Notas iniciais
Pensem em Realismo enquanto lerem isso. Pessoas se adaptam aos ambiente em q sao submetidas... espero q gostem

Eu acordei assustada com o barulho do alçapão se abrindo e Charlie descendo. Ele se vestia formalmente e estava com o bom humor de sempre. Eu ainda estava um pouco molhada e muito assustada do último “banho” de mangueira qual eu levei. Desde a primeira vez, ele costuma vir aqui embaixo apenas para me encharcar e me deixar tremendo e tossindo...

Dessa vez ele carregava o que parecia ser um paralelepípedo negro de tamanho médio na mão. Ele disse:

— Bom dia, Emily!

— Dia.

Eu respondi num sussurro fraco e ele continuou:

— Vejo que estamos tendo progresso.

Ele chegou perto de mim e se agachou até que estivesse na minha altura, em vista que eu estava sentada e segurava minhas pernas dobradas de encontro ao meu tronco. Eu observei o objeto que ele carregava... Não parecia comida... Temerosa, perguntei:

— O-o que é isso?

Ele sorriu e levantou-o para que eu visse melhor, dizendo:

— É só um brinquedo que eu trouxe. Conheço bem o funcionamento disso e pensei que pudesse ter o mesmo efeito em você. Agora... Como foi o seu dia?

Essa era uma das perguntas testes. Feitas diariamente por ele. As respostas para as perguntas testes devem sempre ser positivas e dadas de forma feliz. A resposta correta das perguntas testes fazia com que eu recebesse comida ou que ele fosse embora e não me machucasse mais. Ah é mesmo, além das mangueiradas de água gélida constantes, Charlie recentemente voltou a me espancar.

Eu respondi:

­— Bom.

Foi de repente. Eu nem sequer entendi o que aconteceu por um tempo. Num instante estava respondendo sua pergunta da forma como eu julgava correto e no outro eu senti uma dor no meu braço direito. Era diferente de quando ele me batia. Primeiramente, ela se espalhava por todo o meu corpo como se ao mesmo tempo ele tivesse me dado vários tapas e queimava também. Era uma mistura de um soco com uma queimadura.

Foi então que eu percebi o que era a coisa que ele segurava. Era uma dessas armas de eletrochoques. E quando ele percebeu que eu percebi, Charlie sorriu mais uma vez e disse:

— Descobriu a função dessa belezinha, não é? Já havia levado um choque antes, Emily? Talvez na infância?

— A-acho que sim.

Eu disse enquanto apertava o local atingido que estava estranhamente quente.

— Então, deve ter percebido que esse é quase a mesma coisa, não é? Talvez um pouco mais forte. Então, no caso, essa Stun Gun não tem a capacidade de te matar... Bom, teoricamente, mas não duvide da minha capacidade. Porém, os choques que ela é capaz de dar são bem bravinhos.

— M-mas, eu r-respondi corretamente.

— Sim, de fato. Mas a resposta foi pouco satisfatória para mim. Eu quero ver um sorrisão e ouvir que você teve um ótimo dia.

— Charlie, por favor, eu estou faminta.

Outro choque. Dessa vez eu gritei e fiquei meio zonza. Mesmo assim ouviu-o gritar:

— Agora!

Respirei fundo. Abri um sorriso enorme (por incrível que pareça os músculos do meu rosto protestaram quanto a isso) e disse:

— Foi um ótimo dia Charlie.

Outro choque, mas no outro braço.

— Está faltando um pronome de tratamento adequado.

Mais uma vez:

— Foi um ótimo dia... Querido.

— Ah boa garota.

Charlie enfiou a mão no bolso e tirou de lá um pequeno pedaço de pão. Mesmo assim, foi o suficiente para que eu avançasse naquele alimento e engolisse-o todo de uma vez, quase como um animal selvagem.

Ele disse:

— Vai com calma ou vai acabar vomitando... Agora, que tal tentarmos manter uma conversa saudável?

