Abusada
43 Funeral...
Notas iniciais
A chuva caía forte naquele dia. Eu estava no cemitério ao lado da minha mãe, observando enquanto algumas pessoas colocavam terra em cima do caixão onde jazia o corpo do meu pai. A chuva dificultava o trabalho dos homens já que tudo ali havia virado lama. Não seria muito difícil para um deles escorregar e cair vala abaixo, mas eu parecia a única preocupada com isso, já que todos carregavam guarda-chuvas grandes e negros.
O padre sussurrava algumas preces nas quais eu tomei a liberdade de não prestar atenção. Todo o resto estava em silêncio, exceto Brigite que chorava e gritava a plenos pulmões enquanto abraçava uma jovem de cabelos loiros. Deve ser a minha tia, irmã de meu pai. Glá disse que eu tinha uma, mas nunca a conheci.
Olhei para baixo. Mamãe havia comprado sapatilhas de bonecas negras envernizadas para a ocasião. Pena que agora estavam todas sujas de lama. Meu pé estava um pouco grudado então tentei puxá-lo o que resultou num forte barulho de sucção.
Algo se movimentou ao meu lado e eu virei a cabeça. Duas pessoas adentravam o funeral tão discretamente que quase ninguém percebeu que eles só apareceram no final. Reconheci o corpo, os olhos e as feições, mas os cabelos... Era Eglantine... Eglantine, loira! Ela estava completamente diferente da ultima vez que eu a vi. Usava um vestido negro até os joelhos, digno de uma socialite, escarpins pretos reluzentes e nenhuma joia ou bijuteria além de brincos com uma pedra que me parecia rubi e um colar com uma pequena cruz incrustada do que também me pareciam rubis... Mas o que verdadeiramente me surpreendeu foram seus cabelos estarem loiros claros e descerem em ondas perfeitas até o meio das costas... Se eu falasse aquilo a ela, tenho certeza que ela me afundaria no chão com um soco, mas fora a cor do cabelo, estava a cópia da nossa mãe... Como ela havia feito aquilo?
Cheguei mais perto e sussurrei o mais baixo possível:
— O que aconteceu com o seu cabelo?
— Shhhh.
— E que roupas são essas?
— Silêncio, Em. Depois.
Achei a reação de Glá comigo estranha, mas resolvi ficar calada, já que ela havia pedido. Percebi outra pessoa do lado de minha irmã que para mim era desconhecida. Era um homem, parecia ter quase a mesma idade que ela, era alto, forte e loiro, dos olhos bem azuis; trajava um terno negro bem bonito e alinhado com uma gravata verde escura de muito bom gosto. Aquele com certeza não era o Kevin. Parecia mais um boneco Ken saído direto da caixa. Com certeza não era o tipo de cara da Eglantine.
Perguntei a minha irmã:
— Onde está Kevin?
— Eu disse depois.
Quando o funeral terminou, continuamos parados. Alguns convidados vinham até a minha família e a mim oferecendo condolências, mas eu não conhecia nenhum deles e duvido que Glá ou mamãe os conhecessem. Nós três sabíamos que era apenas uma questão de formalidade.
Depois de tudo isso, Eglantine foi até nossa avó, que a recebeu com um abraço bem apertado e a encheu de beijos, marcando suas bochechas e testa com um batom bem vermelho. As duas pareciam estar afogando as mágoas uma na outra, apesar de que as lágrimas e suspiros de Eglantine, com certeza, eram falsos.
Minha mãe acabou se juntando a elas (o que diminuiu um pouco da euforia e enxurrada de emoções de Brigite) e eu resolvi me afastar. Encontrei um banco simples de pedra que estava na varanda de um grande mausoléu, que portanto estava relativamente seco. Espanei as folhas e galhos que haviam caído ali com minhas mãos e me sentei, esperando pacientemente e observando o grupo perto da sepultura recém-fechada.
Charlotte e Eglantine Gomez faziam uma bela dupla. As duas eram altas, belíssimas e inteligentes, tinham aquela feição e aquele brilho nos olhos que fazia você acreditar que elas eram capazes de conseguir tudo o que quisessem. Ambas eram fortes e decididas... e eu... bem... Eu sou só eu... Acho que faço jus ao termo “ovelha negra da família”.
