Abusada ll - Sequestrada
11 Delegacia...
Notas iniciais
Narradora
Era um dia duro para Valentina Marcuzzo. Fazia cerca de apenas um mês desde que fora promovida a sargento e, como se o destino quisesse lhe pregar uma peça, logo lhe fora designado o caso mais difícil de sua carreira: o desaparecimento de uma garota de quatorze anos chamada Emily Gomez Doyle.
Sentada em sua sala, ela observava a mesa a sua frente repleta de fotos da vítima e familiares, relatórios de detetives, interrogatórios com familiares e possíveis suspeitos... E, dentre eles, nenhuma pista em potencial.
As imagens da câmera na entrada do condomínio apenas mostravam a vítima saindo e caminhando. Nenhum familiar lhe disse um possível paradeiro útil ou um possível suspeito.
Pelos céus! Uma menina não podia desaparecer assim sem mais nem menos!
E para piorar, haviam descoberto que havia roupas e pertences desaparecidos do quarto da menina, o que significa que as chances de ela ter fugido por conta própria eram grandes. E mesmo que isso não demonstrasse diferença para a determinada sargento, a motivação de seus detetives parecia ter ido por água a baixo.
Para eles, não faria sentido continuar procurando por alguém que simplesmente não queria ser achada. Valentina não conseguia entender isso. A menina tinha apenas quatorze anos, tinha que ter algum problema sério para ela ter fugido.
Quando quebrava a cabeça tentando encontrar algo de útil, alguém bateu na sua porta e ela autorizou a entrada. Era o detetive Jhonson dizendo que a Senhorita Gomez estava na delegacia e queria conversar com ela... De novo.
Eglantine Gomez, irmã mais velha da vítima, era a familiar mais preocupada com o caminho que a investigação tomava. Em momentos como esse, cada um se porta de uma maneira diferente. Enquanto a irmã preocupava-se em querer a menina de volta o mais rápido possível, a mãe parecia mais desolada com o fato de que não conseguiu fazer nada para impedir o ocorrido.
Valentina retirou os óculos de leitura e os deixou na sua mesa. Levantou estalando o pescoço dolorido e caminhou até o lado de fora onde estava a senhorita Gomez.
Seus subordinados tinham a conduzido até uma sala separada e tinham dado a ela uma xícara de café para que esperasse.
Eglantine trajava uma roupa totalmente preta e usava óculos escuros, provavelmente para esconder as olheras e os olhos vermelhos de choro, seu cabelo azul estava meio desbotado e sem brilho e ela mascava um chiclete com força, mantinha os braços cruzados e carregava uma carranca.
Quando Valentina apareceu, a jovem já foi a atropelando com perguntas:
— Então, o que descobriram hoje? Outra ligação com pistas? Alguma câmera da cidade capturou-a?
— Todas as ligações anônimas que recebemos hoje não nos trouxeram nenhuma pista verdadeira e sua irmã ainda não foi capturada em nenhuma câmera.
— O que você está me dizendo é que nesse prédio inteiro não teve uma mísera pessoa que pudesse achar minha Emily em quase duas semanas?
Valentina suspirou e abaixou a cabeça. Deveria ser ruim perder a irmã de uma hora para outra dessa forma. A sargento estava fazendo de tudo, mas simplesmente não havia pistas suficientes.
— Sentimos muito, mas tem que acreditar em nós quando dizemos que estamos fazendo o máximo possível.
Apesar do pouco tempo de convívio, Valentina sabia que Eglantine estava revirando os olhos por trás das lentes escuras dos óculos. Por fim ela apenas disse:
— Você e as pessoas dessa maldita delegacia acham que Emily fugiu, mas eu sei que aconteceu alguma coisa ruim com ela. Emily não ficaria longe por tanto tempo... Ela não passaria o natal sem dar nem uma notícia. Não a minha Emily... Então, eu sugiro a você que ache a minha irmã. E que seja rápida.
