Abusada ll - Sequestrada
16 Arisca...
Notas iniciais
Eu roia minhas unhas sem parar, pois estava com tanta fome que cheguei a pensar se eu poderia tirar algum nutriente delas... Claro que eu sei que isso é bobagem...
O acesso de loucura de Charlie provavelmente o fez ficar com raiva de mim. Ele não havia me dado o jantar daquele dia, nem nenhuma das refeições do dia anterior e hoje havia perdido o café da manhã também...
Fazia tempo que ele não me deixava com fome desse jeito...
Eu não podia mais irritá-lo daquela forma...
Maldito seja! Ele me obriga a ser a “namorada perfeita” dele ou seja lá o que ele quer!... A mesma mão que me bate também me alimenta... Um sentimento cresce no meu peito. Impotência, misturada com tristeza e raiva. Que droga!
Passei para a minha mão esquerda, mas percebi que todas as unhas dessa mão já estavam no sabugo. Fiquei mais um tempo nessa angustia, até que tomei um susto com a porta abrindo e batendo na parede e Charlie adentrando o quarto impotente. Ele não usava as roupas sociais de sempre, mas sim uma calçwa de moletom cinza e uma blusa fina de manga branca. Parecia um tipo de pijama.
Ele não disse nada, apenas ordenou com sua voz grave e dura:
— Tire a roupa.
Roupa não era exatamente o que eu estava usando, já que trajava apenas um conjunto de sutiã e calcinha de renda branca.
Mais tarde eu me surpreendi com o fato de que eu não hesitei em obedecer a essa ordem. Pelo contrário, pulei da cama e em um segundo já estava nua e parada na frente dele... Provavelmente foi a fome.
Charlie jogou uma blusa parecida com a sua em cima de mim, porém mais grossa e maior e eu rapidamente a vesti, chegava ate o meio das minhas coxas. Ele permitiu que eu colocasse a calcinha, então eu o fiz.
Quando fiquei ereta novamente, ele já havia se aproximado e segurava um complexo conjunto de algemas nas mãos.
Eu já as havia visto em documentários e em alguns filmes sobre prisões. Eram dois elos que iam aos pulsos ligados por uma corrente, dois elos nos tornozelos ligados por uma corrente e uma corrente ligando as duas correntes, basicamente. Permitia-me andar e separar um pouco os braços, mas certamente não poderia correr.
Ele nunca havia me prendido com aquela coisa antes e eu automaticamente fiquei preocupada. Enquanto Charlie abria a minha tornozeleira normal eu arrisquei perguntar:
— Por que está colocando isso em mim?
O silêncio foi a minha resposta. Tentei mais uma vez:
— Para onde vai me levar?
De novo, o silêncio. A terceira seria minha última tentativa:
— Você vai me matar?
— Preciso que você faça um trabalho para mim.
Quando se levantou, colocou uma venda nos meus olhos e me pegou no colo da mesma forma que ele havia feito na noite de ano novo. Como dessa vez, também, atravessamos os mesmos cômodos e escadas. Porém ele me deixou no chão a uma distancia menor do que da última vez.
A venda foi retirada e eu me vi numa espécie de biblioteca... Mas uma biblioteca extremamente desarrumada. A estrutura era bela e majestosa, porém os livros que deviam estar nas estantes estavam no chão e muitos foram rasgados, havia uma confusão de papel e pastas e o jogo de sofá que havia no meio estava quase de cabeça para baixo.
Parecia que um furacão havia passado por ali... O que ele queria que eu fizesse? Que arrumasse aquilo?!
Fui respondida quando o ouvi dizendo:
— Você vai começar por esse cômodo. Arrume tudo e coloque as coisas no lugar. Empilhe o lixo num canto, depois varra e tire o pó e a sujeira que restar. Há outros cômodos na casa.
Ele apontou para a parede onde estava encostada uma vassoura, uma pá, um pano e um espanador e um pacote de sacos plásticos grandes.
