Abusada ll - Sequestrada
38 Desfecho...
Eu conseguia sentir quando Charlie me dava uma dose maior de que de costume do tranquilizante... Eu demorava a acordar e quando o fazia era um grande esforço... Com o passar do tempo, ao invés desse esforço diminuir, por ter ganhado uma relativa imunidade; ele aumentava, provavelmente porque eu estava grávida... O dinossaurozinho tomava muitas de minhas forças, ainda mais com a vida que eu levava...
Depois de sentir que havia tirado uma enorme pedra de cima de mim consegui abrir meus olhos. Descobri que ainda estava deitada na cama de Charlie, porém, por incrível que pareça... Estava desacorrentada.
O sol já iria se por do lado de fora e eu consegui ver a luz alaranjada do astro batendo na parede. Foi apenas quando se passaram alguns minutos em que eu fiquei deitada e me recuperando que eu percebi que ouvia murmúrios e soluços vindos de algum lugar. Estranhei... Isso não era normal.
Virei a cabeça de um lado para o outro, mas o quarto parecia deserto... Os sons pareciam vir do banheiro, onde a porta estava aberta e a luz acesa. Devagar, consegui me levantar sozinha e caminhar até lá.
Já na porta consegui identificar o que era aquilo... Era barulho de choro... E só havia mais uma pessoa na casa que poderia estar chorando... Mais curiosa ainda, atravessei rapidamente o closet e encontrei o que estava procurando.
Charlie estava deitado na banheira, ainda de roupas, e chorava como uma criança pequena... Eu nunca tinha visto aquilo em toda a minha vida... A banheira estava cheia pela metade e meu sequestrador estava dentro dela, encharcado. Sua cabeça estava tombada e repousava na borda, eu via seus olhos inchados e vermelhos, seu cabelo completamente bagunçado, seu rosto corado e tremores passavam pelo seu corpo inteiro.
Ele não percebeu que eu entrei, então, depois de observar a cena assombrada eu sussurrei:
— Charlie?
Instantaneamente, eu vi sua cabeça se levantar, seus olhos se abrirem e ele olhar para mim. Parecia espantado. Ele disse:
— Emily? Você está acordada. Desde quando?
— Faz alguns minutos, apenas... Por que está chorando?
Ele olhou para baixo... Acho que não sabia o que responder. Suas mãos se encheram de água e depois ele deixou que o líquido escorresse pelos seus dedos; fez isso algumas vezes... Eu sentia que aquilo iria demorar, então me sentei no vaso sanitário e apenas esperei.
Pareceu que se passaram horas até que eu o ouvi dizendo:
— Você sabe quando foi que eu te vi pela primeira vez?
— Não.
— Você tinha apenas doze anos... Eu tinha conseguido o cargo de Diretor na escola dois anos antes, mas nunca havia te encontrado... Era o recreio do Ensino Fundamental e eu estava com pouco trabalho naquele dia... Resolvi ir até a biblioteca e encontrar um livro... E você estava lá... — Seus lábios se abriram em um sorriso mínimo e sonhador — Uma coisinha pequena encolhida num canto com cabelos castanhos enormes e olhinhos atentos lendo “A Megera Domada”...
— Eu gostava muito de Shakespeare nessa época...
— Sim... Eu realmente não sei o que deu em mim quanto eu te vi... Por algum motivo, eu fiquei com vergonha. Como se tivesse te interrompido em um momento muito íntimo... Escondi-me numa estante e fiquei lá, te observando... Até que o recreio terminou e você fechou o livro, se levantou e foi embora...
“Depois desse dia eu não consegui mais desviar os olhos de você. Era preciso um esforço enorme para que eu me concentrasse no trabalho e não fosse até a sua sala te observar do corredor... Lembro-me de vasculhar as câmeras da escola durante os intervalos, procurando você e seus cabelos enormes... Lembro-me de sair correndo na hora do recreio para tentar ter um vislumbre de você rindo com seus amigos... Era tão bonita...”
— Você apenas me olhou... Por dois anos?
— Sim... Eu não sei quando a minha admiração se transformou... Nisso.
— Nisso?
— Quando eu te chamei na minha sala pela primeira vez... Quando te toquei pela primeira vez... Em algum momento... Eu sabia que era errado... Eu conseguia ouvir uma voz na minha cabeça me mandando parar... Eu via você chorando e com medo... Eu já tinha visto tudo aquilo... Parecia que alguém rebobinava um filme na minha cabeça...
“Eu não sei o que aconteceu, mas toda vez que você gemia, toda vez que gritava ou que me mandava parar... Não era você quem estava lá... Era eu. Eu sei que eu deveria ter parado, ainda mais depois de perceber que estava fazendo a mesma coisa que meus tios fizeram comigo... Porém, eu não consegui.”
