Abusada
24 Poker...
Notas iniciais
Eu não sabia exatamente quantas horas era a festa do tal Dinho, mas começamos a nos arrumar logo depois daquela conversa... “Nos arrumar” é apenas uma forma de falar já que me parecia que aquelas duas haviam ganhado uma nova bonequinha para vestir da forma como quisessem... E essa bonequinha era eu.
Angel nos levou até uma sala que, na casa de Eglantine, corresponderia ao quarto onde eu dormi, mas que aqui era um enorme e lotado closet. Parecia uma loja de roupas com direto a cabides, prateleiras e até alguns manequins... Claramente essa era uma das paixões da menina... Angel não nos deixava tocar em nada sem a permissão dela.
Primeiro, claro, Glá me mostrou um espartilho, eu obviamente o recusei dizendo que nunca usaria algo assim na minha vida. Depois Angel apareceu com um short verde escuro minúsculo e eu recusei de novo. As duas se alternavam em mostrar roupas curtas e provocantes e pedir/implorar para que eu as vestisse e eu recusava todas elas. Por fim, decidimos que aquilo iria acabar mais rápido e com um final mais feliz se eu escolhesse as roupas e elas apenas aprovassem ou não... Até porque não tinha como eu escolher algo feio em vista de que todas aquelas peças eram de Angel.
Depois de vasculhar o comodo de cima a baixo eu encontrei algo de meu gosto. Era um vestido rodado e de alças roxo com detalhes em renda preta e um decote em coração, não muito curto (para o meu alívio). Coloquei uma meia calça quadriculada branca e preta para que minhas pernas não ficassem muito expostas. Angel achou o motivo para usar a meia calça ridículo, mas não me importei.
Com o básico já pronto, as meninas terminaram de me arrumar. Adicionaram um salto preto (devemos ter ficado discutindo durante uma hora sobre a altura desse salto... Por fim, elas ganharam), luvas de renda preta, uma gargantilha com pedras pretas, brincos com pedras roxas e um pequeno chapéu com renda também preto. Eglantine fez uma maquiagem em meus olhos preta e prata esfumaçada e passou um gloss brilhante em meus lábios. Angel lavou, secou e fez cachos nos meus cabelos... Quando terminaram, me colocaram de frente para um enorme espelho... Eu estava completamente e totalmente irreconhecível.
Passei os dedos pelos meus cabelos e pelas pedras em meu pescoço. Tracei as cordas no busto do meu vestido e alisei a saia... Irreconhecível, porém linda. Pisquei os olhos inúmeras vezes e sorri. Aquela não podia ser eu. Onde estava a garota magrela, com olheiras e o cabelo lambido e sem graça? Eglantine e Angel fizeram mágica... E eu estava adorando essa mágica. Tinha me esquecido do quanto era bom me olhar no espelho e me sentir bonita e pensar que outras pessoas também podem me achar bonita... Sorri e sussurrei apenas uma palavra:
–Obrigada.
Angel apenas revirou os olhos e começou a procurar uma roupa para si, mas minha irmã segurou meus ombros e disse:
–Não agradeça. A beleza estava aí, apenas a colocamos pra fora.
As duas mais velhas começaram a conversar enquanto reviravam os cabides mais uma vez a procura de novas roupas até que batidas pesadas na porta foram ouvidas. Eglantine saiu e pude ouvir a voz de Kevin parecendo preocupada vindo da sala... Agora eu havia me lembrado de que nós não tínhamos lhe avisado que íamos sair nem falamos aonde íamos... Glá apareceu na porta e disse que eu ficasse ali pois ela iria pegar algumas roupas em seu apartamento e viria se arrumar conosco.
Deve ter se passado uma hora ou mais, mas acabamos ficando todas prontas. Eglantine colocou um espartilho negro com detalhes em branco, uma saia solta com bainha assimétrica, saltos altos pretos, uma gargantilha com uma cruz prateada, um bracelete delicado com uma flor de pedra também prateado e brincos que pareciam mascaras de gás. Já Angel optou por um short jeans com renda preta na bainha, uma regata preta com uma cruz invertida, botas de cano baixo de couro, luvas com desenho de ossos, um colar com uma caveira prateada e um leme de barco negro e brincos com pistolas em ouro velho e um camafeu negro.
Kevin havia nos encontrado no apartamento de Angel de banho tomado e com uma pequena variação da roupa que ele havia chegado em casa mais cedo (a camisa, agora, era vermelha quadriculada ao invés de preta), depois partimos para a festa. Kevin foi em uma moto negra (aparentemente sua) com Angel atrás e eu fui na mesma moto Eglantine dirigiu hoje cedo junto com ela.
O caminho foi razoavelmente longo, mas acabamos chegando ao local da festa... E para minha surpresa era uma enorme e luxuosa mansão, mas apesar da construção aparentar ser clássica ,rigorosa e principalmente de alta classe não era esse o estilo das pessoas que entravam lá.