Eu encarei a Stun Gun em sua mão. Meu torturador percebeu isso também e respondeu minha pergunta mental:

— Claro que essa nossa amiguinha vai continuar, por enquanto... Mas posso repensar dependendo do seu comportamento.

Eu engoli em seco... Mas que alternativa eu tinha? Além do mais, se eu fizesse o que ele queria, receberia comida... E a minha fome naquele momento não poderia ser medida em palavras.

Charlie se sentou confortavelmente na minha frente com as pernas cruzadas, sorriu e disse:

— Está sendo duro ficar naquela casa sozinho o tempo todo.

Ele levantou uma das sobrancelhas para mim indicando que queria uma resposta. Pense! O que ele gostaria que eu dissesse?

— E-está s-s-sendo duro para mim também.

— Jura? Por quê?

— N-não gosto desses ratos.

Ele tirou outro pedaço de pão do bolso, mas dessa vez não me deu, e sim mostrou o pão e a Stun Gun um em cada mão para mim, como uma balança. Depois perguntou:

— E...

— E?

A expressão de Charlie fechou e ele atirou o pão para trás. Neste mesmo momento ouvi o barulho dos ratos correndo para agarrar o precioso alimento e sumir com ele... Pelo visto, agora estou competindo com esses animais por comida. E logo depois que ele fez isso, me deu outro choque, bem nas costelas. Esse, em compensação, doeu tanto que eu urrei alto e espantei os ratos de seu banquete.

Eu fiquei parada respirando ofegante depois que Charlie afastou a Stun Gun de mim. Já ele, permaneceu sorrindo e disse:

— No próximo aumentarei a intensidade.

— Mas eu não sei o que você quer que eu diga!

— Sabe sim. Sabe sim. Vamos, Emily. Você é uma garota tão inteligente... Por que está sendo duro ficar aqui?

Eu desviei meu olhar dele antes de falar num tom baixo:

— Porque eu sinto sua falta.

O rosto de Charlie se iluminou e ele disse:

— Muito bem. Boa garota.

Ele fez um carinho em meus cabelos como se eu fosse uma cadela premiada que havia aprendido um truque novo. Enquanto isso meus olhos ardiam e lágrimas começavam a cair deles. Charlie, percebendo isso, secou minhas lágrimas enquanto dizia:

— Shhh, calma, calma. Logo você vai se acostumar com isso, certo?

Ele colocou alguns pedaços de pão e minha mão, levantou e disse:

— Mais tarde trago água. E no dia seguinte teremos outra dessas conversas. Beijos.

Ele foi embora e tudo se escureceu novamente.

[...]

Tudo estava escuro e eu parecia flutuar no vácuo. Então comecei a sentir certa preção na minha bochecha e logo após, em meu peito também... Alguma coisa estava errada... Não conseguia pensar direito, parecia que toda minha mente estava envolta numa névoa e logo eu comecei a ser puxada... Mas puxada para onde¿ Por quem¿ O que estava acontecendo¿

Abri os olhos e respirei fundo, puxando o máximo de ar que conseguia e logo engasguei e comecei a tossir. Quando a tosse finalmente parou eu estava sentada e Charlie me olhava com uma expressão extremamente preocupada... Agora havia me lembrado. Estava em uma de suas sessões de tortura. Olhei para sua mão onde estava a arma de eletrochoque... Provavelmente devo ter desmaiado. Isso começou a ocorrer com certa frequência. Eu desmaiava e meus batimentos cardíacos paravam, então ele fazia reanimação cardiopulmonar em mim para que eu acordasse.

Ficamos assim, olhando um para o outro enquanto ambos tentávamos voltar a respirar normalmente. Eu disse, com a voz rouca:

— Por quanto tempo¿

— Não sei. Uns 5 minutos, talvez. O que importa é que eu te revivi.

— Eu morri¿

— Provavelmente. Seu coração parou.

— Por que não me deixou morrer¿

Ele pegou meu queixo e fez com que eu olhasse diretamente para ele antes de dizer:

— Você é importante demais para isso.

