Abusada
21 Red velvet...
Notas iniciais
O local era um prédio pequeno, branco, com um jardim esquecido na frente e pintura lascando em certas partes. Não só o edifício, como também o resto da rua, estava repleto de pichações... Apesar de que, eu tenho que admitir, muitas delas são bonitas.
Depois que Eglantine guardou a moto no devido lugar no estacionamento nos subimos as escadas (todos os sete lances!) em silêncio até chegarmos a porta do apartamento que minha irmã destrancou e cedeu passagem para que eu entrasse.
Não era espaçoso, nem aconchegante, nem arrumado. A mobília era o mais simples possível, havia uma caixa de pizza vazia na sala e várias garrafas de refrigerante, bebidas alcoólicas e cinzeiros cheios ao redor, todas as janelas estavam abertas, então era tudo muito iluminado. As paredes eram de um beje claro e o chão era de madeira. Havia apenas uma sala, uma cozinha separada por uma bancada, uma mesa para quatro pessoas e um pequeno corredor com dois quartos e um banheiro.
Eglantine entrou e largou os dois capacetes de qualquer jeito no sofá, depois foi na direção do corredor e fez um sinal para que eu a seguisse. Entramos no quarto a frente do banheiro. Era pequeno, mas cabia uma estante com livros, CDs e vinis, uma mesa com um computador e um sofá. Ela se sentou no sofá e esperou que eu desse uma olhada no quarto, pendurasse minha mochila na cadeira que estava de frente para o computador e sentasse ao seu lado antes de perguntar:
– Então... Quer me contar o que aconteceu?
Não queria responder então, apenas olhei para baixo e balancei minha cabeça negativamente. Ouvi minha irmã suspirar antes de dizer:
– Tudo bem. Eu entendo... Está com fome? Eu estou faminta.
Eglantine se levantou, pegou minha mão e me arrastou de volta para a cozinha. La, começou a pegar alguns ingredientes: açúcar, farinha, chocolate, leite, vinagre, corante vermelho... Eu sabia o que ela estava fazendo. A lembrança me fez sorrir e perguntar:
– Está fazendo bolo red velvet?
– Achou que eu esqueceria qual era o bolo favorito da minha irmãzinha caçula?
Eu ri e me sentei na mesa que havia lá, enquanto olhava os coordenados movimentos de Eglantine. Ela fazia tudo com delicadeza e dedicação e mantinha uma expressão de concentração total, como se estivesse fazendo uma cirurgia complicada. A prova de que ela adorava fazer o que estava fazendo.
Eglantine sempre cozinhou, desde que éramos criancinhas... Nos domingos, quando mamãe e papai tinham de trabalhar ou estavam viajando e Rosa, Josephine e Margreth estavam de folga, era minha irmã que preparava a nossa comida e me distraia durante o dia... Eu e ela sempre fomos muito unidas. Era Eglantine quem me pegava na escola, era Eglantine quem me ensinava o dever-de-casa, era Eglantine quem me dava banho, era Eglantine quem lia para mim, era Eglantine quem me ensinava a andar de bicicleta, a nadar, a desenhar, era Eglantine quem tapava meus ouvidos durante as brigas de papai e mamãe... Era Eglantine quem me abraçava quando eu a pegava chorando pelos cantos da casa... Sempre foi Eglantine... Até que deixou de ser.
“Não pense que pode ir saindo assim, garota! Essa é a sua casa e essa é a sua família!”
“Família?! Chama isso de família?! Não! Estou cansada disso mãe! Eu vou embora!”
“Ótimo! Então vai embora! Mas você tem o dever de me reembolsar cada centavo que eu gastei para a sua educação e formação! Todo tempo e dinheiro que eu desperdicei para te tornar uma pessoa melhor!”
“E de que adiantou tudo isso?! O tempo e dinheiro que você desperdiçou resultaram em uma adolescente alcoolotra, drogada e traumatizada!”
“Pare de colocar a culpa em mim! Era eu que estava presente em cada audiência, em cada vara de menores, em cada seção com os advogados! Você deveria me agradecer!”
“Agradecer pelo que?! Por me deixar sozinha em casa com ele? Por se trancar no quarto ou sair de casa para fumar e beber enquanto ele me machucava? Ou pior, por ficar parada olhando enquanto ele olhava para Emily da mesma forma?!”
“Eu tentei, tudo bem? Eu tentei! Eu tentei impedi-lo! Eu consegui impedi-lo!”
“Não! Você não impediu! Você só se mudou! Você acha que ele está arrependido? Que não pretende fazer exatamente a mesma coisa?!”
“Eu tentei te proteger!”
“Bom, mamãe. Surpresa! Mas você não conseguiu! E nada do que você faça agora vai mudar esse fato!”
“Ah é? Então, ótimo. Vá embora da minha casa agora! Vá correndo na direção dos seus amigos sem futuro e daquele seu namoradinho aspirante a bandido, mas saia agora da minha propriedade! E não ouse voltar a pisar aqui ou eu juro que a mando amarrada dentro de um saco para ele! Sua ingrata egoísta! Vá embora já daqui!”
“Obrigada, pois era exatamente isto que eu estava indo fazer!”
Duas vozes femininas gritavam a plenos pulmões no andar de baixo. Eglantine e minha mãe... Eu sabia qual era o motivo... E ao mesmo tempo não sabia... Não queria saber...