A festa deveria ter acabado de começar pois além de nós haviam vários outros convidados chegando... Cada um mais esquisito que o outro. Nesse ambiente o cabelo de Eglantine não era tão exótico assim. Vi fios rosas, vermelhos e até mesmo brancos. Haviam tanto mulheres de cabelos raspados ou muito curtos quanto homens com cabelos maiores que os meus... E não era apenas isso! Haviam argolas do tamanho de pulseiras presas as orelhas de muitos ali e tatuagens e mais tatuagens. O vestuário também era diferente, haviam pessoas que vinham quase sem roupa, outras com excesso de couro e outras que nem pareciam estar nesse século! Resumindo, todos ali eram muito estranhos e eu não sabia de onde haviam surgido pois nunca os havia visto na vida.
Eglantine riu da minha cara de surpresa, mas pegou a mão de Kevin e me puxou para dentro do lugar. A mansão era ainda mais luxuosa vista de dentro, lustres de cristal e colunas tomavam o lugar, mármore e marfim eram predominantes e a decoração esbanjava riqueza... Apesar disso, o ambiente estava tomado por fumaça (de gelo seco e de outras coisas) e uma música alta e pesada. Estranhando, eu perguntei a Glá:
–Como uma festa dessas está acontecendo num lugar desses?
–Digamos que a avó do Dinho é bem generosa... E rica também.
–Uhum... Afinal, quem é esse tal de Dinho?
–Relaxa, vamos acabar encontrando ele.
A essa altura Angel havia desaparecido de nossas vistas e Kevin foi puxado para uma roda de pessoas que pareciam ser seus amigos. Eglantine também foi chamada por vários convidados, mas recusou os convites e disse que ficaria apenas comigo. Notei olhares luxuriosos em nossa direção e pela primeira vez na vida eu não saberia distinguir se eram para mim ou para minha irmã mais velha... E eu acho que gostei disso... Me sentir igualada com alguém de tamanha beleza... Pela primeira vez não me sentir apagada.
Passamos pela sala e entramos no quintal onde havia sido montado um bar e uma pista de dança e era onde havia maior concentração de pessoas. Enquanto passávamos pelo amontoado de indivíduos um homem apareceu e puxou Glá. Era moreno, quase negro, e seus cabelos eram negros e arrepiados além de que tinha uma barbara rala; usava uma camiseta branca cortada, um short jeans extremamente curtos e tênis. Ele estava brilhando... Literalmente! Pendurado no pescoço, nos braços e na sua orelha (que tinha argolas como alguns convidados) haviam colares que acendiam e aquelas pulseiras neon que costumam distribuir em festas.
Quando o homem já tinha a atenção de nós duas ele gritou alto e com a voz mais fina que eu já havia ouvido e disse:
–GLÁZITA! VOCÊ VEIO!
–DINHO!
Os dois se abraçaram e começaram a distribuir beijos no rosto um do outro enquanto eu ficava lá parada tentando entender o que estava acontecendo e puxando a barra do espartilho de Glá para que ela prestasse atenção em mim... Mas serio, “Glázita”?! Que espécie de apelido é esse?! E o tamanho desse short?! E essas luzinhas que provavelmente já haviam queimado minha retina naquela altura?!
Depois da estranha sessão se afeição em público Eglantine me apresentou ao, finalmente visto, Dinho:
–Preciso te mostrar uma pessoa. Emily, você já deve ter percebido que esse é o Dinho. Dinho, essa é minha irmãzinha fofa e legal, Emily.
–Ah meu Deus! Você é linda!
–O-la e obrigada.
–Céus, garota. O que eu não faria por esses cachos! Nem pense em foder com o seu cabelo igual a sua irmã fez com o dela!
–Ei! Eu gosto dele azul!
–Que seja queridinha. Você já viu alguma super-modelo chique de cabelo azul? Eu acho que não.
–Claro que não. Sou muito mais bonita que qualquer uma delas.
–Blá-blá-blá. Agora, por que você escondeu essa coisinha linda de mim?!
Ele disse se referindo a mim. Dinho continuava falando com uma voz fina e histérica apesar de parecer um pouco arrastada. Glá riu e disse:
–Porque eu guardei ela só para mim.
Os dois riram e de repente os braços de Dinho circularam meu pescoço e me trouxeram pra perto dele. O cara que eu havia conhecido apenas alguns minutos atrás me apertava e bagunçava meu cabelo enquanto dizia:
–Bom, todos os amigos da Glázita são meus amigos também. E você é muito fofa!
–Dinho, larga a menina! Desse jeito ela foge!
–Ah querida, não respondo por minhas ações hoje. Caso não tenha percebido eu to bê-ba-do!
–Isso eu, com certeza, percebi. Sai daqui rato de shopping, você não é boa companhia para a minha inocente irmã.