Charlie me soltou me jogando de volta no chão. Ainda estava fraca, então não consegui me segurar e bati com a cabeça no cimento. Com o canto do olho vi quando um rato próximo a mim correu assustado com o barulho.

Ouvi os passos de meu algoz pelo cômodo. Quando estava mais afastado ele disse:

— Você está indo muito bem Emily.

— Então por que continua me torturando¿

Apesar de estar escuro percebi claramente quando ele se virou na minha direção e sorriu diabolicamente, dizendo:

— Peguei gosto pela coisa, acredito.

Minha barriga roncou e quando me mexi, ouvi meus ossos estalarem. Eu devia estar lá há vários dias. Charlie me trazia água e comida às vezes, mas sempre pouca e nada que pudesse me deixar forte de verdade. Além disso, além da tornozeleira de ferro, meus braços e pernas continuavam amarrados da mesma forma quando estavam quando ele me largou aqui.

E ainda havia a dor... As queimaduras de choque, os hematomas das surras, os fluidos de Charlie ainda em mim. Eu não tomava um banho ha muito tempo e não havia nada aqui com o que eu pudesse me limpar... Céus, sinto-me um animal... Devo estar com uma aparência horrível agora.

Acordei de meus devaneios quando senti mais um dos fortes e gelados jatos de água caindo sobre a minha barriga. Ah sim, talvez eu possa contar isso como um tipo de banho. Charlie se aproximou de mim e me deu outro de seus choques. Aquilo doía muito mais com minha pele molhada! Eu urrei e me contorci de dor, mas não havia nada que eu pudesse fazer!

A voz dele ressoou pelo lugar:

— Imaginando coisas de novo, querida¿

Ele finalmente parou e eu pude recuperar o fôlego e voltar a fulmina-lo com os olhos. Charlie disse, sorrindo como uma criança inocente:

— Sabe que eu odeio quando se distrai enquanto conversamos.

Um som saiu do fundo da minha garganta... Parecia um rosnado. Charlie apenas riu, porém eu me assustei... Parecia que pouco a pouco eu perdia minha parte humana e passava a me comportar como um dos ratos... Correndo para as sombras ao menor sinal de barulho e pensando apenas em minhas necessidades básicas. Não gostava de perder meu tempo tendo pensamentos muito complexos. Poupava minhas energias para apenas uma coisa. Sobrevivência.

Charlie pegou de novo minha cabeça segurando meu queixo, inclinou-se na minha direção e disse:

— Você é uma preciosidade, querida.

Ele me largou e se levantou preparando para ir embora. Mas antes que ele fosse eu gritei:

— Comida!

Charlie parou e sorriu virando-se para mim dizendo:

— Oh como pude esquecer¿ Claro, claro.

Ele olhou ao redor e caminhou até um dos cantos do “quarto”. Eu não entendia bem o que ele estava indo fazer até que, após um movimento, ouvi um barulhinho estridente. Quando meu sequestrador apareceu na claridade e eu pude enxergá-lo melhor, vi que ele carregava um dos ratos pelo rabo. Ele era grande e gordo e guinchava e se remexia conforme era segurado e sacudido.

Charlie se aproximou de mim e estendeu o animal na minha direção. Ele disse:

— Coma.

Eu me encolhi e minha respiração falhou. Ele não podia estar falando sério!

Eu comecei a chorar e a suplicar.

— Não Charlie! Tudo menos isso, por favor! Por favor!

Ele gargalhava. Sua risada parecia que se multiplicava em minha mente e eu a ouvia muito mais alta. Mais parecia que milhões de Charlies seguravam milhões de ratos ao meu redor e todos eles me encaravam rosnando como se quisessem me comer viva. Eu estremeci completamente da cabeça aos pés e ouvi-o dizer:

— Vamos por na balança, Emily. Ou você come esse rato ou me dá um beijo.

Eu nem o deixei terminar a frase e já fui dizendo:

— Eu faço o que você quiser. Só não me obrigue a isso.

Ele riu mais alto ainda e continuou:

— Ah querida, mas eu não estou falando de um beijo qualquer. Quero um beijo de verdade, um beijo apaixonado.

