Abusada ll - Sequestrada
40 Consequências...
Notas iniciais
Acordei com um estranho zumbido vindo do lado de fora da varanda. Quando abri os olhos, ainda me encontrava na banheira, meus músculos estavam um pouco travados, mas nada com o que eu já não estivesse acostumada. Levantei-me e prestei atenção no barulho que ouvia, pareciam vários cliques como de insetos e sussurros também...
Decidida a descobrir o que era, fui até a janela e a abri...
Meu quintal estava apinhado de gente. No jardim e na calçada da frente, além de em parte da rua havia várias pessoas desconhecidas. Algumas carregavam cartazes e flores, e, pior ainda, havia pessoas com câmeras de celulares e profissionais, pessoas dando entrevistas e repórteres... O que estava acontecendo aqui?!
Assim que as pessoas notaram que eu estava na janela, várias se viraram na minha direção e algumas começaram a gritar. Pessoas gritavam meu nome, elogios, declarações. Repórteres me apontavam câmeras e flashes tão claros que pareciam me cegar. Sem pensar duas vezes, eu me afastei da janela e fechei a cortina com força. Eu gritei:
— Mãããããeeeee!!!!
Rapidamente minha mãe e Eglantine apareceram na porta. Minha irmã me pegou pelos ombros e me tirou da quarto, fechando a porta em seguida. No corredor, com o barulho mais distante, eu disse:
— O que são aquelas pessoas lá fora? O que elas estão fazendo aqui?
— Ah Emily — disse minha mãe — as pessoas ficaram sabendo que você havia retornado sã e salva para casa e... Acho que vieram te cumprimentar... E a imprensa apareceu e acho que tudo saiu de controle.
— O que? Como assim? Pessoas somem de casa o tempo todo, não é motivo para esse escarcéu!
— É, mas poucas retornam em perfeito estado como você voltou ontem... As pessoas são curiosas.
Eu não conseguia acreditar naquilo. Nem em um milhão de anos eu acreditaria que isso aconteceria se eu voltasse para casa. Céus, eu nem sabia que minha família ainda estava me procurando, muito menos esse tanto de gente na frente da casa. Como eles entraram aqui dentro pra início de conversa?
Minha mãe e minha irmã estavam falando várias coisas na minha frente, algo sobre polícia e Valentina, mas eu não estava prestando atenção naquilo. Tudo o que eu conseguia pensar era em uma coisa. Aquelas repórteres, aquelas câmeras... Interrompi Eglantine no meio de uma frase e disse:
— O que eles estão gravando está passando na televisão?
As duas se entreolharam receosas. Era a confirmação que eu precisava. Atravessei o corredor e desci as escadas correndo indo até a sala. Arranquei o controle das mãos de Kevin e mudei para o noticiário onde pude ver dois âncoras sentados e no canto superior, um vídeo de uma mulher onde o fundo era a minha casa. Os três estavam conversando entre si:
— ... Ontem por volta das onze da noite.
Disse a repórter, a âncora morena disse:
— E já temos notícias do estado da jovem?
— Ainda não há confirmações médicas, porém ela acabou de aparecer na janela do quarto, indicando que não foi encaminhada de imediato para o hospital.
— Certamente isso é um alívio de saber.
Dessa vez, foi o âncora loiro quem disse:
— Já foi nos revelado o paradeiro da jovem durante o desaparecimento e se foi, realmente, um caso de sequestro?
— A polícia, por enquanto, não fez nenhum pronunciamento aberto, porém de acordo com o porteiro do condomínio, a jovem Emily, simplesmente, apareceu de moto com uma mulher ontem à noite.
Os dois âncoras agora pareciam confusos:
— Isso, com certeza, é motivo de debate. Por enquanto, sabemos apenas que-...
— Chega.
Disse minha mãe pegando o controle remoto da minha mão e desligando a televisão. Eu olhei perplexa para ela. Eu queria ver o resto! Precisava saber o que estavam falando de mim na TV! Céus... Isso era um problema. Eu não podia aparecer na TV!
Ouvi a voz de minha irmã:
— Acalme-se Em. Logo eles se cansam disso.
