Abusada
42 Mudança...
Notas iniciais
De acordo com a escola, eu poderia faltar no máximo dois dias em vista do falecimento de um ente próximo... Mas claro que minha mãe nem sonhou em permitir isso. Então, no dia seguinte, eu deveria ir à aula.
Acordei com uma dor de cabeça enorme e uma náusea que fazia o mundo parecer estar girando. Eu sabia que isso era fome. Decidi finalmente comer antes que eu morresse.
Arrumar não seria o termo para o que eu fiz naquela manhã, pois eu basicamente me enfiei no uniforme e escovei os dentes. Depois disso, fui rumo à cozinha que estava vazia. Estranhei, pois geralmente Josephine, Margrethe e Rosa estão aqui nesse horário. Peguei uma maça e a comi rapidamente, sentindo a náusea parar um pouco, apesar de ainda estar com dor de cabeça. Peguei a bicicleta e fui até a escola.
Podem me chamar de ingênua, mas eu esperava que fosse um dia qualquer, onde os olhares dos alunos no corredor passavam direto por você. Onde eu sou apenas uma menina num mar de alunos cansados e despreparados para encarar mais um dia de aula... Mas não foi assim.
Hector não era o mais popular da escola e quem dirá eu... Mas havia uma cota de pessoas de tamanho considerável que o conheciam e já estavam sabendo da novidade. E o velho telefone sem fio começou a ser praticado. E o resultado foi milhões de cabeças se virando na minha direção enquanto eu passava no corredor. Muitos apenas olhavam e riam, mas alguns ainda cochichavam. Tinham alguns que não faziam a mínima ideia do que estava acontecendo, mas estes logo eram atualizados pelos prestativos colegas ao lado e se juntavam a massa de pessoas me encarando.
Olhei para baixo, arrumei a mochila no ombro e apertei o passo na direção do meu escaninho. Graças aos anjos, não havia nenhum bilhetinho ou pichação no meu armário, pois isto teria me feito morrer de vergonha. Porém quando eu abri, vi um papel que não tinha deixado lá no dia anterior. Abri-o.
“Pelo que Hector falou você até que deve ser gostosa. O que acha de deixar de pagar de santinha e fazer um ménage comigo e um amigo?”
Não havia assinatura. Meu rosto esquentou e meus olhos arderam, mas eu resisti e engoli o choro. Amassei o pedaço de papel e joguei a bolinha de volta no armário. Peguei o material e fechei a porta com força.
Não ousei levantar a cabeça nem por um minuto enquanto fazia o trajeto até a sala de aula, pois não queria ver nada de que eu não gostaria.
Agora eu teria aula de cálculo avançado. A única aula que eu fazia com gente do segundo ano... Assim que entrei na sala ela ficou silenciosa. Com certeza estavam falando de mim.
Geralmente sento numa das primeiras carteiras nessa aula, mas dessa vez queria ficar mais ao fundo. Não queria sentir os olhares queimando em minhas costas... Fui até a única carteira do fundo que estava vazia... Não era uma das que ficam no canto como eu gostaria, mas como só havia aquela, ia ter que servir.
Foi quando sentei que ouvi uma voz feminina e desconhecida dizendo:
— Então, como foi fuder com o Hector?
Uma explosão de risadas começou como se todos estivessem segurando até àquela hora. Abaixei a cabeça e me encolhi na carteira. Outra voz, próxima aquela disse:
— O pau dele é tão grande. Você deve ser bem arrombada pra caber tudo, em?
As risadas que sucederam essas foram ainda mais altas e acompanhadas de algumas outras piadinhas que não consegui ouvir... Eu queria levantar e gritar uma resposta para elas. Ser aquela garota selvagem e rebelde que são retratadas aos montes... Mas eu não era assim... Eu era apenas eu.
Encolhi-me tanto que mais um pouco e eu entrava na madeira da mesa. Felizmente foi ai que o professor entrou, mandando todos os alunos ficarem em silêncio e sem querer saber do motivo da piada.