Suspirei e abaixei a cabeça. Charlie continuava chorando, apesar de fazer menos barulho agora. Quanto a mim, eu me sentia... Confusa e curiosa ao mesmo tempo... Eu queria saber sobre aquilo. Eu queria saber o que levou Charlie a fazer aquilo comigo... Ao mesmo tempo em que eu queria sentir pena do garotinho abusado por trás de tudo aquilo... Ao mesmo tempo em que eu queria sentir ódio do monstro sem escrúpulos que estava à frente de tudo...
Calmamente, eu disse:
— Quando decidiu que ia me sequestrar?
— Eu não sei exatamente... Quando ganhei essa casa do meu pai, com o abrigo para ataques de bomba lá fora e o quarto de pânico na biblioteca, eu automaticamente pensei em te trazer aqui... Mas acho que essa ideia já estava na minha cabeça antes... Talvez tenha sido quando eu percebi que Hector estava atrás de você... Sabe, Emily, já naquela época eu não suportava te perder... Eu esperava o dia inteiro para te ver na escola e ansiava ate o momento em que você entrava na minha sala...
—Eu não entendo... O que você viu em mim?
— Eu não sei, também... Eu só... Vi. Eu te vi, Emily.
Suspirei mais uma vez e encarei um ponto qualquer da parede antes de dizer:
— Se tivesse visto de outra maneira...
— Como assim?
— Estou dizendo que não precisava ser assim, Charlie... Não precisava me forçar, não precisava me sequestrar... Eu não sei se, algum dia, eu iria querer ter um envolvimento romântico com você como você sempre quis... Mas eu teria te ajudado... O seu problema é que, apesar de seu pai e seus tios estarem mortos, eles ainda te assombram. — Eu vi quando ele ficou tenso e ficou encarando a superfície da água — Você ainda vive à sombra das ações deles... Essas três pessoas te destruíram tão profundamente que, após conseguir sair, você, ainda sim, foi incapaz de viver de outro modo... Por isso você me estuprou e me sequestrou... Você não sabe conviver normalmente com uma pessoa... Você não sabe amar.
Meu sequestrador fungou e limpou seu nariz, que estava escorrendo, com as costas da mão. Ele olhou para mim e disse:
— Eu pensei que você pudesse me ajudar.
Mordi meus lábios e o respondi:
— Acho que não posso...
Ficamos assim por horas depois disso... Charlie brincando com a água em silêncio e eu brincando com meus dedos, igualmente sem fazer sons... A casa inteira parecia morta... Aliás, o mundo inteiro... Por tanto tempo parecia que o planeta era habitado apenas por eu e Charlie que, quando ambos entramos em um estado de contemplação, para mim, pareceu que o mundo parou conosco...
Por que isso havia acontecido?
Por que o pai de Charlie tinha que ser tão frio? Por que os tios dele tão cruéis? Por que ele não procurou um tratamento quando saiu da casa deles? Por que ele foi escolher logo eu? Por que eu não contei a ninguém o que estava acontecendo? Por que eu não tentei matá-lo?
Sim. Por que eu não tentei matá-lo?... Eu poderia matá-lo... Ele estava tão vulnerável...
Entretanto, quando levantei a cabeça e olhei para ele, foi que percebi... Eu não poderia fazer isso... Da mesma forma que Charlie era incapaz de me matar, eu não conseguiria matá-lo... Eu sentia pena dele... Não conseguiria machucá-lo... Estávamos presos juntos... Nós dois.
Olhei para baixo, para meu ventre... Nós três.
Foi quando ouvi sua voz, que no silêncio total do mundo, pareceu mais forte do que todas as vezes em que eu a havia ouvido:
— O que nos fazemos agora?
— Você sabe o que eu quero que você faça. Você sabe.
Ouvi quando ele suspirou. Seus olhos pareciam ter se enchido de lágrimas mais uma vez. Ele disse baixinho:
— Eu não quero que você morra.
— Então me deixei ir embora.
— Se você for, eu morro.
Suspirei e me levantei do vaso. Calmamente, fui até ele e me ajoelhei do lado de fora da banheira. Peguei o rosto do meu sequestrador, meu agressor, meu estuprador, e encarei-o bem fundo nos olhos. Eu disse:
— Você disse que me ama. Está bem claro que se importa comigo. Você sabe o que é viver a vida que vivo. Você sabe o que é ser obrigada a viver em um lugar que não quer. Você sabe o que é ser afastado de tudo e todos.
“Charlie, lá fora tem alguém que sente muito a minha falta. Eu sei que tem. E esse bebê, nosso filho... Você sabe como vai ser a vida dele, Charlie... Você sabe que isso... Nós.. Nunca vai dar certo. Você apenas não quer enxergar... Enxergue, por favor.”