— Mas isso ainda foi parar na TV. Eu não posso aparecer na TV... Vocês não entendem!
— O que não entendemos, querida?
Minha mãe perguntou.
Eu estava com medo. E se ele visse a TV. E se ele mudasse de ideia. E se ele resolvesse vir atrás de mim de novo?! Eu devia impedir Charlie de fazer outra merda e acabar com a minha vida e com a dele de novo... Isso não poderia se repetir!
Naquele momento, Charlie era como um viciado em abstinência. Ele não podia ver qualquer resquício de mim! E se ele tivesse uma recaída e tudo voltasse?! Isso não podia acontecer!
Minha respiração estava se acelerando e minha pressão também. Senti algo na minha barriga, provavelmente um chute do dinossaurozinho, cada vez mais frequente, mas resolvi ignorar.
Charlotte e Eglantine tentavam chamar minha atenção a todo o momento, perguntando-me o que estava acontecendo e por que eu estava entrando em pânico daquele jeito. Enquanto isso eu só andava de um lado para o outro na sala repetindo coisas como “não” e “ele não pode ver isso” e “eu não posso aparecer na TV”.
Por fim minha mãe agarrou meus ombros e me obrigou olhar para ela. Ela disse, me encarando:
— Me responda, Emily, de uma vez por todas. Eu sei que havia algo errado. Eu sei que você escondia alguma coisa de mim, querida. Mas eu não me importo. Se você tem medo de alguém, eu preciso saber. Eu preciso saber o que aconteceu com você, querida. Se você me contar, eu te prometo que nada mais de ruim vai acontecer com você.
— Não, mãe. Você não entende.
Uma sensação estranha começou a correr pelo eu corpo, era como uma dorzinha lá no fundo que aos poucos crescia. De repente, Glá também estava ao meu lado dizendo:
— O que nós não entendemos, Emily? Explique.
— Não. Eu não posso.
Aquela sensação estava crescendo rapidamente. Senti outra pontada na barriga, dessa vez, mais dolorosa. Minha mãe disse:
— Tem alguma coisa a ver com o pai do seu bebê, não tem?
— O que? Bebê?
Ah sim, o dinossaurozinho. Por que todo mundo insistia em dizer que aquilo era um bebê? Glá disse:
— Sim, Emily, seu bebê.
— Não diga isso.
— O que?
— Essa palavra. Não diga isso.
— Como assim, Emily?
Parecia que Eglantine iria dizer alguma coisa, mas minha mãe a interrompeu e fez com que eu chegasse mais perto dela. Ela disse, baixinho para mim, como se fosse um segredo e mais ninguém do mundo pudesse ouvir:
— Emily, minha filha, você quis ficar grávida? Você quer ter o be-... O que vai nascer daí de dentro?
Aquilo foi como um baque na minha mente. Eu queria ter aquele bebê? Certamente não foi uma escolha minha. Charlie quis ter o bebê. Porém, era eu quem estava grávida e ele não viveria por muito mais tempo. Aquele bebê seria meu em toda a vida dele.
Mas que vida? Eu mal conseguia dormir na minha própria cama! Tinha dezoito anos, não havia terminado a escola, não tinha emprego. Como eu cuidaria daquele bebê? Eu conseguiria ter aquele bebê?
Céus, eu conseguiria andar por ai com um souvenir do tempo em que passei com Charlie? Uma lembrança constante dele?... E se esse bebê crescesse e virasse alguém como Charlie? Um monstro louco? Essa psicopatia era de família? Os tios dele eram assim... Céus, eu não iria suportar ter um filho como Charlie!
Mal percebi que havia ficado muda por horas. Minha mãe apenas me encarava, esperando uma resposta, Eglantine havia se afastado e parecia prender a respiração, Kevin se retirou do cômodo dando privacidade a nós três.
Com dificuldade, eu disse:
— E-eu não sei.
Charlotte suspirou e disse:
— Emily, vamos até a delegacia. Podemos explicar o que está acontecendo para Valentina e ela irá retirar esses repórteres daqui rapidamente... Depois, podemos ir ao hospital.
— Eu não estou me sentindo bem.
— Eu sei, meu amor. É assim mesmo.
