Abusada
20 Lembrança...
Notas iniciais
Corri, corri, corri, corri. Corri até desabar no meio do corredor de cansaço. As aulas ainda estavam acontecendo então não haviam alunos ou funcionários para me impedir de tal luxo... Eu precisava de um tempo. Um longo tempo longe de tudo. Da escola, da minha mãe, de Eliza, de Jéssica, de Hector, de Charlie... Charlie. Só de pensar nele, sentia minha barriga doendo e não era num bom sentido. As marcas que ele havia feito em mim ainda doíam e pulsavam a cada batida do meu coração, como para me lembrar de que aquilo realmente aconteceu.
Sim, eu realmente precisava de um tempo. Mas onde? Como? Com quem? Eu não tinha ninguém a quem recorrer... Estava sozinha.
Mas talvez não tão sozinha assim. “Me escuta Emily, eu vou sempre ser sua irmã mais velha e pode contar comigo pra tudo que você precisar “... Eglantine. Minha irmã mais velha. A única pessoa da minha família que eu sempre confiei completamente e sem medo de julgamentos e afins... Mas será que ela estaria comigo em todos os momentos?
De repente uma lembrança veio até a minha mente. Essa lembrança lutava e gritava para sair de dentro da jaula a qual eu a tranquei e depois nadava e se esforçava para não afogar no mar de lágrimas e dores que eu havia inundado a minha mente de uns tempos para cá... Mas essa lembrança era antiga, muito mais antiga.
Gritos ecoavam por cada canto da casa, coisas eram atiradas nas paredes e eu as sentia se chocando no chão e as ouvia se estilhaçando em milhões de pedaços. Punhos eram cerrados, pele era arranhada e socada, cabelos se agitavam e até mesmo gotículas de saliva flutuavam pelo ar.
Meu olho direito estava fechado e latejava como minha barriga agora, eu tinha caído de algo em algum lugar por algum motivo. Meu olho esquerdo estava molhado e sua visão embaçada o que não me deixava identificar o que eu via com total precisão.
Minhas cordas vocais pulsavam e eu podia sentir minha garganta arranhando indicando que eu estava gritando a plenos pulmões e há muito tempo.
Era a sala da minha casa, mas parecia maior e os móveis pareciam mais altos. No meio dela haviam duas pessoas, uma era minha mãe e a outra era um homem... A outra era meu pai... Seu terno costumava estar sempre engomado e seu cabelo perfeitamente penteado para trás, mas naquele momento sua aparência era bagunçada e irradiava cansaço.
Num canto, perto da lareira, encolhida dentro de um enorme lençol que parecia ter sido tirado as pressas da cama, estava a minha irmã, Eglantine. Seu rosto estava vermelho e havia traços de lágrimas ainda molhados em suas bochechas redondas, seu cabelo loiro escorria pelas costas e estava embaraçado e empapado de suor.
Ela estava petrificada e olhava para os dois adultos brigando a centímetros de distancia dela. Eu chorava e chorava e gritava e gritava, mas ninguém dava atenção a mim. Algo de vidro foi jogado na direção de meu pai que se abaixou e o objeto foi parar na parede atrás de mim, a centímetros de minha cabeça. Consegui me encolher e esconder meu rosto para que nenhum caco acabasse perfurando meu olho. O barulho fez Glá pular e ela parecia ter despertado de um transe.
Nossos olhares se cruzaram. Ambas chorando e apavoradas, encolhidas num canto e esquecidas. Eglantine não perdeu tempo, apertou o lençol contra seu frágil corpo, levantou-se com dificuldade e veio cambaleando na minha direção. Eu estendi meus braços trêmulos e minha irmã mais velha me pegou no colo... Eu nunca a tinha sentido tão fraca antes.
Ela começou a subir as escadas, em passos lentos, cambaleantes e hesitantes. Sentia que ela estava fazendo um esforço enorme para me carregar e me tirar dali, mas não conseguia me obrigar a sair do aconchego de seu colo e do abrigo de seus braços.
Sentia sua pele quente e úmida contra as minhas roupas... Por algum motivo, ela estava nua por baixo do lençol... Depois do que parecia uma eternidade subindo as escadas, finalmente chegamos até o banheiro do corredor, onde Glá nos trancou dentro.
