Abusada ll - Sequestrada
41 Liberdade...
Notas iniciais
O elevador abriu e eu sai rapidamente dele. Minha próxima consulta começaria em dez minutos. Estava um pouco atrasada.
Conversava no telefone:
— Mãe, por favor.
“Emily, eu só estou dando a minha opinião.”
— Não. Você está se metendo na minha função.
Eu a ouvi bufar pelo aparelho antes de dizer:
“Não se esqueça, mocinha, eu criei duas filhas muito bem e eu sei bem lidar com ataques de rebeldia.”
Revirei os olhos e respondi:
— Céus, ele não fugiu de casa como Eglantine, ele só gritou comigo. Além do mais, ele só tem nove anos. Que atire a primeira pedra o filho que nunca disse “eu te odeio” quando a mãe manda ele fazer alguma coisa que ele não gosta.
“Sim, mas se você deixar uma atitude dessas passar, logo ele vai pegar o costume e quando você menos perceber-“
— Mãe. Relaxe. Eu já cuidei disso. Agora, tenho que ir, preciso me aprontar para a próxima paciente.
Ela bufou de novo antes de se despedir e desligar o telefone. Revirei os olhos e guardei o aparelho na bolsa. Céus! Às vezes a mamãe podia ser tão irritante. Ela sabe que eu odeio quando palpitam na educação que eu dou ao meu filho, mas não resiste em comentar...
Ela deve achar que eu ainda sou aquela adolescente de dezoito anos pirando por ter um bebê só dela...
Finalmente. Depois de um mês de dúvidas quanto ao nascimento, um sangramento, uma cesárea de emergência e um mês na incubadora impossibilitando que eu o veja... Eu estava no mesmo quarto que o meu filho.
Virei o rosto e olhei para ele. Aquela coisinha pequena enrolada em cobertores verdes claro no pequeno berço transparente ao meu lado... Meu filho.
Levantei-me da cama e caminhei até o berço, me abaixando para ficar cara a cara com ele... Como era fofo. Aqueles olhinhos apertados, aquele narizinho fungando e aquela boquinha num biquinho constante... Ele era moreno, mais escuro que eu e não tinha mais que um tufinho de cabelo castanho, havia nascido magro e pequeno... Era meu bebê.
Estiquei a mão e pequei em sua pequena mãozinha fechada em um mini punho e junta a peito. Seus dedos automaticamente se abriram e ele agarrou meu dedo esticado. Que gracinha! Olhei para a pulseira de plástico presa ao seu punho gorducho:
“Lucas Gomes Doyle”
Sorri. Meu pequeno ato de rebeldia contra Charlie. O nome dele seria Lucas, não Luca.
Seus olhinhos se abriram e ele suspirou profundamente. Meu coração se apertou. Será que dava para ele ser mais perfeito? Então, o bebê apertou os olhos e começou a chorar. Sua mão se desgrudou da minha e começou a se agitar junto aos braços e as pernas.
Eu me afastei do berço. Olhei para os lados. Minha mãe havia saído para a lanchonete há alguns minutos. Oh céus, eu nunca pequei num bebê antes!
Eu estava hiperventilando... Não sabia se conseguiria fazer aquilo! Nas vezes em que mamãe pegou Lucas para me mostrar ele pareceu tão mole e frágil!
Não ia ter jeito... Aproximei-me e comecei a balançar o berço e a falar baixinho tentando acalmá-lo, mas nada parecia fazer efeito. Lucas abriu os olhos e esticou os bracinhos na minha direção... Merda! Ele queria que eu o pegasse!
Ah não. Eu não posso pegá-lo. Não ainda. Não estou pronta!
Mas ele chorava e chorava e minha mãe não chegava...
Bufei e disse:
— Ah que se dane.
Com todo cuidado do mundo, eu peguei aquele pacotinho de algodão e o aconcheguei nos meus braços. Aquele bebê parecia ser feito de silicone e gelatina, mas consegui firmá-lo em meu colo e balançá-lo de um lado para o outro sem problema.
