Notas iniciais
feliz ano novo q 2017 seja menos merda q 2016 aproveitem

Charlie e eu caminhávamos ao redor de seu jardim. Pessoalmente, eu achava a experiência vergonhante, já que me sentia um cachorro sendo puxado pela coleira pelo dono. Entretanto, era melhor do que a esteira.

Após alguns meses daquela torturante vida, minha barriga havia crescido até atingir o tamanho de uma bola de futebol. De acordo com Charlie, eu já estava com seis meses... Para mim, tudo o que isso significava era que, a cada dia, eu ficava mais pesada e mais cansada. Enjoos eram frequentes, principalmente considerando que eu ficava deitada na mesma posição quase o dia inteiro. Andar na esteira havia se tornado praticamente impossível já que tudo o que eu conseguia fazer era dar alguns passos...

Eu estava odiando cada segundo daquilo...

Olhei para baixo, para minha barriga, enquanto caminhava. Aquele nada, que depois virara um pontinho, provavelmente estava com a aparencia de um dinossaurozinho agora... Charlie não parava de me mostrar roupas de bebês nos sites e, puta que pariu... Nomes!

Era estranho. Até agora eu estava me recusando a pensar na coisa que crescia em mim como um ser humano. Até agora, aquilo era um mini dinossauro. A criança que eventualmente apareceria não viria daqui... Viria de sei lá onde, mas, com certeza, não sairia de mim.

Era difícil...

Às vezes, eu me imaginava como um monstro. Uma mãe cruel e desalmada que é incapaz de amar o próprio filho... Porém, era mais forte que eu... Meu sequestrador falava com tanta ansiedade e animação dessa criança que eu começava a tomar raiva dela! Charlie falava disso o dia inteiro! Tudo o que eu ouvia era sobre essa coisa! Eu não aguentava mais!

Plantei meus pés no chão e balancei as correntes que seguravam meu pulso, fazendo barulho. Charlie notou e parou de andar, virando-se na minha direção, ele segurava a outra ponta da corrente. Eu disse:

— Estou cansada.

Ela olhou no relógio e respondeu:

— Você só caminhou por dez minutos.

— Charlie, quero voltar. Estou cansada.

— Não, Emily. Precisa fazer exercícios.

Revirei os olhos e revidei:

— Se quisesse que eu me exercitasse não iria me acorrentar a uma cama.

— Não comece.

— Não começar com o que? Você sabe que é a verdade. Não pode me manter desse jeito para sempre. E você sabe o que vai acontecer se me soltar.

— Está vendo? Você é uma bomba relógio, meu amor. É um perigo para o bebê e para si mesma. Com certeza são os hormônios e quando tudo isso passar, verá que tudo o que faço é para o bem dos dois.

— Argh! É só o que você sabe dizer. — Percebi que, apesar de ele ter se recusado a voltar verbalmente, estávamos refazendo o caminho de volta para casa — "É para o seu bem, Emily". Nós dois sabemos que tudo o que você faz é para o seu próprio bem!

— Pare de gritar.

— Então pare de ser tão irracional!

Subimos as escadas para a varanda e entramos na casa. Charlie estava furioso e andava rápido e pisando os pés. Eu tentava acompanhá-lo e tropeçava várias vezes. Meu corpo inteiro doía e tudo o que eu queria era me deitar e dormir mais um pouco.

Quando chegamos às escadas, eu me agarrei ao corrimão com toda minha força e Charlie parou e olhou para mim. Enquanto recuperava o fôlego e minhas forças, eu disse, olhando bem no fundo dos olhos dele:

— Você diz que me ama. Me enche de declarações dia e noite. Mas você sabe que não é verdade. Alguém como você é incapaz de amar, Charlie.

Ele se aproximou e pegou meu rosto. Pude ver a mágoa em seus olhos quando ele disse:

— Não. Eu te amo, Emily.

Tirei suas mãos de meu rosto e comecei a subir as escadas sozinha, procurando me sentar. Respondi sem olhar para ele:

— Você não sabe o que é amor. Como pode saber que sente isso por mim se nunca sentiu algo assim antes?

— Argh! Eu só sei! Pare de me contradizer a todo o momento!

Eu me virei e disse alto e em bom tom:

— EU NÃO VOU PARAR ATÉ QUE VOCÊ PARE COM ESSA PALHAÇADA DE FAMÍLIA FELIZ E PERFEITA!

Sem esperar sua resposta, atravessei o corredor e entrei no quarto, sentando-me na cama. Foi um alívio para meus músculos e meus ossos, porém poucos segundos depois, Charlie entrou no cômodo espumando de raiva. Ele gritou:

— Quer saber? Eu cansei disso! Você passa o dia inteiro se bancando de vítima quando tudo o que eu fiz foi melhorar a sua vida!

— O que?!

— Olhe ao redor, Emily. Você mora em uma mansão, come a melhor comida todos os dias, tem os melhores medicamentos do mundo. Você está indo morar na França, pelo amor de Deus! Sabe quantas pessoas iriam querer estar no seu lugar?! SABE O QUE EU DARIA PARA ESTAR NO SEU LUGAR QUANDO EU TINHA A SUA IDADE?!

— Não me venha com esse jogo para cima de mim. Ao contrário de você, eu tinha a porra de uma vida quando estava fora daqui. Eu tinha uma mãe, uma irmã e eu tinha amigos! Eu tinha pessoas que se preocupavam comigo!

— Ah claro. Uma mãe que se preocupava mais em trabalhar do que em observar a vida da própria filha. Uma irmã que, simplesmente, te largou em uma vida miserável e sem atenção para ficar com o namorado. Amigos que não estavam nem ai para você e não perceberam seu relacionamento com o diretor da escola deles!

— Cala a sua boca! Você não sabe de nada! Não fale da minha vida, porque você nunca fez parte dela!

— Eu fui a melhor coisa que já aconteceu na sua vida!

Aquela altura, eu estava espumando de raiva também. Foi por causa disso que eu não pensei duas vezes em avançar em Charlie com os punhos fechados. Meu sequestrador não previu o que eu iria fazer e foi pego de surpresa o que fez com que ambos fossemos empurrados até a parede. Minha barriga chocou com a dele e senti um desconforto, mas não me importei. Comecei a tentar acertar sua cabeça e seu peito com meus socos enquanto gritava e o xingava de diversas coisas das quais nem me lembro mais.

Charlie suportou por alguns segundos, entretanto, depois de um tempo, ele simplesmente agarrou meus pulsos e me jogou para trás gritando:

— CHEGA!

Perdi o equilíbrio e cai com tudo no chão. Minha cabeça bateu na quina da cama e quando atingi o solo, senti toda a minha barriga tremendo, causando-me uma dor terrível. Eu gemi de dor. Não sabia se levava as mãos a minha barriga ou a minha cabeça então fiz ambas as coisas, já sentindo lágrimas nos cantos de meus olhos.

Charlie percebeu a burrada que fez, segundos depois de ter feito realmente e veio na minha direção com o rosto mais preocupado do mundo. Ele começou a chorar instantaneamente e ficou pedindo e repetindo milhões de "desculpe-me" e "perdão" enquanto verificava minha barriga e minha cabeça. Poucos segundos depois, meu sequestrador me pegou no colo e me colocou de volta na cama, sem prender meus pulsos e tornozelos. Eu tentava normalizar minha respiração e parar de chorar, acredito que ele fazia o mesmo.

Depois, carregado de mais alguns pedidos de desculpas, ele me deu uma dose da minha injeção diária e eu dormi mais uma vez.