Eu comia minha maçã calmamente na varanda da casa de Charlie. O dia estava bonito. O sol brilhava, uma brisa fresca ressoava, pássaros cantavam e a água da piscina parecia convidativa. Eu gostaria muito de nadar, porém, depois que, uns meses atrás, dois policiais apareceram de repente, Charlie me proibiu de sair de casa.

Ainda me lembro do dia...

Estávamos os dois na sala esperando o almoço terminar de cozinhar. Charlie assistia algum filme com muitas cenas de guerra e eu tentava me concentrar em um livro de Sherlock Holmes com toda aquela barulheira.

De repente, a campainha toca e eu, como uma cadelinha, levantei a cabeça e olhei para a porta. Meu coração se acelerou. Olhei para Charlie e ele, simplesmente, colocou o dedo na boca indicando silêncio.

Instantaneamente, eu me encolhi por completo e quase me afundei na poltrona em que estava sentada. Quando a campainha tocou uma segunda vez, eu quase pulei do acolchoado. Charlie revirou os olhos e disse:

— Vai embora, Frederick!

E uma voz suave, porém autoritária disse:

— Senhor, somos detetives da polícia.

Meu coração se acelerou novamente. O que? A polícia estava aqui?! Será que eles iriam me levar de volta? Será que enfim seria libertada?!

Porém, quando olhei para frente, com os olhos brilhando de júbilo, percebi que Charlie me encarava. Ele me dirigia aquele olhar de gesso frio e impassível... Aquele olhar que eu tanto temia. Meu sequestrador sussurrou:

— Estou com a arma, Emily. Se alguma coisa der errado, seja lá quem estiver na porta vai morrer e você vai voltar para a solitária com os ratos... Quer isso?

Sem nem pensar eu balancei a cabeça freneticamente de um lado para o outro. O olhar de Charlie se amenizou um pouco. Ele se levantou rapidamente do sofá e veio até mim, segurando meu braço com força e me puxando.

Nós dois fomos apressados para o segundo andar. Charlie, silencioso como um gato; eu, tropeçando aqui e ali, fiz uma boa quantidade de barulho. Ele me puxou até o banheiro do seu quarto, mas, diferente da última vez que recebemos visitas, paramos no closet.

Charlie abriu a porta de um dos armários contendo as roupas de cama e disse:

— Entre.

Dei um passo para trás e rebati:

— Você sabe que não gosto do escuro.

— Entre, Emily. Agora.

Eu queria revidar. Na verdade, parte de mim queria sair correndo e gritar a plenos pulmões “Estou aqui! Esse maníaco me sequestrou!”... Porém, a maior parte, não. E não era por algum sentimento profundo e difícil de explicar... Era por medo... Eu morria de medo de Charlie. Do que ele poderia fazer comigo. Ele era o homem mais rico e inteligente que eu conhecia. E ele era mau. Eu sabia disso.

Talvez esse homem tenha me atingido mais forte do que eu imaginava...

Obediente, eu entrei no cubículo de madeira e sentei-me em cima dos fofos cobertores de inverno. Charlie fechou a porta e, de repente, eu me encontrava na completa escuridão.

Os passos dele se distanciaram um pouco, talvez na direção do banheiro. Ouvi o barulho de água e alguns movimentos. Depois, percebi que ele voltou para minha frente e consegui ouvir sua voz através da madeira:

— Não vou trancar para que você não fique com mais medo, mas não saia daqui até que eu volte para te buscar... Se não...

Ele deixou a ameaça no ar e ouvi seus passos se distanciarem, mais uma vez, porém na direção da saída. Eu abracei meus joelhos e deitei minha cabeça neles... Eu estava sozinha no escuro.

Primeiro, havia sido a vez em que Charlie me deixou pendurada e machucada no escuro do meu quarto. Depois, o período com os ratos na caixa do quintal. Encolhi-me mais ainda. Eu tinha medo do escuro.

Tremendo, minha mão alcançou a porta e eu a empurrei de leve. Ela rangeu, mas, fora isso, o segundo andar inteiro parecia totalmente silencioso. Na verdade, a casa em si parecia vazia... Será que foram embora? Será... Será que levaram Charlie? Meu coração disparou e eu consegui ouvir sua pulsação no meu ouvido.

Eu precisava ter certeza.

Tinha medo de abrir as portas e descer as escadas e dar de cara com Charlie furioso, então optei por olhar pela pequena janela do banheiro que ele mantinha sempre aberta. Apoiei-me na borda da banheira para alcançar a abertura e quase no mesmo instante vi que três figuras apareceram da mata. Uma era Charlie e as outras duas deveriam ser os policiais. Os três pareciam descontraídos e estavam batendo papo. Será que estavam falando sobre mim? Será que os policiais sabiam sobre mim? Será que Charlie os conhecia? Tudo poderia ser uma armação para testar minha fidelidade a ele... Céus, será que era apenas um teste?!

