ela pensaria que eu estava morta?
Não mamãe, estou aqui. Estou viva! Por favor, não desista de mim!
— Estou aqui.
Eu disse. Mas minha voz saiu tão fraca... O som bateu nas paredes e voltou para mim ainda mais baixo... Duvido que até os ratos tenham me ouvido... Minha mãe não me ouviria... Ele jamais me ouviria... Ela se veria sozinha em um mundo sem suas filhas... E logo ela iria partir também... E logo ela iria se matar também...
E logo, eu também mataria a minha mãe...
[...]
A luz lá em cima se acendeu e instantaneamente todos os ratos saíram correndo, procurando refugio em suas tocas. Eu apenas acordei assustada e me encolhi mais ainda. Eu sabia o que iria acontecer. Ele ia descer. Eu não queria vê-lo.
Como prevista, o alçapão se abriu e Charlie pousou no chão. Ele usava uma bermuda e uma camiseta, além de tênis, provavelmente, estava voltando de uma de suas corridas matinais. Além disso, carregava um sorriso grande e brilhante que fez meu estômago embrulhar.
— Bom dia, flor do dia.
Eu fiquei calada ante o comprimento. Charlie aproximou-se e agachou-se e quando estava na minha altura disse:
— Não vai me responder?
Eu virei meu olhar, desviando dele. Porém, meu sequestrador segurou meu rosto com força e me virou para ele, repetindo:
— Em? Responde-me?
—...
Um tapa.
— Em?
Outro tapa.
Isso se repetiu até que quatro tapas foram dados. Minha boca continuava fechada com força. Minhas bochechas queimavam e meus olhos lacrimejavam. Ele achava que eu estava rebelde, não é? Veremos o quão rebelde eu posso ser.
Charlie odiou isso profundamente. Ele me encarou durante um tempo e então começou a rir. Por que ele estava rindo? Qual era a graça de tudo aquilo? Ele riu e riu mais ainda. Depois parou e me perguntou:
— Não está com fome?
Estava. Estava com muita fome. Eu sei que já passei fome nas mãos desse homem muitas vezes e depois de um tempo eu comecei a imaginar que poderia facilmente me acostumar a passar fome... Mas é impossível.
Não estou falando daquela dor que algumas pessoas sentem entre o café e o almoço ou quando, por algum motivo, não podem ir a cozinha comer um lanchinho noturno... Estou falando de uma dor aguda no seu estômago que faz parecer que ele está se embrulhando aos poucos... É uma dor constante que você não consegue se distrair dela... Ao mesmo tempo sua cabeça dói e seu humor fica péssimo... E se for como eu, quem depende da vontade de uma pessoa para se alimentar, a única coisa que você pode fazer é sentar e esperar que você morra ou que ele te traga comida. O que vier primeiro.
É por causa dessa dor, desse monstro, que eu respondi fracamente:
— Estou.
— Então me responda.
— Você vai me dar comida?
— Me responda.
Eu não iria me rebaixar a tanto sem uma promessa de alimento, então apenas virei minha cabeça para o canto e fiquei calada. Charlie também imitou meu silêncio, porém continuava a me observar. Eu sentia seus olhos fixos em mim, eles queimavam... Ele estava tramando alguma coisa.
Por fim, disse:
— Tudo bem. Já volto.
Ele se levantou e foi embora.
Fiquei imaginando o que iria acontecer, mas não demorou muito e ele voltou carregando... Uma mangueira? O que ele faria com aquilo?
— A gente nem percebe o quanto essas mangueiras gigantes são úteis até precisar delas, não? Pois é. Imagino que você esteja com sede, Emily querida, e também, está precisando de um banho. Então, por que eu não junto o útil ao agradável?
Dizendo isso, Charlie ligou a mangueira na potência máxima e mirou o jato todo em mim. A mangueira parecia uma dessas mangueiras industriais com uma boca larga e um jato potente. Tudo aquilo me acertou em cheio. Nua como estava, mesmo sendo verão, sentia frio normalmente, mas depois daquele jato de água forte e gelado, meu corpo inteiro se arrepiou e passei a trincar os dentes.
