Dia 26 de Dezembro. O dia mais estranho de todos. Charlie disse que me amava... E esperava que eu correspondesse esse amor. Eu. Emily Gomez Doyle. A menina que ele sequestrou quando tinha 14 anos. Ele queria que essa mesma pessoa dissesse que o amasse também...

Suspirei e deitei minha cabeça no sofá. Finalmente havia acabado de arrumar a casa e estava exausta! Charlie é muito sistemático com sujeira, então temos que limpar todos os cômodos todos os dias. Por “temos” eu quero dizer “eu tenho”. Ele fica no escritório trabalhando e, ás vezes, como hoje, vê que eu estou muito cansada e cozinha para nós.

Na televisão passava um filme de ação muito chato cheio de explosões e fugas de carro, mas sem nenhuma estória de fato. Odeio filmes assim. Infelizmente, Charlie tranca os controles da televisão em uma gaveta quando estou assistindo... Uma vez, liguei no canal onde passava o noticiário da tarde e vi uma notícia sobre um roubo de banco. Charlie não gostou. Não que tivesse alguma coisa a ver com a notícia... Ele só não queria que eu visse qualquer notícia sobre o mundo lá fora. Lembro-me dele dizendo:

“Você não vive mais lá. Para que quer saber de um lugar do qual não tem nenhuma relação?”

E tudo o que eu pude responder é: você tem razão.

Desde então só assisto o que ele quer. Eu odeio o gosto de Charlie.

Apesar do dia 26 de Dezembro ter sido consideravelmente estranho. O tratamento de Charlie comigo melhorou consideravelmente depois. Raramente ele me batia. Na verdade, quando ele me machucava era devido a uma explosão de raiva que logo era seguida de milhares de desculpas. Claro que essas desculpas não faziam meus cortes fechares, meus hematomas desaparecerem ou meu ombro voltar para o lugar. Ah sim, Charlie conseguiu deslocar meu ombro e quase me matar quando me jogou da varanda do segundo andar. Sai repleta de cortes por cair em cima dos arbustos no chão, levei uma pancada na cabeça que fez abrir outro corte e desloquei o ombro.

Surpreendentemente, meu sequestrador era muito bom em primeiros socorros. Acho que ele daria um bom médico se não tivesse as tendências psicopatas que tem. Sua mão é firme e ele permanece calmo e em silêncio não importa o quanto eu esteja gritando ou o xingando.

— Emily! Jantar!

Levantei-me e comecei a me dirigir até a cozinha. Ainda bem que não sofri nenhum ferimento grave nas pernas, pois se Charlie me obriga a fazer as tarefas de casa mesmo com o ombro machucado, não acho que será diferente no caso das pernas.

Quando cheguei até onde meu sequestrador estava sentei-me na pequena mesa já posta para dois e esperei. Meu ombro ainda doía um pouco e estava ligeiramente inchado, então fiz uma pequena massagem nele enquanto me sentava em meu lugar. Charlie percebeu e perguntou:

— Doendo?

— Incomoda um pouco, mas já está ficando melhor.

— Ótimo — ele se inclinou e plantou um beijo em meus lábios — Minha garota é muito forte.

Eu retruquei bem baixinho:

— Talvez eu melhorasse mais rápido se não tivesse que varrer e espanar todo dia com esse braço.

Claro que meu tom não impediu que ele ouvisse, fizesse uma de sonso e perguntasse:

— O que disse, princesa?

— Nada, Charlie.

— Uhum. Claro que esses machucados não teriam acontecido se alguém não tentasse matar o companheiro.

Não foi exatamente isso. Apenas entramos em uma discussão que começou porque Charlie achou que a minha maneira de arrumar a cama não era a correta e terminou comigo atirando um enfeite de vidro na sua direção. Infelizmente, os reflexos de Charlie eram rápidos, ele desviou facilmente e, com a fúria ardendo nos olhos, veio na minha direção e começou a me empurrar. De acordo com ele, não tinha percebido que a porta da varanda estava aberta, mas eu cai de qualquer jeito. Bufei com sua resposta e disse:

— Eu não tentei te matar — “Apenas te machucar gravemente”, completei em minha mente — Foi só uma explosão de raiva. Você tem isso o tempo todo. Aquele soco no estômago antes de ontem ainda dói.

— Ta, chega. Levanta a cabeça.

Eu estava olhando para a bancada de mármore, como eu sempre fazia quando falava com Charlie, então me ergui e o encarei. Meu sequestrador observou o machucado em minha cabeça, qual ele limpou e suturou. Sim, não estava brincado quando disse que Charlie era ótimo em primeiro socorros. Claro que doeu como o inferno, entretanto, acabei desenvolvido uma estranha tolerância a dor física.