Enquanto pensava sobre isso, o olhar de uma das figuras, da mulher com os cabelos cinzentos, se desviou na minha direção. Eu me arquejei e rapidamente me abaixei, saindo da linha da janela.

Oh céus! Será que ela havia me visto? Será que Charlie havia me visto? Será que ele iria matá-los?! Será que ele iria me matar?!Fiquei atenta, esperando ouvir qualquer barulho de tiro ou alguma outra coisa que evidenciasse agressão, mas não havia nada...

Eu estava tremendo e minha respiração se acelerou. Nenhum pensamento nexo passou pela minha cabeça antes que meus pés começassem a se mover sozinhos e fossem na direção do armário de volta. Tudo em que eu conseguia pensar era: preciso fazer o que Charlie mandou.

Com cuidado eu fechei a porta do armário novamente e voltei ao escuro. Afundei meu rosto nos meus joelhos e comecei a chorar. E se Charlie tivesse me visto e estivesse subindo para me verificar? E se ele soubesse que eu havia saído do armário? E se aqueles nem fossem policiais de verdade? Tudo poderia ser um teste para determinar o quanto sou obediente e leal a ele.

Céus, tinha que ser um teste. Parecia um teste. Era tão absurdo. Eu havia sido sequestrada há três anos. O mundo esquecera de mim. Minha irmã se matou. Minha mãe provavelmente desistiu... Ninguém está procurando por mim... Não mais... Eu chorei mais.

Queria um amparo. Um amigo. Alguém que pudesse abraçar e afogar minhas mágoas. Chorar meus medos e minha impotência. Apenas chorar.

Então, assim que terminei essa linha de pensamento, a porta se abriu num baque e Charlie apareceu. Seu cabelo estava bagunçado e ele estava ofegante, provavelmente, seu coração estava tão disparado quanto o meu. Não sei o que deu em mim... Talvez a falta de qualquer ser vivo à quilômetros de distância... O que importa é que eu pulei nele e o abracei com força.

Ambos caímos no carpete fofo do closet. Os braços fortes de Charlie me enlaçaram e ele suspirou enquanto descansava sua cabeça no meu ombro. Quanto a mim, prendi a respiração e fingi que Charlie era outra pessoa. Um desconhecido a quem eu podia pedir ajuda. Qualquer ajuda.

Estremeci e mordi o último pedaço da minha maçã com raiva. Por que diabos eu havia feito aquilo?! Bufando de nojo e desgosto eu joguei o cabo na lixeira da varanda.

— Emily!

A voz de Charlie veio de dentro da casa. Revirei os olhos e fui até ele. Como estávamos no verão, Charlie me permitiu usar um vestido solto, simples e fresco. Era curto e branco de alcinhas com uma renda delicada no busto. (http://gloimg.rosewholesale.com/ROSE/pdm-product-pic/Clothing/2016/05/17/goods-img/1464203403882638393.jpg ) Sem muito esforço, encontrei-o no banheiro ao lado da cozinha no primeiro andar. Ao seu lado, três testes de gravidez de três marcas diferentes estavam sendo processados. Ouvi-o dizer:

— Sente-se, falta um minuto.

Revirei os olhos e me sentei no chão frio ao seu lado... Sim, eu já tinha 18 anos...

— Acorda! Acorde, Emily! Que saco, Acorde!

Meus olhos se abriram lentamente. Percebi que estava em meu quarto no subsolo e Charlie estava na minha cama me sacudindo com força. O quarto ainda estava escuro e a única luz vinha da lanterna que eu nunca apagava na cabeceira e que, nesse momento, iluminava um dos lados do rosto do meu sequestrado, deixando-o com um rosto endemoniado.

Eu sussurrei com a voz rouca e arrastada:

— O que você quer?

Ele ergueu a lanterna e apontou-a para o relógio que mostrava ter passado dois minutos da meia noite. Olhei confusa do relógio para Charlie, até que ele me esclareceu dizendo:

— Feliz aniversário, Emily! Parabéns!

Meu sequestrador estava me encarando sorridente. Eu estava com tanto sono e tão cansada do dia anterior que queria apenas dormir e descansar para o dia seguinte. Infelizmente, para isso, eu teria que convencer Charlie, então dei meu melhor sorriso e disse:

— Obrigada, mas poderia me deixar dormir mais um pouco?

Quando eu estava me virando para a parede para que pudesse dormir, senti sua mão firme puxando meu ombro de volta a posição inicial. Ele disse, o rosto menos sorridente agora:

— Nada disso. Não se lembra da promessa que me fez?