Quando minha mãe chegou ela pareceu assustada porque em um mês eu não tinha conseguido nem olhar para Lucas direito sem torcer o nariz, porém tudo o que eu pude falar para ela foi:
— Ele estava chorando e você não aparecia... Eu não podia, simplesmente, deixá-lo ali.
— Bom dia, Ric.
Eu disse ao meu secretário que estava digitando alguma coisa no computador. Ele sorriu e disse:
— Bom dia, Emily.
— Como estamos hoje?
— Você tem três consultas na parte da manhã e o pai de Liza Brown ligou, ele quer falar com você.
— Ok. Obrigada. Assim que a paciente chegar pode mandar ele para a minha sala.
Eu entrei no meu consultório e fechei a porta. Liguei as luzes, abri as janelas e sentei-me a minha mesa. No calendário preso na parede ao lado da minha escrivaninha estava circulado o dia 12 de Abril. Peguei a caneta e marquei um “x” nesse dia. Suspirei e apoiei minha cabeça em meus braços... Hoje é dia 12 de Abril... Eu havia esquecido completamente... Nove anos atrás, nesse mesmo dia...
— Emy, se você continuar raspando o pote assim vai acabar comendo plástico.
Disse minha irmã e eu, ela e Kevin começamos a rir. Estávamos os três no meu quarto no hospital e Glá conseguiu contrabandear um grande pote de sorvete de morango até lá. Obviamente eu comi tudo o mais rápido possível e ainda queria mais.
Eu disse:
— Você não tem ideia da falta de sorvete que eu senti.
Ela riu de novo e disse:
— Então, como está indo essa vida de hospital?
— Ah até que não é tão ruim. Exceto pelas pencas de comprimidos e por essa comida sem gosto, mas vou sobreviver.
Foi enquanto Glá e Kevin entraram numa discussão sobre como a comida de Angel era horrível que eu ouvi do noticiário passando da TV ligada. Foi preciso apenas um nome para que minha atenção fosse pega completamente: Charlie Ross Lombard.
Instantaneamente, virei minha cabeça na direção na pequena caixa preta presa por um suporte na parede. Nela, uma mulher aparecia em frente à casa de Charlie... Ou o que sobrara dela.
A estrutura estava negra como carvão, muitas paredes haviam desabado e não havia vidro em nenhuma janela, pelo contrário, cacos se acumulavam aos montes no gramado da frente... Minha boca formava um perfeito “o” e eu estava parada estática. Bombeiros, ambulâncias, repórteres, policiais e curiosos se amontoavam na frente da residência que um dia foi minha casa também.
A televisão mostrava um display da casa em ruínas com tomadas dos bombeiros terminando de apagar o fogo e vasculhando os entulhos carbonizados. Enquanto isso, uma voz era ouvida:
— As investigações ainda estão em andamento, porém de acordo com os bombeiros o fogo se alastrou rapidamente devido a um vazamento de gás. Não há sinal do que originou a faísca. Os policiais parecem estar investigando se o incêndio tem precedente acidental, se trata-se de um assalto que deu errado ou se foi, realmente, uma tentativa de assassinato. Além disso, estão investigando como exatamente o mais novo bilionário do ramo tecnológico morreu.
Meus olhos percorriam a tela rapidamente... Um incêndio? Charlie teria causado?... Bom, talvez tenha sido um acidente... Não, Charlie não é o tipo de pessoa que esquece o fogão ligado nem nada assim... Ele pode ter feito de propósito... Mas, um incêndio?
A câmera passava agora pela biblioteca. Não havia mais nenhum sinal dos inúmeros livros que antes encheram as prateleiras daquele cômodo e o belo piso de madeira estava completamente carbonizado... E havia mais um detalhe... Eu consegui ver a porta de aço que levava ao meu quarto... Alguns cantos da porta do quarto do pânico apareciam por detrás de um resto de estante carbonizada.