Depois que ambos lavamos as mãos, estávamos sentados e comendo em silêncio, como qualquer casal. Um tempo depois ele disse:

— Quando terminar de comer e de arrumar a cozinha, vá para o banheiro da minha suíte. Preciso trocar os seus curativos.

— Sim, senhor... Charlie, onde aprendeu a fazer isso? Algum curso?

— Mais ou menos. Sabia o básico desde que era criança. Depois de velho apenas aperfeiçoei os curativos para que, se fosse necessário fazê-los, não ficasse parecendo o trabalho de um açougueiro.

— Desde criança? Quer dizer que... Aprendeu enquanto estava com seus tios?

Percebi que ele ficou tenso quando eu mencionei seus tios. Perguntei-me se sempre será assim comigo... Se, ao me lembrar de Charlie e da vida qual eu vivo, eu iria ficar com medo também... De qualquer forma, ele respondeu:

— Sim... Era necessário. De dia, eu tinha permissão para usar a caixa de primeiros socorros da casa. Aprendi a maioria das coisas na marra mesmo.

— Hum.

Depois disso o jantar ficou ainda mais silencioso e com um clima pesado instalado. Enquanto apreciava o frango que Charlie fez, eu o observei... Ele usava uma blusa social fechada até o pulso e calças também sociais... Raramente via Charlie com mangas curtas, apenas quando ele voltava de sua corrida matinal.

Esse homem sofreu o mesmo ou pior que eu em sua infância e adolescência. Eu reconheço que tenho cicatrizes eternas, mas será que ele também tem? Curiosa, perguntei:

— Charlie, você tem alguma cicatriz externa daquele tempo?

Ele parou de comer e olhou para mim. Ficamos em silêncio pelo que pareceram minutos até que ele respondeu:

— Por que a pergunta?

— Ora, eu nunca as vi. E eu mesma tenho tantas...

Ouvi-o suspirar e revirar os olhos. Charlie disse:

— Você não presta tanta atenção ao meu corpo quanto eu presto no seu.

— Hum... Será que eu poderia ver?

— Não.

E continuamos comendo. Às vezes eu, realmente, tentava manter um diálogo com Charlie, porém ele sempre parecia tão fechado. Que droga, nos conhecemos há três anos e moramos juntos! Será que eu serei obrigada a falar com ele sobre os mesmos assuntos eternamente?

Ele deve ter visto que eu fiquei irritada, pois perguntou:

­— Não gostou da comida?

— Você não quer me mostrar suas cicatrizes.

Ele desviou o olhar e perguntou, irritando-se também:

— Ah vai ficar bravinha por causa disso agora?

— Todas as minhas cicatrizes foi você quem causou. Então você conhece todas. Por que não posso ver as suas?

— Por que, de repente, ficou tão curiosa sobre as minhas cicatrizes?

— Eu não sei. Só quis saber, ora!

— Argh! Estamos no meio de uma refeição Emily!

— Então me mostre quando acabarmos.

Ele me ignorou e voltou a comer e eu também o fiz. Talvez tenha sido demais ficar com raiva dele por causa de uma coisa dessas. Entretanto, eu uso qualquer desculpa para ficar com raiva de Charlie. Eu gosto de discutir com ele. Eu quase acho que tenho algum poder nessa casa...

Depois que terminamos foi minha vez de recolher a louça, lavá-la, guardá-la e fazer tudo o mais que tiver de arrumar na cozinha. Enquanto fazia isso, Charlie sentava no balcão e comia um grande sorvete de chocolate amargo. Ele havia me oferecido um pouco, mas eu havia recusado... Odeio sorvete de chocolate, ainda mais amargo.

Quando já estava quase terminando, ouvi Charlie falar atrás de mim:

— Eu escondi a maioria delas.

— Hã?

— As cicatrizes. Eu escondi a maioria delas logo depois de sair da casa dos meus tios. Obriguei meu pai a pagar as cirurgias e medicamentos. As mais profundas ainda restaram.

— Então vai me mostrar?

Eu pensei que ele iria dizer “sim”, porém, apenas suspirou. Depois, levantou-se, colocou a tigela vazia na pia e disse:

— Quando terminar, vá até o banheiro.

E subiu, provavelmente para preparar tudo o que precisava. Revirei os olhos e terminei de arrumar a cozinha. Em seguida, subi silenciosamente até o banheiro.

