Abusada ll - Sequestrada
33 Investigação...
Notas iniciais
A Sargento Valentina estava terminando de digitar o relatório do último caso que teve. Finalmente, sua divisão havia pegado o serial killer que estava assassinando mulheres jovens que haviam acabado de passar por um divórcio. Longa história em que no final, o importante era que haviam conseguido apreender o responsável... Aquilo, felizmente, não se tornaría uma mancha no seu histórico perfeito. Esse lugar estava reservado para um caso em especial. O desparecimento de Emily Gomez Doyle que, mesmo após quatro anos, ainda não havia sido encontrada.
Céus, Valentina não conseguia pensar naquele caso sem que suas entranhas se revirassem de raiva de si mesmo. Ela havia falhado... Entretanto, uma boa notícia! Não fazia muitos dias que o celular da menina Emily fora encontrado!
O aparelho fora achado em um rio a alguns quilômetros fora da cidade por pescadores locais de uma pequena vila próxima. Tal rio era extenso e tinha origem num condomínio de sítios de luxo... Valentina duvidava que os pobres moradores da vila tivessem alguma coisa a ver com o crime, por isso, todas as suas suspeitas estavam viradas para os ricaços dos sítios.
De repente, como se lendo os pensamentos da Sargento, o telefone toca informando que o setor de computação havia conseguido informações com o dito celular. Valentina deu um
último gole no seu café e se dirigiu ao laboratório de TI, três andares abaixo de onde estava.
Jimmy era o profissional de TI da policia. Ele tinha apenas 24 anos, era loiro com o cabelo encaracolado, baixinho e gordinho. Sua sala era toda enfeitada, cheia de bonequinhos e ursinhos de pelúcia. Digamos que ele era uma pessoa muito feliz e extravagante. Assim que a Sargento, com a cara amarrada, entrou, ele disse:
— O que a traz ao meu covil secreto, Val?
— Celular da Srta. Gomez. Agora.
— Bom dia pra você também.
Revirando os olhos, Jimmy guardou sua caneta rosada na orelha e começou a digitar com suas unhas perfeitamente pintadas no amplo computador. Quando terminou, alguns minutos depois, disse:
— Então, Emily é outra garota excluída de quatorze anos. Suas ligações se resumem à mãe e à irmã. Quase nenhuma foto, mas a garota tem um bom gosto para leitura — ele disse com os olhos brilhando ao visitar a lista de downlouds de Emily — Imagino que já tenha interrogado todos os contatos relevantes do Whatsapp.
— Está dizendo que não há nada de útil?
— Por favor — ele revirou os olhos — Esqueceu com quem está falando? Achei uma mensagem suspeita de um celular descartável. Aqui está ela.
Jimmy mexeu no mouse e apareceu em uma das telas uma mensagem de um número desconhecido na agenda da menina:
“ Talvez não tenha percebido pelo meu pequeno discurso no carro, mas quando eu perceber que você deu um passinho para fora da linha, eu posso cuidar para que você nunca mais veja nem sua família, nem seus amigos e, principalmente, aquele menininho idiota. Não se esqueça Emily, você é meu brinquedo e brinquedos devem sempre obedecer seus donos... Tenha um bom dia, minha pequena.”
— Isso é interessante. — disse a Sargento.
— Pobre garota... Alguém a estava ameaçando, não é?
— Sim.
Agora Valentina entendia o que Hector e Franklin diziam. Emily, realmente, estava com medo de alguém.
“E esse alguém... Ele ou ela poderia a estar perseguindo ou pior... E quanto a essa ameaça no final...”
Rapidamente, ela perguntou a Jimmy:
— Não tem um modo de descobrir quem enviou a mensagem?
— Desculpe querida, mas um celular descartável é impossível até para mim.
Sem se despedir, Valentina saiu pisando duro da sala de TI e dirigiu-se para a sua própria, batendo a porta em seguido e assustando a todos na Delegacia. A chefe estava de mau humor.
“Argh! Teria sido melhor não achar essa mensagem. Agora eu sei que aconteceu alguma coisa, mas não posso fazer nada!”
Ela chutou a mesa furiosa. Porém, ela precisava se acalmar. Sabia que nervosa e frustrada não conseguiria avançar em nada no caso. Precisava ficar calma e clarear a mente. Respirando fundo, a Sargento sentou-se à mesa e voltou ao trabalho.
Havia descoberto que a lista de proprietários do condomínio de sítios que tinham uma propriedade onde o rio cruzava havia sido completa pelo seu pessoal. Ela deu uma rápida lida, mas não havia nenhum nome conhecido. Decidiu-se em ligar para Jimmy novamente.
— Jimmy, os antecedentes das pessoas da última lista que me enviaram.
— Sabia que iria pedir isso chefe. Já está feito.
— Muito bem. E?
— Nada de muito interessante. Apenas um jovem chamado Joshua Heriksen que foi preso por dirigir alcoolizado, os pais dele moram lá.
— Alguma relação dele com a vítima?
— Não, senhora.
Valentina bufou. Então, teve uma ideia. Perguntou para o telefone no viva-voz:
— Cruze os dados para ver se alguém lá tem alguma relação com a vítima.