— Mas eu não posso fazer isso. Nem sei o que é isso...

É verdade. Eu fui sequestrada aos quatorze anos e tive um namorado apenas, Hector, que me enganou e me largou... Eu não sabia o que era estar verdadeiramente apaixonada... E acho que nunca saberia... Charlie roubou isso de mim também. Ele me interrompeu:

— Sei disso, querida. Mas você é uma garota inteligente. Faça o seu melhor. Talvez eu possa até repensar e te transferir de volta para o quarto.

— Sim, por favor!

— Tudo depende de você.

E, por incrível que pareça, eu não tive aqueles reles segundos ou minutos de ponderação antes de aceitar fazer uma das ordens de Charlie. Infelizmente, eu estava tão exausta e desesperada que respondi rapidamente:

— Sim!

Charlie sorriu abertamente e como uma brincadeira, jogou o animal que ainda segurava encima de mim. Eu gritei e me remexi inteira, ficando toda arrepiada num instante enquanto o rato corria para longe o mais rápido possível, não se esquecendo de me arranhar e até me morder.

Depois, vi-o se levantar e estender a mão para mim, ajudando-me a fazer o mesmo. De dentro do bolso da calça, Charlie tirou um canivete e usou-o para cortar a tira do lençol que mantinha meus braços presos.

Quando ele o fez, ordenou que eu me virasse de novo e olhasse para ele. Meus membros, agora libertos formigavam e estavam dormentes, mas eu tinha que me virar assim se quisesse cumprir minha parte do trato. Charlie passou suas mãos por toda a extensão de meus braços e minha respiração acelerou. Uma voz dizia na minha cabeça:

“Vamos Emily. Seja forte. Você consegue.”

Eu respirei fundo, fechei meus olhos e avancei até que nossos lábios se encontrassem. O beijo começou e eu tentei movimentar minha língua e boca da forma como lembrava que Hector fazia, mas havia sido ha tanto tempo... Eu não sabia se estava fazendo certo... Charlie pegou minhas mãos e levou-as até seus ombros e as manteve lá. Depois, levou suas próprias para minha cintura, apertando-a despudoradamente.

Ele me puxava de encontro a ele. Eu achava que estava indo bem quando ele se separou de mim e disse:

— Vai ter que se esforçar um pouco mais, Emily.

Charlie voltou a me beijar e foi como se um interruptor ligasse na minha mente... Eu sabia o que era aquilo. Era o tal instinto de sobrevivência que Charlie havia dito... Eu não queria morrer... Eu mesma tomei a liberdade de me aproximar mais ainda de Charlie. Subi minhas mãos até seus cabelos e comecei a acariciá-los e puxá-los em meio ao beijo.

Ele deve ter gostado, pois ouvi um gemido abafado e logo após, Charlie me empurrou até me prensar contra a parede. Senti seu membro ereto na minha barriga e sabia que ele o havia pressionado lá de propósito. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas mesmo assim, eu continuei beijando-o da forma mais... Amorosa que eu conseguia.

Depois do que me pareceu uma eternidade, Charlie se afastou, mordendo meu lábio inferior no final. Ele ofegava, estava um pouco corado e sorridente. Eu provavelmente tinha a mesma expressão, com a exceção do sorriso. Ouvi-o dizer:

— Está vendo o que acontece quando você se comporta¿

Charlie inclinou-se na minha direção e me encarou no fundo dos olhos quando disse:

— Estou muito orgulhoso, meu amor. Parece que finalmente posso confiar em você.

Ele se afastou e foi embora. Antes que fechasse a porta do alçapão, ele disse:

— Estou voltando com comida. Espero que esteja com esse mesmo comportamento até lá.

Ele foi embora, tudo se escureceu e os ratos voltaram a reinar. Eu, em compensação, apenas me encolhi em posição fetal e chorei. Chorei todas as minhas mágoas... Eu me odiava... Odiava profundamente.

Notas finais
comentem XD