Rapidamente, Charlie fez tudo o que precisava fazer e enquanto ele guardava os materiais que usou na caixa de primeiros socorros e eu esperava minha permissão para sair do cômodo o ouvi dizer:

— Essa vai ser a primeira e última vez.

— Hã?

— Que eu vou te mostrar minhas cicatrizes. E mesmo assim, não serão todas.

Eu arregalei os olhos. Ok, isso era realmente impressionante. Em todo esse tempo de convivência, essa será a segunda ou terceira vez que Charlie me deixa penetrar nesse escudo protetor que ele sempre mantém ao redor... Acho que finalmente estou conseguindo manter uma conexão entre nós.

Enquanto eu me preparava, Charlie virou-se de frente para mim e tirou sua camisa. Ele mandou que eu me aproximasse e mostrou uma parte de sua cintura que carregava uma faixa de pele que era um pouco mais escura e enrugada. Enquanto eu observava ele disse:

— Foi num dos primeiros nos lá. Minha tia me queimou com o atiçador de brasas da lareira. Coloquei um pedaço de lenha um pouco maior, o que levantou fuligem e manchou o chão da sala.

Antes que eu pudesse demonstrar qualquer reação ele se virou de costas e disse:

— Perto do meu ombro esquerdo. — Havia uma linha longa em alto relevo — Esse foi meu tio em uma de suas sessões de tortura. Não me lembro com o que ele fez, era muito novo. Mas seja o que for destruiu a derme abaixo e impediu o médico de retirar a cicatriz.

Ele virou de frente de novo e mostrou perto da barra da sua calça outra linha parecida:

— Também meu tio, disse que ia cortar o meu pinto fora. Acabou que estava apenas brincando, mas mesmo assim, foi um corte feio.

Charlie pegou minha mão e fez com que eu agarrasse seu dedinho da mão esquerda. Ele o movimento e disse:

— Está sentindo?

Sim, parecia que o osso se soltava por uns segundos quando ele dobrava o dedo. Ouvi-o dizer:

— Rompi um ligamento difícil de concertar quando minha tia esmagou meus dedos com uma pedra do jardim. Tenho alguns pinos por aqui também — ele mostrou a parte interna da mão, no ligamento com o polegar — e dói um pouco mexer a mão até hoje, mas já me acostumei.

Depois, meu sequestrador recolheu sua camisa e enquanto a vestia disse:

— Fora isso tenho algumas marcas de queimaduras de cigarros na parte interna e traseira das minhas cochas, tem um pino no meu joelho e uma cicatriz no tornozelo. Meus dois pulsos e tornozelos rangem e doem quando os mecho e precisei usar um aparelho para consertar minha postura durante um longo tempo. Porém, pra todos os efeitos, acabou sua excursão sobre o meu corpo.

— Nossa, Charlie.

— É, eu sei. Triste. Mas eu não quero ouvir você falando um pio disso daqui para frente, ok?

Por um momento eu pensei se algum dia eu passaria por isso. Se eu teria a oportunidade de mostrar minhas cicatrizes dos momentos em que passei com esse homem a outra pessoa. Como eu me sentiria mostrando todas essas marcas? Será que elas me lembrariam dos momentos em que passei com ele?... Foi por isso que Charlie pagou tão caro para tê-las removidas? Eu faria o mesmo sequando eu saísse daqui?...

Eu olhei para o rosto do meu agressor. Eu conseguia ver. Por trás daquele homem cruel que me privou da liberdade, que me estuprou, que me espancou... Ele era apenas um garotinho assustado que foi largado nesse mundo enorme com muitos machucados e sem ninguém para cuidar dele... Mesmo eu estando presa aqui, na minha mente, tenho minha mãe e meus amigos... Sei que alguém lá fora sente a minha falta... Mas ninguém nunca sentiu a falta de Charlie... Nunca.

Foi apenas um impulso do momento, mas eu me aproximei e o abracei. Ele pareceu surpreso no inicio e disse:

— Ei! O que está fazendo?

Eu não o respondi, apenas continuei o abraçando desejando poder juntar todos os pedacinhos do coração daquela criança. Alguns minutos depois, Charlie finalmente retribui e me abraçou mais forte do que ele jamais fez.

E ficamos ali.

Abraçados no banheiro pelo que pareciam horas.

Em determinado momento, eu olhei para frente e pude ver meu reflexo no banheiro. E foi quando eu vi. A Emily de 14 anos. A garota boa e gentil que gostava de ajudar. Ela estava lá. Da mesma forma que o Charlie, a criança vítima, ainda estava dentro desse monstro. Essa menina ainda estava dentro de mim...

Foi quando eu soube que não importa o que acontecesse...

Eu ia conseguir.