Abusada ll - Sequestrada
39 Hóspede
O porteiro estava cochilando quando chegamos ao condomínio, mas Melody bateu no vidro da guarita até que ele acordasse assustado e carrancudo. Não era o mesmo porteiro que eu conhecia, mas, mesmo assim, dei um passo a frente e disse:
— Meu nome é Emily Gomez Doyle e moro no número 27 com a minha mãe.
As palavras pareceram erradas quando saíram da minha boca... Quanto tempo fazia que eu não dissesse algo assim?...
O porteiro franziu as sobrancelhas e disse:
— Que eu saiba a dona que mora lá, mora sozinha.
Revirei os olhos. Isso ia ser mais difícil do que eu pensei. Melody estava me olhando com uma cara estranha. Ótimo! Agora ela vai pensar que eu sou uma maluca mentirosa. Eu disse para o porteiro:
— Ela morava com uma menina há alguns anos. Sou eu. Desapareci quando tinha quatorze anos.
Agora Melody e o porteiro arregalaram os olhos para mim. Que saco! Será que eu não poderia ir pra casa e dormir?! O homem na guarita pegou o telefone e discou um número que eu esperava que fosse o da minha casa e não da polícia. Ele disse alguma coisa que eu não consegui ouvir já que ele havia desligado o interfone. Quando desligou, ele fez um sinal para que eu esperasse.
Melody disse a meu lado:
— Então... Você disse que tinha desaparecido?
—É... Uma longa história.
— Você fugiu ou te pegaram?
— Como eu disse, é uma longa história.
Ela ainda estava com as sobrancelhas franzidas, provavelmente, não estava acreditando em mim. Nossa, se eu soubesse que ia ser tão difícil voltar para minha casa...
Alguns minutos depois o porteiro abriu o portão e saiu da guarita com a mão em seu cinto para nos receber. Estranhei, mas ele disse que deveria nos acompanhar até a minha casa. Suspirei cansada, mas tive que aceitar aquilo. Melody foi empurrando sua moto do nosso lado como se ela fosse uma bicicleta. Não demorou muito para que chegássemos até a minha casa.
Parei em frente ao jardim da frente da minha casa. Encarei a construção... Ela não tinha mudado nada... Mordi os lábios, era tão estranho... Eu estava com medo... Não sei do que eu estava com medo... Era como se eu estivesse atuando em um filme... Como se nada ali fosse real de verdade e a qualquer momento eu fosse acordar em meu quarto na casa de Charlie.
Foi quando Melody tocou no meu ombro que eu pareci acordar para a realidade. Segui o porteiro que já estava na porta da frente e toquei a campainha... Agora eu era convidada na minha casa?
Não demorou muito e a porta se abriu revelando um homem... Ele era alto magro e pálido. Usava uma camiseta e shorts de pijama. Porém, foi só quando vi seus braços e pernas repletos de tatuagens, os alargadores e o pircing na sobrancelha quem eu percebi que era. Eu perguntei:
— Kevin?
Ele levantou a cabeça e respondeu, sua voz mais grave do que me lembrava:
— Você é a Emily? Está... Diferente.
— Eu cresci... Eu acho.
Ouvi o barulho de passos atrás de Kevin. Alguém descia as escadas, provavelmente minha mãe. Então eu ouvi:
— É ela mesmo?
Mas a voz que produziu essas palavras era diferente da voz da minha mãe... Estava rouca e um pouco distante, mas mesmo em um milhão de anos, eu saberia de quem era aquela voz. Meu coração falhou uma batida e eu arquejei. Sem conseguir me segurar, eu empurrei Kevin para o lado e a vi.
Minha irmã Eglantine, com o cabelo curto e azul com mechas roxas me encarava do meio da escada. Ambas arregalamos os olhos e ficamos paradas nos encarando. Eu não sei quem começou a chorar primeiro... Eu também não sei quem correu primeiro... Só fui perceber quando eu estava abraçando minha irmã mais velha no chão da sala e chorando em seu ombro enquanto ela fazia o mesmo no meu.
Séculos pareceram se passar até que ela se afastou e pegou meu rosto em suas mãos, ainda chorando, e disse:
— É você. É você mesmo. Eu não acredito nisso.
— Você não acredita? Eu não acredito! Achei que estivesse morta!
— O que? Eu achei que estivesse morta!
