Abusada
13 Amiga...
Notas iniciais
Os primeiros horários antes do intervalo foram muito normais. Parecia que finalmente eu estava voltando a prestar atenção nas aulas e ser quem eu deveria ser... Minha vida havia mudado um pouco e minhas ações e pensamentos continuavam confusos, mas já era hora de seguir adiante.
Nenhum dos meus amigos fazia inglês avançado comigo, então eu combinava de encontrar com eles no refeitório. Estava sozinha na sala, terminando de arrumar minhas coisas na mochila, quando alguém entrou e percebi pelos passos rápidos e animados que se tratava de Hector.
Ele se sentou na cadeira à minha frente, quase igual a Franklin pela manhã. O garoto sorriu e disse:
–Bom dia. Como foi a aula?
–Bom dia... Como sabia que eu tinha inglês avançado agora?
–Tive que arrancar de Eliza, claro. Aliás, suas amigas são muito legais.
–Obrigado.
–Então, ontem você estava muito ocupada? Te enviei uma mensagem no celular, mas você não me respondeu.
Mensagem? Mensagem?! “Quando eu perceber que você deu um passinho para fora da linha eu posso cuidar para que você nunca mais veja nem sua família, nem seus amigos e principalmente aquele menininho idiota.” Essa foi a única mensagem que eu recebi ontem que estava tão fixada na minha mente que meu cérebro não me permitiu esquecer uma só palavra. Eu conseguia ouvi-la sendo entoada perfeitamente na minha cabeça com a voz dura e ameaçadora do Diretor Charlie... Eu, definitivamente, não deveria falar com Hector. Muito menos em uma sala vazia. Eu tinha que arranjar um jeito de ir embora e manter Hector longe de mim, em segurança.
Eu sabia que ele tinha me mandado uma mensagem no whatsapp, mas não me lembrava o conteúdo nem tinha respondido, então disse:
–Sinto muito. Eu passei o dia estudando paras a provas ontem e me esqueci de responde-lo.
–Que provas? A semana de provas acabou... Eu até me lembro que foi você quem tirou a maior nota na escola naquele provão.
Porra Emily! Charlie tinha razão, as vezes nem parece que é você quem tira todos aqueles totais.
–Eu sei. É que estou estudando para as provas do semestre que vem... Sabe como é. É melhor prevenir do que remediar.
–Sim, sim. Quem me dera eu fosse tão estudioso assim.
Eu apenas acenei em resposta. Como já havia arrumado meus pertences, peguei a mochila e fui andando rápido na direção da saída sem nem dizer “tchau” e torcendo para Hector deixar o assunto morrer ali... Mas é claro que ele não fez isso:
–Espera. Para onde está indo?
–Para o refeitório.
–Eu também. Te acompanho até lá.
–Não é uma boa ideia.
Já estávamos no corredor e podia ouvir os passos de Hector bem atrás de mim. Ele ia dizendo enquanto tentava me alcançar.
– Por que não? Podemos bater um papo até lá. Qual o problema?
–Não tem nenhum problema. Por que você acha que tem algum problema? Eu só... Quero ficar sozinha, será que posso?
–Emily, ninguém gosta de ficar sozinho.
–Então, muito prazer. Meu nome é Ninguém.
Ele disse algo como “ah, para com isso”, mas nem ouvi direito pois enquanto olhava para trás acabei batendo em alguém que vinha pelo corredor na direção oposta. Quando me virei, arquejei pois a pessoa era ninguém mais, ninguém menos que o Diretor... E ele não parecia ter uma cara muito boa...
–Oh. Senhorita Gomez e Senhor Agabo, o que estão fazendo aqui? Deveriam estar no pátio ou no refeitório. Sabem as regras.
O olhar dele, apesar de parecer responsável como qualquer outro funcionário da escola estava totalmente fixado em mim. Engoli em seco e disse:
–S-sim. Eu estava indo para o refeitório agora mesmo. Me desculpe, senhor.
–Desculpado. Mas ficarei de olho. Ouviu bem?
Para Hector aquilo não pareceu nada com uma ameaça... Mas para mim...
“...você é meu brinquedinho o que faz de mim o seu dono. Eu odeio dividir os meus brinquedos ...” Céus! Ele vai me matar, com certeza!
