Abusada
5 Orgulho...
Notas iniciais
Andava devagar pelo estacionamento da escola e quando avistei o portão que ligava o estacionamento à rua, vi também uma figura sentada em um dos degraus da escada que tinha perto... Eliza?
Aproximei dela e a cutuquei no ombro; Eliza se levantou, retirou os fones do ouvido e me encarou meio cansada. Perguntei o que ela estava fazendo ali àquela hora e Eliza me respondeu:
— Você está diferente hoje, calada e mais insegura do que o comum... Até um pouco assustada... Emily aconteceu alguma coisa?
Aí esta. É a sua terceira chance de contar a Eliza o que aconteceu e não ouse usar aquela desculpa idiota de que foi um sonho! Respirei fundo e me preparei para contar toda a verdade para Eliza:
— Nada com o que se preocupar... Só estou preocupada com a minha Irma e com as provas finais chegando.
Que merda foi essa que você acabou de dizer Emily?! Essa não é a verdade! Bom, é verdade... Mas não é a verdade certa!
Eliza ficou me encarando com a sobrancelha levantada por algum tempo e disse:
— Tem certeza?
— Sim.
— Absoluta?
— Total.
Por que eu estou dizendo isso? Não! Não tenho certeza!
Eliza suspirou e disse:
— Tudo bem, vou confiar em você. Mas quero que se lembre de uma coisa: eu sou sua amiga para o que der e vier. Você é a pessoa mais inteligente, boa e pura que eu conheço e eu te amo, OK¿
— Sim, eu sei disso Eliza. Eu também te amo.
— Ótimo. Pega sua bicicleta, vamos almoçar lá em casa.
Eu segui minha amiga na direção da casa dela e passei boa parte da tarde lá conversando, comendo e vendo filmes aleatórios. Mais tarde eu peguei minha bicicleta e voltei para minha casa sozinha.
Eliza mora em um apartamento pequeno com a mãe, o pai e a irmã e eu moro em um condomínio no subúrbio à algumas quadras de lá. A casa era de minha avó, porém ela foi deixada para nós quando esta morreu e vivemos lá eu, minha mãe e teoricamente minha irmã... Meu pai... Bem, acabou não dando muito certo...
Resolvi acordar para a vida e estava fazendo os deveres do últimos dois dias e revisando algumas matérias em meu quarto quando ouvi um barulho vindo de algum lugar no corredor e resolvi verificar.
O barulho vinha do cômodo que ficava ao lado do meu quarto, ou seja, o quarto de minha irmã. Abri a porta e Eglantine deu um pulo de susto quando ouviu o intruso em seu quarto. Abri um sorriso enorme ao vê-la, minha irmã estava em casa:
— Oi miúda, como é que vai?
Fazia duas semanas que eu não a via e ela não tinha mudado nem um fio de cabelo. Eglantine tinha a pele mais branca que a minha e era um pouco maior que eu, tinha seios enormes que ficavam bem sedutores em seus espartilhos e uma bunda redonda e empinada, seus olhos eram castanhos esverdeados e seus cabelos, antes loiros, agora estavam de um azul escuro com mechas pretas. Ela usava uma calça apertada de couro negro, botas com fivelas prateadas e de salto alto, um espartilho (sua marca registrada) de coro com fivelas também e várias bijuterias.
Eu entrei dentro do quarto e fechei a porta atrás de mim, para o caso de a mamãe estar em casa. Olhei para minha irmã mais velha e disse:
— Onde você estava? Não te vejo a duas semanas! Estava preocupada e mamãe também...Do jeito dela... Por que não voltou para casa?
Eglantine riu e disse:
— Mamãe não te contou?... Ela me expulsou de casa Em, disse que eu não podia voltar até mudar meu estilo de vida.
Mordi o lábio e fiquei calada, não podia e não queria escolher um lado... Ficar contra a minha mãe ou contra a minha irmã? Respirei fundo e me sentei na grande cama de dossel de minha Eglantine, foi então que percebi que ela estava andando pelo quarto com uma grande bolsa e recolhendo roupas, perfumes e jóias aqui e ali. Fiquei com medo da resposta mas mesmo assim perguntei:
— O que você esta fazendo?
— As malas.
— Para que?
— Eu não posso ficar aqui Em.
— Glá, você mais que ninguém sabe que a mamãe não estava falando serio. Ela sempre nos deserda e nos expulsa de casa quando brigamos com ela.
— Ela fazia isso quando tínhamos dez anos Em, eu tenho vinte anos... A coisa ficou séria, eu deveria ter tomado um rumo na minha vida, mas não tomei.
— Isso não é verdade! Você está tentando! E quanto ao seu sonho de ser boleira? Você desistiu da faculdade de medicina para isso! Não pode dizer que não tem um rumo na sua vida!
Eglantine riu e começou a andar pelo quarto procurando por algo que eu não sabia o que era enquanto dizia:
— Sonhos como esse Em acabam atrasando as pessoas.
— Então... Você se arrepende das coisas que fez?
— Eu não disse isso. Não costumo me arrepender de- Achei.
Eglantine tirou de dentro de uma gaveta uma caixinha de guardar óculos, ela a abriu e retirou de lá um cilindro pequeno branco que muito me parecia um cigarro. Tirando um esqueiro azul do bolso ela acendeu o cigarro e deu uma tragada nele, uma fumaça branca saiu e ele tinha um cheiro diferente dos cigarros que a mamãe fuma.
Eu perguntei:
— O que é isso?
— Maconha.