Então nos abraçamos de novo. Um tempo depois, eu me separei e perguntei:
— Você está em casa! E Kevin está em casa também.
Nos duas rimos desse fato... Aparentemente, muita coisa mudou enquanto estive fora. Pelo menos, Glá e mamãe resolveram suas diferenças. Foi então que perguntei:
— Cadê a mamãe?
— Ela... Está dormindo... Eu não quis acordá-la até que tivesse certeza que seria você.
— Eu quero vê-la.
Nos levantamos e subimos juntas as escadas. Glá segurava minha mãe firme e forte, como se quisesse se assegurar que eu ainda estava ali. Quando chegamos a frente da suíte da minha mãe, ela bateu na porta.
Sem esperar resposta, minha irmã entrou, me puxando junto. O quarto estava todo fechado e minha mãe, provavelmente era o monte de tecidos deixados na cama. Eglantine ligou o abajur, deixando que uma pequena quantidade de luz tomasse o cômodo. Ela cutucou o monte de cobertas e sussurrou:
— Mãe, acorde. Tenho uma surpresa pra você.
Foi preciso que Glá cutucasse um pouco mais até que minha mãe acordasse e retirasse as cobertas de cima de sua cabeça, revelando seu rosto. Ela disse, cansada:
— O que você quer, Eglantine?
— Mãe, olhe quem está em casa.
Seus olhos se viraram para mim e me observaram. Ela franziu as sobrancelhas e ficou me encarando apenas. Eu também fiquei estática no meu lugar. Minha mãe tinha envelhecido... Muito... Seus olhos pareciam dois minúsculos pontos, ela estava mais branca que uma folha de papel e rugas tomavam conta de seu rosto inteiro. Seu cabelo estava branco na raiz e castanho escuro, sua cor natural e, além disso, estava todo ressecado e quebradiço.
Demorou um pouco até que ela se sentasse e colocasse os óculos. Glá me deu um leve empurrão e eu me aproximei a ela, dizendo:
— Mãe? Sou eu. Emily.
Eu vi a mão de minha mãe se erguendo e vindo na minha direção. Ela pegou na minha mão e a apertou, depois subiu pelo meu braço e segurou meu rosto. Ela parecia uma criança pequena, passando a mão por meus olhos e boca até que, finalmente, se levantou. Sua voz saiu estranha quando ela disse:
— É você mesmo?
Sorri e respondi:
— Sim, mãe, sou.
E foi apenas depois disso que minha mãe pulou em cima de mim e me abraçou apertado. Nesse momento senti que um peso havia saído de cima de mim... Um peso que eu nem sabia que carregava.
Mamãe apenas me largou para puxar Glá e fazê-la se juntar ao nosso abraço triplo e ficamos assim pelo o que pareceram horas... E eu estava sorrindo e chorando ao mesmo tempo, pois, finalmente, estava com a minha família.
[...]
Depois que o momento feliz de reencontro repleto de emoção aconteceu, as coisas começaram a ficar estranhas. Para começar, eu não só tinha dezoito anos agora, como também estava grávida. E claro, minha mãe e minha irmã, perceberam. Fora que, elas não faziam a menor ideia de onde eu estive todo esse tempo, quem era o pai do bebê e por que eu estava andando de camisola na rodovia às nove horas da noite.
Eu mandei que todos, inclusive Melody a quem eu não queria despachar como se ela fosse apenas um taxi, se sentassem na mesa da cozinha. Depois, enquanto comíamos biscoitos recheados e refrigerante, o que para mim, pareceu um banquete real, eu deixei que me atolassem de todas as perguntas possíveis. Quando terminaram, eu engoli o pedaço de biscoito que estava mastigando e disse:
— A polícia estava meio certa, na verdade. Eu realmente fugi de casa.
— Mas por que?
Disse minha mãe, interrompendo-me, uma mania antiga. Revirei os olhos e disse:
— Deixem que eu termine toda a história antes de fazerem perguntas. Enfim, eu fugi porque não me sentia bem aqui. Vocês duas brigavam toda vez que se encontravam e eu ficava dividida na família... Depois papai morreu e eu me lembrei de tudo o que ele nos fez passar... Parecia que eu não tinha mais amigos... Eliza e Jessica se afastaram de repente de mim e Franklin estava se mudando para bem longe... Eu sentia que nunca ia ser feliz aqui... Então fui embora.