Eu estava praticamente implorando a ele. Charlie continuou me encarando até que seu olhar se desviou de mim rapidamente, como se ele não aguentasse mais... Séculos pareceram se passar até que eu ouvi sua voz, fraca como o bater de asas de uma borboleta:
— Se você for eu vou morrer. Você sabe disso, também.
Mordi os lábios. Eu sabia? Talvez... Mas não sabia o que responder a ele quanto a isso. Porém, não foi preciso, porque ele mesmo o respondeu:
— Mas eu não sei se não quero isso... Talvez seja melhor...
Suspirei pesadamente. Não concordei com ele, nem neguei... Aquilo foi dito mais para ele mesmo do que para mim... Era uma decisão que ele precisava tomar. Depois de um longo tempo, Charlie disse:
— Me dê algum tempo depois. Não quero morrer na cadeia... Quanto a ele... Não precisa dizer que eu sou o pai... Mas se for menino... Pode o chamar de Luca, por favor?
Eu não o respondi... Luca era o nome do filho de Charlie com a tia dele... Era o nome do bebê que Charlie havia matado ainda no berço...
Eu queria que a criança tivesse o nome desse bebê? Eu queria ter a criança? Eu queria que o dinossaurozinho se tornasse um bebê? Uma pessoa? Um filho?...
Eu não expressei minhas emoções para Charlie... Ele já amava tanto o dinossaurozinho... Mais que eu, provavelmente... Não queria que ele ficasse triste quando descobrisse que eu, talvez, nunca nem o deixasse viver...
Após alguns segundos eu me levantei e caminhei para fora do banheiro. Quando já estava na porta do mesmo, olhei para trás. Charlie estava deitado novamente no encosto da banheira, na mesma posição que o vi quando cheguei ao banheiro... Só que agora, não estava mais chorando... Parecia mais calmo...
Apertei as mãos e punhos e me virei. Aquela seria a última vez que eu viria aquele homem. A última vez que eu viria o homem que me estuprou, me sequestrou e me criou durante a maior parte da minha adolescência... A última vez que eu viria o pai do dinossaurozinho...
Eu voltei para o lado da banheira e ajoelhei-me até a sua altura. Devagar, me inclinei e plantei um singelo e doce beijo na testa daquele menino... Aquele menino acuado e sem amor... Ainda de olhos fechados, Charlie suspirou e relaxou mais ainda na banheira.
Sussurrei:
— Precisa de mais alguma coisa?
— Não. Vá.
Sua voz saiu tão doce e calma que eu até mesmo duvidei que fosse ele mesmo... Sem esperar mais nada, me levantei e fui embora.
Passei pelo closet onde me escondi no armário quando os policiais apareceram. Passei pelo quarto onde, pela primeira vez, fiz sexo de verdade com Charlie. Passei pela sala que limpei na vez que Charlie teve um ataque de nervos e destruiu todo o que conseguiu tocar. Passei pelo banheiro em que fiquei sabendo que estava grávida. Passei pela cozinha em que cozinhei, pela primeira vez, uma refeição completa. Passei pela biblioteca onde escolhi inúmeros livros e onde ficava a entrada para o meu quarto...
Toquei a maçaneta da porta da frente. Olhei para trás. Tudo parado e completamente silencioso. A porta estava destrancada. Abri a porta. Dei um passo para fora. O sol já havia se posto e o céu estava acinzentado, pronto para cair na noite profunda.
Respirei fundo. Aquele ar da parte da frente da casa que eu nunca havia respirado até então. Desci os três degraus que ficavam na frente da porta. Atravessei o jardim da frente pelo caminho de pedras e me encontrei na estrada de pedras. Olhei para os dois lados da estrada. Consegui ver a rodovia distante no lado esquerdo e segui até lá.
Fui andando devagar. Não tinha pressa. Era estranho. Como se eu estivesse atuando em algum filme. Aquela não parecia eu. Caminhar por aquela estrada não parecia a minha vida... Parecia a vida de outra pessoa.
Eu estava cansada, provavelmente o sedativo ainda não tinha sido gasto pelo meu organismo completamente. Somado a isso, estava fraca e grávida, mas me obriguei a continuar. Havia postes de iluminação do lado da estrada e fora isso tudo estava completamente escuro. Às vezes, eu via a iluminação vinda de alguma mansão parecida com a de Charlie, mas não quis parar em nenhuma delas... Não queria parar em lugar nenhum... Só tinha um lugar e apenas um lugar em mente.
Quando cheguei até a rodovia eu precisei parar e descansar. Sentei-me no chão e me amaldiçoei por não ter trago um pouco de comida ou pelo menos ter calçado sapatos e ter vestido algo além da camisola branca em que estava... Porém, eu precisava continuar, então, depois de um tempo, me levantei e voltei a caminhar.
