Abusada
14 Buldogue...
Notas iniciais
Depois de deixar minha bicicleta no concerto eu segui sozinha para a minha casa e após um breve almoço resolvi me trancar no quarto e me dedicar aos meus estudos, uma forma minha para esquecer o dia e me manter ocupada. Quando eu digo “me trancar” estou falando metaforicamente pois eu não tenho a chave do meu quarto... E acho que mesmo se eu a tivesse, seria proibida de tranca-la...
Era por volta das seis da tarde quando Josephine apareceu na porta e disse, com um sorriso gentil, que Eliza estava na porta e queria me ver. Eu dei um suspiro pois já sabia o que estava por vir, mas mesmo assim eu pedi que deixasse minha amiga entrar.
Eliza apareceu na porta com uma cara nada boa, como se dissesse “no que você se meteu agora Emily?”. Ela fechou a porta atrás de si, sentou-se na minha cama e disse:
–Pode começar a contar.
–Não faço ideia do que você está falando.
–Me poupe Em. Jéssica, Erick, namorado perfeito, futuro promissor, verdade esmagadora, Jéssica soltando fogo pela boca. Já sei da história toda... Pelo menos a versão da Jéssica. Agora é a vez da sua.
–O que a Jéssica disse?
–Isso não vem ao caso. Desenrola.
Eliza me olhava com aquele olhar severo de mãe tão característico dela... Estava encurralada. Passei a língua por meus lábios antes de começar a contar:
–Basicamente: ontem eu estava andando no estacionamento quando vi Erick e Mandy se beijando e hoje a tarde depois da aula, quando Jéssica resolveu me acompanhar para trocar o pneu da minha bicicleta, eu contei para ela o que eu vi... Obviamente ela não acreditou e deu no que deu.
–Sério? Eu não to acreditando nisso Em. Jéssica, finalmente, passa uma semana sem reclamar do namorado e/ou ficante dela e você estraga desse jeito?
–Céus! Até parece que fui eu quem beijei o Erick. Não é culpa minha! Ele quem a traiu!
–Eu sei que a maior parte da culpa é dele, mas poxa! Não podia ser um pouco mais delicada com Jéssica?
–Eu fui delicada!
–Pelo que ela me contou não foi mesmo.
–Você sabe que eu não tenho pratica pra essas coisas. A intenção era contar com calma, mas quando eu vi já tinha saído!
–E por que não pediu minha ajuda?!
–Eu não sei. Só não me ocorreu, ora!
–Pois devia ter ocorrido! Ela é sua amiga. Devia ter pensado melhor antes de destruir os sentimentos da coitada!
–Ah por favor! Está dizendo que seria melhor se eu não contasse a ela?
–Não ponha palavras na minha boca! Foi certo você alertá-la, o problema foi o modo que você o fez! Eu disse: devia ter tomado mais cuidado.
–Ok, já aprendi minha lição: nunca fazer nada sem a ajuda da Eliza senão eu vou me dar mal. Passou. Pronto. Chega!
–Chega?! Como assim “chega”?! Você acha que “chegou” pra Jéssica? Pois saiba que ela está na casa dela, chorando rios de lágrimas no travesseiro e sem saber se acredita em Erick ou em você.
–Como assim ela ainda tem duvidas?! Puta que pariu Eliza! Por que eu iria mentir sobre isso?
–Eu não sei!... Eu realmente não sei... Mas você tinha que falar do Erick?! E tinha que ser agora?! Tem noção do peso que você colocou nas costas da Jéssica?!
–Por que você está me atacando?! Eu não tive culpa de nada!
–Teve culpa sim. Pode apostar que teve!... Olha, eu não quero continuar aqui. Eu estou com a cabeça muito quente e preciso descontar em alguém, só que eu não quero que esse alguém seja você. Então, eu vou embora.
–Mas...
–Não Emily. Tenho que resolver as coisas com a Jéssica também. Fazer ela superar, parar de chorar e tomar uma decisão... E acho que você não ajudaria no processo.
–Como assim?
–O que estou querendo dizer é que você tem que se manter um tempo afastada dela... De nós duas... Eu não estou dizendo que estou do lado dela, nem que não acredito em você... Mas vai ser melhor pra nos três que você fique longe.
–O que?! Longe de vocês? Por favor, não. Eu preciso de vocês duas.
