Abusada ll - Sequestrada
36 Controlada...
Notas iniciais
Eu já havia sentido aquela sensação antes. Era como se eu estivesse suspensa em um nada profundo. Eu não via ou sentia nada... Tudo vazio... Mas, de repente, pouco a pouco, eu comecei a voltar a realidade. Percebi os lençóis macios abaixo de mim, percebi meu cabelo caindo sobre meus olhos... Logo, comecei a respirar e então tentei me mover... E foi ai que percebi que eu não podia me mover. Nem meus braços, nem minhas pernas estavam acessíveis. Meus olhos se abriram fracamente.
Estava no quarto de Charlie. Parecia ser dia, pois uma luz forte entrava através da cortina da janela. Eu estava sozinha na cama, mas vi uma cadeira posta ao meu lado e, na cabeceira, havia alguns vidros de remédios, e seringas de injeção. Franzi as sobrancelhas, o que era aquilo? Onda estava Charlie? O que aconteceu?
Foi então que eu me lembrei. Eu estava grávida. Olhei para minha barriga, em pânico, pensando que eu veria uma enorme barriga de grávida, mas, continuava com ela lisa e comum... Será que fora tudo um sonho?
Então, a porta se abriu revelando Charlie carregando e analisando um frasco de remédio. Eu tentei chamá-lo, mas minha garganta apenas foi arranhada e nenhum som saiu. Porém, com a movimentação da cama, ele levantou os olhos e olhou para mim.
Seus lábios se abriram em um sorriso e ele disse:
—Oh, você está acordada!
Ele se sentou na cadeira a meu lado e colocou o remédio na cabeceira. Inclinou-se na minha direção e fez um carinho na minha bochecha. Ele perguntou calmamente:
—Como você está? Deixou-me preocupado _ Então, sua mão deslizou pelo meu busto, indo parar no meu ventre _ Deixou a nós dois preocupados.
Minha respiração se acelerou. Então não tinha sido um sonho afinal. Quis me levantar e encarar meu sequestrador de frente, mas me lembrei de que não podia fazer isso. Foi quando percebi que meus pulsos e meus tornozelos estavam algemados na cama, um em cada canto dela. Entretanto, as algemas usadas eram feitas de grossas tiras de couro na parte externa e, internamente, havia um tecido de pelúcia muito confortável... Se ele tinha essas algemas o tempo todo, por que ele insistia em usar aquelas de metal que beliscavam e me deixavam com aqueles vergões horríveis?!
Provavelmente, meus sentidos estavam começando há voltar aquela hora, pois foi então que percebi que estava com muito frio e vestia apenas uma camisola fina e branca. Também estava morrendo de fome e sede, meu corpo doía muito, principalmente meus pulsos, e eu queria desesperadamente ir até o banheiro.
Tentei expressar uma dessas vontades a Charlie, mas ele travou minha boca com sua mão e disse:
— Não diga nada por enquanto. Você tem estado nesse estado há um tempo. Não se lembra das outras vezes em que acordou?
Franzi as sobrancelhas e balancei negativamente a cabeça. Charlie continuou falando:
— Eu imaginava que não. Não estava totalmente consciente. Você dormiu ininterruptamente por três dias, depois eu estive administrando um calmante intravenoso em você para que ficasse mais calma. Isso durou por duas semanas, no total. Eu achei que já estava na hora de você acordar.
Eu balancei a cabeça pra cima e pra baixo calmamente. Ele me manteve dormindo durante todo esse tempo? Como ele conseguiu cuidar de mim?
Como se respondendo minha pergunta mental, ele disse:
— Não se preocupe. Eu cuidei de tudo. Tenho feito o possível para te alimentar e te limpar, foi difícil nos primeiros dias, confesso que eu meio que entrei em pânico e houve dias em que me enojava. Mas consegui alimentá-la e dá-la de beber com um tubo pela sua garganta, você reagiu bem, apesar de que eu acho que não foi o suficiente. Você estava emagrecendo tão depressa, esse foi um dos motivos por eu tê-la acordado.
Eu abri a boca para tentar falar algo. Minha voz saiu baixa e rouca, mas eu consegui dizer:
— E quanto aos meus pulsos?
— Ah aquela sua burrice. Eu cuidei deles também. Foi preciso sete pontos, mas eu consegui interromper o sangramento e salvá-la... Olha, eu entendo, querida. Você é muito nova e talvez ache que não está preparada para o que vamos ter... Mas eu lhe garanto, meu amor, que você vai ser uma ótima mãe. Não precisa se preocupar. Eu vou estar aqui para proteger você do mundo, bebê... Bebês.
Ele sorriu amplamente e fez um carinho na minha barriga. Fiquei enjoada e disse:
— Preciso ir ao banheiro.