“Inventei que tinha alguém atrás de mim para que Franklin me deixasse em paz no telefone. Eu sabia que ele não ia desligar rapidamente. Com o dinheiro que eu tinha, consegui comprar uma passagem de ônibus pra cidade mais longe que encontrei e... Me arranjei de lá... Foi difícil claro, tive que mudar todo o meu estilo de vida... Morei da rua durante um longo tempo... Mas fui levando... Ia de cidade em cidade, pegava carona com quem encontrava, arranjava um bico aqui e ali.
Faz alguns meses que eu conheci um cara. Ele era um pouco mais novo que eu, mas vivia basicamente na mesma situação. Tinha fugido de casa quando mais novo e... Nos ligamos rapidamente. Começamos a viver juntos e... Bom, tivemos um certo relacionamento. Um tempo depois, descobri que eu estava grávida. Ele até ficou feliz, mas, um dia pegou uma gripe seria e... Não conseguiu resistir... Eu tive medo de pegar a mesma coisa que ele ou perder o... Bebê pelo mesmo motivo, então voltei para casa pegando carona. Quando o último homem me deixou numa bifurcação na estrada, pensei que poderia chegar aqui caminhando, mas Melody e a família dela me encontraram e ela me trouxe para cá. Aliás, mãe, poderia, por favor, pagar a gasolina dela?”
Quando terminei todos, sem exceçãom me encaravam estáticos. Tudo bem, não era a verdade... Mas eu pensei muito... O que aconteceria se eu contasse a verdade? Minha mãe e minha irmã se sentiriam culpadas por não terem me protegido, ainda mais se soubessem que Charlie já estava me estuprando antes de me sequestrar... Depois a polícia seria acionada e em meia hora, Charlie estaria na cadeia. Iriam descobrir que ele ficou comigo todo esse tempo, provavelmente iriam prendê-lo e tenho certeza que ele não contaria os abusos que sofria dos tios quando era mais novo... Provavelmente alguns dias depois iriam encontrar ele morto na cela e pronto...
Depois tudo ia voltar para estaca zero, só que eu teria que passar por vários julgamentos e por médicos e psicólogos estranhos me perguntando todo tipo de coisa e invadindo completamente minha privacidade. Além de que, minha família com certeza ficaria em choque e traumatizada com tudo isso.
E, quer saber de uma coisa? Não valia a pena. Não valia mesmo.
Era melhor inventar uma história qualquer e acabar com isso de uma vez. Talvez daqui a uma semana, quando eu tivesse certeza que Charlie estaria morto, eu contasse o que aconteceu, mas só talvez...
De qualquer forma, estava claro que minha mãe e minha irmã estavam desconfiadas da minha versão dos fatos. Eglantine disse:
— A polícia disse que acharam seu celular num rio ha alguns minutos fora da cidade.
— Eu sei. Eu o joguei lá. Não queria que me achassem.
— Mas estávamos te procurando em todo lugar. Por todo o país. Como ninguém nunca te reconheceu?
Dessa vez foi minha mãe quem disse. Eu respondi:
— Eu me escondia bem. Vestia toucas e capuzes. Cortei o cabelo, me vesti diferente. Essas coisas... Se surpreenderiam se soubessem o quanto é fácil passar despercebido na vida.
Mais uma vez todos ficaram em silêncio sendo que este era quebrado apenas por mim que continuava comendo meus biscoitos e bebendo meu refrigerante. Céus, como eu senti falta desse tipo de comida! Amanha, a primeira coisa que vou fazer é passar num restaurante de fast food e comer um grande hambúrguer e um grande pacote de batatas fritas!
Minutos depois a campainha tocou e Kevin se levantou para atender. De repente a casa foi invadida por um turbilhão de policiais e outras pessoas armadas. Olhei assustada para minha mãe e disse:
— Você chamou a polícia?!
— Emily, eles estavam procurando você! Achamos que tinha sido sequestrada ou pior, assassinada.
— Senhora Gomez — disse uma mulher jovem vestida com um terninho — Posso conversar com Emily um pouco?
— Ah, sim, claro. Emily, essa é a Sargento Valentina. Ela foi a responsável pelo seu caso.
— Caso?
— Emily — minha irmã disse, estranhando — Acionamos a policia assim que soubemos que desapareceu.
— Não achei que iriam continuar procurando por tanto tempo.
— Ah, meu bebê — disse minha mãe, me abraçando — Procuraríamos até encontrá-la.
