Abusada ll - Sequestrada
3 Fundo do poço...
Notas iniciais
Olhava para um ponto fixo qualquer. Não fazia diferença para que ponto, já que não enxergava nada, tudo era a mesma coisa.
Estava começando a pensar nos problemas que meus olhos teriam quando eu saísse dali... Ou melhor, se eu saísse dali... Se suportar aquele pequeno feixe de luz já fora demais, imagina com a luz do sol ou em um cômodo iluminado...
Comecei a rir dentro da minha cabeça. Eu aqui pensando na minha visão quando claramente eu tenho problemas muito maiores. Como, por exemplo, ter perdido a força para me levantar já há algum tempo.
Resolvi ficar deitada, pois mesmo sentada eu já sentia certo desconforto. Eu havia passado a mão no meu tórax mais cedo e consegui sentir algumas costelas. Estavam muito aparentes e parecia que queriam saltar para fora da pele... Como será que estava minha aparência?
Tentei me lembrar de como eu era antes disso tudo. Nunca tive um corpo de modelo escultural. Não tinha cintura, tinha aqueles pineuzinhos e minhas coxas, apesar de serem grandes, não eram malhadas... Agora, eu devia estar parecendo àquelas modelos francesas raquíticas... Como alguém se submetia a esse sofrimento por beleza?
Estava com medo de pensar em minha aparência antes, pois sabia que estava diferente agora. Só tinha medo de saber o quão diferente.
Tossi fracamente. Minha garganta estava doendo. Não sabia se era por sede, pela tosse ou por outra coisa. Torcia para não estar doente, nem ter pegado nenhuma infecção no local onde eu estava.
Algo rangeu no andar de cima. Acredito que tenha sido uma espécie de porta. Logo depois ouvi passos.
Meu coração bateu rápido, mas me faltava forças para me movimentar. Torcia para que fosse mais água e comida como da outra vez. Precisava urgentemente disso apesar de que talvez eu não conseguisse levantar para pegá-los.
A pessoa ligou a luz lá em cima e eu vi o feixe descer pelo buraco na porta. Dessa vez ela ficou acesa durante tempo suficiente para que eu pudesse ir abrindo os olhos de pouco em pouco e tentar me acostumar a ela.
Então algo me surpreendeu. Nada foi jogado por aqui pela fresta na porta. O que eu ouvi foi algo pesado sendo remexido e depois um rangido alto... A porta estava sendo aberta!
Com isso, um quadrado inteiro de luz entrou no cômodo e meus olhos reclamaram consideravelmente. Tive de fechá-los por um momento, mas logo os abri.
Vi uma perna descendo pelo buraco. Usava uma calça social negra e um calçado social preto lustroso. A outra perna apareceu e logo o corpo inteiro desceu e parou no chão.
Percebi pela silhueta que era um homem e usava uma camisa social branca com pequenas listras azuis. Ele se virou. Eu reconheci. Era Charlie.
Ele parecia estar mais em forma do que antes, seu cabelo estava maior chegando até os ombros, o que fazia os cachos ficarem menos controlados e mais soltos. Seus olhos estavam brilhantes e ainda mais negros que o próprio espaço. Ele deu um sorriso mínimo de canto e meu corpo inteiro tremeu. O ar faltava nos meus pulmões.
Ele falou:
— Olá Emily.
Sua voz era rouca e se espalhou por cada canto do lugar. Isso foi o bastante para que meus olhos se enchessem de água. No fundo, eu sabia que era ele... Mas não queria admitir. Não queria admitir que meu pesadelo não houvesse acabado... E que talvez ele nunca acabasse.
Quando consegui respirar de novo, um soluço saiu dos meus lábios e eu senti as lágrimas caírem.
Charlie abaixou a cabeça e riu fracamente. Ele me encarou, franziu o cenho e disse:
— Você está com uma aparência bem patética, sabia?
Abri a boca, tentando falar algo, mas nada saia. Acho que havia perdido a voz de tanto mofo, poeira e gritos.
Ele riu de novo. Aquela risada parecia remexer meus órgãos internos. Eu queria matá-lo. Nunca quis mais uma coisa em toda a minha vida. Eu sentia ódio dele. Mais um pouco e meu olhar seria capaz de incendia-lo.
