Abusada ll - Sequestrada
22 Notícia...
Notas iniciais
Estava deitada em minha cama fazendo quicar uma de minhas bolinhas pererecas. Lembro-me que alguns meses após o dia das mães, Charlie me deu uma dessas bolinhas de borracha coloridas que quicam. Eu acabei gostando dela e, quando ele me deixava trancada aqui por horas ou até dias, elas me proporcionavam alguma diversão... No fim, eu tenho cinco e as adoro.
Porém, enquanto observava a bolinha batendo e voltando do chão ou da parede na qual eu a jogava, sentia meu coração batendo forte e rápido junto com ela. O que Charlie estaria fazendo? Por ele estava demorando tanto? Eu havia o deixado com raiva e, por causa disso, me deixaria aqui por dias, outra vez, sem comida?
Pareceu uma eternidade em que eu apenas fiquei quicando meu brinquedo mecanicamente em qualquer superfície a minha frente quando finalmente ouvi o barulho da porta abrindo e Charlie apareceu. Ele estava radiante de tão feliz e carregava nas mãos uma folha de papel. Vendo sua alegria eu logo percebi que aquilo não acabaria bem para mim...
Recolhi minha bolinha em uma das gavetas da escrivaninha onde as guardo e fui na direção do meu raptor. Ele já havia fechado a porta e me estendeu a folha de papel. Eu perguntei:
— O que é isso?
Ele disse apenas:
— Pegue e leia.
Eu não queria pegar... Ele parecia muito feliz com aquela situação... Entretanto, como já dizia o ditado, a curiosidade matou o gato. Peguei aquilo de uma vez, querendo acabar logo com a palhaçada.
Aparentemente era um tipo de reportagem. Provavelmente havia sido tirada de um site, pois no topo da folha havia as informações de um jornal virtual, do qual eu já conhecia. Lembro que minha mãe via o mesmo programa, porém na televisão. De qualquer forma, abaixo, em letras grandes e escuras estava escrito: “JOVEM SE SUICIDA APÓS DESAPARECIMENTO DE IRMÔ.
Eu paralisei com isso.
Olhei excitante para Charlie que apenas me observava sorrindo.
Voltei à folha e observei a manchete de novo... Não queria acreditar naquilo... Não podia ser...
Abaixo, em letras menores e mais claras havia o lide:
“Irmã mais velha da adolescente desaparecida, Emily Gomez Doyle, é encontrada morta no banheiro de casa após o caso de sua irmã ter sido abandonado por falta de provas”.
Comecei a suar frio e minha respiração se tornou ofegante. De repente as paredes do quarto estavam se fechando, minha cabeça começou a doer, tudo girava... Não... Aquilo não podia ser verdade...
Vendo que eu havia paralisado, Charlie tomou rudemente o papel de minha mão e começou a ler a reportagem em voz alta, quase gritando, enquanto circulava ao meu redor, como se cercasse uma presa:
— “Na manhã do dia 5 de Janeiro, os familiares de Eglantine Gomez Doyle tiveram uma horrível surpresa ao acordarem. Na noite anterior, a família Gomes Doyle foi comunicada de que o caso do desaparecimento da filha caçula, Emily, do qual estávamos acompanhando, havia sido fechado por falta de provas e pessoal.”.
“A mãe, Charlotte, desolada, informou a policia que a jovem de 25 anos havia se trancado no banheiro assim que chegaram à casa da delegacia. Na manhã seguinte, vendo que a primogênita encontrava-se ausente, a mãe em conjunto com as empregadas arrombaram a porta do banheiro e encontraram o corpo em meio a uma poça de sangue”.
Tudo estava embaçado... Perdendo a cor aos poucos... Fui perdendo forças e tombei no chão, caindo de joelhos... Olhei para minhas mãos abaixo de mim e lágrimas caíram nelas. Eram tantas que mais parecia uma chuva... Ele continuava lendo a notícia e me cercando, às vezes, inclinando-se na minha direção para gritar em meu ouvido... Eu não estava aguentando mais e disse:
— Pare, por favor!