Alguns segundos melosos depois, a Sargento pigarreou e Charlotte se afastou de mim. Eu e Valentina saímos da cozinha e pedi a ela que fossemos em uma caminhada já que desejava respirar ar puro...
Devo admitir... Depois de quatro anos vendo apenas uma pessoa, estar em uma casa com tanta gente me deixava sufocada... Minha cabeça estava explodindo. Tantos rostos e sons ao mesmo tempo sobrecarregavam meu cérebro vazio de sensações ha tanto tempo. Por isso, assim que fechei a porta da frente e respirei o ar frio da noite, me senti um pouco mais livre e tranquila.
Rapidamente, Valentina iniciou um diálogo comigo:
— Então, Senhorita Gomez-...
— Pode me chamar de Emily se quiser.
— Certo, Emily... Onde esteve todo esse tempo?
Suspirei e respondi:
— Olha, estou muito cansada e já contei a história toda para minha família. Não poderia apenas perguntar a eles?
— Sinto muito, mas preciso ouvir diretamente de você e preciso que seja hoje, enquanto os fatos ainda estão frescos na sua memória...
— Você vai se decepcionar, acredite. Acontece, Sargento, que eu fugi de casa aos quatorze anos no dia dez de dezembro e inventei que havia um carro me perseguindo para despistar meu amigo, Franklin, que estava no telefone comigo e parecia disposto a vir atrás de mim. Depois disso, passei a vida de cidade em cidade, emprego em emprego, até que conheci alguém, tive um caso com ele, e engravidei. Esse alguém, eventualmente morreu e eu, finalmente, resolvi voltar para casa. Fim.
Valentina ficou em silêncio, me encarando durante longos minutos. Ela parecia desconfiada. Coitada, não sabia com quem estava lidando. Eu já havia aprendido a mentir e a me fingir de inocente há muito tempo. Quando ela finalmente falou, perguntou:
— Qual era o nome do cara quem conheceu?
— Luca — Eu disse, o nome vindo na minha mente tão rápido que eu me surpreendi — Será o nome dele caso seja menino.
Certo, é melhor esconder o fato de que eu nem sei se quero o dinossaurozinho ainda.
Valentina ainda não parecia convencida, então perguntou:
— E em que cidades esteve?
— Ah um monte. Basicamente fui seguindo a rodovia que sai da cidade. Faço uma lista completa para você assim que chegarmos em casa.
— Uhum... — ela suspirou e parou de andar, parecia cansada — Emily, gostaria que soubesse que, seja o que for que aconteceu, você não é culpada de nada... Se alguém lhe fez mal, precisa me dizer para que eu possa punir a pessoa... Você é a vítima aqui, querida.
Oh céus... Eu sabia que ouviria esse papo alguma hora... O que eu não daria para ouvir essas palavras quatro anos atrás, quando eu ainda era uma garotinha assustada e Charlie ainda era um monstro sem coração... Mas agora, aquilo não importava... Agora, eu sabia que eu não era culpada, eu sabia que o único culpado era Charlie e eu sabia que ele era mau e inconsequente... Da mesma forma que sabia que o lugar dele não era na cadeia...
Foi por causa disso que sorri e disse:
— Não se preocupe comigo, Sargento. Eu lhe garanto que não me sinto culpada de nada. Estou aqui agora conversando com você por decisão espontânea minha. Entenda, está tudo bem comigo.
Ela desviou o olhar e encarou um ponto distante. Depois, parecendo rendida, ela disse:
— Tudo bem... Vou acreditar em você. Porém, tome meu cartão — ela me entregou um pequeno cartão com seu nome e telefone — E saiba que pode me ligar a qualquer hora... Se precisar conversar... Ou talvez me contar o que, realmente, aconteceu...
Revirei os olhos para ela... Talvez essa Valentina fosse mais difícil de convencer do que minha mãe e minha irmã... Bom, realmente, não me importo com o que ela pense. Devido a isso, e também ao fato de que já estava cansada de caminhar, decidi voltar para casa.
Depois disso, a polícia rapidamente foi embora e nos encontramos sozinhas mais uma vez. Kevin se espreguiçou e bocejou alto, depois disse:
— Tenho que dormir, amanha tenho que acordar bem cedo. Boa noite, Senhora Gomez. — ele disse, se dirigindo a minha mãe que apenas deu um aceno educado — Boa noite, Emily. É bom tê-la de volta. — ele disse para mim, bagunçando meus cabelos como se eu fosse uma criança — E boa noite, loira.