Suspirei. Eu odiava arrumar a casa (uma das vantagens de se ter empregadas) e era alérgica a poeira... Não ia terminar muito bem.
Quando dei o meu primeiro passo, acabou sendo um muito longo o que me fez cair no chão. Meus joelhos doeram e a palma das minhas mãos também. Senti meu estômago roncar. Estava fraca de fome.
Charlie me puxou de volta pelo cotovelo e disse:
— Como você é retardada, nem parece que sabe andar.
— Fica meio difícil quando você me prende desse jeito.
— Cala a boca.
— Por que não acaba com essa palhaçada e me solta? Não vou fugir.
— E eu não vou acreditar em você.
Eu já sabia que era impossível tentar argumentar com ele quanto a isso, então desisti. Charlie passou na minha frente, colocou uma poltrona a sua posição iniciou e sentou-se nela, me encarando.
O plano era limpar a casa e fazer tudo do jeito que ele mandara. Uma hora ele iria estar distraído e eu meteria a vassoura com toda força na sua cabeça e tentaria desmaia-lo mais uma vez... Só que eu não iria conseguir fazer isso se Charlie ficasse me encarando e me analisando como agora o tempo todo...
Enfim, comecei colocando os móveis no lugar para logo em seguida, recolher os livros. Vi alguns títulos interessantes e pensei consideravelmente em pedir a Charlie alguns, mas acho que seria demais. Meu coração apertou ao ver que alguns estavam rasgados e destruídos, sem concerto. Depois varri todo o lixo para um canto e coloquei tudo em dois grandes sacos. Varri mais um pouco o pó, lascas de madeira e o vidro quebrado do chão e os coloquei nos sacos de lixo.
Charlie não desgrudou os olhos de mim um segundo, então não pude fazer o que planejei... Bom, ainda não.
Depois da biblioteca, ele me acompanhou até a cozinha. A bagunça ali era composta de vidro e porcelana. Todos os armários e outros compartimentos estavam abertos e com as portas escancaradas. Pratos quebrados no chão, xícaras e copos também, talheres espalhados aqui e ali e ate mesmo alguns eletrodomésticos que pareciam realmente caros, apenas o que era de plástico foi salvo e, mesmo assim, com algumas rachaduras... Comecei a me perguntar o que teria acontecido ali.
— Você deu uma festa ou algo do tipo?
Olhei para trás e o vi sentado num dos bancos altos perto da bancada de mármore. Apesar de estar me encarando e com certeza, ter ouvido a minha pergunta, ele não se deu o trabalho de responder. Mas, mesmo assim, eu continuei tentando:
— Deve ter sido uma festa de arromba pra ter causado essa bagunça toda... Minha irmã já me levou a uma festa assim, mas eu não vi ninguém atirando os pratos da casa no chão...
Ele continuava em silêncio. Charlie realmente planejava me fazer de empregada o dia inteiro e nem sequer conversar comigo?!
Resolvi apelar para o lado emocional dele já que era uma coisa que sempre funcionava:
— Isso é bem injusto. Você me trás até aqui em cima para ser sua empregada particular e não me permite nem ao menos conversar com você — eu disse encarando um pedaço de porcelana com algumas flores desenhadas que havia recolhido do chão — Você é a única pessoa com quem eu tenho contato... Às vezes eu sinto falta de conversar com alguém que não seja eu mesma...
Ouvi-o suspirar, o que indicava que ele havia desistido e que eu havia conseguido. Então, Charlie disse:
— Seu quarto é a prova de som. Mesmo que eu chamasse todas as pessoas da cidade para essa casa, você não ouviria.
Não era exatamente uma resposta a minha pergunta, mas já era alguma coisa. Ele continuou:
— A intenção é ninguém ouvir você, mas tudo bem. Funciona das duas formas.
