Abusada ll - Sequestrada
15 Monstro...
Notas iniciais
Estávamos na minha cama já fazia exatamente duas horas e trinta e quatro minutos... Trinta e cinco minutos agora.
Charlie estava sentado com as costas apoiadas na parede atrás da cama e com as pernas abertas, eu estava acomodada entre suas pernas com as costas apoiadas em seu peito.
Ele passava as mãos pelos meus braços e pelo meu pescoço e meu rosto. Sentia seus dedos tremerem, como se estivesse tocando em algo tão delicado quanto uma folha seca. Parecia que estava passando a mão sobre um troféu só para sentir sua textura e seu formato melhor... Depois de uns quinze minutos disso, eu passei a ignorá-lo completamente e viajei para outro lugar.
Meus olhos se concentravam no calendário e no relógio ao meu lado. No dia 03 de fevereiro eu havia pedido uma caneta para riscar os dias que passavam para Charlie e ele havia atendido meu pedido na semana seguinte. No dia 03 de março eu havia pedido papeis para escrever e passar o tempo e ele me atendeu quase no mês seguinte. No dia 03 de Abril eu havia pedido para ele lápis de cor e ele me deu uma caixa com doze lápis de cores menos de três dias depois.
Havia adotado algumas práticas. Uma delas era pedir para ele as coisas com um intervalo de um mês exato, pois ao mesmo tempo que o fazia acreditar que não estava me dando tantas coisas, acabava ganhando a maioria das coisas que eu queria.
Os dias haviam ganhado uma espécie de padrão. Eu acordava, mais ou menos, as nove, geralmente um pouco antes de Charlie aparecer com o meu café da manhã. Ele havia instalado um tipo de buraco (que me lembrava aquelas portinhas de cachorro) na base da porta para que pudesse me passar pratos de comida e roupas quando não quisesse ou pudesse me ver. Depois de comer e fazer minha higiene matinal eu me sentava na minha escrivaninha e escrevia cuidadosamente o meu nome completo cinco vezes e logo depois o nome completo de todas as pessoas que eram importantes para mim. Eu escondia o papel com o braço e me debruçava em cima dele para que Charlie não visse o que eu escrevia pela câmera.
Então eu rasgava os papeis e dava descarga neles. Geralmente tomava um longo banho e passava pelo menos meia hora penteando meus cabelos. Então eu começava a desenhar.
Nunca fui boa em desenhos, mas não era de todo um desastre. Geralmente eu desenhava paisagens. Copiava as imagens que havia no topo dos meses dos calendários ou simplesmente imaginava um lugar onde eu e Eglantine poderíamos descansar e nos divertir.
Passava o dia inteiro assim, parando para o almoço e outro banho na parte da tarde. Geralmente Charlie aparecia mais a noite depois do jantar e sentava e conversava comigo. Quando eu digo “conversar” eu quero dizer que ele me contava como era o dia dele e eu ficava calada escutando e acenando que sim com a cabeça.
Em seguida, como sempre, num ciclo eterno e vicioso, ele me estuprava, me dava boa noite e ia embora. Logo após isso, eu precisava ficar mais ou menos meia hora deitada na cama (ou repousada em qualquer lugar que ele havia me deixado) olhando para o teto ou para o chão.
Charlie gostava de amarrar minhas mãos, mesmo que eu não oferecesse resistência. Eu não sabia se era um costume dele ou um fetiche. Ele também me segurava e me apertava forte e me batia (isso quando não me espancava), causando hematomas que ficavam roxos ou avermelhados.
Esse tempo parada também servia para eu refletir sobre as coisas que ele me fazia e chorar todas as minhas lágrimas. Aquele era o único momento do meu dia em que eu me permitia afogar as mágoas e pensar no fundo do poço em que eu me encontrava. Logo após, tomava um banho para lavar todas aquelas ideias e todos aqueles momentos da minha mente e do meu corpo, escovava os dentes e ia dormir.
Mas voltando ao momento presente.
Conseguia ouvir a voz de Charlie ressoando do lado do meu ouvido ao longe:
— E então ele disse “Você sabe que eu não tenho filhos ou possíveis herdeiros” e eu fiquei me perguntando o que diabos eu tinha a ver com aquilo. Mas você conhece meu tio, ele adora usar minha irmã como chantagem. Então o primeiro argumento que ele usou foi “Se não for você, sua irmã acabará herdando a empresa quando eu me aposentar”. E assim eu passei de um cara que ia lá de vez em quando fazer uns servicinhos pra porra do gerente daquela merda toda.
— Nossa.
— Pois é. Por mim venderíamos aquilo, mas acho que nem as coisas que meu pai me deixou impediriam a família de cair matando em cima de mim depois dessa.
Ficamos em silêncio durante um tempo enquanto Charlie fazia carinho no meu cabelo e beijava minha cabeça.
Ele me contava quase tudo sobre sua vida. Sabia do tal dilema com a herança e da irmã mais nova dele que parecia ser muito chata e do tio dele que parecia ser irritante, mas de um jeito atencioso. Sabia que ele odiava o pai e que nunca havia conhecido sua mãe direito já que ela morreu quando ele era bem pequeno.