Provavelmente, nenhum policial havia visto aquilo ainda... Mas eu me vi com medo que eles entrassem lá... Afinal, aquele era o meu quarto. Eu passei os últimos quatro anos lá. Minhas coisas estavam lá. Minha escova de cabelo, minha escova de dente, meus desenhos e uns poucos livros que Charlie havia me dado... Eram minhas coisas pessoais... E daqui a pouco um bando de pessoas desconhecidas entrariam e fuçariam em tudo o que era meu, desvendando cada milímetro da minha vida com aquele homem... Isso é... Se já não tivessem descoberto...
Céus, tudo ia ser desenterrado de novo... O bebê ainda nem tinha nascido e eu seria obrigada a ir testemunhar, dar depoimentos e entrevistas sobre a minha vida naquele lugar... Se tinha uma coisa que eu não queria era aquilo...
E Charlie... Ele havia morrido... Demorou um pouco mais do que eu pensei, na verdade... Será que ele se matou antes ou morreu durante o incêndio? Como ele teria feito? Será que queimou a casa para apagar as provas ou foi alguma coisa mais profunda?
Acho que o mundo nunca irá saber... Charlie era muito fechado para compartilhar seus últimos momentos com alguém. Duvido que tenha deixado uma carta ou um testamento... Acho que o dinheiro ia acabar passando para a irmã dele de qualquer forma e a empresa ficaria com o tal tio...
— Emy, tudo bem?
Minha irmã me acordou de um devaneio profundo quando ela me chamou. Eglantine alternava seu olhar de mim para o aparelho de TV confusa. Vendo isso, eu sorri fracamente e disse:
— Eu estou bem. Pode me fazer um favor? Me alcance o telefone.
— Por quê?
— Preciso ligar para alguém.
Ainda com o rosto confuso, Glá pegou o telefone do hospital e me entregou. Havia um cartão da Sargento Valentina na cabeceira da minha cama e eu o peguei e disquei o número... Agora que Charlie estava morto e aquela história havia acabado, era hora de enterrar o resto...
Foi dia 12 de Abril que Charlie havia falecido... Sua morte trouxe alguns problemas para minha pacata vida... A principal, provavelmente, foi que eu contei a Valentina o que aconteceu de forma bem resumida. Ela pareceu suspeitar no início, porém, conforme contava a história seu rosto ficava mais chocado... Ela se desculpou por não ter me salvado antes e por não ter levado o sequestrador a justiça... Parecia realmente devastada por isso... Entretanto, eu lhe disse que isso não era necessário... De certa forma, eu precisava achar o caminho de volta para casa sozinha... Eu precisava aprender a domar e entender um pouco do monstro interior de Charlie... E precisava aprender a enxergar o humano que ele havia sido um dia... Foi difícil, mas no fim eu consegui... Ele havia morrido e essa era o melhor desfecho para a vida dele... Curta e triste.
Fiz um acordo com a Sargento sobre o caso. Eu não iria prestar queixa. Charlie estava morto e de nada adiantava processar a família dele ou algo parecido... Eu só queria manter o caso desconhecido. Não queria mais câmeras, nem repórteres, muito menos “fãs”... Valentina prometeu que cuidaria disso pessoalmente e acho que ela fez um bom trabalho.
Um tempo depois, contei a minha mãe, Glá e Franklin que eu havia sim sido sequestrada... Eles não pareceram surpresos, mas derramaram algumas lágrimas e fizeram declarações insuportáveis... Não contei que eu conhecia o sequestrador e que a história havia começado muito antes do sequestro... Eles nunca se perdoariam se soubessem que Charlie esteve à espreita o tempo todo e eles não perceberam...