— Sim, senhora. Isso pode demorar um pouco.
— Leve o tempo que precisar.
Depois da breve conversa, ela desligou o aparelho e pegou seu café. Ele estava frio, então ela não se deu ao trabalho de tomá-lo.
Suspirando, a mulher voltou-se para a papelada atrasada que devia preencher em seu escritório.
[...]
A Sargento havia dado apenas três garfadas no seu almoço atrasado quando Jimmy retornou e Valentina teve que parar de comer para atender o telefone.
A voz de Jimmy serpenteou para fora do aparelho:
— Chefe, aparentemente o mais novo dono de um dos maiores sítios já foi o Diretor da escola da vítima.
— Nome?
— Charlie Ross Burnier.
— E você disse que ele era dono da maior casa?... O que um cara rico como esse estaria fazendo sendo Diretor de uma escola comum?
— Bom, pelo o que eu vi o pai morreu há uns quatro anos e ele ganhou uma herança enorme. Não demorou nem uma semana, já havia largado o emprego e o apartamento e se mudado.
— Então até quatro anos atrás ele ainda era o Diretor da escola da vítima?
— Pelo o que consta aqui, sim.
— Poderia me dizer quando ele largou o emprego?
— Oito de Dezembro... Oh, no mesmo ano em que Emily desapareceu.
— Apenas dois dias antes... Isso é muito suspeito... Obrigada Jimmy.
Valentina desligou o telefone e levantou-se rapidamente. Depois que abriu a porta e correu o olho pela ampla sala repleta de mesas ela viu que a Detetive Judy estava livre então ordenou que ela e seu parceiro fossem até a casa do homem investigar.
[...]
Judy apertou a campainha da enorme mansão e logo depois começou a arrumar suas vestes. Claro, que Nicholas teve o prazer de estragar seu trabalho remexendo em seus cabelos. Ela suspirou e lançou um olhar emburrada para seu parceiro, voltando a arrumar os cabelos.
Judy Lapan e Nicholas Renard eram policiais há muito tempo e sempre foram parceiros. Ela havia entrado alguns anos antes que ele na delegacia, era muito mais baixa que o normal e era muito magra, apesar dos quadris serem muito largos e as pernas musculosas devido ao seu treinamento na polícia. Judy também tinha os cabelos curtos e descoloridos num tom cinzento com olhos grandes e azuis.
Já Nicholas era o extremo oposto, alto e esbelto, porém com os braços mais musculosos. Ele tinha o cabelo igualmente curto, repicado e ruivo. Seu nariz era meio pontudo e sardas acompanhavam seu rosto. Seus olhos eram mais estreitos e verdes.
Apesar dessas diferenças, eram parceiros perfeitos e melhores amigos.
A resposta estava demorando a chegar, então Judy tocou a campainha de novo. Dessa vez puderam ouvir uma voz irritada vinda de dentro e dizendo:
— Vai embora, Frederick!
Os dois policiais se olharam e então Judy limpou a garganta antes de dizer, elevando seu tom de voz:
— Senhor, somos detetives da polícia.
Silêncio completo e total novamente. Judy começou a ter um mau ressentimento. Esse tipo de coisa costumava acontecer nos casos e, raramente, ela estava errada. Entretanto, antes que pudesse compartilhar suas suspeitas com Nic, a porta foi aberta.
Um homem jovem e atraente a abriu. Vestia uma calça jeans larga e uma blusa social branca, os cabelos, ligeiramente longos e escuros estavam molhados e uma toalha cobria seus ombros. Ele sorriu gentilmente e disse:
— Perdão, não estava devidamente vestido.
— Boa tarde, Senhor Ross. — disse Nicholas, sorrindo e mostrando o distintivo, Judy fez o mesmo — Gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas.
— A respeito de que?
Ele parecia calmo e curioso, uma reação normal, entretanto, Judy continuava com aquela pulga atrás da orelha e antes que Nic pudesse responder o homem, ela disse:
— Um celular que pertence a uma vítima desaparecida que estamos investigando foi encontrado nos arredores da sua propriedade.
Durou um segundo e foi quase imperceptível, mas a oficial Lapan jurou que viu os olhos de Charlie olharem para cima preocupados. Porém, ele logo adotou uma expressão de estranhamento e disse:
— Jura? Que estranho... Bom, devo dizer que adquiri a casa recentemente, talvez consigam mais informações com a minha irmã.
— Receio que não, senhor. — continuou Nicholas — a vítima desapareceu na mesma época que ganhou a casa.
— Não vai nos convidar para entrar?
Disse Judy estreitando os olhoos para o homem. Estranhamente, ele não pareceu se intimidar, apenas envergonhou-se e disse:
— Ah, claro. Perdão.
Ele abriu passagem e os detetives começaram a rondar o ambiente com os olhos atentos para qualquer coisa fora do comum. Charlie disse:
— Poderiam me dar mais detalhes, por favor? Creio que estou em desvantagem.
— Bom, a vítima é Emily Gomez Doyle. Conhece algo dela?
— Hum... O nome não me é estranho...