Glá e seu namorado compartilharam um selinho e minha irmã sorriu e disse:
— Boa noite. Me junto a você em um segundo, só vou instalar Emily.
Minha mãe também bocejou e disse:
— Preciso ir dormir também. Os remédios me derrubam.
Ela me abraçou forte e disse:
— Estou tão feliz que esteja de volta... Por favor, não suma de manhã.
— Relaxe, mãe, não vou sumir mais.
Ela sorriu e disse, me soltanto:
—É bom mesmo... E, Emily... Amanhã vamos ao médico... Sobre sua... Gravidez.
— Ah sim. Claro.
Ambas nos sentíamos desconfortáveis com aquela conversa... Eu também me sentiria estranha se minha filha de dezoito anos de repente aparecesse grávida... Fora que, na cabeça dela, provavelmente, eu ainda era uma menininha de quatorze anos.
[...]
Depois que minha mãe e Kevin se recolheram, Emily me guiou até meu quarto que estava exatamente do jeito que eu deixei, apesar de meticulosamente limpo. Enquanto Glá arrumava minha cama, eu encarava minha prateleira de livros... Eu gostava desse tipo de coisa? A maioria aqui mal me chama a atenção mais...
Ignorando isso, resolvi perguntar:
— Então... Você e Kevin moram aqui agora?
— Pois é... Não me sentia a vontade deixando mamãe sozinha aqui... Ela ficou um pouco doente desde que você foi embora... Não quis deixar Kevin sozinho em casa também, então trouxe ele... Tudo bem pra você?
— Ah sim. Sem problema. Na verdade, estou feliz que você e mamãe se resolveram.
— É. Quem diria que seria preciso que você fugisse de casa para eu e ela fazermos as pazes.
Nos duas rimos e quando paramos eu a abracei apertado. Sentindo o doce aroma da minha irmã, eu disse:
— Sei que é estranho dizer isso, mas estou tão feliz que esteja viva.
— Eu também estou feliz que esteja viva.
Depois de um tempo nos soltamos. Eglantine passou a mão no meu rosto e sorriu para mim uma última vez antes de sair do quarto. Eu estava quase deitada na cama, quando ouvi sua voz:
— Aquele seu amigo, Franklin, eu acho, ficou bastante preocupado com você. O tempo todo ligando e indo a polícia, essas coisas.
— Franklin? Ele não se mudou?
— Ah não. Mora com a avó e arranjou um emprego para se sustentar... Ele não quis ir embora depois que você sumiu... De qualquer forma, ligue para ele amanhã ou algo assim.
— Ah claro.
— Boa noite.
— Boa noite.
Ela desligou a luz e foi embora.
Então Franklin se preocupou comigo. Sorri. Alguém além da minha mãe e da minha irmã se preocupou comigo? Isso era novidade... Franklin. Ele sempre foi um bom amigo. Mesmo quando as meninas me deixaram de lado, ele sempre estava lá.
Lembrei-me de quando saíamos juntos. A lanchonete na esquina da sua casa com aquele hambúrguer delicioso, jogar vídeo game em seu quarto a tarde inteira, ir até o shopping e gastar todas as nossas economias no fliperama... Sim, Franklin era um bom amigo. O melhor amigo, na verdade.
Pensei em ligar para ele, mas me lembrei de que não tinha celular. Eu até poderia esperar até amanhecer para fazer-lhe uma visita, porém, pela primeira vez, estava experimentando uma sensação de total liberdade e queria gozar um pouco dela. Pela primeira vez, eu podia dormir a hora que eu quisesse, se eu quisesse e também podia levantar da cama a hora que eu quisesse.
Com isso em mente, encaminhei-me até o telefone no andar de baixo. Não me lembrava do número de Franklin, mas ele estava escrito na agenda telefônica da casa. Só esperava que ele não tivesse mudado... Liguei para seu celular e esperei que ele atendesse.
No quinto toque, ouvi sua voz rouca e cansada:
— Alou.
— Errr... Oi Frank.
— Quem é?
— Sou eu... Emily.
Sua voz ainda estava cansada e confusa quando ele disse:
— O que? Quem?
— Sou eu, Franklin. Emily, sua amiga.
—Mas, Emily sumiu...
— Eu sei... Mas eu voltei, Frank. Estou em casa.
