Abusada
33 Morte...
Notas iniciais
Charlie
Terminei de abotoar a minha camisa e me olhei no espelho. Impecável... Sempre tive uma vontade de me apresentar sempre da forma mais perfeita possível e no meu trabalho isso, com certeza, não seria diferente.
Estava ansioso para me encontrar com Emily, tanto que estava até adiantado. Meu corpo estremeceu só em pensar naquela linda pele macia, naqueles olhos chorosos e naquela boca rosada. Hoje eu iria foder ela forte, quer ela queira ou não.
Quando estava pegando as chaves do carro, meu celular vibrou anunciando que uma mensagem havia chegado. Desbloqueei a tela e vi quem era, minha querida irmã Rachel. O que essa menina quer comigo? A mensagem era curta e seca:
“Aconteceu uma coisa. Você e eu precisamos ir na casa de papai.”
Revirei os olhos e escrevi uma resposta:
“Não”
Ela não perder tempo em responder:
“Não foi um pedido.”
“Não interessa.”
“Estou mandando, Charles.”
Menininha idiota. Me conhece a mais de vinte anos e ainda não sabe a diferença entre o nome Charles e o meu nome.
“Desde quando eu te obedeço? Ao contrário de você, certas pessoas tem que trabalhar.”
“Não me interessa. Você vai estar lá as oito em ponto.”
“Veremos.”
Eu não ia mesmo. Falar que odeio reuniões de família é pouco, pois eu as repudio. Odiava aquela casa e odiava aquelas pessoas. Desci o elevador carrancudo. Ao sentar no carro precisei de um momento encarando o nada. Flashs de memórias, como num filme, insistiam em passar pela minha cabeça e eu não poderia dirigir assim ou causaria um acidente e poderia sair machucado.
Em meio a isso meu celular vibrou mais uma vez anunciando outra mensagem. Se fosse aquela mimada da Rachel de novo eu juro que vou acabar com ela. Mas não era minha irmãzinha e sim meu tio, Frederick:
“Sua irmã disse que você brigou com ela.”
Ignorei completamente. Ele sabia muito bem que Rachel estava mentindo, como sempre. Essa menina era tão ardilosa que as vezes causava machucados em si mesma só para sentir o prazer de colocar a culpa em mim e ver todos a defendendo com unhas e dentes. Ela, com certeza, é uma dos Ross que eu mais odeio.
Outra mensagem de meu tio apareceu:
“Eu sei que as vezes ela pode ser um pouco... Imatura. Mas o assunto é serio e é necessária a presença de toda a família.”
“Agora é que eu não vou mesmo.”
“Charlie, por favor. Será uma hora no máximo.”
Ignorei mais uma vez. O que era preciso para esses idiotas largarem do meu pé? Frederick ainda não tinha entendido que eu não queria falar com ele, pois mandou outra mensagem:
“Apenas eu, sua irmã e a família dela estarão lá... Se o assunto não for resolvido hoje ele terá de ser adiado.” assunto tão importante é esse que decidiram me chamar?! Se eu pudesse simplesmente faltar seria maravilhoso, mas se eu fizesse isso eles adiariam a tal reunião e eu teria de ser obrigado a falar com Rachel mais uma vez. Não mesmo.
Depois de ligar para a escola e avisar que, devido a uma emergência familiar, eu não iria poder ir na parte da manhã, liguei o carro e peguei um caminho quase desconhecido, o que levava a casa de meus pais. Ela ficava a uns vinte minutos da cidade e além da construção de dois andares eles tinham setenta e cinco hectares de terra mais ou menos.
As terras da família Ross eram percorridas por uma estrada de pedras e logo que o meu carro entrou nela já comecei a segurar o volante com mais força. Eu realmente odiava aquele lugar. Depois de uns dez minutos percorrendo a “trilha” cheguei até a mansão, que continuava exatamente do mesmo jeito. A casa era antiga, branca, com o teto plano e cercada de varandas sustentadas por colunas quadrangulares; as janelas e as portas eram todas arredondadas e iam do chão até o teto. Ao redor da casa a grama era verde e aparada e haviam milhares de árvores tropicais, todas devidamente aparadas.
Identifiquei a BMW de Jacob, marido de Rachel e o maserati de meu tio Frederick estacionados na garagem externa e coloquei o meu carro próximo do deles. Sai e encarei o lugar. Apesar de ter de admitir que o ar era perfeito de se respirar e que gostava do barulho que o vento fazia ao bater nas árvores, ainda via aquilo como um tipo de quadro, pois não importa quanto tempo eu ficava longe de lá, nada mudava.
Bati na porta, já impaciente para ir embora, e uma mulher vestida com um uniforme preto de empregada abriu a porta. O rosto dela parecia feito de gesso de tão indiferente e ela disse:
–Boa tarde, posso ajudar?
–Sou o Charlie. Minha irmã e meu tio estão me esperando.
