Abusada ll - Sequestrada
35 Mulher...
Notas iniciais
Charlie estava super animado. Ele andava de um lado para o outro na grande sala de estar de sua mansão. Falava em remédios, vitaminas, passagens de avião, cidades destino, tanta coisa que eu mal conseguia acompanhar.
Na verdade, eu não queria acompanhar. Eu continuava apática com a notícia. Grávida... Grávida dele... Não poderia ser... Eu me lembrei de um momento compartilhado entre eu e Glá...
Eu brincava no chão do quarto da minha irmã com alguns carrinhos antigos. Na época, tinha nove anos e Eglantine ainda estava com quinze. Ela estava estudando usando um livro grosso e eu me divertia no tapete atrás de sua escrivaninha. Em determinado momento, resolvi chamar um pouco de sua atenção e passei a brincar com os carros no braço na cadeira em que ela estava sentada. Ouvi minha irmã suspirar e dizer:
— Emily, estou estudando.
— Desculpe.
Recolhi os carrinhos para perto de mim. Minha irmã era muito paciente comigo, mas naquela época eu ainda era uma criança carente por atenção. Visto que ela voltara seus olhos para o livro eu me aproximei e fiz o mesmo. Havia muitas palavras e imagens e Eglantine anotava e lia atentamente tudo. Uma das imagens mostrava o que parecia um bebê envolto em algo. Eu apontei e perguntei:
— É um bebê?
— Sim.
— E onde ele tá?
— Na barriga da mãe dele.
— Por quê?
— Porque é de onde os bebês vêm.
— Ah é?
Ela suspirou de novo:
— Mamãe nunca falou disso com você?
— Acho que não.
— Bom... Basicamente, essa coisa aqui — ela apontou para o que parecia uma imagem de uma lula no livro — é um espermatozoide e contém algumas informações. Quando essa coisa se junta a essa coisa — agora ela estava apontando para uma imagem de uma bolinha —, que é um óvulo, e que tem outras informações, os dois juntos formam isso aqui — e outra imagem que parecia uma bolinha um pouco diferente — que depois vai crescer e virar um bebê.
— Uhum. Saquei. E tudo isso acontece na barriga da moça.
— Por ai.
— E como o corpo sabe que tem que fazer um bebê?
Ela deu uma risada fraca e disse:
— Ele não sabe. Acontece que isso — ela apontou para a lula — está no corpo dos homens e ele tem que chegar no corpo das mulheres.
— E como ele faz isso?
Eu vi que ela ficou tensa e seus olhos por um instante ficaram nublados. Ela disse:
— Ele coloca lá.
Ficamos em silêncio por um tempo. Eu não fazia a menor ideia de em que Glá estava pensando. Cansada do silêncio eu balancei seu braço e a chamei. Ela voltou a realidade, olhou para mim e sorriu:
— Sim, anjo?
— Todas as mulheres podem ter bebês?
— Hum... Algumas não.
— Por quê?
— Depende. Existem mulheres que não tem o aparelho necessário para “produzir” um bebê — ela fez aspas com as mãos. — e existem mulheres que tem alguma doença que causa esse mesmo problema.
— Como assim não tem o aparelho necessário?
Eu disse encarando o livro. Eglantine passou algumas páginas do mesmo e mostrou uma outra imagem toda complicada que parecia um triangulo cheio de tubos. Ela apontou pra ela e disse:
— Algumas mulheres não têm isso.
— Ah... Glá, eu tenho isso?
— Tem.
— E você tem?
— Também.
— Então podemos ter um bebê.
Ela suspirou e seus olhos ficaram nublados de novo. Glá disse:
— Você pode.
Ela fechou o livro com força e como ele era grosso o som repercutiu por todo o quarto. Minha irmã levantou da escrivaninha e disse, mais para si mesma do que para mim:
— Chega de estudos. Emily, pode ir para o seu quarto por um segundo? Quero ficar sozinha.
Sua voz estava esquisita e ela ainda não olhava para mim. Eu ainda era muito nova para compreender as emoções perfeitamente e não entendia o conceito de privacidade muito bem, então continuei insistindo:
— Por que você não pode ter bebês? Você disse que tem o aparelho necessário.
— Emily, por favor...
— Você sempre diz que gosta que eu fique perto de você. Sempre diz que gosta que eu fique com você no seu quarto.
Ela se sentou na cama e escondeu a cabeça nas mãos. Ouvi sua voz meio abafada:
— Eu sei, mas esse não é um desses momentos. Posso ficar sozinha?
Bufei com raiva e disse:
— Argh. Tudo bem.
Recolhi meus carrinhos e quando estava a meio caminho de sair do quarto, ambas ouvimos um barulho no primeiro andar. Era a porta da frente, o trinco se abriu e alguém entrou em casa. Quando a voz grave e áspera pode ser ouvida, eu soube quem era:
— Cheguei.
— Oh é o papai.
Olhei para trás e Eglantine estava sentada na cama toda ereta e olhava para frente, para a parede. Enquanto isso, ouvi os pés de papai subindo as escadas e sua voz grave:
— Charlotte? Eglantine?
Lembrei que Glá queria que eu a deixasse sozinha e recomecei a andar, mas ouvi sua voz baixa como um sussurro, meio engasgada:
— Não vá.
— Mas você acabou de dizer...
— Eu sei, mas agora é um dos momentos em que eu não quero ficar sozinha. Senta no tapete e brinque com seus carros, Emily.
— Hum... Tá bom.