— Não. Tem alguma coisa acontecendo.
Uma terceira pontada na barriga, tão forte que eu me encolhi e gemi de dor, parecia uma agulhada em meu ventre. Ouvi minha irmã, desesperada:
— Mãe!
Senti minhas pernas ficarem úmidas. Olhei para baixo e tudo o que vi era sangue. Arregalei os olhos e não consegui respirar, minha vagina sangrava e o líquido empapava meu short.
Eu fiquei em choque. Não pensava em nada, não dizia nada. Aquilo nunca tinha acontecido comigo antes!
Apesar da vista nublada, vi minha mãe pegar o telefone e fazer uma ligação. Me senti sendo erguida do chão, logo, estava no colo de Kevin e ele corria na direção da porta da frente. Um clarão forte cobriu meus olhos... Ou melhor, vários clarões e vozes estranhas também.
Eu não conseguia abrir meus olhos direito, me sentia sufocada e enjoada ao mesmo tempo. Todas aquelas pessoas. Todas aquelas câmeras.
Pareceu uma eternidade até que eu percebesse que estava dentro do carro e que o mesmo estava em movimento. Não estava mais no colo de Kevin, acho que ele quem estava dirigindo... Ou seria minha irmã? Quando olhei para trás vi o rosto da minha mãe. Ela não parecia em pânico e sim focada. Falava rápido com alguém no telefone algo que eu não consegui entender.
Senti outra pontada na minha barriga, essa foi diferente, era boa. Era o dinossaurozinho... Ele ainda estava vivo! Assim que eu completei esse pensamento, senti outra pontada dolorosa e o dinossaurozinho parou de me chutar... Céus, por que ele havia parado?! Onde ele estava?! Em pânico, levei minhas mãos a minha barriga como se pudesse, de alguma forma, segurar o dinossaurozinho em minhas mãos e tirá-lo de lá.
Minha mãe agarrou uma de minhas mãos e eu a encarei, ela me olhava de volta. Eu estava me sentindo cada vez mais enjoada e dolorida, minha cabeça parecia que iria explodir e eu estava com frio e com sono... Eu sabia que iria perder a consciência em poucos minutos... A única coisa que consegui dizer antes de apagar foi a primeira coisa que passou pela minha mente:
— Salve ele.
[...]
Eu acordei lentamente em um quarto frio e branco. Por um instante eu pensei que tudo aquilo havia sido um sonho e que eu continuava acorrentada e impossibilitada na cama de Charlie. Porém, quando virei a cabeça pude identificar minha mãe lendo uma revista em uma poltrona ao meu lado.
Não demorou muito para que ela percebesse que eu havia acordado e viesse até mim. Charlotte segurou minha mão e disse:
— Querida, você acordou. Ainda bem.
— O que aconteceu?
— O médico irá lhe explicar, amor. Vou chamá-lo.
Ela apertou um botão ao lado da cama em que eu estava e, depois disso, me deu um beijo na testa. Não demorou muito e um enfermeiro acompanhado de um médico entraram. O enfermeiro se ocupou em checar o soro e o aparelho de batimentos cardíacos que estavam ligados a mim, enquanto o médico estendeu a mão para mim e me cumprimentou:
— Boa noite, senhorita Gomez. Eu sou o Doutor Gabriel, estive acompanhando seu caso.
— Eu tenho um caso?
— Sim, senhorita. Foi-me informado que você é a adolescente desaparecida Emily Gomez Doyle e que retornou em casa na noite anterior. Correto?
— Eu dormi por um dia?
Eu perguntei mais para minha mãe e ela disse:
— O médico teve que te dar um sedativo, querida. Mas não se preocupe, foi bem leve.
Ela deve ter dito a última frase depois que percebeu que eu fiquei desconfortável com a menção a palavra “sedativo”... Pelo visto, Charlie me deixou com alguns medos...
Eu me lembrei do porquê havia vindo para o hospital para início de conversa e, mais que rapidamente, olhei para minha barriga. Ela continuava grande. Eu a toquei. Estava quente, mas não senti o dinossaurozinho se movendo.
Minha voz saiu fraca quando eu disse:
— O que aconteceu? Por que eu sangrei?