Quando todos souberam que eu estava de volta, Jéssica veio falar comigo pela internet e eu a respondi educadamente, porém não retomei nossa amizade e ela também não pareceu disposta a tal. Ah, uma curiosidade, um mês depois que eu fui sequestrada ela terminou o namoro com aquele menino e descobriu que eu estava certa... Eliza também veio falar comigo, mas esta veio até a minha casa. Disse que ficou maluca me procurando, que espalhou cartazes e se tornou uma verdadeira ativista. Isso me comoveu um pouco. Ela ficou decepcionada quando eu disse que nunca fui sequestrada e que tinha fugido... Na verdade, ela ficou com um olhar bem acusador quando eu disse isso... De qualquer forma, três encontros depois e perdemos o contato.
Isso não aconteceu com Franklin. Nossa amizade retomou do exato ponto onde havia parado. Ele havia conseguido entrar para uma faculdade muito boa em Miami e a madrasta havia se oferecido para pagar. Aquele garotinho nerd viciado em física estava fazendo Engenharia Mecatrônica. Para mim, isso seria um inferno, mas ele gosta então, deixe-o ser feliz!
Pouco depois que recebi alta do hospital decidi recomeçar de vez com a minha vida. Agora eu tinha o dinossaurozinho Lucas para criar, precisava voltar para a escola e fazer um supletivo para tentar entrar para uma faculdade. E o mais importante, precisava me afastar de qualquer coisa que me lembrasse de minha vida entre os quatorze e os dezenove anos. Precisava me afastar do quarto onde Charlie havia me estuprado, do condomínio onde Hector ainda morava (o que gerava momentos constrangedores quando nos esbarrávamos na rua e ficávamos decidindo se nos cumprimentávamos ou nos ignorávamos), da escola onde tudo começou, da rua onde fui sequestrada. Enfim, de tudo.
Por isso, vendemos a casa. Eglantine e Kevin voltaram a morar no apartamento de Kevin. Quando mamãe me perguntou onde eu queria morar eu não pensei duas vezes antes de dizer Miami. Era uma cidade longe, onde eu não conhecia nada, nem ninguém e teria meu velho amigo Franklin perto de mim. Aliás, ele ficou mais que animado ao saber da notícia.
Os primeiros anos foram difíceis. Com um bebê para criar e as provas do supletivo para fazer, nunca imaginei que eu daria conta. Às vezes, chorava durante a noite... Na verdade, dormir sempre foi um desafio. Comer, também.
A rotina era pesada. Cuidava de Lucas o dia inteiro e a noite ia ao supletivo. Franklin me ajudava quando eu tinha alguma dúvida, ia até o pequeno apartamento de dois quartos que tínhamos alugado para me dar algumas aulas e adorava passar tempo com Lucas. Acho que ele sempre gostou de bebês. Minha aparência e meus costumes mudaram drasticamente. Cortei meu cabelo na altura do ombro, engordei até um pouco acima do peso (havia adquirido uma fome voraz, principalmente por alimentos não saudáveis que não me eram acessíveis no cativeiro), odiava locais com muitas pessoas ou muito fechados, tinha fotofobia e odiava roupas curtas ou muito reveladoras. Franklin e mamãe acompanharam todas essas mudanças em silêncio.
O dinossaurozinho crescia comigo. O tempo passava e ele ia crescendo mais ainda. Sua pela continuava morena e escura (talvez Charlie e eu tenhamos algum parente negro na família e a mistura de genes fez a pele dele diferente da nossa), seus cabelos eram castanhos como os meus e os olhos negros como os de Charlie... Mas havia uma diferença crucial. Esses olhos eram grandes, brilhantes e inocentes... Eu não tinha medo dos olhares daquele menino. Não ficava desconfortável quando estava com ele. Na verdade, eu adorava aquele pacotinho de ternura. Eu gostava de cuidar dele, de passar um tempo com ele. Gostava de encontrar ele assistindo TV com o cobertor no sofá da sala quase adormecido quando eu chegava esgotada do supletivo. Eu gostava de acordar ele de manhã, de o ver tomando sorvete e lambuzando a cara toda. Enfim, eu amava tudo nele!