Ouvi uma movimentação, ele deve ter se levantado da cama. Sua voz soou mais desperta e aflita:
— Espere, onde você está? Com quem está?
— Fique calmo. Estou em casa com minha mãe e minha irmã. Estou segura.
Um silêncio se seguiu depois disso. Ainda consegui ouvir sua respiração pelo telefone, ela estava se acelerando. Minutos depois, ouvi sua voz:
— Não acredito que isso está acontecendo... Você está bem... Está bem mesmo... E em casa... Quando chegou?
— Faz umas horinhas... Minha irmã disse que você não se mudou e que se preocupou comigo...
— Claro que eu me preocupei! Você não imagina a falta que eu senti de você! — sua voz estava ficando engasgada e falhada — Tudo o que acontecia na minha vida eu queria te contar. Eu sonhava com você e acordava chorando porque você nunca esteve, de fato, aqui. Eu imaginava o tempo todo o que você faria ou o que diria... Eu senti tanto a sua falta...
Eu não percebi, mas enquanto Franklin me falava aquelas doces palavras eu sorria e acariciava minha barriga de leve. Eu disse, com o telefone grudado na orelha:
— Também senti sua falta.
— E-eu... Eu queria te abraçar.
—Você pode vir aqui se quiser.
As palavras saíram da minha boca de forma involuntária. Eu realmente chamei um garoto para vir aqui em casa depois que todos já estavam dormindo?
Pude perceber que sorria quando Franklin disse:
— Agora?
— É. Não é como se ainda fôssemos crianças... E não te vejo há tanto tempo...
— Daqui a pouco chego aí.
— Está bem. Quando chegar terei uma surpresa para você...
Eu disse, olhando para meu ventre inchado... Franklin desligou e eu ainda fiquei uns segundos ouvindo a linha muda... Em seguida, me levantei e fui até a cozinha, peguei um cacho de uvas na geladeira e fui esperar meu amigo na porta da frente.
A noite estava fria e grilos cantavam nos jardins por perto... Fazia tanto tempo que eu não saía de noite... Aqui fora, em casa, tudo parecia mais bonito. A lua parecia maior, as estrelas mais brilhantes, o barulho do vento era como uma melodia... Como o mundo era perfeito... Não acredito que fiquei tanto tempo longe dele...
Não demorou muito e Franklin apareceu em uma bicicleta idêntica a minha. Eu já havia ligado para o porteiro e pedido que ele liberasse sua passagem. Meu amigo desceu da bike e ficou me encarando em pé na entrada do jardim. Eu sorri e me levantei.
Alguns minutos depois Franklin correu na minha direção e me deu um abraço tão apertado quanto o de Glá e mamãe. Ele me levantou do chão e nos dois rimos com a brincadeira. Quando meu amigo me soltou, nos encaramos e rimos mais um pouco. Após isso, ele disse, olhando nos meus olhos:
— Ainda não acredito que está aqui.
— Nem eu.
— Mas o que aconteceu?
— Eu fugi, como eu disse. Fiquei um tempo de cidade e cidade até que resolvi voltar.
— O que? Por quê?
— Bom... — gentilmente, eu o empurrei e segurei minha barriga onde estava o dinossaurozinho — Em parte por causa disso aqui.
O olhar de Franklin desceu e vi quando seus olhos se arregalaram. Será que ele não havia percebido a gravidez até agora? Ele estava com uma cara de assustado tão boba que eu tive que rir e, ao ouvir minha risada, ele riu junto. Depois, ouvi-o dizer:
— Você... Está grávida? Mas... De quem?
— Um cara quem eu conheci.
— E onde ele está?
Tive a impressão que ele ficou meio desconfortável com isso, mas respondi:
— Ele morreu há algum tempo.
Franklin abria e fechava a boca várias vezes. Ele parecia confuso e curioso ao mesmo tempo. Eu não queria responder mais perguntas sobre o que aconteceu enquanto estive fora. Na verdade, seria perfeito se todos se esquecessem que eu sumi por tanto tempo e retomassem suas vidas... Eu queria seguir em frente.
Pensando nisso, eu disse, antes que ele perguntasse alguma outra coisa:
— Olha, muita coisa aconteceu e todas elas ficaram para trás... O que importa agora é que eu estou bem e meu dinossaurozinho também... Eu só quero... Retomar minha vida de onde eu a parei.
