Abusada
27 Namoro...
Notas iniciais
A viagem de volta para casa foi barulhenta. Mamãe citou todos os tipos de drogas e seus efeitos, DSTs e seus sintomas além de, claro, dizer mais de uma vez o quanto o que eu fiz foi irresponsável, imaturo, imoral, ilegal e um monte de outras coisas... Quanto a mim, fiquei encolhida no banco chorando em silencio e olhando para a paisagem passando pela janela.
Chegamos em casa bem rápido já que o carro estava a mais 80 km/h e minha mãe agarrou meu cotovelo de novo e me arrastou para o segundo andar, meu quarto. Achei que ela iria me largar ali e ir embora, mas parece que não era o suficiente para ela. Charlote ligou o chuveiro na água mais fria possível, arrancou minha roupa rudemente e me jogou dentro da banheira antes mesmo que ela se enchesse.
Ela olhou para mim e disse:
–Tome um banho rápido e vá dormir. Amanha quero você impecável para a aula. Depois iremos para um médico, você deve ter pegado ou usado alguma coisa nesses lugares que sua irmã te levou. Não quero que vire uma viciada patética como ela.
Depois recolheu tudo o que eu estava usando e foi embora. Pude ouvir a porta sendo batida com força e o barulho da tranca... Eu provavelmente estava de castigo... Por ir ver minha irmã.
Comecei a chorar mais uma vez. Minhas lágrimas quentes contrastavam com as gotas geladas que saíam do chuveiro... Jamais gostei de coisas muito frias então não demorei muito no banho. Quando sai, olhei para o meu reflexo no espelho acima da pia. Meu rosto estava pálido, a maquiagem destruída e uma linha preta descia pelos meus olhos, alem disso um deles estava meio inchado e quente. Era o olho que Jack havia socado. Mas não foi com essas coisas que eu me preocupei mais... Minha barriga.
Era a primeira vez que visualizava os cortes que Charlie havia feito em mim... As linhas eram tortas e qualquer pessoa poderia duvidar, mas eu tinha certeza: era a forma de um C. Um C de Charlie... Ele fez isso de propósito. Para ele, foi como marcar um boi com ferro. Para ele, foi como escrever seu nome em um de seus pertences...
Vesti um pijama quente de algodão e penteei meus cabelos rapidamente, depois arrumei minha cama e entrei debaixo das cobertas pronta para tentar dormir e talvez esquecer do dia de hoje...
No dia seguinte acordei no mesmo horário de sempre, vesti meu uniforme e desci para a cozinha onde por algum milagre estava a minha mãe. Impressionante, ela nunca faz nenhuma de suas refeições junto comigo, mas no dia em que ela está com raiva faz questão de termos um café da manhã em família.
Como eu já esperava, tive de ouvir outro discurso bem parecido com o de ontem sobre responsabilidade, maturidade e ingenuidade. Porém, diferente de ontem a noite, eu já não estava triste e sim frustada e até com um pouco de raiva. Afinal, eu não estava fazendo nada de mais! Não é minha culpa que minha mãe aja como se houvesse um perigo diferente a cada esquina!
Depois que acabou seu café e seu sermão, Charlote se levantou e adotou sua velha postura fria e profissional. Ela disse:
–Rosa, você irá levar Emily para a escola hoje. Não quero ela saindo sozinha por enquanto. Emily, me espere no estacionamento depois da aula para que possamos ir ao médico e não quero nem um minuto de atraso. Tenha um bom dia.
Ela pegou sua bolsa e foi embora. Simplesmente assim. Quando eu terminei meu café (por algum motivo acabei comendo mais do que normalmente), Rosa já estava me esperando para que fossemos até o colégio.
Como não havia outra bicicleta e minha mãe me buscaria de carro depois da aula resolvemos ir a pé mesmo. Melhor, pois me daria mais tempo para pensar. Enquanto andávamos, ainda dentro do condomínio, ouvi passos rápidos na nossa direção e de repente Hector apareceu no meu campo de visão. Ele estava cansado e ofegante, mas conseguiu dizer:
–Bom dia. Te vi lá de casa e corri para te alcançar. Está indo para escola?
–Bom dia. S-sim.
–Que bom. – ele percebeu que Rosa estava o meu lado olhando curiosa para ele e disse – Olá. Sou o Hector, amigo da Emily. Você é?
–Eu sou a Rosa, vou levar Emily na escola hoje.
–Ah, bom se quiser posso acompanhar ela até lá.
Comecei a responder negando o convite, mas Rosa saiu me atropelando e disse:
–Eu acho uma boa ideia.
–Mas, e mamãe.
–Deixa que eu me entendo com a Dona Charlote. Depois de ontem, você merece uma folga. – Ela me deu um beijo na testa – Tenha um bom dia de aula, ok? Para você também Hector.
–Obrigado.
Então ela deu meia volta e pegou o caminho de volta para casa me deixando para trás junto com Hector que não parava de me encarar. Para tentar desviar de seu olhar eu comecei a andar, mas ele rapidamente me alcançou e começou a andar do meu lado. Ele disse:
–Ela parece legal. Parente?
–Quase isso. Trabalha lá em casa, mas cuida de mim desde que eu era pequena.
–Ah... O que aconteceu ontem?
–Hã?