Como poderia esquecer se tenho pesadelos com ela todos os dias?

— Sim, Charlie, mas estamos no meio da noite.

— Ora, tenha dó, Emily!

De repente, ele não estava mais contente e sim com raiva. Charlie se levantou e puxou as cobertas de cimas de mim, deixando-me exposta ao frio. Ele subiu na cama e inclinou-se querendo me beijar.

Apesar de eu ter dias em que desistia e não me importava com os estupros constantes e degradantes de Charlie, havia dias em que eu necessitava dar um basta. Aquele era um dos dias. Eu o empurrei e disse:

— Não! Estamos no meio da noite e é meu aniversário. Eu não quero que você faça isso e você não o fará!

Charlie apenas revirou os olhos e continuou tentando me beijar, suas mãos explorando meu tronco. Ultrajada com o fato de ele ter me ignorado, eu me debati com força e quando consegui uma chance, o chutei e consegui jogá-lo para fora da cama.

Charlie me olhou com ódio. Se eu ainda fosse a menininha assustada de catorze anos teria me encolhido de medo e me rendido... Porém, eu já era uma adulta! E como uma adulta, eu precisava ser forte. Coloquei-me ereta e disse:

— Hoje não!

Para a minha surpresa, Charlie riu e mostrou um brilho divertido nos olhos. Ele disse:

— Ah Emily. Confesso que senti falta disso.

Rapidamente, ele foi embora sem me falar nada. Por cinco segundos, eu achei que tinha ganhado e que, finalmente, recebera algum poder nessa casa. Entretanto, minha felicidade durou pouco... Eu sabia que algo estava por vir.

Por isso, quando Charlie abriu a porta carregando um sorriso triunfante eu meio que já estava preparada. As luzes ainda estavam apagadas, mas, devido à lanterna, eu pude enxergar um fraco brilho em uma das mãos dele.

Ele subiu de novo na cama e eu levantei meus punhos para lutar, mas Charlie foi mais rápido e, em um movimento, usando os joelhos e um dos braços, eu já estava a mercê dele.

Meu sequestrador tirou algo do bolso e, pelo brilho da lanterna, percebi que eram algemas. Ele usou um dos pares para prender meus braços e sentou em minhas pernas, admirando a visão.

Tentei mais uma vez:

— Você sabe que isso não funciona comigo. Solte-me!

Carlhie abriu um sorriso de lado e respondeu:

— Quietinha querida. Sabia que você fica linda brava e amarrada?

Num movimento, Charlie saiu de cima de mim e ficou em pé ao lado da cama. Lentamente, ele caminhou até a ponta e segurou uma de minhas pernas. Consegui acertá-lo com alguns chutes, mas ele parecia imune a eles.

Sem problemas, Charlie conseguiu amarrar meus dois pés, um em casa canto da cama. De pé novamente ele me encarou com as mãos na cintura. Eu estava furiosa. Por algum motivo, não tinha mais medo como das outras vezes... Eu tinha ódio.

Eu disse:

— Você vai se arrepender disso.

Uma das sobrancelhas dele se esugeu e ele me ofereceu um sorriso divertido, perguntando logo depois:

— Ah vou? Como exatamente?

Sorrindo, eu disse:

— Simples. Se continuar com essa palhaçada não vou mais ser a boa menina que você tanto quer.

Sem dizer mais nenhuma palavra, Charlie foi embora mais uma vez... Aquele filho da puta. O que ele estava tramando?

Pareceu quase uma eternidade até que a porta se abriu e meu sequestrador apareceu com um sorriso gigante. E, pior que isso, ele tinha um chicote numa das mãos. Um chicote longo e fino de couro negro.

Meu corpo inteiro ficou tenso de repente eu disse com o pânico transparecendo pelos olhos:

— Pra que isso?

— Bonito, não? — Charlie segurou o chicote nas duas mãos e o examinou — Comprei-o já há algum tempo, mas estava esperando a oportunidade certa pra usá-lo. Ah Emily, você não faz ideia do quanto eu estou ansioso por isso.

— Charlie-...

Ele nem me deixou terminar a frase. Charlie desceu o chicote com toda a força na minha coxa e eu fui o estalo agudo percorrer todo o pequeno quarto. A dor era como o barulho que fazia: aguda, forte e concentrada. Eu arfei e arquejei no mesmo instante vendo como a área atingida ganhou uma coloração instantânea de vermelho.

Charlie suspirou acima de mim. Ele disse:

— Céus...

E logo depois outra, mais acima, na minha barriga. O impacto foi tão forte que rasgou a fina renda da minha babydoll, porém Charlie pareceu não se importar. Eu gemi de dor de novo e, igualmente, mais uma vez, Charlie suspirou de êxtase.