A mulher abriu passagem para que eu entrasse e me informou que eles se encontravam na biblioteca. Atravessei o hall de entrada e parei no núcleo da casa. Onde era mesmo a biblioteca? Acontece que eu vivi nessa casa apenas até os meus cinco anos e depois, passei a vir aqui somente em festas familiares que eu era obrigado a marcar presença. Só conhecia o segundo andar, onde ficava os quartos, a cozinha, o escritório de meu pai e a parte de fora.
Felizmente a empregada me levou até a tal biblioteca e anunciou a meus familiares minha chegada.
A biblioteca era um comodo retangular com o pé direito alto. A decoração era em madeira e uma das paredes era apenas de vidro o que permitia uma grande entrada de luz, havia um jogo de sofá no centro e duas paredes cobertas com estantes cheias de livros.
Nela se encontrava meu tio Frederick, com seus cabelos quase totalmente brancos, vestido com um terno cinza, Jacob vestido com uma calça jeans e uma blusa social branca cujos primeiros botões estavam abertos (detalhe: mesmo que o cara tenha trinta anos. seu rosto continua exatamente igual ao capitão do time de futebol do colégio que ele era) e Rachel com seus cabelos loiros ondulados vestida com um blazer e uma saia justa.
Bufei e disse:
–Vamos acabar logo com isso, tudo bem?
O clima parecia meio pesado no local. Primeiro porque Rachel estava se acabando de tanto chorar, apesar de que ela poderia estar chorando pelo fato do cartão de credito dela ser bloqueado; mas Jacob estava com uma expressão triste e até mesmo meu tio parecia desolado.
Achei estranho e enquanto ia entrando perguntei:
–Céus, quem morreu?
Rachel começou a chorar ainda mais e Jacob me olhou com repreensão. Frederick foi quem se aproximou de mim e explicou:
–Charlie... Seu pai ele... Estava viajando no jatinho e... Houve algum problema com o motor e...
–Está dizendo que ele está...
–Sim. Sinto muito, mas seu pai faleceu ontem a tarde.
Fiquei algum tempo parado, olhando para meu tio e processando aquela ideia... Meu pai. Morto... Isso é... Perfeito! Ele morreu! Mortinho da silva! Finalmente! Tantos anos ansiando pelo dia da morte daquele velho e ele finalmente chegou! Essa noticia é maravilhosa!
Dei um sorriso e disse:
–Nossa, isso é maravilhoso! Vou pedir para a empregada trazer um champanhe!
–Charlie...
Disse meu tio tentando ser compreensível comigo, mas foi interrompido por minha irmã escandalosa que levantou do sofá com os olhos em brasa e começou a gritar:
–Seu demente! Como pode se comportar assim?! Nossa pai acabou de morrer! A pessoa quem você deveria mais admirar e tomar como um exemplo acabou de desaparecer para sempre das nossas vidas! Seu insensível, miserável, aproveitador!
–Rachel, quer mesmo começar a discutir quem é insensível e aproveitadora por aqui?
–Você é doente! Você é um monstro!
–Rachel, mantenha a calma.
Disse Frederick. Ele odiava brigas entre a família e sempre tentava apaziguar as coisas entre nós, mas Rachel apenas se virou para ele e continuou gritando:
–Não! Ele é um traste nojento que não merece ter o sobrenome da família Ross! Quero esse idiota deserdado e expulso da minha propriedade!
–Ah então o velho deixou um testamento?
Frederick se virou para mim e disse:
–Sim, mas ele ainda não foi lido.
Rachel começou a rir e começou outra serie de seus gritos altamente irritantes:
–Não pense que vai ganhar alguma coisa com isso! Você sempre foi o indesejado dessa família! Papai não irá lhe deixar nem um tostão furado!
Revirei os olhos e disse:
–E você acha que eu quero alguma coisa dele? Nunca me deu nada e não vai ser agora que vai começar a ser bonzinho.
–Ah, você não viu nada. Estou falando serio Frederick, quero este homem expulso de tudo o que a família Ross representa!
–Estou com minha irmã nessa Frederick.
–Charlie, acalme-se você também. E Rachel, eu acho que você está sendo irracional.
–Irracional! Eu?! Nada disso! Eu quero esse menino fora daqui nesse exato momento.
–É, mas isso não vai acontecer!
Foi o único momento em que meu tio se alterou e acabou gritando. Rachel pareceu surpresa e se encolheu, de repente bem mais calma. Digamos que minha irmã não está acostumada com gritos dirigindo-se a ela e sempre teve todas as suas necessidades atendidas pela família. Exceto por Frederick que é, de longe, a pessoa mais correta daquele monte de merda.
Foi nesse exato momento em que alguém bateu na porta. Meu tio permitiu a entrada e uma outra empregada, parecendo meio constrangida por ter ouvido a gritaria, disse:
–Desculpem o incomodo, mas o advogado acabou de chegar.
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