A aula correu normalmente depois disso. Apesar disso, eu fiquei olhando pra baixo enquanto meus olhos ardiam e eu sentia lágrimas nos cantos dos mesmos... Mesmo assim me recusei a chorar.
Não houve brincadeiras tão diretas nos outros três horários, mas mesmo assim ainda havia olhares, risinhos e cochichos. Quando o sinal indicando o intervalo soou, eu corri na direção do banheiro que fica no corredor dos professores, que eu sabia que estaria vazio.
Mas antes que eu pudesse entrar alguém pegou no meu pulso. Virei-me e descobri que era Franklin. Ele carregava uma cara de pena, mas ao mesmo tempo parecia nervoso. Eu não esperei que ele falasse nada, apenas o abracei.
Franklin retribuiu e disse:
— Não se preocupe. Logo esses idiotas encontram algo melhor para comentarem.
— Não acredito que cai na dele.
—Todo mundo tem aquela decepção amorosa ridícula na vida. A sua só foi da primeira vez.
Ficamos em silêncio enquanto eu tentava fazer daquele abraço minha muralha. Eu disse:
— Obrigada. Você é o único amigo que me restou... Realmente, não sei o que faria se tivesse que passar por isso sozinha.
Ele suspirou e ficou em silêncio. Depois disse:
– Errr... Preciso te falar algo.
Eu me afastei do abraço e o encarei perguntando o que era. Ele respondeu:
— Você sabe que minha mãe faleceu há cinco anos... Então, depois daquilo meu pai desabou, entende? Claro que todos da família sentimos a falta dela... Eu e meus irmãos sentimos todos os dias... Mas meu pai realmente não conseguiu suportar.
— Sim. Percebi a mudança dele.
— Então... Faz alguns meses que ele encontrou uma garota no trabalho dele. Ela foi transferida de Miami e parece que é a gerente do departamento... Eles começaram a namorar e... Decidiram morar juntos.
— É, acho que isso vai ajudar seu pai.
— Só que... Ela quer voltar pra Miami.
Fiquei em silêncio antes de responder:
— Espera... Quer dizer que... Você vai se mudar?
Ele abaixou a cabeça, parecendo envergonhado e balançou a cabeça dizendo “sim”. Não conseguia acreditar. Meu melhor e talvez único amigo estava se mudando pra outro estado!... E o que eu iria fazer?
—Mas... Quando?
Ele suspirou de novo e disse, ainda com a cabeça baixa:
— Daqui a dois dias.
— O que?! Como só fico sabendo disso agora?!
— Eu soube semana passada. Eu queria te contar, mas não sabia como. Primeiro achava que se falasse em voz alta, se tornaria mais real... Depois, as coisas pareciam estar dando tão errado pra você que eu não queria te dar outra má notícia.
—Eu não quero que você vá.
— Também não quero ir, mas não tem outro jeito. Pai finalmente está sorrindo de novo e meus irmãos estão tão animados... Não quero estragar a felicidade de todo mundo.
Eu sabia que aquilo era importante para a família de Franklin e sabia também que ele estava falando a verdade quanto a não ter opções. Não queria parecer triste, pois seria ainda mais difícil para ele partir... Mas não conseguia não ser egoísta a esse ponto. Lágrimas começaram a cair dos meus olhos e eu disse:
— E quanto a mim?
— Ah não Emily. Por favor, não chore. Sabe o quanto eu gosto de você. Você é minha melhor amiga na face da Terra... Não chore. Se você chorar por causa de mim, jamais irei me perdoar.
—Desculpe... É que... Ah não importa.
— Importa sim. Você é minha amiga e importa sim.
— Preciso ir ao banheiro.
Não esperei que ele falasse mais nada e nem dei qualquer chance para que ele agarrasse meu braço como fez da primeira vez. Apenas entrei em um dos boxes do banheiro e fiquei lá durante todo o intervalo desejando que minha vida simplesmente não fosse assim e que as coisas melhorassem num passe de mágica.
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