O médico suspirou e pediu para que o enfermeiro se retirasse. Senti minha mãe segurando minha mão. Gabriel começou a falar:
— Hoje de manhã, sua placenta se descolou. Isso é comum em gestantes hipertensas e diabéticas durante o fim da gravidez. De acordo com a sua mãe, vocês estavam tendo uma espécie de discussão antes do ocorrido. Isso, somado aos seus outros traumas podem ter desencadeado o descolamento. Em alguns casos, quando isso acontece, é preciso fazer uma cesárea de emergência, mas, aparentemente, seu bebê é muito forte e conseguimos lidar com tudo sem precisar retirá-lo.
— Então... Ele está bem?
— Está vivo.
Mordi meus lábios. Ele não respondeu minha pergunta... Ouvi o médico dizer:
— Senhorita Gomez, sua mãe me contou o que aconteceu com você enquanto esteve desaparecida. É verdade?
— Sim.
Eu disse rápido de mais. Vi quando Gabriel trocou olhares de mim para minha mãe. O clima do quarto parecia pesado e nós três nos remexíamos em nossos lugares, desconfortáveis. Por fim, o doutor quebrou o silêncio e disse:
— Senhora Gomez, você passou o dia com sua filha no quarto. Não gostaria de ir até a lanchonete do Hospital fazer um lanchinho?
Minha mãe levantou uma sobrancelha e disse, cruzando os braços:
— Eu sei o que está tentando fazer, Doutor, Emily é minha filha e se precisa falar algo com ela eu irei escutar.
Gabriel ia dizer alguma coisa, porém eu o interrompi:
— Mãe, se me lembro bem, já tenho quase dezenove anos. Se o médico quer me falar algo sozinha, então ele pode fazer isso. Além do mais, eu quero. Pode ir, por favor?
Minha mãe parecia atônita. Eu nunca tinha falado desse jeito em toda minha vida... Pelo menos não perto dela... Acho que foi nesse momento que ela percebeu que eu havia crescido... Eu não era mais a garotinha de quatorze anos que deixou a casa dela anos atrás...
Acho que isso a deixou um pouco triste. Seus olhos estavam molhados quando ela saiu rapidamente do quarto. Suspirei e senti meu coração doer um pouco... Será que os anos com Charlie me tornaram aquela uma pessoa fria e insensível? Será que eu havia ficado como ele?
Estremeci e suspirei.
O médico continuou:
— Bom, vou direto ao assunto Senhorita Gomez. Não posso dizer o que, realmente aconteceu com você, mas posso dizer que você e o seu filho estão mal.
— Mal como?
— Você está subnutrida. Seu peso está muito abaixo do ideal para a sua altura, principalmente por estar grávida. O bebê tem consumido todos os nutrientes que seu corpo recebe e mesmo assim, ele também está subnutrido.
O que? Mas isso não era possível? Charlie estava me alimentando bem desde que fiquei grávida e estava até tomando todas aquelas vitaminas que ele comprou pela internet.
Eu disse, confusa:
— Mas... Errr... Eu achei que estava saudável desde que fiquei grávida.
— Por que achou isso?
— Errr... Eu me alimentava melhor... Tomava alguns remédios...
— Sabe o nome dos remédios?
— Não... Meu... O pai do bebê que sempre me dava... Nunca me preocupei com os nomes...
— Sim... Durante a sua gravidez você passou por algum momento mais... Estressante ou perturbador?
Como eu quis rir quando ele terminou essa frase... Se algum momento durante a minha gravidez eu havia passado por algum momento estressante ou perturbador... Minha vida nos últimos quatro anos se resumiu em momentos estressantes e perturbadores.
Respirei fundo e disse a ele:
— Sim. Eu e... O pai dele tivemos alguns problemas... Mais a vida que eu tinha... Mas o que isso tem a ver?
— O bebê sente isso. Ele sente que você está numa situação difícil. Seu corpo estava à beira de um colapso, o bebê tem sobrevivido até agora, provavelmente, devido aos remédios que você diz que tomou... Vitaminas para gestantes, acredito.
— Sim.
— Foi isso que salvou seu bebê. Esse descolamento da placenta foi como a gota d’água. Vocês dois estavam em uma situação muito crítica.