Alguém bateu na porta, provavelmente minha próxima consulta, Lettice Hatter, ela tinha treze anos, estava fazendo tratamento psicológico comigo. Ela havia sido estuprada pelo cunhado durante cinco anos antes que os pais descobrissem...
Pois é, quem diria que no futuro eu iria usar minha experiência e me tornar uma psicóloga especializada em traumas na infância e na adolescência... Mesmo que quase ninguém soubesse, eu não era muito diferente dos pacientes que recebia aqui... Era quase natural.
A decisão de cursar psicologia foi até fácil. A parte de pagar a faculdade, nem tanto. Quando eu desapareci, minha mãe perdeu a vontade de trabalhar e seu rendimento diminuiu consideravelmente. Glá e Kevin foram quem impediram que fôssemos à falência total. Resumindo, eu não tinha dinheiro para pagar a faculdade e, quase terminando o supletivo, eu só desejava conseguir uma bolsa.
Eu, Franklin e Lucas estávamos no Lummus Park, um pequeno parque em frente a uma das praias famosas de Miami. No verão aquilo ficava apinhado de turistas, porem era inverno e além de nós havia apenas alguns corredores bem agasalhados. Enquanto eu e meu amigo bebíamos café sentados em um banco, Lucas, de apenas 1 anos, estava brincando com seus dinossauros de plástico ao meu lado e parecia uma bola de tecido e lã.
— É estranho você ter dificuldade em cálculo na faculdade — eu disse assoprando meu café com leite — Sempre foi o melhor da escola.
— Pois é, mas tudo na faculdade é mais difícil. Você vai ver.
— Isso se eu entrar em uma.
Ambos ficamos em silêncio depois dessa e passamos a beber nossas bebidas quentes devagar. Eu estava no segundo gole, pensando em ir para casa colocar Lucas debaixo do aquecedor quando meu telefone tocou. Achei que fosse minha mãe avisando que já estava na hora de eu voltar, mas era um número desconhecido. Atendi:
— Alou.
“Boa tarde. Esse é o telefone de Emily Gomez Doyle?”
— Quem está falando?
“ Talvez não me conheça, meu nome é Frederick Ross. Errr... Tio de Charlie Ross.”
Arregalei os olhos. Então esse era o Frederick afinal. Eu já tinha ouvido falar dele várias vezes, poderia até dizer que o conhecia; no entanto, nunca o ouvi ou o vi... Aquela era a primeira vez. Respondi ao telefone:
— Sim, é a Emily. — então me virei para Franklin e disse — Fica olhando o Lucas que eu vou atender essa ligação. — saí de perto e me apoiei em umas das árvores ali perto — Por que está me ligando?
“ É que... Não sei se soube, mas... Meu sobrinho faleceu há algum tempo... É que... Ele deixou algo para você.”
Minha respiração ficou mais rápida. O que Charlie poderia ter me deixado? Eu perguntei com a voz um pouco mais baixa:
— O que ele deixou?
“Dinheiro. Ele fez um testamento. A empresa e o que restou da casa são meus, mas ele transferiu todo o dinheiro que tinha na conta dele para você: Emily Gomez Doyle.”
— Mas como você me achou?
“Foi muito fácil. Tenha o dinheiro para pagar um detetive articular e consegue tudo no mundo... Não quer saber qual a quantia?”
— Bom... Quero.
“40 milhões”
Minha boca formava um perfeito “o”... Charlie havia me deixado 40 milhões... Era dinheiro suficiente para pagar minha faculdade, para cuidar de Lucas, colocá-lo em uma escola particular... Céus, era dinheiro suficiente para tudo o que eu queria!
Tudo o que pude balbuciar foi:
— E-eu... Eu não entendo...