— Ah... Entendi... Então... Dinossaurozinho?
Rimos de novo e eu disse:
— É a forma como eu chamo a coisa.
Sem perceber eu havia dito... A palavra com “c”... Eu a usava normalmente na minha cabeça, mas era a primeira vez que eu falava em voz alta. Meu estômago se revirou levemente, tanto que eu nem sei se foi isso mesmo ou um chute vindo do dinossaurozinho como se este estivesse irritado... Mas, de qualquer forma, Franklin percebeu e fechou a cara. Tentando concertar, eu comecei:
— Desculpe, é que-...
— Você quer ter ele?
Eu encarei meu amigo atônita. E ai estava a grande pergunta... Nem sequer minha mãe e minha irmã a fizeram até agora... Mas Franklin fez e agora me encarava esperando uma resposta. Eu olhei para a grama abaixo de nós, depois olhei para o céu, depois olhei para a cerca, depois olhei para a minha barriga... Abri a boca e disse:
— É complicado...
— Quer me contar o que você está escondendo?
— Não.
— Uhum...
Silêncio. Franklin sabia que tinha algo errado. O clima de repente ficou pesado e minha pele inteira se arrepiou. Estava ficando enjoada, não sei se por causa da gravidez ou por causa da conversa que estávamos tendo... Passaram-se alguns minutos até que eu resolvi dizer:
— Está ficando frio e eu estou com sono, então... Boa noite.
— Sim, claro... Errr... Boa noite... Ems.
Eu sorri com o apelido antigo e o abracei. Meu amigo me abraçou de volta, tão forte que machucou um pouco a região da minha barriga. Quando nos separamos, ambos estávamos sorrindo e nem parecia que cinco minutos atrás estávamos tendo uma conversa séria e pesada.
Depois que Franklin desapareceu com a bicicleta, eu caminhei de volta a casa e ao meu quarto. Percebi que a luz do quarto de Glá estava acesa e ouvi alguns cochichos, apesar da porta estar fechada, mas não quis me meter... Cheguei ao meu quarto.
Agora eu finalmente estava percebendo como ele parecia um quarto de hotel comum... Além da estante, não havia quase nada que evidenciava minha presença lá... Na verdade, nem a estante revelava meus gostos de verdade... Céus, eu havia crescido... Era estranho, pois parecia que nesse cômodo o tempo não havia passado.
Abri meu armário, as coisas estavam no mesmo lugar de sempre. Minha escova de cabelo, ainda com alguns fios meus. Peguei o pote contendo meu hidratante corporal e o cheirei... Eu costumava cheirar assim... Suspirei e coloquei de volta... Hum... Charlie comprava outra marca de desodorante para mim...
Peguei uma camisa e coloquei na frente do meu corpo... Eu cresci tão pouco e, além da barriga de grávida, não havia engordado nada... Provavelmente, essas roupas ainda servem em mim... Isso é mal?
Mordi meus lábios e abri a gaveta superior direita... Eu sabia o que ficava ali... Meu uniforme escolar... Passei os dedos pelo emblema da escola finamente costurado em cima da blusa... Foi lá que tudo começou... Quatro anos atrás...
Rapidamente fechei a gaveta e o armário. Amanhã daria um jeito nisso. Estava mais do que na hora de fazer uma limpa nesse armário e redecorar esse quarto. Bocejei. Era melhor eu ir dormir.
Sentei em minha cama e me senti afundar nela... Ela foi sempre tão macia... A cama de Charlie era muito macia, parecia com essa, mas minha cama no quarto do porão sempre foi mais dura e fria... Talvez eu devesse mudar esse colchão também... Sempre me senti mais confortável dormindo na cama do meu quarto... Quer dizer, meu outro quarto, meu quarto mesmo... Não, esse é o meu quarto, o outro era meu... Cativeiro.
Franzi as sobrancelhas... Por quanto tempo eu me sentiria uma hóspede aqui?
Peguei o travesseiro e tirei um cobertor grosso e limpo do armário e um lençol. Caminhei até o meu banheiro e verifiquei se a banheira estava seca. Coloquei o cobertor grosso por baixo, apaguei a luz, me deitei e me cobri com o lençol... Com certeza, era mais duro que a minha cama no meu antigo quarto, mas, por hora, iria servir... Sentindo-me muito mais confortável, fechei os olhos e adormeci em um sonho sem sonhos...
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