— E agora? Vai me responder?
Eu continuei calada, apenas trincando os dentes. Por isso Charlie ligou a mangueira mais uma vez e me molhou. Dessa vez, abri minha boca tentando capturar a água e bebê, pois estava com muita sede, porém, o fluxo estava tão forte que não consegui beber mais que algumas gotas. E por mais estranho que isso pareça, me deixou com mais sede ainda!
Quando ele desligou a mangueira eu tossia e tremia mais ainda. Mal percebi quando ele largou o objeto e veio andando na minha direção. Charlie parou na minha frente e chutou meu rosto de modo que eu fui com tudo no chão.
Não conseguia me levantar, pois estava muito fraca. Quando tentei um pequeno movimento senti que Charlie colocava seu pé na minha cabeça, me imobilizando e me humilhando. Meu raptor se inclinou na minha direção e sussurrou:
— Você sabe que eu não vou parar.
— Eu sei disso. Por isso mesmo que vou continuar.
— Como assim?
Ele parecia confuso, então eu sorri e continuei:
— Eu quero que me mate Charlie. Quando eu morrer, você não vai mais poder me machucar.
— Ah Emily. Desistir da vida requer muita coragem. — ele se inclinou para mais perto, apertando minha cabeça mais ainda — Coragem que você não tem.
— Você não me conhece, não sabe disso. — respirei fundo e disse — Não aguento mais viver assim. Glá se matou por minha causa. Eu vou acabar com o sofrimento de todos que eu conheço assim... Além do mais — Eu inclinei meu rosto para o lado de forma que eu pudesse olhar para ele enquanto eu falasse — Se eu me matar... Será uma forma de vencer você no seu próprio jogo.
Eu achei que ele ficaria indignado, com raiva. Talvez que simplesmente virasse as costas e me largasse lá para morrer de fome. Ou que desistisse e me desse comida e água e me levasse de volta para o quarto... Mas ele me surpreendeu... Ele começou a rir.
Charlie estava gargalhando na minha frente. Tão alto que até assustou os ratos mais corajosos que saíram de suas tocas para verem o show. Depois que já estava até com falta de ar de tanto rir, ele disse:
— Você não vai fazer isso. Sabe como eu sei?
Ele chegou perto e pegou minha cabeça com a mão, me levantando. Então continuou:
— Porque eu já estive na mesma situação que você.
Aquilo havia me pegado de surpresa. Como assim na mesma situação?
— É como eu disse. Desistir requer muita coragem. E acredite bebê, o instinto de sobrevivência sempre vai falar mais alto. Você acha que sofreu o bastante? Querida, — ele se inclinou para mais perto — você não sabe o que é sofrer. Acha que não aguenta mais?... Você se surpreenderia em ver o quanto alguém consegue aguentar.
Ele me largou e se levantou pegando a mangueira que havia deixado no chão e jogando ela para fora do buraco onde eu me encontrava. Eu estava intrigada... O que ele quis dizer com aquilo? Curiosa como eu era eu perguntei:
— Como assim na mesma situação que eu?
— Eu já lhe contei essa história Emily.
— O que?
— Você só... Bom, digamos que preferiu vê-la com outros olhos.
Dito isso, ele subiu o alçapão, fechou-o, desligou as luzes e foi embora. Sem emitir mais nenhum som... Eu, além de continuar com a mesma fome angustiante, também estava com muito frio além de extremamente surpresa e curiosa... Charlie já havia passado pela mesma situação que eu... O que isso significava? Que ele já havia sido abusado? Que havia apanhado? Sido sequestrado? Ou todos esses de uma vez? E por que, ele trabalhando em uma escola cheia de alunos e funcionários prontos para fofocarem, tal coisa tenha permanecido escondida até hoje?
Fale com o autor