— Ela foi uma de suas alunas quando era Diretor.
Disse Judy. Charlie sorriu e respondeu:
— Ah são tantos alunos. É impossível me lembrar de todos os nomes. Mas agora que falaram, lembro-me de uma Emily. Menina inteligente. Desapareceu a algum tempo, certo?
— Quatro anos.
— E... Ainda a estão procurando?
— Mas é claro, senhor — respondeu Judy, seu senso de dever falando alto — Não descansaremos até encontrá-la.
— Entendo.
E lá estava. Aquele pressentimento perturbador, porém dessa vez ainda mais forte. Judy se orgulhava de ser uma pessoa sensitiva, porém, naquele momento, desejaria não ser. Era quase como se aquele homem estivesse apontando uma arma contra ela.
— Ei Judy.
Foi quando Nicholas a cutucou que ela pareceu despertar de seu transe. Judy balançou a cabeça e, rapidamente, se recompôs. Charlie quebrou o silêncio dizendo:
— Vocês disseram ter algumas perguntas?
— Sim, Senhor Ross — disse Nicholas — O senhor mora com alguém?
— Não, apenas eu.
Então os olhos da policial pousaram na panela de comida sendo feita no fogão da cozinha, que era separada por uma bancada entre eles. A oficial disse:
— Muita comida para uma pessoa.
— Sim, estou esperando companhia para o jantar.
— Então, por que não abriu a porta para nós de primeira?
Dessa vez foi Nicholas quem perguntou. Sorrindo, Charlie respondeu:
— Minha acompanhante é muito pontual, então sabia que não era ela. Frederick é meu tio e ele tem a fama de aparecer sem ser convidado. Acontece que não gosto de receber muitas visitas.
— Uhum.
— Poderia nos mostrar a cachoeira da sua propriedade? Fica muito longe? — perguntou Wilde.
— Na verdade, não. Por quê ?
— O celular foi encontrado nas águas desse rio.
— Ah sim. Mas esse rio é muito longo. Quase todos os moradores tem uma parte perto de suas casas.
— Sim, mas você é o único com envolvimento direto com a vítima então, decidimos começar por vocês.
— Ah sim, Bom, queiram me acompanhar até a cachoeira.
As três figuras atravessaram a casa e o quintal, entrando na trilha um pouco escondida na floresta. Pouco tempo depois, Lapan e Renard encontravam-se na cachoeira, observando-a e investigando-a. Se e celular tivesse vindo de um nível acima, seria quase impossível que ele parasse naquela queda d’água. Da mesma forma, se tivesse sido jogado ali, seria difícil de ser encontrado. Aquilo foi questão de pura sorte...
Não havia muito mais a fazer então eles, rapidamente, voltaram. No caminho, Nicholas perguntou:
— Senhor Ross, disse que a Srta. Gomez era muito inteligente. Vocês se cruzavam muito na escola?
— Bom, ela vinha muito a minha sala receber prêmios e parabenizações, se é isso que quer dizer. Porém nunca me encontrei com ela para algo além disso.
— Entendo. E quando foi a última vez que a viu?
— Hum... Acho que alguns dias antes de me demitir.
Judy também começou a fazer perguntas;
— Essa casa é muito bonita. Deve ter sido muito bom ganhá-la de herança.
— Ah sim. Foi bom ser capaz de me estabelecer. Subir o nível da minha vida.
— Sei. Por que o herdeiro de uma família rica e poderosa como os Ross era Diretor de uma escola comum?
— Eu reneguei minha família desde muito cedo. Vivi pouco tempo nessa casa.
— E essa relação melhorou quando seu pai morreu?
— Na verdade, não. — ele deu um risinho — É complicado. Dramas familiares. Todo mundo tem o seu.
— Certamente.
A essa altura finalmente chegaram até o quintal e caminhavam até a porta da casa. Nesse momento, Judy sentiu como se alguém a observasse. Ela rondou o quintal com o olhar, porém, tudo parecia normal.
A detetive parou no meio do caminho e olhou o segundo andar. As janelas estavam abertas, exceto a pequena do banheiro. Judy fincou seu olhar para tentar encontrar algo, porém tudo continuava da mesma forma. Parado.
De repente, Charlie virou-se e disse:
— Algo errado, detetive?
— Não. Apenas estava observando a arquitetura.
Nic franziu as sobrancelhas estranhamente, mas Charlie apenas sorriu e concordou. Menos de cinco minutos depois os dois parceiros já estavam fora da casa e entrando no carro com Judy no volante.
O detetive Wilde dirigiu-se a parceira e perguntou:
— Então, o que achou?
— Nada de anormal.
— Pois é, eu também. Mas você olhava pro cara como se estivesse prestes a atirar na cabeça dele. Por quê?
— Ah, eu não sei. Apenas um mau pressentimento.
Respondeu a acinzentada encarando a casa, agora completamente quieta e silenciosa. Depois de um tempo, desistiu e ligou o carro partindo daquele lugar.
Pouco tempo depois, Nicholas ainda disse:
— Infelizmente, não podemos prender o cara apenas porque você tem um mau pressentimento.
— É. Infelizmente, não podemos.
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