Abusada
29 Consulta...
Notas iniciais
Estava no banheiro feminino. Felizmente tenho um estojo de higiene pessoal no armário para emergências então pude escovar os dentes. Limpei cada um dos dentes separadamente, e quase cortei a língua fora de tão forte que a escovei... Mas não importava os meus esforços, aquele gosto não saía da minha boca... Aquele gosto de pecado, de crueldade e de humilhação que parecia gritar na minha mente “você é fraca, você é fácil de ser dominada, você é uma vergonha”...
Joguei a escova para o lado e enxagüei a boca pelo que parecia a terceira ou quarta vez. Me olhei no espelho. Ainda não tinha parado de chorar. Meus olhos estavam vermelhos e inchados, meu cabelo completamente desgrenhado, minha respiração ofegante enquanto água e lágrimas rolavam pelas minhas bochechas e pingavam do meu queixo.
Queria quebrar aquele espelho em mil pedaços e simplesmente apagar a minha imagem do mundo... Mas isso não era possível... Ou era?... Desviei o olhar para o estojo aberto repousado do lado da pia... Havia uma tesoura pequena nele... Poderia pegá-la e usa-la... Isso o afastaria por um tempo, me faria pensar em outro tipo de dor além da que ando sentindo a meses...
Vasculhei a pequena bolsa até encontrar a tesoura. Segurei ela com a mão direita forte e determinada, sentindo o metal frio em contraste com a minha pele quente. Pousei uma das laminas sobre o meu pulso... Meu braço começou a tremer. Vamos Emily! Não é possível que não seja capaz de fazer nem isso sequer!... Como se tivesse perdido o controle do meu corpo, minha mão se moveu e jogou a tesoura até o outro lado do banheiro.
Apoiei as duas mãos na pia e abaixei a cabeça, chorando e soluçando mais e mais alto. O que eu fiz? O que eu estou fazendo? O que eu farei?... Por que eu? Por que não qualquer outra menina da escola que faria isso tudo de bom grado para ele?!... Até quando esse pesadelo vai me perseguir?!
Soquei a bancada com força e segundos depois ouvi o sinal ecoando pelos corredores do lado de fora. O passe que tinha ganhado de Dorothy quando sai da enfermaria só servia até o final desse horário e logo os corredores e esse banheiro ficariam apunhados de alunos atrasados e garotas se aliviando ou apenas retocando a maquiagem e arrumando o penteado... Joguei a escova, a pasta e a tesoura dentro do estojo e o fechei, em seguida, saí do banheiro rumo aos corredores.
A aula se arrastou. Mais uma vez, não consegui prestar atenção na maioria delas, apenas anotei tudo o que os professores mandavam e prometi a mim mesma estudar mais tarde sozinha... Quando finalmente as seis insuportáveis e exaustáveis matérias terminaram fui liberada. Guardei os livros no armário e sai para o estacionamento da escola, respirando um ar puro e fresco.
Já estava pensando em pegar a minha bicicleta e pedalar o mais rápido possível, talvez até passar no morro íngreme que tem perto da casa de uma das minhas tias e descer de lá... Sempre foi algo que me acalmou e naquele momento era exatamente disso que eu precisava... Mas meus planos foram frustrados por meu celular vibrando no bolso. Havia chegado uma mensagem da minha mãe: “ Estou na vaga perto da saída. Irei buzinar quando te vir. Não se atrase”... Droga, esqueci que mamãe iria me levar ao médico...
[...]
– Acontece Doutora, que Emily simplesmente não entende como o mundo funciona. Ela tem apenas quatorze anos e acha que já pode mandar na própria vida, sabe? Sai por ai sem avisar a própria mãe, anda com pessoas de mau caráter. Quer dizer, as notas dela são boas, mas de que adianta isso?
Minha mãe estava fazendo aquele discurso a quase meia hora. Charlote tem essa mania de descontar nos médicos e atendentes suas frustrações como se eles fossem seus próprios psicólogos. A Doutora Hellen não estava com uma cara de que estava gostando do falatório, apesar de sempre dar linha para minha mãe continuar.