Fiquei remoendo todas aquelas informações novas na minha cabeça por um tempo. Por fim, perguntei:
— Mas está tudo bem agora, não é? Nós estamos bem agora?
—Bom, terei que acompanhar você de perto a partir de agora. Terá que tomar umas vitaminas e se alimentar bem, além de receber soro. Vamos fazer ultrassons constantes para verificar a saúde do bebê e você terá que ficar no hospital até que ele nasça.
— Tudo bem... Acho que é melhor do que ficar em casa... Você disse ultrassons... De quantos meses eu estou, doutor?
— Está com sete meses.
— O dinossaurozinho está subnutrido... Mas vocês vão cuidar dele, não é? Haverá complicações?
— Bom, não posso saber com certeza ainda... Temos que ver como ele irá reagir ao tratamento... Mas seu filho sobreviveu até agora. Ele é bem forte.
— Meu filho...
Coloquei a mão na barriga... Meu filho... O dinossaurozinho estava de sete meses... Ele não era mais um mini réptil... Ele já era um bebê... Provavelmente tinha a forma de um bebê... Meu bebê... E de Charlie também... Céus, eu iria conseguir lidar com isso?
— Doutor, o senhor disse “filho”. Foi só uma expressão ou você sabe o sexo do bebê?
— Foi só uma expressão, mas fiz um ultrassom enquanto estava inconsciente, então sei o sexo sim... Gostaria de saber também?
— Acho... Acho que sim...
— É um menino.
Oh! Um menino... Acho que Charlie queria um menino... Ele pediu para chamá-lo de Luca...
Então eu teria um filho de Charlie. Um menino como ele. Isso daria certo? Eu conseguiria criar um mini Charlie? Eu conseguiria sobreviver a isso? E se o menino tivesse o rosto dele? E se o menino crescesse igual a ele? E se fosse um monstro psicopata como ele?
Minhas mãos tremiam e eu as segurei juntas para que o médico não visse isso. Gabriel me encarava pacientemente. Eu respirei fundo e resolvi perguntar a ele:
— Doutor, se eu disse algo aqui... Promete que não sairá desse quarto?
— Claro. Pode me perguntar qualquer coisa.
— Eu estou falando sério. Você não falará disso para ninguém. Nem para minha mãe e nem para a polícia... Se fizer isso, você pode ir preso, já que tem que obedecer o sigilo paciente e médico.
Gabriel riu fracamente e disse:
— Eu sei disso, Senhorita Gomez. Não se preocupe.
— A sociopatia e a psicopatia... Quais são os sintomas delas?
— Bom, não é bem o meu campo, mas as duas são desordens de personalidade antissociais. São pessoas, geralmente, impulsivas que apresentam ausência de medo e não se deixam travar pelas normas e leis sociais. Basicamente, pessoas predispostas a cometer um crime.
— Por acaso é uma doença hereditária?
— A psicopatia sim, mas a sociopatia tem mais a ver com a influência do meio.
— Uhum... E como posso saber a diferença entre elas? Como posso saber se uma pessoa é psicopata ou sociopata?
— Psicopatas tem mais dificuldade de se relacionar, tendem a serem descobertos mais fácil pela sociedade. Se cometem crimes, muitas vezes, deixam muitas pistas por serem mais impulsivos. E, claro, apresentam esse tipo de comportamento desde o nascimento. Já os sociopatas passaram por problemas que influenciaram a doença. Pobreza extrema, negligenciamento dos pais, abusos quando criança... Várias coisas podem afetá-los... Entretanto, eles costumam serem os mais perigosos. Podem ser violentos, mas são bem calculistas, sempre pensam no próximo passo e se vierem a cometer crimes é muito difícil descobrir.
Então era isso. O negligenciamento dos pais e os abusos sofridos com os tios fizeram de Charlie um sociopata. Por isso ele era tão frio, por isso ele parecia incapaz de ser normal... Ele era doente, afinal... Céus, se aquele menino de quinze anos tivesse recebido o tratamento adequado tempos atrás, tudo isso poderia ter sido evitado!