Agora que estava na rodovia, não havia mais nenhum poste de luz, então a única coisa que me guiava era a luz da lua. Agradeci pelo fato de não haver nenhum carro passando... Acho que as pessoas se assustariam se vissem uma jovem magra e grávida andando pela estrada com uma camisola...
Apesar de estar andando consideravelmente devagar, uma hora consegui avistar um pequeno conjunto de luzes perto da estrada. Não estava planejando parar ali, já que sabia que não era a minha cidade, mas quando estava me afastando, ouvi um barulho atrás de mim. Eram cascos de cavalo. Vindo à minha direção havia três cavalos, todos castanhos e um pouco mal cuidados. Em um deles havia um homem mais velho já com os cabelos brancos, em outro havia um menino, talvez em seus quinze anos e no terceiro uma mulher quase da minha idade. Os três carregavam lanternas e as apontaram na minha direção.
A claridade me acertou em cheio e eu coloquei as mãos a frente dos olhos para me proteger dela. O menino arquejou e disse:
— Vovô, é um fantasma?
A menina repreendeu o mais novo e o mandou calar a boca. Depois ouvi a voz do homem, dirigida a mim:
— Está perdida?
Tirei a mão dos olhos e o encarei:
— Na verdade não. Sabe há quanto tempo está a cidade mais próxima?
Dessa vez, a jovem me respondeu:
— Fica uns trinta minutos a cavalo, vinte com a minha moto. Você não pretende chegar lá a pé, não é?
— Na verdade-...
— Não seja burra. — Disse o menino com uma voz fina de quem ainda não tinha passado pela puberdade, talvez eu tenha me enganado quanto a idade dele... — Com essas perninhas e esse barrigão-...
— Shiu — repreendeu o velho, dessa vez — Cale a boca Chris... Moça, deve querer muito chegar até a cidade se pretende ir a pé as nove da noite.
— Já são nove horas?
— Sim. Por que você não vem conosco? Pode comer alguma coisa enquanto ligamos para alguém que queira.
— Não estou com fome, obrigada.
Porém, minha barriga me traiu, roncando. O homem ergueu uma sobrancelha para mim e disse:
— Não seja boba menina. Nós não somos perigosos. Pode ir na garupa da Melody se quiser.
Ele disse, apontando com a cabeça para a jovem ao seu lado... Eu ponderei por um instante, mas então pensei... Se eles quisessem me fazer algum mal, poderiam ter me agarrado e me levado à força dali... Não havia ninguém para testemunhar a ato há quilômetros... Mas eles pararam para conversar... Não devem ser gente má.
Então eu disse que tudo bem e a jovem, Melody, desceu de seu cavalo para me ajudar a subir no mesmo. Na volta fomos bem devagar, mas mesmo assim, a cada passo do animal minha barriga doia e chacoalhava e eu não pude evitar um ou outro gemido de dor. Graças aos céus, não demorou muito até que chegássemos até a casa daquelas três pessoas. Uma mulher mais velha nos aguardava na porta e arquejou quando me viu.
Descobri que o casal mais velho se chamava Daisy e Alfred e eles eram os avós de Melody e de seu irmão mais novo Chris (que tinha apenas treze anos, não quinze). Melody tinha uma filha, um bebezinho chamado Lilly que já estava dormindo.
Daisy, rapidamente, fez um mingau grosso no fogão a lenha e me ofereceu um grande prato. Sem pensar duas vezes, comi tudo com gosto achando a melhor comida do mundo. Depois, repeti o prato. Os quatro estavam sentados na mesa e me encaravam como se eu fosse um animal exótico.
Alfred perguntou se eu queria que ligassem para a minha família ou para a polícia. Aparentemente, o sinal pegava num espaço um pouco mais elevado ao redor da casa. Eu respondi que não. Se minha mãe recebesse uma ligação dessas a essa hora da noite, provavelmente teria um enfarto ou sei lá. Entretanto, pedi que Melody me levasse de moto até a cidade e respondi que pagaria a gasolina de ida e de volta dela.
Era uma família gentil, pois, sem nem pensar duas vezes, Melody aceitou. Foi quando Daisy perguntou se eu queria um copo de água antes de partir que eu senti...
Um chute.
Foi estranho. Como uma cosquinha na minha barriga. Uma bater de borboletas no meu estômago. Foi fraquinho, mas era como se o dinossaurozinho estivesse me dizendo:
“Estou aqui. Eu existo.”
Arregalei os olhos e olhei para meu ventre. Toquei a barriga e quase pude sentir a coisa se movendo embaixo da minha pele... Estranho, isso nunca tinha acontecido antes... Ele nunca havia se movido...
E aquela foi a primeira vez que o dinossaurozinho se moveu.
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