Abusada
25 Briga...
Notas iniciais
Como eu havia dito: poker não é algo muito difícil. Depois que se gravam todas as combinações possíveis e o quanto elas são valiosas, passa a ser uma questão de sorte e observação... Nunca tive dificuldades para entender as coisas e muito menos para memorizá-las então a primeira parte não foi difícil: sequencias de cores, poker, full house, flush, straight, sequencia, trio e os pares... Agora, o problema é a sorte.
Como já devem ter percebido, não sou uma das pessoas mais sortudas do mundo. É só olhar para a minha vida e entenderá o porquê. Mas, quem sabe, esse jogo pode ser uma exceção...
Como prometido, Angel me ensinou como se joga direitinho e após isso fizemos uma partida apenas nós duas para que eu treinasse. Ela ganhou de lavada, um flush versus um par. Também disse que eu precisava melhorar minha feição já que eu estava com uma “cara de pânico”.
Isso deixou os outros integrantes da mesa felizes e eu mais apavorada ainda... Podia muito bem me levantar e continuar na festa com Eglantine, que ainda não havia saído do meu lado, mas não queria. Eu disse que ia jogar e Angel me ensinou de boa vontade... Não ia dar pra trás agora.
Alguns jogadores haviam saído dizendo que “eram muito bonzinhos para fazerem isso comigo”, mas o lugar deles logo foi substituído por outras pessoas. Angel e Jack continuavam ali, fora eles havia um cara com o cabelo espetado que parecia uma cobra de tão esbelto, uma pessoa que eu não sabia distinguir se era um homem ou uma mulher, uma loira com maquiagem pesada, mas muito bonita e uma garota que parecia ser a mais nova dali, tinha cabelo roxo claro e uma expressão fofa e inocente.
As apostas foram feitas e o jogo começou. Na mesa, ninguém fazia nenhum movimento e todos mantinham feições neutras. Era impossível entender o que qualquer um pensava. Glá ficou atrás de mim e colocou suas mãos nos meus ombros como se para mostrar que estava lá comigo. As cartas foram mostradas. Eu perdi.
Jack sorriu triunfante enquanto mostrava seu full house. Raspou todo o dinheiro que tinha no centro da mesa e começou a contar as notas orgulhosamente. Quem me emprestou o dinheiro para fazer a aposta foi Eglantine e não conseguir ganhá-lo de volta. Olhei para minha irmã e sussurrei um “me desculpe”, mas ela não pareceu se importar. Inclinou-se na minha direção e disse:
– Quer ir mais uma vez?
– Não. Não tenho dinheiro e não quero acabar com o seu. Não vou conseguir ganhar deles. Vamos embora.
Percebi Angel dando uma olhada de canto para Glá como se dissesse “eu disse que ela não era daqui”. Fiz menção de me levantar, mas minha irmã me empurrou de volta na cadeira e disse:
– Se é por causa disso que quer parar então eu te proíbo de sair daí. Não se foge de um jogo porque acha que vai perder. Senta nessa cadeira e enfrenta esse bando de filhos da puta.
Ela juntou algumas notas de dez e de vinte e jogou na mesa. Angel sorriu e acendeu outro cigarro (os pulmões dessa garota devem ser mais negros que petróleo). Aquela seria minha última chance, já que a carteira de Glá parecia estar vazia, então eu iria me empenhar.
As apostas foram feitas mais uma vez, as cartas foram dadas e a segunda rodada do jogo começou. Outra vez, a mesa estava parada e silenciosa. A única coisa que se mexia era a pupila dos jogadores que iam de adversário em adversário.
Olhei para minhas cartas... Ah meu Deus. Um sequencia! Não era uma sequencia máxima, mas ainda assim era uma sequencia. Entrei em pânico... Mas e se alguém tiver uma sequencia máxima? E se eu perder o dinheiro de Glá outra vez?... Mas e se eu ganhar o jogo?... E se alguém ficar com raiva por eu ter ganhado? O que eu deveria fazer agora mesmo?
Era a hora de mostrar as cartas. Com medo e relutante eu desci minha mão. Olhei ao redor... Eu havia ganhado. Soltei um arquejo de surpresa e atrás de mim Glá bateu palmas e comemorou. Angel olhou para mim estupefata e pousou seu cigarro no cinzeiro. Todos na mesa estavam tão surpresos quanto ela.
A irmã de Kevin disse:
– Como você ganhou? Estava com a mesma cara de pânico que todas as outras vezes.
– Estava? Acho que eu fiquei com medo de perder.
– Como assim? Você tinha uma sequencia de cores! Era quase impossível que perdesse.
– Eu sei, mas...
– Muito bom Emily! Acho que esse seu medo descontrolável te fez ganhar!
Disse Eglantine me sacudindo como forma de comemoração. Ela pegou o dinheiro na mesa, tirou cem reais e me deu o resto. Havia duzentos e setenta reais na minha mão já que Jack havia apostado setenta reais... Era muito dinheiro.
Angel pegou seu cigarro e depois de dar uma forte tragada ela me perguntou:
– Quer continuar jogando?