O médico perguntou:
— Mas por que quer saber dessas coisas Senhorita Emily? Saiba que eu ainda estou obrigado, por lei, a não compartilhar disso com mais ninguém.
— Nada não, doutor... Mas obrigada mesmo assim.
Gabriel suspirou e se levantou. Ele disse que iria chamar minha mãe e se encaminhou para fora do quarto. Quando estava já na porta, ouvi-o dizer:
— Sabe, Senhorita Gomez... Emily... Se o filho de um sociopata for criado em um ambiente diferente, com pessoas diferentes e com apoio, carinho e amor que toda criança merece... É quase impossível que ele venha a desenvolver as mesmas características do pai... As características da doença...
— Obrigada, Doutor.
Nesse instante um enorme peso foi tirado de cima de mim... Então o dinossaurozinho... Quer dizer, meu filho, não teria as mesmas características monstruosas de Charlie... Isso é, se eu cuidasse dele...
Mas eu seria capaz disso? Cuidar do filho do meu sequestrador?
Eu morava com a minha mãe ainda, não tinha terminado a escola, não tinha um diploma, não trabalhava... Como seria a vida dessa criança? E se fosse igual a minha? Se não fosse por Eglantine eu teria tido uma infância horrível...
Minha mãe apareceu na porta do quarto carregando um lanche em uma bandeja, ela colocou a comida na minha frente em uma mesinha que se inclinava para a cama. Eu agradeci e ela se sentou e começou a mexer no celular.
Talvez eu pudesse conversar sobre isso com minha mãe... Eu disse:
— Mãe? Não quer saber o que o médico e eu conversamos?
— Ele me falou, mais ou menos. Disse que estava fazendo algumas perguntas sobre sua gravidez. Alimentação e essas coisas.
—Sim... O que você está achando disso tudo?
— Disso tudo o que?
— De eu ter voltado grávida... E da nossa conversa antes de eu vir para cá.
Eu percebi que Charlotte estava hesitando em falar. Demorou uns segundos até que ela desligasse o celular, olhasse para mim e dissesse:
— Sinceramente, Emily, eu esperei tanto tempo para te ver a salvo em casa novamente que não me importaria nem se você tivesse trocado de sexo. Sim, você está grávida. Sim, você só tem dezenove anos. Sim, eu nem conheço o pai do bebê e essa sua história está muito mal contada... Mas... Eu prefiro você em casa grávida a morta em algum lugar e longe de mim...
Tudo o que pude fazer depois que ela fez esse mini discurso foi piscar e ficar encarando minha mãe. Definitivamente, eu não esperava essa resposta... Acho que lá no fundo, eu ainda pensava que a qualquer momento eu levaria uma bela bronca...
Porém não foi isso que aconteceu... Ela estava me apoiando...
Eu disse:
— E você acha que eu deveria ter o bebê?
Ela mordeu os lábios e disse:
— Há muito tempo atrás... Eu me deparei em uma situação parecida... Na época eu... Eu estava com medo e acabei tomando uma decisão que não cabia a mim... Eu fiz uma burrice muito grande e que não tem fim... Eu fiz mal a alguém...
Eu franzi as sobrancelhas e perguntei:
— Você ficou grávida acidentalmente e resolveu fazer um aborto?
— Não... Eu fiz mal a alguém de verdade, uma pessoa... O que estou tentando te dizer é... Você deve escolher se quer ter o bebê ou não... Se não quiser cuidar desse bebê, eu irei entender. É tarde para um aborto, mas podemos entregá-lo para a adoção assim que ele nascer... Mas se você quiser criá-lo, eu vou entender também. E, se for este o caso, eu vou te ajudar em tudo o que eu puder, querida... — ela se levantou e veio até mim, segurando minha mão — Só quero que saiba que, independente do que você quiser fazer, eu vou estar aqui para te apoiar e ajudar.
Eu sorri e retribui o aperto na mão de minha mãe antes de dizer:
— Obrigada.
Talvez tenha sido porque eu havia acabado de comer ou porque o soro estava começando a fazer efeito... Mas eu gosto de pensar que naquela hora o dinossaurozinho chutou minha barriga por que queria dizer que iria me apoiar e me ajudar também...
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