Nós duas nos sentamos juntas no chão frio e juntamos nossas cabeças, colando nossas testas, enquanto derramávamos nossas últimas lágrimas. Eglantine acariciava meu cabelo enquanto dizia que tudo ia acabar bem, porém ela não parecia ter certeza do que dizia...
Voltei a realidade quando senti alguém me cutucando no ombro. Era uma das moças que eram responsáveis pela limpeza da escola. Percebi que ainda estava sentada no meio do corredor, sozinha e chorando. A mulher parecia preocupada e disse com uma voz doce:
–Você está bem?
–E-estou. É que eu caí. Desculpe.
–Tudo bem. Quer que eu a leve até a enfermeira?
–Não, não. Estou bem, obrigada.
Me levantei e caminhei para longe da mulher desconhecida. Não queria voltar para a sala. Não podia voltar para sala, não nesse estado.
Cruzei outro corredor e entrei dentro do banheiro mais próximo. Meu celular estava no bolso interno do cardigã, como sempre e eu o tirei e o liguei. Com dedos hesitantes eu diquei o número. 55504389.
Três toques foram necessários até que uma voz grossa e rouca, parecendo sonolenta disse:
“Dinho, eu juro que eu vou te dar um soco tão forte que você vai perder todos os seus dentes.”
Ok, quem diabos era aquela pessoa?! Será que eu gravei o número errado? Não era possível, eu nunca gravei um número de telefone errado.
Uma voz mais ao fundo ressoou no aparelho, estava rouca e cansada, mas era feminina, mais especificamente, era a voz da minha irma:
“É aquele filho da puta do Dinho? Me dá essa merda aqui.” Ouve um silencio e eu ouvi a voz de Glá mais de perto. “Seu viado, eu já disse para nunca me ligar antes de meio dia! Você sabe o quanto eu tran-...”
–G-Glá.
“Em?! Puta merda, desculpa.”
–Desculpa. E-eu não... Eu não sei por que...
“Ei, ei, ei. O que aconteceu?”
–É que... Aconteceram... Eu preciso... De um tempo.
“Tempo? Tudo bem. Mas me diga o que houve?”
–C-coisas.
“... Coisas... Entendi... Só um instante”
Ela colocou a mão em cima do telefone e entendi que ela estava discutindo com alguém do outro lado da linha. Depois de um tempo, sua voz voltou para o meu ouvido:
“Me espere no estacionamento da sua escola, vou passar para te pegar.”
–Mas-...
E ela desligou na minha cara. Típico.
Suspirei e guardei o celular para logo depois rumar para a sala mais uma vez.
O resto da aula se arrastou, seja prestando atenção nos professores ou olhando para o tempo não fez diferença, os segundos pareciam horas e os minutos décadas. Quando o último sinal do dia tocou eu fui uma das primeiras a sair no corredor e depois de uma rápida passada no meu armário, já estava no estacionamento.
Alunos e professores procuravam seus carros e/ou conversavam em suas respectivas panelinhas, o local estava lotado e barulhento... Mas isso não impediu que cada alma viva presenciasse a entrada de uma moto vermelha, brilhante e bonita com uma motorista mais bonita ainda.
Eglantine usava uma calça jeans azul escura com saltos de tiras negro (não me pergunte como ela sabe pilotar de saltos... Aliás não me pergunte como ela sabe pilotar uma moto) e um espartilho vermelho escuro. Seu cabelo exótico descia em ondas, seus olhos estavam marcados com delineador e sua boca era vermelha como sangue... Todos os olhares, principalmente masculinos, estavam voltados para ela, como sempre.
Eu corri até minha irmã com a cabeça baixa e peguei o capacete preto que ela me estendeu. Eglantine tinha o rosto serio e olhava com arrogância para muitos dos que a estavam encarando... Eu não gostava nem um pouco daquela atenção. Desse jeito, o tópico principal nas conversas de amanha seria a pequena Emily e sua irmã gostosa e como fazer para se aproximar dela (da irmã, claro).
Eu perguntei, nervosa:
–Será que podemos ir?
–Por que a pressa?
–Não gosto disso e você sabe.
Eu disse olhando para os lados. Glá notou, mas não deu muita importância. Ela verificou com muito cuidado se o meu capacete estava no lugar e bem apertado e me ajudou a subir no veículo, depois colocou o próprio capacete e subiu na moto também.
Abracei minha irmã e nós duas saímos na velocidade da luz do pátio da minha escola.
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