“Eu também não entendi direito... Pouco antes de se matar ele me ligou e me pediu para ir a casa dele... Ele estava horrível... A casa estava toda desarrumada e ele quebrou quase tudo o que encontrou lá... Charlie me contou sobre você... Disse que amava você, mas tinha feito muita merda e você fugiu... Ele me disse que você estava esperando um filho dele... Me fez prometer colocar você no testamento... Se eu soubesse que ele estava planejando se matar...”
Ele fez uma pausa e, pelos barulhos, não duvidaria se estivesse chorando... Fiquei calada, afinal, eu sabia o que ele iria fazer e não fiz nada... Depois de um tempo, Frederick disse:
“Demorou muito para assimilar tudo aquilo... Queria chamar a polícia, investigar sobre você... Ainda mais depois da morte dele... Achei que você tinha dado algum tipo de glpe no meu sobrinho... Não sei se sabe, mas a vida dele foi muito difícil... Ele teve uma infância... Horrível”
— Sim, eu sei disso.
“Mas eu não queria causar um alarde, então optei por contratar um detetive particular. Descobri que você era aluna dele, que tinha apenas dezenove anos... E quando descobriram aquele quarto no subsolo da casa... Eu juntei as peças... Acho que sei o que ele fez com você.”
Apertei o telefone mais perto da minha orelha e disse:
— E o que você vai fazer quanto a isso?
“Eu é que deveria estar lhe fazendo essa pergunta”
Suspirei e respondi:
— Escute, Charlie já morreu. Vai pagar sua dívida comigo em outro lugar e talvez recomeçar do zero. Nós dois sabemos que ele merece... Eu só quero esquecer isso. Não tem mais nada que eu possa fazer agora... Entretanto — virei o rosto e olhei para Lucas, aquele pequeno pacote de ternura brincando com seus dinossauros — Preciso do dinheiro.
“Eu imaginei que diria isso... Estou aliviado em parte por você ter decidido esquecer o assunto, mas também estou confuso, preocupado e curioso.”
— Desculpe, mas nada disse tem a ver com você.
“Sim... Ele me disse que estava grávida... Você... Teve o bebê? Tenho um sobrinho-neto?”
— Isso também não tem a ver com você.
“Entendo... Acho que está certa... Vou transferir o dinheiro para a sua conta o mais rápido possível.”
— Obrigada... Poderia não me ligar mais depois disso?
“Ah sim. Perdão.”
E ele desligou. Simples assim. Então esse era o famoso Frederick... Ele não pareceu-me um bom homem, mas não era mau... Porém, não iria me preocupar com aquilo. Ele nunca faria parte da minha vida... Suspirei e sorri. Eu tinha dinheiro para faculdade agora.
Voltei quase correndo para o banco, sorrindo com o gato da Alice. Franklin até perguntou o porquê. Naquele resto de tarde nos divertimos muito. Brincamos de aviãozinho com o Lucas, levantando-o no ar, comemos chocolate quente com muitos mashmellows e vimos um filme no cinema depois que mamãe disse que poderia ficar com Lucas por um tempo.
Eu nunca me esqueceria desse dia. Duas coisas importantes aconteceram nele. A primeira foi a ligação de Frederick que foi a responsável por eu ter cursado a mesma faculdade de Franklin e, quando Lucas atingiu a idade, poder colocá-lo em uma escola particular tão boa quanto a minha era.
A segunda coisa importante que ocorreu nesse dia foi o beijo...
Naquela noite Franklin e eu nos beijamos no cinema. Foi algo clichê e natural... Não sei quando foi que eu comecei a gostar dele, também não sei o que me impulsionou a virar na sua direção naquela sala escura e o beijar... Só sei que ele correspondeu imediatamente o ato e eu me vi gostando do beijo.
Eu já havia dado vários beijos ao longo da minha vida, apesar de que em apenas duas pessoas. De alguma forma, esse foi diferente de todos eles. Eu me inclinei na sua direção. Eu peguei seu rosto e o aproximei de mim. Eu toquei sua língua primeiro. Eu conduzi aquilo. Eu descidi quando começou e quando parou... Foi mágico... Céus, não sabia que ter esse poder era tão bom.
