Abusada
44 Fuga...
Notas iniciais
LEIAM AS NOTAS INICIAIS
Abrimos a porta com cuidado e entramos. A casa estava bem silenciosa já que mamãe havia dispensado as três empregadas por hoje. Mas ainda conseguia ouvir um barulho vindo da cozinha, provavelmente ela preparando o jantar... Sim, minha mãe sabe cozinhar: ela só não gosta de se dar ao trabalho por isso.
Eglantine jogou os sapatos ao lado da porta e gritou:
— Charlotte. Vem cá, faz favor.
Nossa mãe apareceu na porta da sala e sua cara não estava das melhores, de jeito nenhum. Ela olhou com seu olhar em chamas para o cabelo azul de Eglantine, seus pés sujos e molhados e os sapatos jogados de qualquer forma no chão e disse:
— O que você pensa que está fazendo? Entrando como se estivesse na sua casa, gritando desse jeito e jogando as coisas pelo chão? Não foi desse jeito que eu te criei.
— Todas nós sabemos como você me criou.
— Não comece de novo. Sabe que não gosto quando fala sobre isso.
Ela disse, saindo na direção da cozinha. Eglantine foi atrás dela deixando pegadas de lama atrás de si... Com certeza, aquilo não terminaria bem. Meio que corri atrás das duas e cheguei a porta da cozinha a tempo de ver Eglantine gritar:
— Nossa! Coitada de você! Não deve suportar ficar ouvindo o quanto você é uma hipócrita desgraçada que nunca deveria ter tido filhos!
Mamãe jogou largou os pratos que estava lavando na pia (com certeza, quebrando alguns) e se virou para Glá furiosa. Ela também começou a gritar:
— Pare de falar comigo assim! Apesar da sua insistente vontade de esquecer, eu ainda sou sua mãe, ouviu bem? Isso significa que você me deve o mínimo de valor e respeito e eu não vou tolerar esse tipo de atitude nessa casa!
Dei um paço para trás... Não estava gostando daquilo.
Glá deu mais corda para a discussão:
— Ah é? E que tipo de atitude você tolera?! Tolera que o próprio marido vá ao quarto da filha todas as noites?! Tolera que a filha mais velha tenha medo de sair de casa?! Tenha medo sequer de olhar para o próprio pai?! Que viva com a garganta arranhada por gritar por ajuda mesmo ninguém vindo ajudá-la?!
Charlotte se aproximou mais da Glá e continuou gritando:
— Para de colocar a culpa pelos erros de seu pai em cima de mim! Não fui eu que fiz nada daquilo com você!
— Mas você permitia!
— É claro que não!
— Ah mas você sabia. Você sabia sim! Mesmo que tente se enganar, mesmo que ache que não deve ter remorso, lá no fundo você sabia o que acontecia e nunca fez nada!
— Eu tentei! Você sabe que eu tentei, mas eu não conseguia! Seu pai era um traste miserável, mas eu precisava dele!
— Mentirosa! Tudo podia ter se resolvido se você ao menos me desse alguma assistência! Mas você só ficava lá parada e se lamentando!
As duas continuaram discutindo. Lágrimas caiam dos olhos de Eglantine e eu podia ver os olhos de mamãe marejados... As duas discutiam por algo que não tinha resposta... As duas tentavam acusar uma a outra, mas nenhuma delas era a culpada! Só havia um culpado... E ele havia ido embora e deixado essa família em cacos de forma que eu deveria aguentar...
Eu vi meu futuro ali. Mãe e filha indignadas uma com a outra e brigando, sentindo ódio uma da outra até o fundo de seu ser... Uma por não ter a protegido e outra por estar a culpando... Sim, eu vi meu futuro... E não gostei do que vi.
Corri em desespero até meu quarto e bati a porta com força tentando me isolar. Deitei na cama e coloquei todos os meus travesseiros em cima da minha cabeça. Tentava isolar o barulho vindo do primeiro andar, mas parecia impossível. Elas não haviam percebido a minha saída e continuavam discutindo.
Quanto mais eu buscava o silêncio, mais alto as palavras de raiva das duas ficavam. Minha cabeça começou a doer e eu comecei a passar mal. Imagens de Charlie vinham a minha cabeça... As coisas que eles fez comigo... As coisas que ele disse para mim... Tudo isso passava em flashes na frente de meus olhos. Sentia seu olhar sobre mim. Os lugares onde ele havia me tocado estavam queimando, sentia como se estivesse sendo marcada a ferro quente.
Via Eliza, Jéssica e Franklin indo embora. Todos os meus amigos me abandonando. Vi a sepultura de meu pai na frente dos meus olhos e logo vi a minha sepultura... Meu estômago estava embrulhado, meus olhos pesavam, lutando para ficarem abertos, meu corpo inteiro suava e eu não conseguia fazer aquele barulho infernal dentro da minha cabeça parar!
