Abusada
31 Raiva...
Notas iniciais
Fazia tempo que eu não acordava de manhã tão disposta, que eu não precisasse tirar um enorme peso de cima de mim antes de levantar da cama. Mas foi exatamente isso que aconteceu na sexta-feira de manha.
Tomei banho, escovei os dentes e o cabelo e me troquei rapidamente. Desci as escadas e fui até a cozinha saltitando. Dei um beijo estalado na bochecha de Margreth, Rosa e Josephine que ficaram confusas com o meu humor.
Minha mãe havia saído mais cedo do trabalho e como dizia o ditado “quando o gato sai, o rato faz a festa”, Rosa permitiu que eu fosse sozinha para a escola hoje se prometesse não me meter em encrencas e não contar nada para Charlote que mataria nos duas se soubesse.
Fui até a garagem e peguei minha bicicleta. Puxa, parecia que fazia séculos que não andava nela. Montei nela e fui pedalando a caminho da escola.
O sol brilhava forte, mas não estava fazendo calor já que uma brisa fresca batia em meu rosto. Não encontrei ninguém conhecido a caminho da escola e as ruas estavam praticamente vazias. Até as folhas das árvores pareciam mais verdes!
Na escola, parecia que todos notaram o meu bom humor. Pode parecer coisa de filme, mas acontece que se você se sentir bonita e feliz, todos irão te notar. Principalmente se essas pessoas estiverem acostumadas a ver você sempre andando devagar e de cabeça abaixada.
Do mesmo jeito que andei pela casa, andei pelos corredores do colégio, saltitando com um enorme sorriso na cara. Quando cheguei perto do escaninho pude avistar a cabeleira grande e desordenada de Franklin me encarando com olhos curiosos e desconfiados. Não pude deixar de rir ao me aproximar. Olhei para meu amigo e disse:
–Bom dia magrelo!
Ele parecia mais desconfiado ainda e falou pausadamente:
–Bom dia... O que aconteceu com você?
–Do que está falando?
–Faz um longo, longo tempo que você não me cumprimenta assim. Desenrola.
–Eu realmente não sei do que você está falando.
Franklin bufou e cruzou os braços. Mais impaciente do que desconfiado, ele disse:
–Sem brincadeiras comigo, ta legal?... É o Hector, né?
–O que? Como você sabe?
–Parece que você esquece que eu e ele somos amigos e conversamos. Já to sabendo desse namorico aí e também to sabendo de hoje a noite.
–E...
–E nada. Decisão é sua. Só tô um pouco desconfortável com isso.
–Desconfortável? Por que?
–Porque eu não confio no Hector... Qual é Emily. Você nunca nem tinha beijado ninguém antes dele e pelas minhas contas, não tão namorando nem a duas semanas.
–E daí?
–E daí que você nem conhece ele direito. Como pode saber que ele não ta te enganando? Você sabe do histórico de Hector, já te contei disso.
–Mais uma vez: e daí? Só porque um cara já ficou com milhões de garotas na vida, não quer dizer que ele não possa se apaixonar, ok? E outra, eu confio em Hector. Ela é bom e gentil comigo, não consegue machucar nem a uma mosca e nem em um milhão de anos conseguiria me machucar. Só pare de ser tão desconfiado Franklin.
–Não é questão de ser desconfiado. Você é minha amiga, eu me preocupo com você e não quero te ver triste.
–E muito menos Hector.
Fechei a porta do escaninho com força e comecei a caminhar pelo corredor pisando forte. Toda a alegria que sentia de manha pareceu ter se esvaído e agora eu estava praticamente soltando fumaça pelas narinas.
Franklin correu na minha direção até parar do meu lado e começar a acompanhar meus passos apressados:
–Sabe quem você tá parecendo agora? A Jéssica. Quando você disse para ela se afastar do Erick, ela não acreditou.
–Isso é completamente diferente. Eu vi Erick beijando outra garota e até onde eu saiba Hector não fez nada disso comigo.
–Ainda.
–Agora você é vidente?
–Olha, não to dizendo que é certo que ele vai te magoar. Também não tô impedindo vocês de transarem como coelhos hoje a noite. Só não acho que esse é o momento certo.
–E quem é você para achar alguma coisa da minha vida?! Eu decido qual é o momento certo! Eu não te entendo Franklin. Quando eu chegava na escola parecendo que fui atropelada por um rolo compressor você nem se importou comigo, mas quando eu chego extremamente feliz você vem e fica procurando chifre na cabeça de vaca! Eu to cansada de pessoas assim. Vê se arruma alguma coisa mais importante pra fazer da sua vida do que ficar tomando conta da minha!
–ÓK, mas não venha correndo atrás de mim chorando depois porque eu não vou te ajudar!
–Ótimo!
–Ótimo!
Nós dois nos viramos e começamos a andar, praticamente cuspindo fogo, cada um pra um canto da escola. Ambos com um orgulho muito grande para conversar e acabar com aquela briga estúpida.
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