— Claro. Deixe-me levá-la, ainda não está pronta para andar.
Então, Charlie soltou minhas algemas cuidadosamente e me pegou no colo, levando-me até o banheiro de sua suíte. Foi um pouco vergonhoso, mas ele me segurou durante todo o processo, enquanto fazia minhas necessidades básicas...
Depois que terminei e que ele lavou minhas mãos, estávamos de volta na cama. Ele voltou a me algemar. Quando eu vi, eu disse:
— O que? Por que está fazendo isso?
— É pra sua proteção, amor.
— Mas... Não...
Ele se inclinou e disse:
— Eu não quero mais correr riscos, ok? Você vai ficar quietinha ai deitada até que tenha o bebê. Então, quando eu ter certeza que uma viagem de avião não irá prejudicar nenhum dos dois, nos iremos para França. Tudo bem?
_ Não, Charlie. Não pode me deixar nessa cama por nove meses.
Ele suspirou e disse:
_ Olha, por que você não tenta descansar mais um pouco enquanto eu vou até lá embaixo pegar seu almoço?
Ele levantou e saiu. Sem mais. Eu estava muito irritada, mas, ainda assim, não consegui expressar realmente isso. Não consegui gritar e tentar me soltar das algemas. Eu apenas fiquei lá deitada pateticamente enquanto pensava que eu já havia descansado demais.
[...]
Eu já estava acordada havia um tempo, porém não havia me movido. Charlie administrava constantemente doses de tranquilizantes ou calmantes, não sei. Só sei que eles me deixavam cansada e tonta. Não queria fazer nada.
De manhã, logo após meu café da manhã, Charlie me levava para o banheiro e logo depois, para a varanda e me deixava sentada no sofá lá fora, ainda acorrentada. Em seguida, era hora da esteira. Eu caminhava todo dia, 30 minutos, olhando para uma parede, enquanto Charlie lia ou trabalhava em algo em seu notebook ao seu lado. Depois disso, meu dia e resumia a ficar deitada, comendo em intervalos regulados e vendo televisão... Eu odiava.
Quando a noite chegava, Charlie me levava ao banheiro mais uma vez, aplicava mais uma dose da injeção que me fazia ficar etérea e dormíamos, ele sempre ao meu lado.
Eu estava sempre acorrentada. Seja totalmente, na cama. Seja apenas meu tornozelo no sofá. Ou meus pulsos à frente da esteira... Charlie havia conseguido moldar meu dia completamente, inclusive minha mente, já que agora eu não conseguia organizar meus pensamentos.
Mas tinha uma coisa que eu conseguia fazer. Encarar minha barriga de forma fulminante. Eu já não sabia o que sentia quanto aquilo. Certo, uma coisa estava crescendo em mim e parte dessa coisa tem o DNA de Charlie. Só de pensar nisso, tinha ânsias de vômito... Mas ao mesmo tempo, eu sabia que aquela bolinha de material genético, um dia viraria um bebê... Bom, eu gosto de bebês. Nunca tive nada contra bebês... Mas não quer dizer que eu queira ter a porra de um bebê!
Bufei indignada. Estava sentada na varanda tomando sol. Cutuquei minha barriga com o dedo. Será que a bolinha já tinha desenvolvido pensamentos? Será que ela já estava consciente? Será que ela consegue ver as ondas de ódio que eu lanço para ela todo dia?... Eu espero que não.
Minha barriga havia crescido um pouco e eu sei que é por causa do pontinho porque todo o meu corpo continua emagrecendo. Mesmo Charlie se esforçando para fazer com que eu tenha uma gravidez saudável, acho que passar o dia na cama tomando injeções não era o modo de vida mais saudável...
Suspirei. Ah, pontinho, se você soubesse o que te aguarda se mataria agora... Isso é, se você pudesse fazer isso. Quanto tempo faz que eu estou grávida? Eu perdi facilmente a noção de tempo nesse estado de letargia.
Alguns instantes depois, Charlie apareceu carregando um copo de água, uma maçã e um comprimido. Provavelmente, um tipo de vitamina. Depois que ele me deu o comprimido e a água, sentou-se ao meu lado e começou a me dar pedaços da maçã de cada vez... Acho que ele tinha medo que eu me engasgasse ou algo assim.
Depois de engolir dois pedaços eu perguntei:
— Charlie, faz quanto tempo que eu estou grávida?
— 3 meses, querida. Por quê?
— Nada. Só curiosidade.
Eu não aguentava os olhos de Charlie me encarando então virei minha cabeça e olhei pra um ponto distante do jardim. Mesmo assim, pude perceber que ele ainda me observava. Depois de um tempo, meu sequestrador disse:
— Querida, termine de comer sua maçã para que possa voltar para a cama.