–E desde quando você é?
Os dois riram de novo até que Dinho deu mais um beijo na bochecha de cada uma de nós e saiu pulando e gritando na direção da pista de dança.
Eglantine pegou minha mão e me puxou até o bar onde nós duas nos apoiamos no balcão pois todas as cadeiras estavam ocupadas. Ela continuava rindo e perguntou:
–Gostou dele?
–Mais ou menos. Ele é um pouco esquisito.
Seu sorriso diminuiu consideravelmente, mas ela continuava feliz quando disse:
–Claro que não, só é diferente do que você está acostumada.
–É, talvez.
Glá revirou os olhos e depois mudou de assunto totalmente:
–Então, quer beber?
–Claro.
Ela chegou para trás e arqueou as sobrancelhas, depois disse:
–Eu quis dizer beber algo alcoólico.
–Ah... Err...
–Tudo bem. Vou pedir um refrigerante.
–Obrigada.
Pedimos nossas bebidas e começamos a dar voltas intermináveis pelo local. Algumas pessoas vinham conversar conosco e outras Eglantine resolvia me apresentar por espontânea vontade. Todas elas falaram pequenas derivações do que Dinho disse... Exceto que algumas pareciam carregar um pouco de inveja e/ou falsidade ou luxúria e/ou tentação no olhar... Acho que gente assim você pode encontrar em qualquer lugar seja qual for o ciclo de pessoas.
Eglantine queria dançar, mas eu recusei todas as vezes em que ela me chamou e, apesar da minha insistência, ficou fazendo companhia para mim. Certo momento, alguém passou do meu lado carregando uma taça gelada de um líquido laranja e amarelo vibrante com um pequeno guarda-chuva e frutas presas na borda do copo e parecia ter uma grande e piscante placa apontando para ele onde estava escrito “Beba-me”... Agora eu entendia a Alice.
Na mesma hora perguntei o que era aquilo a Glá e ela prontamente respondeu-me dizendo que era um tipo de drink chamado sex on the beach. Fodas, eu vou beber aquilo não importa o que tiver dentro, só para ter o prazer de segurar aquele copo e dizer “eu bebi uma coisa amarela e laranja!”.
O drink revelou-se sendo imensamente delicioso. Uma mistura de suco de laranja, algo doce como groselha e a tal vodca como minha irmã chamou. No início você sentia o doce na língua, logo depois algo forte e ácido que deixava sua garganta e o fundo da sua boca ardendo e no final o cítrico da laranja que explodia por sua boca e amarrava todos os sabores num só... E tudo isso em apenas um gole! Simplesmente incrível.
Glá resolveu procurar Kevin e recomeçamos nossa caminhada pela propriedade, mas dessa vez eu tinha meu copo colorido e de líquido gostoso comigo. Não encontramos Kevin, mas achamos Angel sentada em uma mesa cercada de um monte de homens e mulheres que jogavam algum tipo de jogo de cartas e no meio da mesa havia uma pilha consideravelmente grande de dinheiro.
Enquanto Eglantine parava para perguntar a cunhada se ela havia visto Kevin eu observei o jogo. Não parecia ser difícil, havia apenas uma mão e os jogadores apenas abaixavam suas cartas. Obviamente havia um tipo de escala que determinava o valor de cada seqüência, ou seja, a pessoa com a “maior” seqüência ganhava, ou seja, o dinheiro era dela. Angel havia ganhado essa partida, seu rosto era esnobe e superior e um cigarro aceso pendia de seus lábios. Enquanto ela contava o dinheiro percebeu que eu olhava interessada e disse:
–Chamasse poker. Sabe jogar?
–Na verdade, não.
–Não me surpreende.
–Mas eu iria gostar de aprender.
Todas as cabeças se viraram na minha direção, inclusive Glá que pegou minha mão e disse preocupada:
–Tem certeza? Não é difícil, mas eles estão apostando.
–Tem algum limite de aposta?
Um homem grande e mal encarado respondeu rudemente:
–Tem. Mínimo de cinquenta dólares.
Angel, que estava assoprando a fumaça do cigarro, colocou o tubo branco de volta na boca e deu um tapa forte da cabeça do homem que havia falado dando uma bronca nele:
–Para com isso Jack. Deixa a novata jogar. Se ela perder, o problema é dela.
–Não quero impedir dela jogar. Só disse qual era a aposta mínima.
Angel revirou os olhos e disse:
–Temos a noite toda para extorquir dinheiro um dos outros queridinhos. Eu ensino ela. De primeira jogamos sem aposta, depois voltamos para a regras normais.
–Hum... Tudo bem. Mas eu não quero ninguém chorando pra cima de mim depois.
–Claro, claro...
Disse Angel enquanto apagava seu cigarro num cinzeiro lotado que havia no meio da mesa.
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