–Deveria ter pensado nisso antes de magoar Jéssica.
–Eu peço desculpas. Eu ajudo ela também. Mas, por favor, não me mantenham afastada.
–É melhor você não fazer isso. Você é a última pessoa que ela quer ver agora. Então... Eu sinto muito.
–Eliza..
–Emily, eu quero que saiba que você acabou de cometer uma mancada muito grande e quem vai te livrar dessa vai ser eu. Vai ser difícil, mas eu vou fazer isso... Só que da próxima vez, você vai estar sozinha... Tchau.
Sem dizer mais nenhuma palavra e sem esperar pela minha resposta Eliza abriu a porta do quarto e saiu. Pude ouvir seus passos rápidos e a porta da casa batendo atrás dela... Pela segunda vez no dia eu fiquei parada enquanto via uma de minhas amigas indo embora e mais uma vez essa amiga estava carregada com sentimentos nada bons...
Eu achei que ia chorar... Que ia desabar no quarto... Que não ia agüentar aquilo... Mas eu não fiz isso... Apenas fiquei olhando para porta em que Eliza tinha saído... Eu precisava de um tempo.
Por sorte minha mãe ainda não havia chegado do trabalho, então consegui passar despercebida por Josephine, Margrethe e Rosa que estavam ocupadas com o jantar ou com alguma coisa nos fundos da casa.
Ao sair percebi que já havia escurecido e agradeci por ter pego um casaco, pois estava frio... Resolvi fazer uma caminhada e comecei a andar pelo lado oposto ao que levava à entrada do condomínio. Talvez por medo de Charlie aparecer ou talvez porque eu simplesmente queria ver coisas novas e respirar novos ares.
As casas eram todas exatamente iguais a minha. As vezes via guirlandas na porta, grades ou cortinas nas janelas e até mesmo um arbusto, uma fonte ou um canteiro de flores no gramado da frente, mas no geral continuavam padronizadas.
Eu andava rápido e olhando para o chão. Pensei em tudo que tinha acontecido até ali: Charlie, Jéssica, Eliza, Hector, Eglantine... Tantas pessoas... Eu havia magoado a maior parte delas... E algumas eram muito importantes para mim.
O que foi que eu fiz? Agora, além de uma puta que dá paro o diretor da escola como num filme porno, eu também maguei minhas duas melhores amigas, enganei minha mãe e minha irmã e afastei um cara legal que só queria ser meu amigo... O que foi que eu fiz?
Me sentei na beira da calçada e escondi minha cabeça nos joelhos. Senti as lagrimas descendo quentes pelo meu rosto, mas não me importei. Apenas fiquei ali parada, tremendo e chorando.
Não sei quanto tempo se passou comigo daquela forma, mas senti uma mão tocando o meu ombro... Uma mão grande e masculina... Tive medo e não quis levantar e encarar a pessoa. Mas se ela fosse quem eu pensava ser, era exatamente isso que eu devia fazer...
Respirei fundo antes de desfazer o casulo que meu corpo havia se transformado. Foquei meus olhos na pessoa que havia me surpreendido e me assustei... Não era o Charlie... Era Hector...
Ele não vestia o uniforme da escola. Usava uma calça jeans clara, uma blusa pollo vermelha, tênis de corrida e um casaco preto comum. Seus cabelos estavam mais desarrumados do que o de costume e ele trazia uma guia presa a um grande e gordo buldogue inglês.
Hector parecia confuso, mas ao mesmo tempo feliz. Ele disse:
–Oi. O que está fazendo aqui? É meio tarde, não?
–Oi. É que eu moro por aqui.
Eu fiz o máximo que pude para falar sem gaguejar ou soluçar e para limpar as lagrimas de uma forma que ele não percebesse. Mas parece que meus esforços foram falhos pois ele sentou-se ao meu lado e colocou uma mão no meu ombro, como se quisesse me dar um apoio.
O buldogue parecia cansado e se contentou em se sentar de uma forma desengonçada e esparramada no asfalto à nossa frente e arfar adivamente e com a língua para fora.
Hector me perguntou:
–Está tudo bem com você?
–Perfeitamente.
–Não é isso que parece.
–Desculpe, mas está tarde e eu já deveria estar em casa.