Suspirei e aceitei o pedaço que ele estava me oferecendo. Temerosa, eu perguntei:
— Como vai ser nossas vidas? Depois que ele ou ela nascer.
— Ora, querida, vão ser normal.
— E quando eu fizer uma coisa que você não aprova. Você vai me espancar, vai me trancar em algum lugar sem comida? O que vai fazer com o bebê enquanto isso?
— Primeiramente, creio que você irá se comportar melhor depois que ser mãe. E segundo, caso isso venha acontecer, eu ficarei com o bebê durante o tempo em que você tiver de ser disciplinada.
Suspirei e tentei continuar:
— E quando ele crescer, Charlie? Quando ele perceber que eu não te amo e não quero ficar com você?
— Não diga bobagens, Emily. Você vai aprender a me amar. Assim como nosso filho.
— Não, Charlie. Eu te garanto que isso não irá acontecer.
— Chega — Ele disse, irritado e levantando-se — Já para cama.
Enquanto meu sequestrador me carregava para o segundo andar eu disse mais uma vez, em um sussurro baixo:
— Sabe que isso não vai funcionar. Um dia, ele vai perguntar o que aconteceu... Charlie, eu nunca vou ser a esposa que você quer.
— Emily, não me irrite, por favor.
Ele me deitou na cama, com um pouco menos de calma do que nos outros dias. Via que ele estava começando a se exaltar. Mesmo assim, eu não parei de falar:
— Um dia, essa criança vai descobrir que você me sequestrou e me mantém presa. Um dia, ela vai descobrir que você é um monstro que é incapaz de me libertar.
Charlie parecia um pouco em pânico. Ele virou na direção da parede e puxou os cabelos de sua cabeça resmungando coisas baixinho que eu não entendia. Estava curiosa com a sua reação, geralmente ele já teria me batido. Tentei ver até onde aquilo iria:
— Você nunca vai ter o que quer, Charlie. Se essa criança nascer, eu não vou permitir que ela te ame. Ela vai te odiar, assim como eu odeio. E não há nada que você possa fazer para mudar isso. Porque você não poderá controlá-la.
— Não, Emily.
— Entenda de uma vez, Charlie. Não há como isso terminar em um final feliz.
— Pare.
— Você é ruim, Charlie. Você é cruel. É um monstro.
Ele virou na minha direção. Estava chorando! Eu o fiz chorar! Algo cresceu dentro de mim e eu não consegui identificar se era orgulho ou pena... Talvez os dois.
Meu sequestrador se ajoelhou do lado da cama e começou a prender meus braços e tornozelos nas algemas. Com a voz engasgada, ele dizia:
— Não, eu não sou um monstro. Eu te amo, Emily. Tudo o que eu faço é para o seu bem. É para te proteger.
Suspirei e rolei os olhos. Eu disse:
— Ora, tenha dó. Nos dois sabemos que você é incapaz de amar, Charlie. O que você sente por mim é uma obcessão doentia.
Ouvi-o soluçar e vi quando ele levou a mão ao rosto, provavelmente para secar as lágrimas. Era estranho, eu não tinha vontade de sorrir contente com a cena, mas, ao mesmo tempo, não conseguia parar de dizer aquilo para ele. Afinal, era uma verdade que Charlie precisava escutar, mesmo que fosse doloroso... Eu não queria ter que dizer aquilo para ele... Mas, era preciso.
Vi quando meu sequestrador foi até a cabeceira e colocou uma dose do remédio que me dava diariamente na seringa. Eu sabia que ele, logo, iria se cansar. Provavelmente, queria me fazer dormir, para que parasse de falar.
Vi quando ele se aproximou e disse, pegando em meu braço e procurando uma veia:
— Chega, Emily. Você está falando coisas sem sentido.
— Pode me drogar, Charlie. Não me importo. Mas você sabe que eu estou certa.
Apertei os olhos quando senti a seringa entrando em minha pele. Mesmo após tantas injeções, aquilo ainda doía. Instantaneamente o estado de letargia em que estava começou a se intensificar. Em um último esforço eu peguei na mão do meu sequestrador e encarei seus olhos molhados de lágrimas antes de dizer:
—Faça um favor a nos dois, Charlie. Se você me ama tanta quanto diz amar... Se ama o seu filho... Mate-me ou me tire daqui... Porque se não o fizer... Eu vou acabar fazendo por mim mesma... Um ou outro.
— Não, Emily.
— E eu vou levar a criança comigo. Não vou deixar você ficar com ela.
— Não, por favor.
Mas eu já não estava o ouvindo direito. Minha cabeça começou a rodar e eu precisei largar seu braço e deitar a cabeça no travesseiro. Lentamente, escorreguei para uma escuridão totalmente silenciosa.
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