Franklin beijava bem. Não consigo comparar o beijo delo com o beijo de Charlie... Os dois parecem estar em dimensões completamente diferentes... Apesar disso, nós combinávamos. Ele parecia saber exatamente onde me tocar, onde eu queria que ele me tocasse. Franklin respeitava meu espaço, meu tempo. Ele sabia o que eu havia passado e o que estava preparada ou não para fazer.
Por isso nosso relacionamento se desenvolveu de uma forma tão boa e única. Por isso, eu me vi cada dia mais apaixonada por aquele garoto, aquele homem ao meu lado. Aquele amigo que sempre esteve por perto, me ajudando, me apoiando; que me ajudava a cuidar de Lucas, que entendia que eu não podia sair e conversar o tempo todo, que gostava de passar tempo com ele tanto quanto gostava de passar tempo comigo... Por isso funcionou. Por isso não tive medo.
Parei o carro no acostamento ao lado da escola e desci. O sinal havia acabado de tocar e várias crianças saíam desordenadas pelas portas. Algumas se direcionavam paras os pais, outros para suas bicicletas e alguns se juntavam em grupos e optavam por ir a pé pra casa. Porém, eu sempre reservava um tempo para pegar meu pequeno.
E lá estava ele. Lucas me procurou pelo pátio até que eu levantei o braço e ele me viu. Meu filho veio correndo na minha direção e me abraçou, nem parecia que mais cedo naquele mesmo dia ele havia dito que me odiava... Crianças... Depois que nos separamos peguei sua mão e o guiei ate o carro.
Enquanto caminhávamos, eu perguntei:
— Então, como foi a escola?
— Muito bom. Todo mundo gostou do tênis novo que a vovó me deu.
— É, ela tem muito bom gosto... E a sua apresentação de geografia?
— Foi ótima. Eu nem errei aquela parte que eu tava hesitando em casa.
— Viu? Eu disse que ia dar certo.
Agora estávamos a caminho de casa. Lucas no banco de trás encarando as árvores que passavam pelo vidro. Não demorou até que chegássemos até nosso pequeno apartamento de três quartos. Subimos o elevador cantando a música tema do Aladim e da Jasmim e quando chegamos definitivamente em casa, Lucas correu na direção do quarto, provavelmente para pegar o DVD do filme e assisti-lo.
Enquanto eu retirava o casaco e pendurava minha bolsa Franklin apareceu do seu escritório. Diferente de mim, Franklin continuava com o mesmo cabelo que sempre teve, uma espécie de Black Power só que um pouco menor, porém havia crescido alguns centímetros e ganhado alguns músculos nos braços. Ele disse:
— Boa tarde.
— Oi. Conseguiu concertar o robô?
Franklin trabalhava em casa. Ele construía e concertava robôs para grandes empresas de montagem de carros e eletrodomésticos. Além do escritório que tinha dentro de casa, também havíamos comprado e fechado uma parte da garagem do prédio para robôs e peças maiores. No momento, ele estava trabalhando em um robô garra de tamanho médio para uma empresa de eletrodomésticos.
— Quase lá. — ele respondeu — O motor tá concertado, mas ainda preciso fechar e recolocar as peças no lugar. E como foi no consultório?
— Normal.
Nós nos abraçamos e quando nos afastamos, ele me perguntou se poderia me beijar. Respondi que sim e trocamos um selinho rápido... Franklin já havia se acostumado a não me beijar de surpresa... Ele também sabia que eu não era ligada a muita intimidade... Felizmente, isso não parecia afetar ele... Ele entendia.
Meu namorado foi até a cozinha e eu o segui. Perguntei:
— O que fez para o jantar?
— Macarronada.
— Oba! Lucas! Lave as mãos e venha jantar!