Ela levantou e saiu andando batendo os saltos dos sapatos com força no chão e chamando a atenção de todos na delegacia. Eglantine Gomez fora embora.
Enquanto isso, a sargento voltou a sua sala e continuou pensando. Até agora não havia nenhum motivo plausível para a menina ter fugido... Precisava descobrir mais da vida da garota... E havia apenas um lugar onde adolescentes escondiam sua vida por completo. E esse lugar eram seus celulares.
Pediu o detetive Jhonson que chamasse o tal Franklin, amigo da menina e o último que havia conversado com ela. Precisava interrogá-lo mais uma vez.
[...]
Uma hora depois Franklin Herman estava sentado na cadeira a frente da mesa do escritório da sargento com uma lata de refrigerante intocada na frente e parecia incomodado. Pobre garoto.
Fora atropelado por jornalistas e policiais durante a primeira semana depois do desaparecimento de Emily e ele não gostou nada disso. Nunca colaborou com a imprensa, mas tentou ser diferente com os policiais. Mas Franklin já estav cansado daquilo. Perguntas e mais perguntas que só faziam ele reviver lembranças de Emily (lembranças que ele não queria reviver no momento) e que no final não adiantavam em nada para encontrá-la.
Valentina queria tranquiliza-lo e começou dizendo:
— Desculpe chamá-lo mais uma vez aqui Senhor Herman, mas é importante que saibamos cada detalhe do desaparecimento da Senhorita Gomez.
— Eu já disse tudo o que eu sei para os seus policiais. Eu juro.
— Sim, eu sei. Mas poderia repetir para meus próprios ouvidos, por favor?
Franklin suspirou e começou a dizer mais baixo:
— Naquele dia eu e Emily brigamos. Eu ia me mudar e não contei para ela antes... Mais tarde, resolvi ligar para ver como ela estava e ela me disse que ia fugir. Eu disse para ela não fazer aquilo e já estava preparado para tentar impedi-la, mas...
— Mas?
— Alguma coisa aconteceu. Ela disse “Franklin, tem algo errado.”... Eu ouvi um barulho, acho que foi o celular caindo no chão e depois mais nada... Ela tinha sumido.
— E depois ligou para a polícia?
— Sim. Continuei com a ligação no meu celular para ver se os policiais podiam rastrear o celular dela e liguei do fixo da minha casa... Porém, depois de um tempo a ligação caiu sem nenhum aviso.
— Eu vejo... Tem certeza que não ouviu nada depois de Emily ter dito aquilo? Algum barulho de luta, talvez gritos...
— Não... Mas eu sei que aconteceu alguma coisa de ruim a ela.
— Eu vejo... Senhor Herman, Emily não queria que você impedisse ela, certo?
— Sim senhora.
— Então, será que, talvez, ela não tenha armado o desaparecimento dela e do celular para que você não fosse até ela?
— O que? Não, não, não, não. Emily não faria isso.
“Emily não faria isso.”
Essa maldita frase já havia sido dita por cada conhecido da vítima que Valentina havia interrogado e aquele não era o primeiro caso em que isso acontecia... Quer dizer, quantos casos ela já havia visto que as coisas mudavam de figura completamente, pois o perfil que todos os familiares achavam certo simplesmente não existia? De uma hora para a outra a vitima poderia se tornar o culpado ou vice versa... Pessoas tomadas por emoções e dizendo coisas como “ela ou ele não faria isso” não eram fontes muito seguras...
Em compensação, o menino não se deteve e continuou a defesa de sua amiga:
— Emily podia estar meio louca... Mas eu sei que aconteceu alguma coisa para ela fugir de casa daquele jeito.
— A irmã disse que ela e a mãe estavam tendo uma discussão no andar de baixo.