– Acho que sim.
– Legal. Pode ir curtir a festa Smurf. Eu cuido da garota.
Demorou um pouco até que eu percebesse que quem Angel havia chamado de Smurf era Eglantine. Ela não pareceu irritada ou ofendida com o apelido, apenas afagou meus cabelos, desejou um “boa sorte” e sumiu no meio da multidão.
Continuamos jogando. Eu sempre apostava o mínimo possível e era isso o que a maioria das pessoas na mesa faziam também. Depois que Glá saiu jogamos outros seis jogos e eu ganhei quatro deles. Angel ganhou um e o homem-cobra ganhou outro.
Percebi que minha “cara de pânico”, na verdade, era muito útil, pois não importava quantas vezes eu havia ganhado nem quais eram as minhas cartas, eu sempre ficava com essa mesma cara, o que tornava impossível para os outros jogadores deduzirem o que eu tinha em mãos.
Era a sétima partida que jogávamos. Eu tinha um poker em mãos e resolvi dar uma olhada nos outros jogadores. Apesar de ninguém demonstrar muito suas emoções, ao passo que as rodadas iam passando pude perceber algo. A loira e Angel pareciam divertidas pela minha onda de vitórias, o homem-cobra estava indiferente... Porém Jack e a de cabelo roxo carregavam expressões raivosas e as vezes até de ódio... Eles não estavam gostando nada daquilo... E, por consequência, eu também não.
A rodada terminou e mais uma vez eu ganhei. Era minha sexta vitória da noite. Excitante recolhi o dinheiro enquanto olhava de canto para os outros jogadores. A menina de cabelo roxo, que antes mostrava uma feição fofa e ingênua lançava olhares invejosos para mim, mas Jack já estava em outro nível... Seus braços estavam cruzados na frente do corpo com força e suas narinas dilatavam a cada expiração... Ele parecia ter muita raiva.
Eu não fui a única que percebeu isso. Angel adotou uma nova postura na cadeira e se aproximou mais de mim e a arroxeada se inclinou e sussurrou algo para Jack. Não ouvi o que ela disse de tão baixa que sua voz saiu, mas seja o que tiver sido foi a gota d’água para o homem.
De repente ele bateu a mão na mesa e se levantou. A cadeira dele caiu para traz, os copos de bebida que estavam na mesa caíram e o cinzeiro virou espalhando bitucas de cigarro e cinzas por cima das cartas. Jack olhou para mim e gritou:
–É impossível alguém como você estar ganhando tanto assim! Eu ate acredito em sorte de principiante, mas não quando ele ganha tantas rodadas assim! Só tem uma explicação, você está roubando!
Me encolhi na cadeira e olhei para baixo. Não iria retrucar aquele homem enorme, muito menos tentar brigar com ele. Minha única alternativa era ficar em silencio e esperar ele se acalmar... Mas Angel pensou diferente. A baixinha se levantou e apontou o dedo para o enorme Jack dizendo:
–Jamais acuse alguém se não tiver provas! Você só está com raiva e inveja porque uma criança é melhor que você no poker! Se não aguenta o tranco sugiro que se levante, dê meia volta e pare de jogar, seu medroso de merda!
Arregalei os olhos. Já havia tido uma amostra de quem era Angel no momento em que pisei em seu apartamento, mas agora tinha certeza: aquela menina tinha o tamanho e o nome errado. E também tinha o pavio muito curto.
–Eu não sou medroso, só estou falando a verdade! Essa pirralha não aguenta nem segurar as cartas direito e ganha de gente que joga praticamente desde que nasceu! Já até sei porque defende a ladra ali! Ela tem a ver com a sua cunhadinha não é? Aposto que tá ganhando uma boa grana para defender a menina!
–Você acha que eu sou que nem você?! Que aceita dinheiro pra fazer todo tipo de trabalho sujo?! Bom, está muito enganado, queridinho! Já parou para pensar que as pessoas são mais do que parecem?! Talvez ela seja realmente boa e você só esteja fazendo showzinho, invejoso!
–Nem vem com essa Angel! Essa pirralha não ganha de mim nem de olhos fechados! Você e aquela puta mimada da sua cunhada é que estão armando para cima de mim!
Jack nem havia terminado de falar quando um punho voou em seu rosto. O homem deu uns passos pra trás meio espantado enquanto Angel, carregada de uma fúria imensa, correu até ele e lhe deu mais um soco.
Os resto das pessoas que estavam na mesa rapidamente deram o fora enquanto Angel e Jack caíam no chão e começavam a trocar socos e chutes. Apesar de, inicialmente, Angel ter atingido Jack umas duas ou três vezes, logo o grandalhão a jogou no chão facilmente e começou a socar sua cara várias vezes.
Eu não podia ficar parada então peguei uma garrafa de cerveja que estava na mesa e bati com toda a força no crânio do homem que acertava minha nova amiga. O vidro quebrou e se espalhou pelo chão, mas fora alguns cortes rasos nenhum dano pareceu ter sido provocado na minha vítima... Exceto mais raiva ainda.
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