Abusada
23 Festa...
Notas iniciais
LEIAM AS NOTAS INICIAIS
É DE EXTREMA IMPORTÂNCIA
Ouvi passos pesados vindos do corredor, mas não tive vontade de levantar minha cabeça e ver quem era. Eu não estava chorando, mas meu olhos estavam pesados e meu peito doía, como se minhas costelas quisessem rasgar meu coração... Os passos vieram acompanhados de um assobio constante que parou quando chegou perto de mim. Uma voz masculina e preocupada disse:
–Emily, você está bem?
Levantei a cabeça, funguei e vi Kevin me olhando da cozinha. Relutante eu disse:
–Sim, não precisa se preocupar.
–Hum... Tudo bem.
Claro que isso não bastou para ele pois o menino desapareceu no corredor e segundos depois minha irma estava sentada ao meu lado me fazendo exatamente a mesma pergunta e recebendo um “estou bem” impaciente de volta. Ela torceu os lábios e pediu desculpas... Ficamos caladas durante alguns instantes até que Glá perguntou:
–Então, o que quer fazer?
Olhei para o relógio, já eram quase sete horas da tarde... Havia perdido a aula de piano, de cálculo avançado, de história e estava quase perdendo a aula de ballet... Precisava voltar para casa. Eglantine percebeu minha preocupação e perguntou:
–Quer voltar pra casa?
–Bom, eu tenho aula amanha e-...
–Não foi isso que eu perguntei. Você quer voltar pra casa?
Suspirei e disse:
–Na verdade, não.
–Então vamos encontrar algo divertido pra fazer aqui.
Como se o universo estivesse conspirando a nosso favor, Kevin apareceu falando ao telefone com um tal de Dinho... Talvez fosse o mesmo Dinho com quem eles tinham me confundido hoje mais cedo. Kev estendeu o aparelho para Glá que o colocou no ouvido e falou:
–E ai Dinho?... De boas... Hoje a noite? Vei, é complicado... Minha irmã tá aqui em casa... Ela só tem quinze anos, queridinho... Tudo bem, espera um pouco... Emily, o que você acha de ir em uma festa comigo?
–O que?! Vai querer mesmo levar a sua irmã mais nova em uma das festa do Dinho?! A maconha ta afetando seu cérebro, só pode!
–Quieto Kevin, ninguém pediu a sua opinião.
–Mas eu vou dar mesmo assim. Você vai levar uma adolescente fofa e inocente para uma festa onde só vai ter drogado e alcoólatra?!
–Eu e você vamos nessas festas o tempo todo!
–Exato!
–Relaxa, eu vou cuidar dela.
–Melhor segurança impossível.
Obviamente essa frase foi ironia pois o garoto revirou os olhos ao dize-la, o que fez Glá mostrar a língua pra ele. Voltando seus olhos para mim, ela refez a pergunta inicial. Não precisei de muito tempo para pensar e dizer que sim. Ora, era minha irmã! Mesmo Kevin tendo dito todas aquelas coisas, eu sabia que Eglantine jamais me colocaria em perigo... Eu acho.
Depois de trocar algumas palavras com o tal Dinho ela desligou o celular. Kevin ainda reclamou mais um pouco, mas Eglantine mandou uns palavrões para ele e fez o coitado se recolher no quarto indignado. Por fim, ela pegou minha mão e nos tirou do apartamento.
Não sabia aonde estávamos indo, mas resolvi deixar aquilo por conta de minha irmã. Não saímos do edifício. Subimos dois lances de escada e paramos na frente da porta de um dos apartamentos do andar. Parecia como qualquer outro do prédio, mas havia um apanhador de sonhos pendurado na porta e um barulho alto de guitarra saindo de dentro...