— “Ela foi encontrada no chão com os pulsos cortados. Não havia carta de suicídio, porém a mãe afirma com toda certeza que o motivo foi o desaparecimento da irmã e o fechamento de seu caso”.
— PARA COM ISSO, CHARLIE!
— POR QUÊ? NÃO AGUENTA MAIS?! Eu lhe disse Emily, mas você não quis escutar.
Charlie sentou na minha frente e pegou minha cabeça com as duas mãos com força, apertando-a e piorando minha enxaqueca. Ele inclinou-se na minha direção e falou baixo rouco e pausado:
— A sua irmã está morta. Ela não passa de um saco de carne e ossos enterrado a metros do chão sem consciência. Ela esqueceu de você.
— Por favor...
— Os policiais já desistiram do seu caso. Há meses que não vejo mais nem uma noticia sobre você em quaisquer dos meios de comunicação. Logo, sua mãe também vai desistir. Quem sabe ela acaba se matando também, igual a patética da sua irmã?!
Eu fui tomada de uma fúria colossal... Em todos esses dias... Desde a primeira vez que eu entrei na sala do meu Diretor... Eu nunca tive tanta raiva do homem que se encontrava na minha frente. Aquele covarde, cruel, filho da puta! Cega de raiva, levantei minha mão e esbofeteei o rosto de Charlie com uma força que eu nem sequer sabia que tinha.
Sua cabeça bateu na quina da cama e ele foi ao chão.
Eu estava ofegante, pingando de suor, com os cabelos desarrumados, os dentes trincados e podia jurar que saia um rosnado da minha garganta... Estava parecendo um animal selvagem... Charlie se levantou, apoiando na cama. Um filete de sangue escorria da lateral de sua cabeça, mas eu não liguei.
Na verdade, eu me senti decepcionada comigo mesma. Eu queria matá-lo. Queria bater a cabeça dele na parede até que ela abrisse e seus miolos escorressem pra fora... Eu queria estraçalhá-lo!
O problema é que meu olhar assassino... Era exatamente igual ao olhar do Charlie... Ele encheu a boca para falar e soltou:
— Sua puta, ingrata! Desgraçada!
Ele pegou meus cabelos e puxou minha cabeça, batendo ela com força na quina da cama, como a dele havia batido. Senti meu corpo vibrando e minhas orelhas zumbindo. Fiquei tonta e por pouco não apaguei.
Charlie não se contentou com aquilo e, logo após, jogou meu corpo contra o chão duro. Ele subiu em cima de mim e começou a apertar o meu pescoço, impedindo que o ar passasse pela minha traqueia. No início eu revidei, mexi minhas pernas e arranhei com minhas unhas suas mãos, tentando fazer com que ele me soltasse... Mas então eu fiquei parada e ele soltou meu pescoço. Vi a oportunidade e disse:
— Vamos logo com isso, traste! Mate-me de uma vez! Não me importo mais! O que falta para você me fazer?!
Segurando meu pescoço, meu ex-Diretor fez com que minha cabeça batesse no chão mais uma vez. Então, ele se aproximou e sussurrou bem próximo ao meu rosto.
— Eu não vou te matar Emily. Não quero desperdiçá-la... Entretanto, me parece que vou ter de te ensinar alguns modos.
— Ah ótimo! Acorrente-me, bata-me, deixe-me pendurada naquele gancho por dias. Você já faz isso constantemente sem que eu o irrite!
— É, tem razão. Por isso, dessa vez, eu vou te adestrar de uma forma diferente.
Charlie saiu de cima de mim e virou meu corpo, deixando-me de bruços. Ele se sentou em cima de mim, prendendo meus braços com o joelho. Com o canto dos olhos, eu vi quando ele puxou o lençol da cama e o rasgou. Uma das tiras ele usou para me amordaçar, apertando o laço com força atrás da minha cabeça. Com a outra ele prendeu minhas mãos nas minhas costas e com a outra meus pés.
Depois disso, me largou lá e foi embora.
