Abusada
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Não conseguia definir muito bem minhas emoções. Em parte estavam transbordando de felicidade. Finalmente aquele pesadelo iria acabar! Nunca mais veria aquele homem em tão pouco tempo! Enfim, livre!
Porém, a minha outra parte, a parte paranoica, continuava desconfiada. Por que ele iria embora tão facilmente? Será que no nosso último encontro, Charlie percebeu o mal que estava fazendo à mim? Será que ele percebeu que eu nunca ia desejá-lo e muito menos amá-lo?... Não. Charlie não é o tipo de pessoa que sente pena, muito menos desistiria assim tão fácil... E se ele estivesse tramando algo? E se essa aparente paz fosse para sentir-me segura antes da tempestade?!
Enquanto mordia a ponta do lápis e encarava a paisagem da janela, divagando, alguém bateu na porta da sala e disse que minha mãe queria falar comigo. O que seria tão importante que fez minha mãe largar o trabalho e vir aqui?
Entrei na sala do Diretor (ou melhor, da Diretora) e as duas estavam me esperando. Charlotte parecia nervosa e um pouco triste, foram raras as vezes em que não a vi portando a velha máscara de gesso. Minha mãe disse que iríamos sair para almoçar e fui liberada mais cedo.
No carro, estava mais confusa do que quando sai da sala. Perguntei para ela o que estava acontecendo, mas ela apenas disse que eu devia ter paciência. Como não estava sabendo de nada, cheguei ao restaurante bem aflita...
Era um restaurante italiano e minha mãe fez o meu pedido. Quando o prato chegou, percebi ser macarrão à bolonhesa. Foi só quando senti aquele cheiro que me lembrei de que estava sem comer nada já um dia e que minha barriga roncava tão forte que doía.
Enrolei o macarrão no garfo e o levei a boca. Enquanto mastigava, ouvia minha mãe falar:
— Querida, aconteceu algo... Lembra-se do seu pai?
Engoli a comida e respondi que sim. Ela continuou:
— Claro que sim. Eu sei que faz algum tempo que vocês não tem um contato e que houve alguns... Problemas. Mas vocês ainda são da mesma família... Por isso, talvez, seja difícil para você... Querida, seu pai faleceu.
O garfo com a segunda porção de macarrão que pegava parou no caminho para a minha boca. Não estava esperando por essa. Coloquei o garfo de volta no prato e encarei a comida. A vontade de comer foi embora.
Tudo bem, eu não via meu pai à anos, mas ainda sim, ele era meu pai. Lembro-me de todo natal, todo aniversário e todo dia de ação de graças em que passávamos em família... Mas agora ele estava morto. Ainda meio apática, perguntei:
– Como ele morreu?
— Teve um ataque cardíaco. Morreu a caminho do hospital.
Aquilo era... O que aquilo era? Sentia algo em meu coração, mas não sabia se era pesar ou felicidade... De repente senti culpa por “felicidade” ter passado pela minha cabeça...
Então, lembrei-me de alguém que devia estar passando pelo mesmo problema... Eglantine. Como ela iria reagir com essa notícia? Ela sabia? Mamãe teria recolhido o orgulho e ido falar com ela? Resolvi perguntar:
— Mãe, como está Glá com isso?
Ela apoiou os braços ao lado do prato e descansou a cabeça na mão, dando um longo suspiro. Ela disse:
— Não sei... Ainda não contei a ela... Acho que estou com medo.
– Medo? Por quê?
— Há mais uma coisa... O funeral dele será daqui a dois dias... Todos temos de ir lá.
Fiquei um tempo em silêncio, mas respondi:
– Com “todos” você quer dizer...
— Eu, você e sua irmã... Toda a família.
Mais um tempo em silêncio até que eu disse com a voz forte e decidida:
— Não pode fazer isso com ela.
— Eu sei, mas não tenho escolha.
— Por que não?
—Filha... Vai ser um pouco difícil de explicar isso... Acontece que eu não sou capaz de sustentar nos três, mais o salário das três empregadas e a nossa casa naquele condomínio sozinha... Eu tenho tentado trabalhar mais do que o normal, mas mesmo assim... Preciso da pensão do seu pai... E agora que ele morreu... Bom, a mãe dele deveria passar a nos ceder o dinheiro... Mas você conhece a sua avó paterna...
Na verdade, não conheço minha avó... Brigite Doyle é uma senhora da alta sociedade da cidade. De acordo com Eglantine, ela tem cabelos loiros Chanel e a cara esticada de plásticas. Seu filho, meu pai, é alto, branco, de cabelos loiros lisos e olhos azuis cristalinos. Minha irmã também é loira e branquinha, seus olhos são claros. Minha mãe nasceu com cabelos castanhos, mas desde a adolescência, pinta eles de loiros e hoje eles vão até os ombros e têm apenas um toque de castanho... Eu herdei a maioria dos meus traços de meu avô materno, sou a mais escura da família e a única de cabelo e olhos castanhos... E, aparentemente, por esse motivo minha avó nunca gostou de mim. Desde que eu me lembro, recusou-se a me ver. Em compensação, era bem claro que amava Eglantine e queria ela presente em todas as festas e reuniões de família...
De qualquer forma, tem alguém que minha avó odeia mais que eu. Minha mãe... Papai sempre foi o filho mais caseiro e morou com a mãe até se casar. Aparentemente os dois eram muito próximos. Na cabeça de minha avó, minha mãe foi uma bruxa cruel que separou mãe e filho.
Enfim, se dependêssemos dela pra sobreviver... Morreríamos de fome.
Remexi a comida no prato e perguntei:
— Acha mesmo que se eu e você aparecermos no funeral, ela vai mudar de ideia?
— É claro que não. Mas ela disse que depois deveríamos conversar. Sei que ela não gosta de mim e muito menos de você... Mas ela sempre teve um carinho especial por Eglantine... Só preciso que sua avó se lembre de que ela é da nossa família também.
— Não acha que está... Usando Eglantine para conseguir o dinheiro?
Ela levantou a cabeça e me encarou. Por um momento sua máscara de gesso havia voltado. Ela começou a dizer enquanto mexia na comida em seu prato:
— Emily. O mundo dos adultos é complicado. E há muitas coisas complicadas nele. Eu não sei porque comecei a falar disso com você. Você não entenderia mesmo que quisesse. Eu não estou usando sua irmã porque, em primeiro lugar, isso beneficiaria a ela também e em segundo lugar, é mais do que dever dela fazer isso.
Então nos duas paramos de falar e minha mãe começou a comer. Fiquei apenas olhando para o prato e jogando a comida de um lado para o outro... Só queria ir pra casa.
Quando mamãe terminou, ela encarou meu prato e viu que ele ainda estava praticamente intocado. Ela disse:
— Não vai comer?
— Perdi a fome.
— Tudo bem.
O garçom veio recolher os pratos. Ela pagou a conta. Fomos para casa. Minha mãe saiu para trabalhar e me deixou sozinha. Subi para o meu quarto. Deitei na cama. Isolei-me embaixo do cobertor. Dormi.
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