Estávamos no consultório da minha médica. Havia feito uns exames normais (estetoscópio, checagem de ouvidos, nariz e garganta), depois um exame de sangue e um ginecológico. Enquanto esperávamos os resultados as duas mais velhas conversavam e eu encarava as páginas de um livro qualquer aberto e fingia lê-lo. A médica disse:
–Ah Char, também né? Essa juventude de hoje vive enfiada nesses aparelhos eletrônicos que derretem a mente.
As duas deram risadinhas típicas de comerciais para produtos de limpeza e iogurtes lights.
Para a minha felicidade, os resultados enfim chegaram. Após uma análise longa e silenciosa de Hellen, ela abriu um enorme sorriso para a minha mãe e disse:
–Não precisa se preocupar com nada Char, Emily está em perfeitas condições. Nada que indique doenças, nem presença de substancias provenientes de drogas ou bebidas alcoólicas. Fora esse pequeno roxo no rosto, não há nada de errado.
Charlote suspirou e disse:
–É Emily, parece que Deus resolveu te dar uma segunda chance filha. Coitada de você se alguma coisa de anormal tivesse aparecido nesses exames.
Mais uma vez Hellen deu um sorriso de comercial. As duas começaram a falar de assuntos mais banais visto que eram amigas fora do consultório. Por fim, minha mãe começou a se levantar para ir embora quando a Doutora falou:
–Char, por que não vai resolvendo as contas com a minha secretária enquanto eu bato um papinho com a Emily?
–O que? Papinho? Sobre?
–Não precisa se preocupar. Sei que ela é de menor e tudo mais, mas gosto de ter essa pequena privacidade com meus pacientes. Não direi nada que você não saiba.
Mamãe parou na porta do consultório e ficou alternando seu olhar entre mim e Hellen. Depois do que pareceu uma eternidade ela finalmente suspirou e disse:
–É... Acho que tudo bem.
Com cuidado ela fechou a porta da sala e ouvi seus passos ecoando pelo corredor até ficarem inaudíveis... Aí estava, a hora que eu tive tanto medo de chegar. A médica olhou para mim com aquela cara de “eu sei o que você andou fazendo”, entrelaçou as mãos encima da mesa e disse:
–Então Emily, catorze anos, certo? Eu me lembro de quando tinha essa idade. Tão ingênua e sonhadora...
–Poderia ir direto ao assunto, por favor?
Ela deu um minimo sorriso e arrumou seus óculos vermelhos por cima do nariz antes de dizer:
– Você tem namorado?
–Por que essa pergunta?
–Você sabe exatamente o porquê.
Droga. O que você estava pensando Emily? Que uma médica, depois de fazer milhares de exames, não iria descobrir que você não é mais virgem? Maravilha. O que eu diria a ela? Eu não tinha namorado, na verdade nem havia sido consensual... Eu gostaria de contar para ela mas... Hellen é amiga da minha mãe, mas jamais fomos próximas...
Meu rosto se avermelhou e eu abaixei a cabeça com vergonha das coisas que havia feito. Ainda sentia o gosto de Charlie na minha boca, ainda podia sentir seu toque duro na minha pele...
Ouvi a médica suspirar e dizer:
–Tudo bem... Sua mãe não sabe, certo?... Eu não vou contar para ela, acho que quem deve fazer isso é você. Só tome cuidado, tudo bem? Não preciso repetir o que você já aprendeu nas suas aulas de biologia, mas só pra reforçar; gravidez nessa idade é algo muito serio mocinha e ainda tem a parte das DSTs... Se proteja bem, ta?
–Sim senhora.
–Você é uma boa garota Emily... Eu acho que está muito nova para começar a fazer essas coisas, mas não quero e não devo julgá-la.
–Sim senhora.
–Ótimo. Vou chamar sua mãe.
Eu e ela nos levantamos ao mesmo tempo e apertamos as mãos. A minha vacilante e fraca, a dela firme e forte. Depois fomos nos encontrar com minha mãe na recepção e finalmente fomos embora para casa... Onde uma surpresa me esperava...
Fale com o autor