O que veio a seguir foram sucessivos golpes com aquele instrumento horrível. Ele deu uma atenção especial as minhas coxas e aos meus seios, mas creio que não havia parte do corpo em que ele não acertou. Quando pareceu estar satisfeito, eu estava chorando e arfando, minha lingerie estava toda rasgada e molhada de suor; enquanto Charlie, arfando como eu, encontrava-se com uma expressão de pura luxúria e eu conseguia ver o volume que seu pênis fazia em sua calça de moletom.

Meu sequestrador jogou o chicote para o lado e subiu na cama, inclinando-se na minha direção e me beijando. Eu reagi rápido e o mordi com força com raiva e mágoa. Charlie rapidamente se afastou, porém sorriu e passou as mãos nos lábios.

— Ah Emily — ele disse, suas mãos subindo pelos meus braços — Você continua rebelde por dentro.

Então, elas chegaram ao meu pescoço e o apertaram sufocando-me. Num segundo, eu estava de volta na sua sala na minha antiga escola, em um dos primeiros dias em que tudo isso havia começado, na primeira vez em que ele havia feito isso.

Meu rosto esquentou, provavelmente avermelhando-se e eu senti a falta de ar, meus pulmões queimando e reclamando. Tentei me mover e me debater, mas as algemas impediam qualquer movimento. Tudo o que eu via era o sorriso cruel de Charlie acima de mim.

Quanto meus olhos estavam revirando das órbitas, ele me soltou e eu puxei longas golfadas de ar, procurando me estabilizar. Estava tonta e minha visão estava embaçada, mas ia sobreviver.

Enquanto isso Charlie soprou uma mecha de cabelo que estava caindo nos seus olhos e disse:

— Sabe, eu até entendo meu tio. Isso é tão prazeroso.

Eu não consegui responder nada a ele. Apenas estava me concentrando para não vomitar ou desmaiar ou os dois. Enquanto pensava nisso, não vi que Charlie havia retirado as calças e rasgado o resto de minha calcinha penetrando-me profundamente.

Eu gritei alto e arquejei minhas costas. Não estava excitada, nem meramente preparada e aquilo doeu como o inferno. Entretanto, Charlie não ligava, ele nunca ligava, e apenas começou a se movimentar rapidamente, socando seu pênis em mim até o fundo e fazendo com que eu recomeçasse a chorar.

Eu o ouvia gemer, aqueles gemidos roucos e contidos e eu apenas pensava que eu queria que ele fosse embora para que eu pudesse dormir e esquecer que isso aconteceu.

Em determinado momento, ele levantou minha cintura, deixando-me numa posição desconfortável já que meus tornozelos continuavam amarrados. Tive que apoiar meus pés no colchão, forçando as algemas, enquanto Charlie puxava a parte inferior do meu corpo para cima e ajoelhava-se na cama.

Não sei quanto tempo durou, mas pareceu uma eternidade até que ele, enfim, gozou e me deixou em paz, saindo da cama. Outra eternidade se seguiu até que ele me desprendesse e saísse do quarto, deixando-me sozinha com meus pensamentos, meus cortes e minhas lágrimas.

Eu estremeci. De repente o banheiro pareceu ter ficado bem mais frio. Naquele dia, mal consegui levantar da cama... Mas o pior foi que Charlie pareceu tomar gosto por me bater usando mais que apenas suas palmas e seus punhos... E eu que achava que não havia nada pior do que o chicote que ele usou naquela noite... Charlie já havia usado chicotes do tipo rabo de gato com longas tiras de couro trançadas, chibatas de cordas grossas que deixavam vergões e cortes enormes nas minhas costas e coxas, varas finas e cintos que me lembravam muito os tapas que minha mãe me dava quando eu era pequena... Enfim, era horrível.

Eu ouvi o relógio de Charlie apitar e ele de repente me trouxe de volta ao presente. Ainda bem, pois estava quase chorando no chão a frente dele. Aquele homem, tão conhecido por mim, se inclinou, nervoso, na direção da pia e pegou os testes de gravidez, desvirando-os. Ele abriu uma cara de assustado e de incredulidade. Eu conhecia aquela cena... Ele não havia conseguido de novo. Agora, Charlie iria ficar muito triste, dizer “não” várias vezes, depois viria na minha direção com um ódio mortal, me espancaria até não aguentar mais e depois me estruparia.

Levantei, pronta para deixar uma distância entre nós para que pudesse ter algum tipo de vantagem e quando estava prestes a sair do banheiro ouvi-o dizer:

— Emily, conseguimos. Você está grávida.

Eu congelei. Parei. Virei-me para ele, arregalei os olhos e disse:

— O que?