Não demorou muito e meu menino apareceu correndo descalço e com o cabelo mais bagunçado do que quando o vi na última vez. Enquanto eu colocava os pratos na mesa ouvi Franklin dizer:
— Oi pra você também Lucas. Entrou e nem me cumprimentou. Já foi correndo pro quarto.
— Ah desculpa Frank. — os dois se abraçaram — Nossa, todo mundo gostou daquele sanduiche diferente que você me deu de lanche.
— Ah sabia! Viu? Até crianças dá pra conquistar pelo estômago.
— Amanhã você faz mais?
— Faço sim.
Nós três nos sentamos e começamos a comer. Franklin e Lucas conversavam sobre o carrinho de controle remoto quebrado de Lucas e eu apenas escutava a conversa já que não gostava muito de falar durante as refeições... Apesar de meu filho conhecer Frank desde bebê e adorá-lo, ele raramente o chamava de pai...
Desde pequeno eu deixei claro para ele que Franklin não era seu pai biológico... Talvez se eu tivesse feito isso, pudesse poupá-lo de algumas coisas... Mas eu não queria mentir para o meu filho... Não queria que ele passasse o resto da vida sem saber a verdade e também não queria ter que desvendar tudo quando ele tivesse uns vinte anos e depois ser acusada de ter escondido a história verdadeira todo o tempo... Por isso desde cedo ele já sabia mais ou menos o que aconteceu.
Lucas sabia que havia acontecido alguma coisa no meu passado... Ainda era muito pequeno para entender certas coisas, mas ele sabia que 1) minha gravidez foi acidental 2) o verdadeiro pai dele havia feito coisas ruins comigo e me forçado a ter um bebê 3) seu pai estava morto... Por algum motivo, ele nunca tinha me perguntando mais sobre seu pai... Ele sabia que eu não gostava de falar isso, sabia que eu ficava desconfortável, tensa e triste... Talvez ele tivesse perguntado para Franklin alguma coisa, mas ele nunca me contou sobre isso... De qualquer forma, eu preferia assim. Apesar de Lucas reconhecer Franklin como sua figura paterna, ele sabia que ele não era seu pai de verdade. Ele sabia sobre Charlie e, mesmo sem ter conhecimento das coisas horríveis que ele fez comigo ou do passado sombrio que ele teve, ele sabia que não era possível julgar aquele homem como uma pessoa boa ou má... Afinal, ninguém é assim, preto ou branco, todos somos cinza... Todos já fizemos algo de ruim na vida... Charlie foi uma pessoa que teve as ações moldadas por um passado terrível... Ele era doente... E talvez, se essa doença não o tivesse afetado, ele podia não ter cometido os crimes que cometeu...
Porém... Foram esses crimes que me trouxeram aqui hoje... Eu tenho uma namorado maravilhoso, com quem estou junto há quase uma década. Eu tenho um filho lindo, inteligente e bondoso que é a coisa que mais amo no mundo e que me ama do mesmo jeito também. Eu tenho uma boa casa e um ótimo emprego que adoro. Eu tenho uma mãe que mora a uma rua de distância de mim e que adora me visitar. Eu tenho uma irmã que, apesar de morar em outra cidade, sempre está convivendo comigo de alguma forma.
Enfim, eu tenho uma vida incrível. Tudo bem, passo algumas noites em claro, vejo um psicólogo semanalmente, tenho eventuais brigas com meu filho e namorado... Mas eu ainda estou aqui. Eu ainda estou viva... Cada dia que passa, por pior que tenha sido, no final, eu consigo entender que sobrevivi a ele... Eu sobrevivi a tudo isso... Eu sobrevivi a um abuso, a um sequestro... Eu sobrevivi a todas as provas que a vida me deu... E sai muito bem de todas elas... Eu estou sã e segura e, mais importante que tudo, eu estou livre.
E ninguém nunca mais iria tirar essa liberdade de mim.
Eu só precisava aprender a conviver com ela. Um dia de cada vez. Um desafio de cada vez...
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