Antes que as coisas piorassem mais ainda eu me afastei rapidamente do Diretor e de Hector... Mas parece que o menino não entendeu pois continuou me seguindo e dizendo:
–Emily, por favor. Quero conversar com você.
–Não. Me deixa em paz, por favor.
–Por que? O que tem de errado? Só quero ser seu amigo.
–Meu eu não quero ser sua amiga!
–Por que não?
–Eu já tenho amigos suficientes.
–Mas eu não entendo por que você foge de mim assim. O que eu fiz?
Pela voz eu pude perceber que eu o havia magoado. Pobre garoto. Eu não costumo ser assim... Se eu o tivesse conhecido mais cedo... Mas agora eu não podia ser vista perto dele... Pela minha segurança e principalmente pela segurança das pessoas com quem me importo... Porém isso não é desculpa para ser má com alguém.
Eu parei de “fugir”, suspirei e dei a volta para encarar Hector e explicar:
–Você não fez nada. É que... Você não vai querer ser meu amigo ok?... Além disso, eu não tenho tempo para essas coisas... Tenho que prestar atenção na aula e estudar para as provas, não foi sem esforço que tirei a maior nota naquela prova. Por isso, é melhor você ficar longe de mim... Por favor.
Eu não esperei que ele me respondesse. Corri até o refeitório e me sentei junto com meus amigos. Vi Hector ir para perto de Josh e seus companheiros, mas ele não veio mais falar comigo naquele dia.
Quando a aula havia acabado eu peguei minha bicicleta e foi conduzindo-a até o local onde minha mãe mandou que eu a deixasse para trocarem o pneu e Jéssica resolveu me acompanhar. Os pais dela estavam passando por uma fase de brigas e ela estava buscando conforto em mim. Minha amiga desabafava ao meu lado:
–E eu não sabia o que fazer naquela hora, entende? Eu só fiquei no quarto enquanto ouvia os dois gritando no corredor... Eu queria ter saído e falado alguma coisa, mas... Não sei... Acho que não queria saber que aquilo estava acontecendo sabe?
–Sim. É uma reação normal para alguém nessa situação.
–Pelo menos eu pude conversar com Erick. Ele foi muito legal naquela noite. Ficou no telefone comigo até que eu tivesse me acalmado e adormecesse. Não acha fofo?
Fofo? Sabe o que foi fofo? O Erick afogando a Mandy em saliva. Cara, isso foi muito fofo. Eu deveria contar para Jéssica... Não. Não é uma boa hora. Ela esta com esse problema com os pais e o Erick está sendo legal com ela... Mas, em compensação, se eles ficarem mais tempo ela se apegará mais ainda e quando ela descobrir vai ficar ainda mais magoada... E se ela descobrir que eu sabia durante esse tempo e nunca contei? Ela vai ficar chateada e zangada comigo, tenho certeza... Céus o que eu faço?! Calma, Emily... Vamos ser discretas:
–Sim... E você e o Erick estão firmes e fortes?
–Com certeza. Sabe, ele é muito diferente dos outros caras com quem eu fiquei. Eu sei que eu tenho essa fama de passadora de rodo, mas acho que finalmente encontrei o cara certo.
Merda. Isso não é bom.
–Uhum... Mas vocês estão mantendo o namoro em segredo até agora... Não acha isso ruim?
–Bom, tem suas desvantagens. Eu não posso agarrar ele do nada como eu gostaria de fazer no meio da escola... Mas, você sabe não é? Ele ainda está passando pelo processo de término com a Mandy e ele é bem descolado.
–Ah, então quer dizer que ele namorava com a Mandy.
–Sim. E as pessoas podem começar a comentar que ele me traia com ela quando namoravam se ele, do nada, aparecer comigo.
–Ah é. Seria horrível se começassem a comentar isso... Mas, por que ele terminou com a Mandy?
–Ele disse que era porque ela era muito superficial e não tinha cérebro.
Cérebro eu não sei, mas ela tem uma boca e isso parece bastar para o Erick. Maldito garoto! Muito bem Emily, é agora ou nunca.
–Você conhece a Mandy?
–Só de vista. Mas ela parece ser exatamente do jeito que Erick falou. Você conhece ela? O que acha?