Depois ele voltou a um total silêncio. Charlie era assim. Às vezes ele era compreensivo, sentia compaixão e tentava ser amigável e cordial comigo; outras ele era distante e indiferente, como se trancasse em seu próprio mundo e, claro, havia seus momentos de puro sadismo e psicopatia... Ai era quando o pior de Charlie vinha à tona e tudo o que eu queria fazer era me esconder... Mas, na maioria das vezes, eu não tinha esse privilégio.
Tomando o cuidado para não me cortar, juntei todos os cacos, arrumei e varri a cozinha. Ela demorou menos que a biblioteca. Charlie, então, se levantou e me acompanhou até uma enorme sala de televisão... Se é que podia ser chamada assim, já que a televisão em si estava completamente espatifada... E olha que era uma puta de uma televisão! Daquelas grandes e finas que só tem em casa de rico mesmo!
Sem demora comecei a arrumar tudo. Aquela altura minha barriga roncava e minha cabeça doía tanto que eu nem pensava mais naquele meu plano de escapar, só queria terminar tudo de uma vez e rezar para que ele me desse algo de comer depois ou pelo menos me deixasse descansar no quarto.
Tentei puxar conversa mais uma vez e disse:
— Você deve estar com muita raiva da pessoa que quebrou a sua TV.
— Sim, um pouco.
— Você assiste muito TV?
— Não.
— Hum... Será que poderia me deixar assistir qualquer dia desses?
— Tipo um filme? Eu e você? — havia algo como esperança em sua voz.
— Errr... Na verdade, estava pensando em ver o jornal. Sinto-me em outro planeta presa dentro dessa casa.
— Ah não. Isso está fora de cogitação.
— Por quê?
— Pra que precisa saber do que acontece no mundo exterior? Você não faz mais parte dele.
Quando ele disse isso eu parei de varrer o chão por um instante... Ele tinha razão... Eu não fazia mais parte do mundo real, agora, eu era parte do mundo de Charlie. Um lugar distante e solitário, povoado apenas por nos dois, onde ele comandava tudo...
Olhei para a janela da sala que dava para o jardim, provavelmente o mesmo que eu visitara no ano novo... Onde será que nos estamos? No meio do nada? Será que era perto da cidade? Até onde eu sabia podia até mesmo ser outro país... Havia mais pessoas por aqui? Talvez a família de Charlie numa casa ao lado...
Uma imagem passou na minha cabeça de uma provável família de Charlie. Um homem que era a cópia dele mesmo mais velho com olhos cruéis, uma mulher alta e loira com olhos frios e crianças com roupas impecáveis que mais pareciam zumbis... Estremeci.
Quando terminei de catar os cacos da tela estilhaçada da televisão e algumas coisas quebradas que estavam penduradas por ali, Charlie disse que deveríamos levar a televisão para a parte da frente da casa, pois ele iria jogá-la fora.
Nos dois pegamos cada um, um lado e levamos com cuidado e devagar para o quintal da frente. Enquanto estava lá fora pude observar que a fachada era muito bonita, a casa em si tem um estilo bonito. Na garagem havia um carro que parecia ser chique e caro, mas não era a van em que eu havia sido colocada quando vim para cá. Olhei ao redor também. Não havia vizinhos e até a linha do horizonte tudo o que eu via era campinas e florestas, mas sem nenhuma habitação humana.
Aqui era o fim do mundo, sem duvidas.
Depois da televisão foi a hora de levar todos os sacos de lixo e entulhos lá para fora também, mas isso Charlie deixou que eu fizesse sozinha. Quando terminei de colocar todos eles lado a lado na parte da frente da casa, eu perguntei:
— Por que está me mandando fazer isso?
— Porque eu posso.
— Por que não faz sozinho? Ou pelo menos me ajuda?
— Por que eu faria isso se tenho você?
Bufei com raiva e disse:
— Menino mimado.