Estava meio curiosa, então arrisquei uma pergunta:
— Charlie, o seu avô teve três filhos certo?
— Certo.
— Você me contou do seu tio Frederick e, claro, tem o seu pai. Onde está o terceiro? Por que ele não cuida da empresa no seu lugar?
Pude sentir todos os músculos de Charlie travar e ficarem duros ao meu redor. Ele havia ficado tenso e eu sabia que estava entrando em um terreno muito perigoso. Ouvi-o dizer:
— Meu tio mais velho morreu.
— Ah. Faz muito tempo?
— Sim.
— Como ele morreu?
Ele agarrou meus dois braços com força, ficando as unhas na minha carne e me empurrou para o lado e para fora de seu colo. Estendi meu braço e por pouco não bati com a cabeça na parede. Não havia entendido aquela súbita mudança de humor.
Olhei para Charlie em pé na minha frente. Seu rosto carregava uma expressão que parecia ao mesmo tempo sombria e impassível... Apesar de que eu acho que estava mais sombria que tudo.
Ele disse:
— Eu o matei.
Segurei um arquejo na garganta. Fiquei calada, encarando-o, ainda deitada na cama e achando tudo aquilo muito estranho. Charlie continuou:
— Um dia, quando eu tinha quinze anos, peguei a maior pedra que encontrei no jardim dele e esperei até que voltasse do trabalho. Derrubei-o no chão, subi em cima de seu corpo e bati com a pedra na cabeça dele exatas vinte e sete vezes. Já viu um crânio amassado Emily? — Ele viu que eu não tinha reação quanto aquilo e acabou gritando comigo — RESPONDA!
— Não!
— Não?! Nunca viu os ossos do crânio quebrados, o sangue correndo pelo chão e manchando sua roupa, os miolos escorrendo pelos lados?! — A cada palavra ele ia se aproximando e eu comecei a imaginar a cena e sentir ânsia de vômito — Pois eu já vi Emily.
Ele inclinou-se para perto de mim e agarrou meus braços mais uma vez, dizendo:
— E foi o melhor momento da minha vida.
— Tudo bem, já entendi.
— E adivinha o que eu fiz depois?
— Eu não sei.
— Claro que não sabe. Você não estava lá. Depois eu peguei a pedra manchada com o sangue e os miolos dele e carreguei-a pra dentro da casa até encontrar a sua esposa, minha tia. Eu a amarrei na cama exatamente como faço com você. Eu a estuprei Emily, repetidas e repetidas vezes. Eu peguei áquela pedra tingida de vermelho e usei para quebrar seus osssos enquanto isso. Primeiro os braços, depois as pernas e por último ataquei o seu tronco. Você já viu um peito amassado Emily?
— Para com isso.
— Não! O peito dela ficou parecendo uma folha de papel! Eu via os ossos saltando para fora e o que sobrava do coração e do pulmão em uma grande poça de sangue sobre o colchão daquele luxuoso quarto de casal!
— Eu não quero mais ouvir isso!
Então ele me jogou no colchão me deixando deitada para logo depois subir em cima de mim e prender meus braços na lateral da minha cabeça. Seus olhos ardiam em fúria e seu rosto estava próximo ao meu. Ele cuspia enquanto falava tamanha era a sua cólera.
— E não foi só isso! Quando terminei o trabalho com a minha querida titia, sabe o que aconteceu? Eu ouvi um choro. Ele vinha de um dos quartos daquela mansão. E quando eu entrei lá, sabe o que eu encontrei? Um bebê. Eu sabia que ela tinha aquela coisa, mas não imaginava que estaria na casa na hora. Você sabe o que eu fiz, Emily?... RESPONDA!
— Eu já disse que não sei!
— EU O MATEI EMILY. EU COLOQUEI UM TRAVESSEIRO EM CIMA DAQUELA CABEÇA QUE MAIS PARECIA UMA NÓS E FIQUEI ASSISTINDO ENQUANTO O CORPINHO DELE SE REMEXIA E DEPOIS PARAVA COMPLETAMENTE!
— VOCÊ É UM MONSTRO!
— SIM, EU SOU UM MONSTRO!
Ficamos os dois nos encarando depois daquilo. Seu rosto estava desfigurado em uma carranca horrível, parecia o próprio Diabo, com os olhos saltando das órbitas e carregados de ódio, fúria, inveja... Todos os piores sentimentos da raça humana.
Ele me prensou na cama uma última vez e se levantou. Encarou-me no fundo dos olhos e disse:
— Quanto mais cedo aceitar isso, melhor.
Depois disso, foi embora e me deixou ali sozinha. Meus olhos ardiam em lágrimas, eu estava assustada e tremendo toda. Sem pensar duas vezes, sai correndo e vomitei, bem a tempo de chegar à privada.
Eu imaginava cada uma das cenas que ele havia descrito. Eu ouvia seus gritos. Eu ouvia o choro... Eu sentia tudo... Foi horrível... Desejei com todas as forças que isso nunca acontecesse comigo e que eu nunca precisasse ouvir aquilo ou qualquer coisa parecida de novo...
Eu estava certa. Charlie era um monstro. Sempre foi e sempre seria.
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