Franklin balançou a cabeça negativamente e continuou:
— Não, isso era até comum. A irmã mais velha não morava mais em casa... Acho que foi uma briga feia entre ela e a mãe... Talvez tenha envolvido Emily — A sargento não perdeu tempo em anotar esse detalhe até então oculto em seu bloco de anotações — Mas tenho certeza que não foi só por causa disso... Emily não estava na melhor fase da vida... Alguma coisa estava acontecendo com ela.
— Melhor fase? Quer dizer a adolescência?
— Não. Mais que isso... Emily sempre foi quieta e tímida, mas feliz e, pelo menos comigo, era risinha e sempre fazia piadas... Só que de uma hora para a outra... Eu não sei, ela começou a parecer acuada. Sempre olhando os cantos, mais calada que o normal, os olhos vermelhos e inchados, emagreceu de repente... Começou a não fazer os deveres, às vezes não prestava atenção na aula e desconfio que ela tinha péssimas noites de sono.
— O que acha que pode ter acontecido com ela?
Franklin continuou balançando a cabeça em negação. Ele realmente não sabia muita coisa, mas era possível ver que estava tentando:
— Primeiro achei que fosse por causa de Héctor. Um namorado que ela teve. Houve problemas, eles terminaram e Emily ficou muito triste.
— O sobrenome dele é?
— Agabo. Hector Agabo.
Valentina anotou isso em seu bloco também. Iria interrogar o menino mais tarde. Ver o que ele sabia sobre a vida de Emily até então e porque eles terminaram.
— Mas eu percebi que ela já estava estranha antes dele. Achei também que fosse as amigas Eliza e Jéssica e o súbito afastamento das três — a sargento já estava sabendo daquela história e já havia falado com Eliza, não conseguindo nada de muito útil — mas acho que foi antes disso também... Só sei que da noite para o dia, ela mudou totalmente... Deixou de ser a garota que eu conhecia...
— E não acha que isso possa tê-la feito fugir?
— Não... Emily não me enganaria e diria que tinha algo errado... Não daquela forma, não com aquela preocupação... E-eu sei que pode parecer loucura... Mas e se alguém tiver pegado ela?
— Não descartamos essa possibilidade ainda.
— Sei... Mas estou falando serio... Emily não daria um sumiço desses... E eu sei que tinha alguma coisa de estranho acontecendo com ela... Acho... Acho que as duas coisas podem estar relacionadas...
— Do que está falando? Acha que Emily estava se envolvendo com pessoas ruins?
— Não do modo como você está pensando.
— Você disse que ela parecia acuada e vivia olhando para os cantos. Talvez estivesse alguém atrás dela. Acha que ela pode ter se envolto com drogas ou com pessoas perigosas?
— Não! Está doida?! Emily nunca faria isso! Ela é boazinha demais para essas coisas.
Ele por outro lado... O que poderia dizer? Franklin não era o cara mais certinho do mundo. Uma vez experimentou os cigarros de seu pai. Certo que odiou toda aquela nicotina, mas foi diferente quando, mais tarde, por intermédio de alguns garotos da escola, provou maconha numa festa. Depois disso, ele passou a fumar constantemente escondido de seu pai e irmãos.
Uma vez mostrou os cigarros para Emily e perguntou se ela queria experimentar também. Ela torceu o nariz fortemente e disse que não gostava daquilo, disse também que ele deveria parar.
Franklin não parou, claro, mas nunca mais fumou perto de Emily ou mostrou-lhe mais cigarros, nem sequer tocou no assunto... Porém, por algum motivo, não conseguia nem sequer encostar em maconha desde que sua melhor amiga sumira... Sentia muita falta dela... Doía muito aquela falta... E ele não queria remendar a dor fazendo algo que Em não aprovava...
Terminada toda a discussão, Franklin foi embora depois de um aperto de mão com a sargento e Valentina ficou sozinha no seu escritório novamente. Pediu a Jhonson e seu parceiro que fossem até Hector saber mais de Emily e foi até o centro de tecnologia saber se já tinham feito algum progresso em achar o celular da garota... Precisava daquele celular. Precisava de mais informação...
Fale com o autor