–Ela disse “depois de ontem”. O que aconteceu?
–Nada. Só tive que estudar muito.
–Aham... Foi estudando que ganhou esse roxo?
–Como?
–Seu olho tá meio roxo do lado. Não percebeu?
Claro. Jack havia me dado um soco ontem. Não me olhei no espelho até agora, acho que vou evitar espelhos por um tempo... Não quero ver a minha barriga com aquela marca nunca mais... Achei que o gelo que Glá colocou faria com que isso sumisse, mas acho que apenas diminuiu o tamanho do machucado. Levei a mão até o local indicado por Hector e fiz uma pequena pressão constatando que estava dolorido e um pouco inchado.
–Claro. Havia me esquecido disso.
–Como conseguiu?
–Err... Eu cai da cama hoje de manhã. Bati a cabeça no chão e acabou ficando roxo.
–Não parece um machucado que se tem quando se cai da cama.
–Mas foi assim que eu ganhei ele!
Acho que fiquei um pouco nervosa com todas as perguntas que Hector estava fazendo e acabei, sem querer, elevando um pouco o tom da minha voz para dizer a ultima frase. Ele se encolheu e eu, arrependida, pedi desculpas.
Andamos mais um pouco em silencio. Já havíamos saído do condomínio e estávamos na metade do caminho para a escola quando Hector iniciou outro assunto, bem mais constrangedor.
–Então... Quanto a ontem na escola... Eu delirei ou você disse que gosta de mim.
–Disse... Mas também disse que nada poderia acontecer entre nós.
–É, mas não disse por que.
–Porque eu não quero.
–Não acredito nisso. Se não quisesse não teria retribuído o meu beijo naquela noite na minha casa e também não teria dito que gosta de mim.
–Por que você não pode aceitar a minha decisão e ir embora?
–Porque você não tomou essa decisão pelos motivos certos. Algo te impede de ficar comigo e eu quero descobrir o que é. Quero te livrar disso.
–Sinto desapontá-lo, mas isso é impossível.
–A-há! Então tem algo, não tem?
Não disse nada frente a essa pergunta, fiquei calada e deixei que ele tomasse suas próprias conclusões. Não podia contar sobre Charlie, os cortes na minha barriga ainda queimavam e lembro das palavras que ele disse... “Está vendo isso Emily? É o que acontece quando você me desobedece. É o que acontece quando você não faz exatamente o que eu te peço!... Isso vai te fazer lembrar a quem você pertence e que não pode sair por ai dando para qualquer moleque inútil que aparece na sua vida. “... Essas palavras, como tantas outras ditas por ele, ainda estavam cravadas no meu coração...
Tomei um susto pois Hector havia pulado e parado na minha frente de repente. Ele começou a falar:
–Eu não sei o que está acontecendo Emily. E apesar de que gostaria muito que você me contasse, estou vendo que não vai acontecer... Mas mesmo assim, eu quero estar com você. Quero estar perto de você, quero conversar com você, quero andar de mãos dadas com você e beijar você de novo!
Em frente a tais palavras acabei corando e abaixando o olhar. Ele viu que eu estava com muita vergonha para responde-lo, então continuou:
–Sei que está com medo de algo, posso ver em seu rosto. Mas eu posso ajudá-la! Eu juro que se me der uma chance, apenas uma, eu farei de você a garota mais feliz de todas e ficarei junto de você, talvez para sempre! Eu vou lutar contra qualquer coisa ou qualquer pessoa que tente ficar entre nós! E eu vou fazer com que esse seu medo acabe, seja o que for que o tiver causando!
Continuei de cabeça baixa. Eu tinha de admitir que eram lindas palavras e que elas fizeram com que algo em meu peito se acendesse. Um calor reconfortante que vinha do meu coração... Acho que estava me apaixonando pelo garoto de pele quente dono de um buldogue...
Como que para insistir mais uma vez, Hector segurou minha mão apertado e suplicou:
–Por favor Emily.
Mordi meu lábio inferior. Olhei para nossas mãos entrelaçadas... Isso seria tão bom. Deixar esse calor em meu peito crescer, permitir que ele florescesse... Seria bom ficar com Hector. Chegar na escola e ser recebida com um beijo de bom dia, sair para tomar sorvete nas tardes quentes, caminhar com Frolo e ele a noite pelo condomínio... Sim, seria muito bom... Apertei a mão de Hector de volta e sussurrei:
–Tudo bem.
–O que disse?
–Tudo bem.
Ele ficou em silencio por um tempo, acho que não esperava por isso. Depois sua mão, delicadamente, segurou meu queixo e fez com que olhássemos um para os olhos do outro. Hector disse:
–Serio?
–Sim.
Ele começou a se aproximar e eu continuei falando, num tom mais apressado e nervoso:
–Mas você vai ter que ter cuidado e não podemos nem olhar um para o outro dentro da escola. – sua mão soltou a minha e foi para a minha cintura – Estou falando serio, nem na escola, nem na rua.
–Ok, ok. Já entendi.
Então ele se inclinou na minha direção e me beijou mais uma vez. Um beijo doce qual eu sentia sua mão apertando minha cintura e sua língua se movimentando rápido dentro da minha boca... Um beijo que fez aquele calor em meu peito se intensificar... Um beijo que me fez fechar os olhos e me entregar completamente a ele.
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