Ele começou a se aproximar de mim e eu me encolhi até que todo o meu corpo estivesse encostado na parede atrás de mim. Ele percebeu, parou no lugar onde estava e disse:
— Isso não vai funcionar se você se comportar assim.
Canalha. Maldito. Desgraçado. Eu o odeio com todas as minhas forças. Charlie continuou:
— Se você não for uma boa menina, não vai ganhar o que eu tenho.
Então ele esticou a mão. Ele segurava um sanduiche. Aquilo me parecia ser um milagre. Podia ver o pão, alface e tomate, uma carne e até algum molho escorrendo. Delicioso. Minha boca salivou e meu estomago roncou. Eu queria aquilo.
Ele riu mais uma vez e disse:
— Realmente. Muito patética.
Ele se aproximou mais ainda e se agachou ficando no mesmo nível que eu e a centímetros de distância de mim agora. Um de seus braços esticou na minha direção e fez uma carícia no meu cabelo. Era o primeiro toque humano que eu sentia há tempos e estremeci perante ele.
Segurando minha cabeça com as duas mãos, ele me puxou para perto de sua própria cabeça. Minhas forças para me debater e tentar fugir dele tinham se esvaído completamente. Mas consegui dizer com uma voz baixa, rouca e arrastada:
— Não.
Ele riu e disse:
— Não? Bom, acho que não vai querer comida então... Não deve estar com tanta fome assim.
Ele não insistiu depois disso. Apenas levantou e andou devagar até estar bem abaixo do foco de luz. Charlie levantou o sanduíche e o balançou bem a minha frente. Depois disse:
— Voltarei em outra hora. Quando você estiver mais faminta e sedenta e desesperada... Isso é, se você aguentar até lá.
Eu comecei a chorar. Cretino miserável. Eu não iria ceder. Eu não queria ceder. Não queria dar esse gostinho a ele. Mas estava com tanta fome e com tanto medo... Relutante, eu disse:
— Espera.
Ele virou a cabeça e olhou para mim em expectativa. Olhei para o chão e disse tão baixo, que me surpreendeu que ele tivesse ouvido:
— Me beije.
Falar aquilo... Senti como se tivesse engolido milhões de facas. Elas desciam rasgando pela minha garganta. Uma névoa de escuridão pairou sobre mim... Eu senti que havia chegado ao fundo do poço.
Charlie sorriu e veio na minha direção, agachou e repetiu o mesmo processo de antes. Dessa vez, nossos lábios se encontraram. Não consegui retribuir o beijo muito bem, pois me faltavam forças. Mas mesmo assim, a língua dele enganchou na minha e enrolou e sugou-a. Ele parecia sedento, ansiava por aquilo. Não só seu beijo era eufórico como suas mãos puxavam minha cabeça de encontro a sua como se quisesse fundir nossos corpos.
Quando terminou, ele não abriu os olhos e sorriu mais uma vez. Seu rosto naquela hora era até sereno e bonito. Depois, colocou o sanduiche na minha mão junto com uma garrafa de água.
Charlie caminhou calmamente até o buraco e subiu de novo. A luz apagou, as portas foram fechadas e foi apenas quando eu me vi na completa escuridão e quando não havia mais nenhum som que eu me senti segura o suficiente para comer o sanduiche.
Apesar de claramente ser melhor que a última coisa que eu havia comido e de que eu estava com a fome igual ou superior. Aquela refeição foi a pior que eu já havia feito.
Meu estomago se revirava a cada mordida e eu engasgava constantemente. Era como se meu corpo estivesse entrado em rebelião contra mim... Como se meu corpo soubesse a coisa horrível que eu havia feito e me detestasse.
Não parei de chorar nem um segundo sequer. Quando terminei, ainda havia um pouco de água na garrafa e apesar de ter ganhado energia com a comida, sentia como se minhas costelas se fechassem sobre o meu coração... O ambiente ao meu redor parecia cada vez menor, como que querendo me esmagar...
Eu sabia que, naquele momento, se eu tivesse qualquer objeto para tal. Eu me mataria...
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