Senti ânsia de vomito e corri para o banheiro onde entornei tudo o que tinha no meu estomago dentro da privada. Dei descarga, limpei a boca com o papel higiênico e sentei no chão do banheiro olhando para a parede de azulejos branca... O que ia acontecer comigo a partir de agora? Viver a minha vida com medo e sozinha. Em uma casa assombrada pelo espírito de meu pai, ora um homem exemplar, ora um monstro cruel... Ficar entre dois membros queridos da minha família... Viver constantemente olhando para os lados, entrando em pânico quando vejo os olhos dele, o carro dele, a roupa dele, ou alguém com seu nome...
Seria só isso?
Não...
Não iria aceitar viver assim. Não desse jeito, não aqui e não com essas pessoas.
Foi como uma injeção de adrenalina. Mais decidida do que em toda a minha vida eu levantei do chão e peguei minha mochila da escola.
Joguei todos os materiais no chão e comecei a enfiar várias roupas aleatórias dentro dela. Peguei a escova de dentes, a pasta e um pente. Arranquei aquele vestido e aqueles sapatos e vesti uma calça jeans, uma blusa, um casaco e um tênis. Quebrei um porquinho antigo que havia no canto e catei moedas e notas pelo quarto conseguindo juntar 87,75 dolares. Fechei a mochila com custo e peguei meu celular.
Fui até o quarto de Eglantine, onda havia grama por baixo da varando e, imitando-a, eu pulei e cai no jardim. Por não ser tão experiente quanto Glá, não cai exatamente em pé, mas não havia machucado nada seriamente
Corri pelo condomínio e finalmente me vi fora do portão, na esquina.
Talvez fosse a melhor decisão da minha vida... Talvez fosse a pior... Talvez eu fosse assaltada e assassinada daqui a 3 metros... Ou talvez eu parasse em Las Vegas como uma dançarina famosa... Talvez eu entrasse para uma máfia ou para uma gangue... Talvez eu matasse alguém... Ou talvez só fosse mais uma mendiga no mundo... Eu não sabia... Sabia que não aguentaria mais viver a minha vida... E que estava na hora de recomeçar.
Quando concluí meu pensamento, meu celular tocou. Era Franklin. Pensei seriamente em não atender, mas se eu fosse fazer aquilo, talvez nunca mais falasse com ele... Apertei o botão verde e disse com a voz tremendo por causa do frio.
— Alô.
— Oi, Emily. Só queria saber como você tá.
Engoli a saliva acumulada e respondi:
— Tô bem.
— Sua voz diz o contrário. Aconteceu alguma coisa?
Arrumei a mochila no ombro e comecei a andar na direção da saída da cidade. Respondi:
— Nada de especial.
— Sei. O que está fazendo?
— Andando.
— Andando? Para onde?
Fiquei em silêncio por um tempo. O que eu responderia? Contaria a verdade?... Depois de pensar muito, decidi que sim. Eu disse:
— Eu não sei Franklin. Para algum lugar.
— Como assim?
— Eu estou fugindo de casa.
— O quê?! Por quê?!
— É uma longa história que eu não estou a fim de contar.
— Espera, você ta no meio da rua a noite sozinha?! É perigoso!
— Vou ter que me acostumar com isso.
— Não. Emily, você não pode fazer isso. Para e pensa um pouco no que está fazendo.
— Eu já pensei.
— Céus. Fala onde você está. Eu vou ai te encontrar.
— Não.
— Emily, por favor.
— Não quero que você venha tentar me convencer.
— Mas Emily, você não pode fazer isso! Deixa de loucura e vai para casa!
— Eu não vou, Franklin!
Quando eu disse isso uma luz me iluminou. Levantei o olhar e vi que era o farol de uma van. Não me preocupei muito e continuei andando. Franklin continuou tentando me convencer a largar minha ideia, mas não consegui prestar muita atenção ao que ele estava dizendo... A van estava começando a diminuir a velocidade... E a chegar perto do acostamento...
Fiquei preocupada e mudei de direção. Disse a Franklin no telefone:
— Espera Franklin. Tem algo errado.
— O quê?
— Acho que...
Fui interrompida por uma mão pesada que cobriu minha boca. Arregalei os olhos e tentei gritar e morder a mão da pessoa, mas não consegui. Um de seus braços passou ao redor da minha cintura e me levantou do chão. Me remexi e tentei chutar tudo ao meu redor, mas não atingia nada. Percebi então que havia algo molhado em contato com meu nariz e minha boca... E então meu raciocínio começou a ficar mais lento... Meus músculos pararam de me obedecer... Minha visão ficou embaçada e eu ouvi o barulho de uma porta batendo antes de eu apagar e entrar na completa escuridão...
LEIAM AS NOTAS FINAIS
(LINK PARA A SEGUNDA TEMPORADA: https://fanfiction.com.br/historia/666641/Abusadall-Sequestrada/)
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