Foi a primeira vez que eu havia insultado Charlie em voz alta e dirigida diretamente para ele (tirando a vez em que o chamei de monstro, mas não sei se isso conta) e ao contrário do que imaginei, ele apenas gargalhou e disse:
— Ah menina, isso que você fez hoje não é nada comparado ao que eu era obrigado a fazer quando menor. Acredite em mim quando digo que você está reclamando de barriga cheia.
Ele passou por trás de mim e segurou meu cotovelo para me puxar na direção da casa mais uma vez. Não protestei, até porque não faria muito sentido fugir naquela hora. Provavelmente eu daria três passos e cairia no chão. Já estava fraca e com fome e todo esse trabalho havia esgotado as minhas forças.
Quando estávamos de volta no hall de entrada eu disse:
— Será que você poderia me dar alguma coisa para comer antes de me levar de volta para o quarto?
— Hum... Talvez. — Ele colocou a mão no meu ombro e fez com que eu me virasse de frente para ele — O que você me daria em troca?
Em outros tempos eu teria ficado vermelha até a ponta do dedo, teria começado a gaguejar e talvez até chorasse... Mas eu havia mudado naquele quarto, naquela prisão... Com aquele homem.
Eu disse:
— Vai ser assim agora? Serei sua empregada e quando quiser comida terei que foder com você?
Apesar do que eu imaginei, Charlie apenas deu um sorrisinho sacana de canto e disse:
— Você está ficando um pouco mais assanhada, não acha Emily?
Isso me deu liberdade para que continuasse com aquela postura:
— Talvez eu só esteja cansada dos seus joguinhos. — Eu disse.
— Ah, mas são tão divertidos. Você não gosta de jogar Emily?
— Não esse tipo de jogo.
Charlie apenas riu um riso baixo e contido. Depois, disse:
— Então, vamos direto ao assunto.
Ele se aproximou, me pegou pela nuca e num rápido movimento puxou-me ao seu encontro, forçando-me a colar os lábios.
Tentei levantar minhas mãos, queria bater nele, mas descobri que não conseguia esticar meus braços grassas a corrente que juntava as algemas que prendiam minhas mãos com as que prendiam meus pés.
Como não pude fazer isso, resolvi morde-lo e na primeira oportunidade que tive cravei meus dentes na sua língua. Ouvi um urro de Charlie e logo depois senti um tapa vindo do lado direito do meu rosto. Eu me desequilibrei e cai no chão devido as algemas, não podendo fazer muita coisa para aparar minha queda.
Quando fui me levantar, Charlie colocou o pé em cima da minha cabeça prensando-me no chão... Isso me lembrou da vez em que ele fez a mesma coisa comigo no meu quarto... Eu urrei e disse:
— Tire seu pé de cima de mim, seu grande idiota.
— Realmente, está mais arisca — ele pisou mais forte — Mas devo dizer que isso não é uma vantagem para você.
Charlie tirou o pé de cima de mim e pressionou a lateral de meu corpo de forma a me fazer virar de peito para cima. Logo depois ele pisou em cima dos meus seios e eu urrei mais alto ainda. Aquilo doía mais do que todas as boladas que eu já havia levado naquela parte em toda a minha vida durante a educação física. Ele continuou:
— Saiba Emily que quanto mais me desobedecer, mais irá sofrer.
Ele se inclinou para perto de mim. O que ele faria? Espancaria-me? Estupraria-me? Colocaria-me naquele porão frio e escuro? Privaria-me mais ainda de comida? Faria tudo isso?
Mas, nada disso aconteceu, pois quando a mão de Charlie estava perto de me alcançar, nos dois ouvimos um barulho alto e mecânico que fez dois sons:
DING DON.
Era a campainha. Essa era a minha chance. Apenas há alguns passos da porta de entrada, qualquer pessoa me ouviria se eu gritasse... Eu iria me livrar... Só precisava me agarrar àquela oportunidade e ter coragem o suficiente!
Fale com o autor