Glá tocou a campainha milhões de vezes seguidas até que o barulho da guitarra desaparecesse e a porta fosse aberta por uma garota baixinha e que parecia muito irritada. Ela usava uma cala jeans, uma blusa com alguma estampa estranha e estava descalça, seus cabelos eram curtos, repicados e bagunçados e seus olhos eram quase pretos. Um cigarro pendia de sua boca e a fumaça dele invadia minhas narinas.
Ela olhou com fúria pra Eglantine e disse:
–O que você quer?
–Céus, até parece minha mãe. Obrigada pela bela recepção.
Ela empurrou a garota baixinha para o lado e entrou junto comigo no apartamento que era igual ao dela, porém com todos os móveis pretos e todas as paredes e os pisos brancos. Apesar daquilo fazer com que o ambiente parecesse maior, ainda dava um nó no cérebro como uma visão de ótica.
A garota não nos impediu a entrada, fechou a porta e se largou em cima do sofá. Ela pegou uma guitarra, também branca, que estava apoiada na parede e começou a tocar algo que me parecia complicado, mas que ela fazia sem esforço algum.
Minha irmã foi na direção da cozinha enquanto eu observava petrificada os dedos da menina pulando de corda em corda numa velocidade impressionante, porém com cada movimento milimetricamente calculado. Aquilo me deixou impressionada. Já havia visto pianistas profissionais fazendo algo parecido nas teclas do piano, mas essa garota me deixou mais boquiaberta do que qualquer um deles.
Ela percebeu que eu estava encarando-a e parou de tocar no meio da musica. Soltou a fumaça do cigarro e o apoiou num cinzeiro que havia na mesa de centro da sala, depois me encarou com aqueles grandes olhos e eu percebi algo... Aqueles olhos tinham a mesma cor dos olhos do Charlie... Olhos castanhos tão escuros que era quase impossível diferenciar a pupila da íris... Pisquei milhares de vezes e dei alguns passos para trás... De repente aquela menina passou a me dar medo.
Ela fez uma cara desconfiada e disse, alto para que Glá pudesse ouvir da cozinha:
–Quem é essa pirralha?
–É a minha irmã mais nova, Emily. – Glá vinha da cozinha carregando uma lata de cerveja – Emily, esta é Angel. Irma do Kevin.
Angel. Com certeza aquele nome não combinava com a natureza raivosa e desconfiada da garota a minha frente. Angel não desfez sua feição e perguntou mais uma vez a minha irmã:
–E por que ela parece ter medo de mim?
–Sei lá... Mas você tem que admitir que causa medo nas pessoas.
–Tsc. Vai se foder.
Ela disse isso, depois pegou o cigarro do cinzeiro e o colocou de volta na boca. Eglantine sentou-se no sofá ao lado dela bebendo da cerveja e eu permaneci parada no meio da sala. Angel me olhou de cima a baixo como se quisesse (e pudesse) ver no fundo de minha alma, por fim me ignorou completamente e perguntou a Glá:
–O que ela está fazendo na minha casa?
–Ah sim. Sabe a festa do Dinho?
–Sei. Tava pensando em ir.
–Então pode parar de pensar porque você vai. Aliás, Emily também. E é isso o que nos traz aqui. Preciso de roupas que caibam nela e vocês tem quase o mesmo corpo.
Agora eu havia percebido que eu e Angel temos a mesma estatura... Mas dizer que temos o mesmo corpo é uma mentira total. Quer dizer, a garota tem umas coxas de dar inveja e eu sou um palito de dente!
Angel emitiu um riso debochado e disse:
–Acho que está bem na cara que eu e a garota não temos exatamente o mesmo estilo.
–Exatamente. Emily vai ficar muito gata com as suas roupas.
A irmã de Kevin me avaliou mais uma vez e pensou durante vários minutos enquanto fumava seu cigarro. Quando terminou ela o apagou no cinzeiro, se levantou e disse:
–Tudo bem. Mas vai demorar muito.
Eglantine deu pulinhos e disse sorridente:
–Isso vai ser incrível!
Fale com o autor