Maconha, planta herbácea da índia... Droga ilísida... Confunde a memória, aguça os sentidos, causa boca seca e falta de equilíbrio e memória e dilata os vasos sanguíneos. Usuários de maconha estão suscetíveis a câncer, enfisema pulmonar, bronquite e asma... Minha Irma está usando isso. Meu instinto protetor falou mais alto e eu disse:
— Você sabe o quão mal ao organismo isso faz?
— Sim, aprendi isso na escola como você... Sabe o que não ensinam? Os bens que a maconha faz— Eglantine estava com um sorriso bobo na cara— Ela te coloca onde você sempre quis ir, no lugar que você mais pensa... Te leva para dentro da sua própria mente e te da tudo que você quiser... É um método de se entreter com a própria mente... E as sensações são tipo “caralho velho!”_ ela riu um pouco_ É simplesmente é a melhor coisa já criada pelo homem.
Eglantine ficou lá parada fumando aquela coisa inútil e idiota enquanto eu fiquei olhando para ela espantada... Não parecia minha irmã... Minha irmã Eglantine Gomes tem o cabelo loiro que ela deixa preso em coques ou em transas e usa pijamas fofos com pantufas de animais em casa, ela é engraçada, protetora, responsável e estudiosa; ela ganhou uma bolsa de estudos para a faculdade de medicina.
Ela está diferente agora... Muito diferente.
Mas, diferente da mamão, por algum motivo, eu não quero mudá-la... Ela está tão feliz... Eu nunca vi ela feliz desse jeito.
Suspiro, caminho até Eglantine e a abraço bem apertado. Consigo perceber sua surpresa inicial, mas logo sinto seus braços me envolvendo e sua cabeça descansando no topo da minha. Ela suspira e diz:
—Minha irmãzinha linda— ela se levantou minha cabeça e me fez olhar em seus olhos— Você é boa Em... E especial também... Estou orgulhosa de você... Não precisa de um diploma ou uma bolsa para provar para mim que você é a melhor pessoa que eu já conheci.
Ele me deu um beijo na testa e relutante se separou de mim. Eglantine pegou sua bolsa/mala, a fechou e a colocou no ombro rumando até a varanda... Eu não ia deixar minha irmã ir embora assim e gritei:
— Espera!— corri e agarrei seu pulso— Não vai embora, por favor! Fica aqui comigo... Eu vou conversar com a mamãe... Vocês vão fazer as pazes.
Eglantine abriu a boca para dizer algo, mas nesse momento ouvimos o barulho da porta da frente se abrindo e o som familiar dos saltos de mamãe batendo no chão da sala e subindo as escadas. Eglantine disse rapidamente:
— Desculpa Em, mas não é assim que as coisas funcionam... Meu lugar não é aqui e você sabe disso. Agora e deixe ir embora.
— Não, por favor Glá!
— Me escuta Emily, eu vou sempre ser sua irmã mais velha e pode contar comigo pra tudo que você precisar, mas eu não posso ficar aqui por mais que você queira.
— Não vou deixar você ir de novo.
— Emily!
A voz da minha mãe ressoava do meu quarto... Logo ela viria até aqui e se encontrasse Eglantine iria ficar com muita raiva. Meio que em pânico minha irmã disse:
— 55504389.
— O que?
— É um celular. Ligue a qualquer hora sempre que precisar, agora me deixe ir embora!
Eu acabei soltando seu pulso e Eglantine correu para a varando e pulou a cerca, caindo no jardim. Segundos depois a porta se abriu num baque alto e minha mãe entrou batendo os pés e me encontrando no meio do quarto vazio de minha irmã. Ela olhou ao redor e disse:
— O que você está fazendo aqui?
— Nada... Só senti saudades.
— Hum... Onde passou o dia?
— Na casa de Eliza.
— Fazendo o que?
— Ah, conversando e vendo filmes.
— E
quantas horas chegou aqui?
— Não sei, por volta das seis.
Ela olhou no relógio de pulso e disse de novo:
— São sete e meia, o que você ficou fazendo esse tempo todo?
— Dever de casa.
— E de repente resolveu vir para o quarto de sua irmã.
— Sim.
Não iria contar que Eglantine apareceu aqui, arrumou uma mala, fumou um cigarro de maconha e fugiu ela varanda do quarto. Mamãe não parecia convencida com a minha explicação e disse:
— Ande em linha reta até a porta por favor.
— Por que?
— Emily, faça o que eu mandei!
Prontamente eu andei e coloquei meus pés um na frente do outro para andar em uma linha reta perfeita para que minha mãe visse. Quando parei na sua frente de novo minha mãe disse mais uma vez:
— Abra a boca.
— Mãe-
— Ande logo Emily!
Eu abri minha boca o máximo e conseguia e ela além de cheirar meu hálito também mandou que eu levantasse minha língua para ver se eu estava escondendo algo, o que ela descobriu que eu não estava. Minha mãe suspirou e se encostou numas das paredes do quarto. Ela disse cansada:
— Desculpa filha... A vezes tenho medo que você siga o caminho da sua irmã entende? Mas eu sei que você não é assim._ ela andou até mim e me fez um carinho na cabeça_ Você é minha filhinha perfeita.
Ela sorriu e saiu do quarto... Fiquei lá parada durante um tempo até que voltei para o meu devido quarto e tentei me concentrar nos deveres de novo, mas não consegui.
“ Você é a pessoa mais inteligente, boa e pura que eu conheço.”
“Você é boa Em... E especial também... Estou orgulhosa de você...”
“Você é minha filhinha perfeita.”
Parem de dizer essas coisas! Eu não sou pura, não sou boa e certamente não sou perfeita! Vocês não podem ter orgulho de mim!
Comecei a chorar e afundei minha cabeça no travesseiro da minha cama, puxei meus cabelos com força e gritei alto torcendo para que o travesseiro abafasse o barulho...
Passei grande parte da noite assim.
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