Recostei minha cabeça na parede do mausoléu. Apesar de o banco ser duro e frio, eu estava cansada e o barulho da chuva acabou me servindo como um calmante, então cochilei. Acordei com Eglantine me sacudindo. Ela disse:
— Nossa avó já foi embora. Acabou. Vem, quer que eu te leve para casa?
Balancei a cabeça afirmando e a segui. A chuva havia parado e um delicioso cheiro de terra molhada e folhas amassadas tomaram conta do lugar. O cemitério estava vazio a não ser por mim, Eglantine e o Boneco Ken. Quando saímos pela calçada, consegui ver o carro da mamãe dando a artida. Glá me guiou até um carro prata muito bonito e nós três entramos, com o menino no banco do motorista.
Assim que as portas se fecharam ela suspirou e disse:
— Graças a Deus.
E arrancou seus cabelos loiros revelando o exótico azul. Ela estava usando uma peruca. Enquanto tirava os grampos e desprendia o coque que havia feito pude ouvir o Ken humano falando com uma voz rouca:
— Nossa, aquela sua avó tem uma cara de falsa. Apesar de que ela tenha muito bom gosto. E você viu aquela bolsa? É da última coleção. Fui ver o preço e quase cai pra trás da cadeira.
— É. Ela se preocupa muito com essas coisas... Céus, não estava aguentando mais...
— Por que você veio?
Eu perguntei... Por que ela viria ao funeral de papai? Seria como a reunião de todas as pessoas que ela odeia para honrar um homem que ela odeia mais ainda e que todo mundo trata como se fosse a melhor pessoa do mundo.
— Por sua causa, sua tonta. Mamãe me contou do problema que vocês estão com o dinheiro da pensão, então eu vim convencer a mulher plástica. Que, aliás, ainda pensa que estou morando com vocês e fazendo faculdade de medicina.
— É. Ela tá ultrapassada.
Disse o Ken. Fiquei curiosa em saber quem era aquele indivíduo e onde estava o Kevin, então perguntei:
— Desculpe, mas quem é você? E onde está Kevin?
— Kev está trabalhando, Em. Não ia obrigar ele a vir aqui. E, por acaso, precisava de alguém para fingir ser meu noivo rico e perfeito.
— E é ai que eu entro, porque perfeição todo mundo sabe que eu tenho. Prazer, sou Richard. No caso, namorado de Fernando.
— Fernando?
— O Dinho, Em. O nome dele é Fernando.
— Ah tá.
Ele era gay? Como assim? Tá bom, eu meio que desconfiei quando ele falou aquele comentário sobre a bolsa da minha avó, mas eu não imaginei que pudesse haver outro tipo de gay além do tipo do Dinho, ou seja, escandaloso, de voz fina e muito purpurinado. Esse cara até que podia se passar por um hétero machão.
Percebi um olhar de canto de Glá, como se ela soubesse o que eu estava pensando. Ela dizia silenciosamente que eu devia aceitar a todos independente de como são... É, acho que estou aprendendo isso com a minha irmã.
Fomos de carro até nosso condomínio com Eglantine e Richard conversando o tempo todo. Quando chegamos aos portões, Glá disse que ele podia ir pra casa e que ela pegaria um táxi na volta. Nós duas descemos e o carro arrancou.
Eu perguntei:
— Você vai pra casa?
— Só por uns dez minutos. Preciso dizer pra Charlotte o que foi decidido.
— Você conseguiu resolver o problema?
— Sim, consegui. Ela só pediu que Charlotte e eu fôssemos para sua casa almoçar semana que vem. Eu não quero ir e temos que inventar uma desculpa.
Caminhamos a pé até a nossa casa (agora só minha, eu acho) e Eglantine foi o caminho todo descalça e segurando os saltos. A essa altura a chuva já havia parado, mas o chão estava todo molhado e sujo, então seus pés estavam pretos de tanta lama. Ela não pareceu se importar com isso.
Quando chegamos, Glá colocou a mão na maçaneta da porta e disse:
— É. Lá vamos nós.
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