Fiz o que ela mandou e recomecei a brincadeira. Eglantine deitou na cama de costas para porta e para mim, ela estremecia e eu a ouvia fungar às vezes, mas imaginava que estava com o nariz escorrendo por alguma alergia. Não demorou muito e papai apareceu na porta, com um mínimo sorriso no rosto. Porém, assim que me viu sentada no chão, esse sorriso desapareceu e ele disse:
— Ah, oi Emily.
Então, ele se virou com raiva e entrou no quarto batendo a porta em seguida. Percebi que a tremedeira e os fungos de Eglantine deminuíram. Passou um tempo e a voz da minha irmã surgiu de trás de mim:
— Emily, querida.
— Sim?
— Me prometa uma coisa.
— Diga.
Ela se levantou da cama e veio na minha direção parando na minha frente e segurando minhas pequenas mãozinhas nas suas. Glá disse:
— Você ainda é muito nova, mas um dia vai conhecer alguém... E eu espero que você tenha a oportunidade de ser diferente... Mas promete que você só vai ter um bebê quando tiver certeza absoluta de que quer um.
— Hã?
— Prometa-me, Emily. E prometa também que o pai do bebê será um homem bom que não fará mal a nenhum dos dois... Porque se ele não for — ela desviou o olhar do meu e seus olhos ficaram marejados — Emily, não faça isso com a criança, por favor.
Eu não estava entendendo quase nada da conversa. Só sabia que minha irmã estava chorando na minha frente e o que quer que Eglantine me fizesse prometer, eu o faria se isso a fizesse se sentir melhor. Então, disse com convicção:
— Eu prometo Glá. — eu pulei em seus braços e abracei minha irmã — E eu prometo que um dia, vou ter um bebê lindo com um cara muito legal e nós duas vamos cuidar desse bebê.
Eu senti que ela sorriu no meu pescoço antes de dizer:
— Sim meu amor.
Céus... O que havia acontecido nesse meio tempo? Como aquela simples conversa no quarto de mim irmã virou essa realidade monstruosa em que vivo?! Eglantine está morta e eu estou prestes a ter um bebê de um monstro horrendo que só sabe transformar a minha vida num inferno! O que vai ser dessa criança?!
— C-Charlie — eu disse, interrompendo seu monólogo — Posso, por favor, ir ao banheiro?
— Claro, querida.
Eu me levantei no chão e caminhei calmamente até o banheiro onde estavam os testes de gravidez. Eles ainda estavam lá, em cima da pia, todos os três, rindo de mim com aquela marca indicando positivo.
Eu peguei um deles na mão e observei bem, procurando algo que indicasse que poderia estar com defeito. Eu sabia que poderiam muito bem ter dado errado... Mas eram três testes e todos de marcas diferentes... Quais as chances dos três terem dado errado?
Com raiva eu joguei todos eles no chão. Se a notícia, no final, tiver sido falsa, eu juro que vou até as fábricas dessas porcarias e vou incendiar elas!
Olhei para o meu rosto no espelho. Uma garotinha magra e assustada... Espera, eu ainda sou uma garotinha? Eu já não sou uma mulher? Afinal, o que faz de uma pessoa uma mulher? Será quando ela perde a virgindade? Eu já a perdi ha muito tempo. Talvez, quando ela sai de casa? Também já o fiz, tecnicamente. Quando se casa? Bom... Tecnicamente, estou vivendo uma vida de casada... Uma vida horrível... Quando tem um filho? Olhei para baixo, para a minha barriga. Talvez eu tenha daqui a nove meses...
Suspirei. Mas eu não me sinto uma mulher. Nunca me senti uma mulher. Nem quando me deito com Charlie, quando uso aquelas roupas provocantes, quando convivemos normalmente. Nunca me senti uma mulher... Sempre me senti uma criança...
Quando eu viraria uma mulher?
Lembrei-me da promessa que fiz a Eglantine... Aquilo nunca aconteceria. Charlie nunca deixaria. Ninguém nunca me encontraria aqui...
Eu conseguia ouvir ele na sala falando sobre roupinhas de bebê e berços e cores para o quarto e (céus!) até nomes! Não, eu não queria isso... Eu não queria viver essa vida...
Eu não pensei a partir disso, meu cérebro estava todo silencioso e concentrado apenas nas ações. Eu me via pegando a saboneteira no canto da pia. Eu me via jogando o objeto no espelho e vi esse mesmo rachando e o barulho ensurdecedor que aquilo foi. Eu ouvi Charlie gritando meu nome e vindo à minha direção. Sabia que não teria muito tempo. Eu me vi pegando um grande caco no chão e mecanicamente o guiei para o meu pulso.
A dor veio de primeira. Eu não gritei como quando Charlie me batia, mas urrei e perdi o equilíbrio. Eu vi o sangue e meu braço formigava e ia ficando dormente. Minhas mãos tremiam, mas as forcei a pegar o caco e guiá-lo na direção do meu outro pulso. Mal tinha começado a fazer o corte desse quando vi que Charlie chegou ao banheiro.
Eu estava no chão, meu antebraço e meu colo estavam vermelho carmim e eu estava zonza e via tudo embaçado. Mas senti que Charlie gritava comigo, eu não entendia o que ele dizia, mas vi que estava furioso. Eu sorri fracamente. Que bom que pude deixá-lo com raiva.
Vagamente, senti que Charlie me pegou no colo e me levantou do chão. Eu vi que passávamos pela casa. Onde ele estava me levando? Para a solitária? Não sabia o que ele iria fazer ou o que ele estava dizendo.
Só sentia que eu ia ficando cada vez mais leve, com cada vez mais sono e com cada vez mais frio. Pensei ter ouvido a voz de minha irmã.
E então tudo se escureceu.
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