Se eu não estivesse impossibilitada de falar, teria rido daquilo. Quantas vezes ele já não havia me deixado daquela forma para me punir? Inclusive, no escuro, pendurada, com fome... Era isso que eu ganhava por bater nele?! Poderia conviver com isso facilmente, ainda mais considerando a satisfação que senti ao fazê-lo sangrar.
Porém, surpreendendo-me. Charlie voltou ao cativeiro trazendo a chave que ele usou para abrir minha tornozeleira. O que ele iria fazer agora?
Com uma tesoura, minhas poucas roupas foram inteiramente cortadas e eu fiquei completamente nua... Aposto que ele me deixaria lá fora no frio durante a noite... Certo?
Charlie também tapou minha cabeça com um saco de pano e me colocou em seus ombros, me levando dali. Senti-o me carregando até sua casa e mais ainda. Senti o vento gelado quando ele, provavelmente, abriu a porta da varanda.
Mas ele continuou andando... E continuou andando... Onde ele estaria me levando?!
Foi só quando eu senti o cheiro que percebi.
O cheiro de local fechado, meio úmido, de mofo... Aquele cheiro característico que senti assim que cheguei aqui... Aquele lugar escuro, pequeno, fedido no qual passei tanto tempo. Confusa, sem nem saber o que havia acontecido, com fome, sem enxergar um palmo... Não podia voltar para lá!
Comecei a me debater e gritar, apesar da mordaça me abafar. Apelei por socorro, o ameacei e, inclusive, pedi desculpas para ele... Mas nada parecia adiantar.
Mais cedo do que eu esperava ele retirou o saco da minha cabeça e eu me vi naquele mesmo lugar. Sabia! Ele retirou a mordaça também e, logo após, eu comecei a gritar:
— Por favor, Charlie! Desculpe! Eu sinto muito! Eu juro! Não quis fazer aquilo! Juro que foi a última vez! Nunca mais vai acontecer! Por favor!
— CALE-SE! Você teve inúmeras chances, sua garotinha ingrata. Mas parece que você não passou tempo suficiente aqui para entender isso. Emily, você precisa ser adestrada mais uma vez e, dessa vez, — ele se inclinou na minha direção e me encarou bem fundo nos meus olhos — Eu vou destruir até a última pontinha do seu ser. Até que você esteja morta ai dentro, você não vai sair daqui. Apenas desse jeito você nunca mais vai me desobedecer. Entendeu?
Eu estava com tanto medo que continuei parada e eu silêncio. Sua mão desceu pesada em meu rosto, batendo com tanta força que me jogou no chão. Ele gritou:
— VOCÊ ENTENDEU?
— Sim!
— Ótimo. Sua aula de boas maneiras começa agora.
Ele se levantou e começou a caminhar para fora. Eu me levantei, mal sentindo que aquela tornozeleira de ferro havia voltado para meu pé. Comecei a gritar:
— Espera Charlie! Não me deixe aqui! Pelo menos me desamarre e me dê alguma roupa! Eu prometo para você que nunca mais vou te desobedecer! Não me deixe aqui sozinha de novo! Por favor, Charlie!
O alçapão estava fechado, porém ele se inclinou na direção daquele buraco que havia na porta. Ele me encarou com aquele grande olho negro que parecia enxergar até minha alma. Charlie disse:
— Implore.
No início eu me recusei a fazer isso... Mas eu não aguentaria nem mais um segundo naquele lugar. Apesar de meu coração estar se apertando e meus olhos transbordando em lágrimas, meu cérebro ordenou ao meu corpo que se ajoelhasse. Olhando para cima, com os braços estendidos como se estivesse fazendo uma prece, eu disse:
— Eu te imploro... Tire-me daqui... Não me deixe aqui sozinha...
Tudo o que ouvi foi sua risada e logo após uma última frase:
— A propósito, alguns ratos fizeram ninhos ai embaixo no último inverno, então, teoricamente, você não vai estar sozinha.
Então, todas as luzes se apagaram e o local foi tomado por um silencia sepulcral interrompido apenas por meus gritos de desespero.
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