Eu disse enquanto me levantei e tentei sair de perto dele o mais rápido possível. Afinal, Charlie podia entrar sem esforço a qualquer hora no meu condomínio... Ele poderia estar ali naquele exato momento... Talvez dentro do carro na outra esquina, escondido nas sombras no final da rua, quem sabe até mesmo atrás de nós no jardim da frente de uma casa... Hector percebeu que eu estava, mais uma vez, me esquivando dele e segurou minha mão antes que eu fosse embora.
Apesar de ser um toque firme, havia carinho e cuidado nele. Sua pele era quente e sua mão cobria a minha totalmente além de ser dura e áspera, porém de um jeito bom.
–Por que você não gosta de ficar perto de mim? – Ele disse confuso e parecendo magoado – Por acaso eu lhe fiz algum mal?
–Não. Claro que não. É só que... É complicado.
–Então descomplique.
–Não posso.
–Então ao menos sente e converse comigo um pouco... Talvez posso me contar o motivo de estar chorando.
Eu não queria deixá-lo triste... Mais do que eu já havia... E seria outro na lista de pessoas quais eu magoei... Então eu, derrotada, me sentei ao seu lado e aponhei minha cabeça na minha mão. Não iria contar toda a verdade, mas pelo menos parte dela:
–Eu acho que magoei feio uma das minha melhores amigas.
–Eliza?
–Não, a Jéssica... Mas a Eliza quer ajudá-la... E agora as duas querem que eu mantenha distancia delas.
–Ah. Tenso.
–Muito.
–Olha, eu não sei qual é a história toda, nem acho que você quer me contar... Mas algo me diz que você não fez nada de errado... Elas devem estar com muita raiva ou muito tristes para pensarem com clareza. Você vai ver. Logo tudo vai se resolver.
–Bom, eu espero que sim.
–Por enquanto você deveria se animar e parar de andar sozinha a essa hora. Estamos dentro de um condomínio fechado, mas ainda assim é perigoso.
–Sim. Sei disso. Foi tolice.
Pude percebeu que Hector chegou mais perto a medida que conversamos, mas fingi não notar. Ao invés disse encarei o buldogue a minha frente. Ele era gordo e cheio de dobrinhas o que o deixava muito fofo, seus olhos eram pequenos pontinhos negros brilhantes em um mar de rugas e seu pelo era branco com manchas marrom claro. Apesar de cansado e arfante ele parecia sorrir para mim.
–Qual é o nome dele? – Perguntei curiosa.
–Esse aí é o Frolo, mais conhecido como Super Devorador.
Eu ri um pouco e ele continuou:
–É serio. Essa coisa pequena e fofa foi responsável pela inatividade da minha bicicleta... E das placas de carros lá de casa... E da própria cama... E de muitas bolas.
–Ok, ok. Já entendi. Pelo visto ele é um míni destruidor.
Eu disse tentando parar de rir enquanto fazia aquela voz fofinha que todo mundo faz quando esta falando com cachorros. Estiquei minha mão para acariciar aquela coisinha e ela veio se arrastando e parou de barriga pra cima na minha frente, todo manhoso.
–É. Vai dando mole. É assim que ele dá o seu bote.
Comecei a acariciar Frolo na barriga e sua perninha traseira direita começou a balançar pra frente e pra trás como um reflexo. Tinha como ser mais fofo que aquilo? Hector estava com um sorriso zombeteiro ao meu lado e continuava a “chingar” o cachorro:
–Viu? O velho truque da perninha. Ele sempre faz isso. Parabéns amigão, está se saindo melhor com a mulherada do que eu. Talvez sejam essas rugas. Preciso arrumar algumas.
Eu comecei a rir mais uma vez enquanto não parava de acariciar o buldogue. Hector se inclinou na minha direção para que sua mão também alcançasse a barriga de Frolo e ao fazer isso nossos corpos se encostaram por completo e a cabeça dele ficou perigosamente próxima a minha.
Eu não sabia se ele havia feito aquilo de propósito ou se foi apenas coincidência, mas de qualquer forma me fez sentir algo. Claro que não estou falando de amor ou coisa assim. Mas é inegável que meu coração começou a bater mais forte e eu sentia uma certa timidez e euforia ao mesmo tempo... O que era aquilo? E até onde isso poderia me levar?
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