–Conhecer é uma palavra muito forte. Quer dizer, quando você realmente conhece uma pessoa? Você pode nunca saber quem a pessoa é de verdade... Melhores amigos que se transformam em assassinos, pais que se tornam violentos por causa de drogas ou bebidas ou namorados que acabam traindo... Há muitas possibilidades.
–Que papo estranho. O que está acontecendo?
–Bom... Sabia que ontem o pneu da minha bicicleta furou?
–Jura?
–Aham. Aqui na escola.
–E como você foi pra casa?
–Isso não vem ao caso. Quando eu estava indo pegar minha bicicleta eu encontrei o Erick.
–Ah... Ok... E daí?
–É que... Ele meio que estava... Com uma garota...
Jéssica parou de andar e passou a me encarar. Dava pra ver que ela não estava gostando muito do rumo daquela conversa... E eu realmente não estava a fim de terminá-la. Porém era preciso:
–E essa garota meio que era a Mandy e...
–Emily Gomez Doyle, aonde você quer chegar?!
–E eu vi os dois se beijando no estacionamento depois da aula!
Ela não falou nada inicialmente e seu rosto não demonstrava nenhuma reação. Depois, pareceu entender o que eu havia dito e sua feição ficou confusa, logo depois espantada e por último incrédula... Passaram longos minutos até que Jéssica tivesse olhado para todos os cantos da rua (menos pra mim), passar a mão no cabelo umas duas vezes e morder o lábio inferior outras milhões de vezes. Por fim ela acabou dizendo:
–Você... É que... Tem certeza que era o Erick?
–Sim, tenho.
–Uhum... Absoluta certeza?
–Total.
–Mas... Olha, ele terminou com a Mandy... E... E ele está comigo... Por que ele voltaria... Com a ex?
–Ele não voltou, exatamente. Você sabe. Ele só...
–Eu acho que você se enganou Em.
–O que?
–Isso mesmo. Erick jamais faria isso... Não comigo... E muito menos com Mandy... Então, você se enganou.
–Eu não me enganei. Estou falando a verdade.
–Eu sei. E não duvido de que seja a verdade. Só estou dizendo que você confundiu as pessoas. Não foi Erick quem você viu.
–Não. Foi o Erick. É sério!
–Não. Não foi. Não o meu Erick. Eu o conheço, muito melhor do que você. Você não sabe como ele é. Nunca faria algo assim comigo.
–Vai acreditar no seu aspirante a namorado de duas semanas e não na sua melhor amiga a quatro anos?!
–Eu já disse que não estou dizendo que você mentiu! Você só errou de pessoa!
–E eu já disse que eu não errei!
–Por que você não simplesmente admite que está errada Emily?! Erick é um dos caras mais gentis e bons que já conheci na minha vida e ele definitivamente não faria algo assim. Jamais! Então admita que, pelo menos uma vez na vida, a poderosa Emily Gomez errou!
Jéssica estava alterada. Seu peito inflado, suas mãos fechadas em punhos, seus olhos arregalados e ela gritava a plenos pulmões no meio da rua. Fiquei espantada com essa atitude pois Jéssica sempre foi o tipo de garota fofinha e tímida e agora isso!
Ela respirou fundo algumas vezes, fungou e arrumou o cabelo. Quando pareceu se acalmar ela disse:
–Olha, você vai ter que ir sozinha até la... Eu não estou com cabeça pra nada agora. E-eu vou pra casa. Só... Esquece isso, ta bom? Nunca aconteceu. Até amanha.
Ela saiu correndo e atravessou a rua na direção da sua casa.
Eu sei que deveria te-la chamado ou corrido atrás dela... Mas não fiz isso. Fiquei parada vendo minha amiga partir e sabendo que seu coração estava carregado de desconfiança e tristeza... Eu, realmente, não queria que minha melhor amiga sentisse esses sentimentos... E eu fui a causa de eles estarem ali... Eu e minha boca grande...
Fiquei parada na calçada segurando minha bicicleta e me perguntando: o que eu tinha acabado de fazer?... Eu sabia que aquilo não renderia boas coisas de jeito nenhum... Pois, se tem uma pessoa que guarda rancor e busca por vingança, essa pessoa é a Jéssica... E naquele momento ela não parecia muito feliz comigo...
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