Sai dos meus devaneios quando ouvi o barulho da tranca da porta da frente. Eglantine havia acabado de colocar o bolo no forno e lançou um olhar para mim antes de se virar na direção da porta. Eu a imitei, de modo que vi o homem desconhecido entrar. Ele era alto e tinha cabelos negros e lisos até os ombros, não reparei no seu corpo, mas usava uma calça jeans e uma camisa social negra com as mangas arriadas deixando a mostra os braços cheios de tatuagens... Aliás, ele tinha mais tatuagens do que pele pele corpo. Para variar, também tinha um alargador de tamanho médio nas duas orelhas e um piercing na sobrancelha.
Ele entrou e largou a mochila preta que usava no sofá antes de se virar para a cozinha procurando alguém, mais especificamente Eglantine. Ele ia sorrir, mas deve ter me notado antes pois seu rosto passou a mostrar preocupação. O homem disse para Eglantine:
– Hum... Quem é ela? Tivemos uma filha e eu não notei ou os policiais passaram a se formar jovens assim?
– Muito engraçado. Lembra da ligação hoje de manhã? Então-...
– Lembro perfeitamente dessa ligação e também lembro que você disse que íamos discutir isso mais tarde.
Ele disse levantando uma sobrancelha e olhando para mim, não de um modo acusador ou ameaçador, simplesmente me olhando. Eglantine deu um sorrisinho e disse:
– Opa, digamos que eu me preveni um pouco.
– Como sempre. Mas eu já esperava por isso. Então, essa é a famosa Emily.
Ele sorriu e atravessou o balcão para entrar na cozinha. O homem estranho veio até mim e estendeu a mão para me cumprimentar, seus dedos tinham tatuagens também... Eu o encarei e me afastei um pouco, mas depois de olhar para minha irmã (e ver que ela não estava me dando um aviso de “fuja daqui”) eu estendi minha mão para apertar a dele. O aperto de mão foi firme e ele disse assim que tocou minha mão:
– Kevin Sanchez.
– O-ola.
Eglantine gargalhou e disse:
– Kev, não precisa agir como a porra de um advogado. É só minha irmã.
– Vai se foder. Não quer que sua família me ache um bom partido?
– Não mesmo. Digamos que minha família tem um péssimo gosto para partidos.
Kevin revirou os olhos e se virou para a bancada que minha irmã havia sujado de farinha, corante e outros ingredientes do bolo... Partido... Então, esse era o famoso namorado da minha irmã.
Uma noite, Eglantine invadiu meu quarto as três da manhã de uma quinta-feira, me acordou e disse essas simples palavras: “conheci um cara hoje”. Claro que eu não lembro de praticamente nada da conversa porque eu tinha acabado de acordar e estava quase desmaiando enquanto ela falava, mas me lembro que ela descreveu ele e falou do quanto ele era legal e do quanto gostava das mesmas coisas que ela e blá-blá-blá... Kevin não era exatamente o deus grego que minha irmã havia descrevido para mim.
Alguns meses depois observei Eglantine aos beijos com ele, um pouco depois do portão para entrar no nosso condomínio. Houve outra vez que estava estudando para uma prova quando ouvi um barulho no quarto de Glá, ao chegar lá vi um homem com um casaco de capuz depositando minha irmã desacordada no colchão da cama dela. Claro que fiquei preocupada, mas ele afirmou que ela só estava dormindo e tinha tomado algo que ele nominou como “porres”. Naquela noite eu verifiquei a respiração de Eglantine várias vezes e pesquisei na internet o que era um “porre” (fenômeno no qual a pessoa ultrapassa os limites etílicos que seu corpo pode suportar, durante o qual a consciência limita-se. Ele é precedido por episódios de náusea, dores de cabeça, fadiga corporal e eventuais arrependimentos), depois deixei um remédio para dores e outro para dor de cabeça junto a copo de água na cabeceira da cama e voltei para o meu quarto e para a matéria da minha prova.
Pelo o que minha irmã falou, Kevin parecia um cara legal... Mas ela estava apaixonada e pessoas apaixonadas tendem a ser burras. A única outra definição do garoto que eu tinha ao meu alcance era a da minha mãe, que preferia ver o diabo à ouvir o nome Kevin... Talvez fosse melhor eu tirar minhas próprias conclusões sobre o meu cunhado.
– Típico da loira. Saio por algumas horas e parece que um furacão passou pela cozinha.
– Não enche. Eu já ia começar a limpar. Alias, caso não tenha percebido eu não sou mais loira.
– Você é loira sim mocinha, só está passando por essa fase rebelde. Essas modas dos adolescentes de hoje...
– Modas dos adolescentes, blá-blá-blá – ela disse fazendo uma péssima imitação de Kevin – Senhor Responsável, dá pra ver o papel filme saindo pela manga da sua blusa ok*? Se o meu cabelo é moda de adolescente, você está passando pela mesma moda.
– Não, isso é completamente diferente. Josh estava fazendo um esboço da mesa dele e era tão incrível. Não consegui resistir!
– Kevin, você é tão viciado em tatuagens quanto é por maconha.
Apesar da estranha e completamente ilegal afirmação, Eglantine falou aquilo como uma piada e estava rindo bastante com sua afirmação. Porém Kevin olhou para mim e em seguida para a namorada demonstrando susto. Glá disse apenas:
– Eu já disse pra relaxar, não? É só minha irmã caçula.
– Ta, mas... Deixa pra lá. O que está fazendo?
– Red velvet. Muito chique pra ralé como você. Vá jantar no Ed.
– Que merda é essa?
– É um bolo, sonso. E daqui a pouco vai ficar pronto. Então, dê o fora da minha cozinha porque eu preciso fazer a cobertura.
– Tudo bem, Chef. Vou tomar um banho. E, Emily?
– Hum?
– Bem vinda a Kevinlândia.
* As tatuagens recém feitas devem ser cobertas com papel filme para que não haja uma infecção.
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