Notas iniciais
Essa ideia me ocorreu de repente, sem pretexto algum de ser colocada no papel ou postada, no entanto, aqui está, e espero que tenham tanto carinho por MxM quanto eu, porque essa fic só está porque eu amo esse casal, e gostaria de passar esse sentimento através da fic ♥ Boa leitura. 08/10/17 -> Estou revisando todos os capítulos, não reescrevendo, mas dando uma mudadinha aqui e ali, e vou marcando conforme reposto ^^

Com a ponta dos dedos toquei seus lábios rosados com suma delicadeza, ideias, desejos, pensamentos, todos passando por minha cabeça, e se desfazendo. Fechei os olhos e tornei a abri-los, enrosquei a mão em suas teias de ouro, depois segui caminho até o rosto adormecido, iluminado unicamente pela luz da lua. O contraste, a mistura das cores pálidas, como se de um quadro se tratasse, Mello e a cama. As cobertas só estavam lá para contrastar com aquela beleza única.

Em minha mente, tudo o que existia era apenas para complementar Mihael Keehl, até mesmo meu décimo segundo inverno. A neve caia apenas porque queria tocar aqueles fios loiros ao menos uma vez, sem se importar em derreter logo depois, caia unicamente pelo prazer de ser pisada, afundada pelo pouco peso chocólatra.

E isso era tudo. Não importava o que ou quem, tudo e todos, todos e tudo, eram apenas um complemento daquela Obra de Arte perfeita. Apenas isso e nada mais, porque não havia nada nem ninguém que pudesse completar algo perfeito. Se não era Mello, então era apenas uma mão de tinta mal passada, se não era ele, então era nada.

Ele era a Arte em si; era a mais bela pintura, sua respiração a mais maravilhosa música, de sua boca saía apenas poesia, e como o ator de uma peça de teatro, ninguém o via, apenas o admirava, assim também como se admira uma escultura rara e intocável em algum museu — não passe da linha no chão, nem sequer toque o vidro.

Quisera ser o que lhe completa, mas o meu vermelho somente o mancharia, como o sangue, que nunca sai. E sem que eu pudesse evitar um suspiro meu, que sempre era teu — assim como tudo em mim – escapou de meus lábios, e por mais baixo que fosse, o despertou.

“Matty? O que foi? Pesadelo?” perguntou sonolento, sem parecer se importar muito com minha mão em seu rosto e sem fazer a mais mínima ideia do quanto meu coração se tornava impróprio com meu nome sendo usada dessa forma, por mais que não soasse tão diferente assim “Vem, deita aqui logo, vai ficar doente ficando ajoelhado assim neste chão frio em pleno inverno.” abriu espaço na cama para meu corpo de uma magreza feia pudesse se aconchegar junto ao seu.

E agora, separados apenas pela distância de nossas roupas, com seu abdômen colado à minha costa, e seu braço servindo propositalmente de travesseiro para mim, eu rezava para que esses tecidos que nos vestiam fossem o bastante para que toda a minha impureza não pudesse passar para você.

“Mells…” o chamei, a voz trêmula, e seus dedos de pianista se colocaram e meu cabelo, fazendo um suave cafuné.

“Sim?” seu tom era calmo e isso me trazia paz “Teve aquele sonho outra vez?” mesmo com tanta dor em meu peito, eu era tão feliz em seus braços neste instante, que eu só podia chorar.

“Hm.” minha garganta doía demais para que algo tão difícil quanto uma palavra pudesse sair, e meu gemido que nem afirmava, nem negava foi o compreendido pela Arte deitada no leito em que eu roubara um pedaço com a esperança de escutar apenas os versos que podiam sair de seus lábios cheios, embalados pelo som de seu coração que eram como uma Trilha Sonora.

“Shh” se moveu, ficando por cima de mim, minha cabeça agora no travesseiro, suas mãos espalmadas em cada lado da minha cabeça que ainda está na mesma posição de antes, assim como meu tronco, que tinha o privilégio de estar entre suas pernas “Se vire... E me olha nos olhos.” eu o fiz, e me afoguei naquele mar azul “É apenas um sonho, Mail, não é real. São apenas seus medos se personificando em pesadelos.” com a gema dos dedos limpou as minhas lágrimas enganosamente cristalinas. Meu pranto devia descer em negro.

Era sempre assim, vez ou outra eu tinha aquele sonho, e eu me esgueirava até a cama de meu companheiro de quarto e melhor amigo nessas noites. E eu era sempre acolhido e confortado, como um animal abandonado que tinha sorte de ter encontrado um dono, ou melhor, ser encontrado. Eu nunca contei do que se tratava o sonho, e mesmo assim, ele sabia. Sabia o horror que me carcomia dentro desse fruto da minha mente perturbada que eram meus pesadelos.

“Mello... Mello…” murmurei seu nome com um desespero que meu amigo conhecia bem,de novo e de novo, abraçando seu pescoço com tanta força que tive medo de te machucar, um medo bobo, pois minha força era tão pouca... E você inverteu posições, com as suas mãos em minha cintura, e me fazendo deitar em seu peito. Aspirei teu cheiro, algo como menta e chocolate, e o seu calor me aquecia por dentro e por fora.

“Eu vou estar sempre com você, sim?” ele beijou meus cabelos “Agora fecha olhos, Matty... E dessa vez, estaremos juntos neste sonho.” sua voz pronunciava cada palavra de uma forma hipnótica, meus olhos fecharam quase por si mesmos “Estaremos juntos, encostados naquela árvore, atrás do orfanato, e eu estarei lendo para você... E assim como agora, você vai dormir e ter um sonho bom, onde estaremos juntos também…”

Meus olhos se fecharam, o cansaço e a calma passada por Mello me empurram aos braços de Morfeu, onde permaneci envolto da brisa primaveril da pequena campina que ficava perto da Wammy’s House, eu podia ouvir o som de alguma música que a muito tempo escutei em um passado remoto, e eu e estava deitado junto ao loiro, que me lia um livro estranhamente familiar, mas nós não tínhamos nossos doze e treze anos, tínhamos oito, a idade em que nos conhecemos. E foi nesse paraíso perfeito onde o mal ou o tempo não nos atingiam, onde eu estaria para sempre com Mihael, que fiquei até que a claridade invernal entrou pela janela, nos despertando.

“Bom dia.” falou se espreguiçando, seus fios dourados bagunçados o deixavam com um ar ainda mais divino.

“Bom…” bocejei “Dia.”

“Com o que sonhou?” perguntou sorrindo de forma calorosa, talvez um pouco calorosa demais como se soubesse exatamente com o que eu tinha sonhado.

“Que éramos pequenos…” comecei, enquanto ajeitava seus cabelos loiros usando meus dedos “Estávamos na campina e era primavera…” seus fios eram tão finos e macios, tocar neles era um dos maiores prazeres da minha vida “E você lia um livro para mim, um que me é bem familiar, mas que não consigo recordar o nome…”

“O Pequeno Príncipe.” e era esse mesmo.

“Como você...?”

“Vamos nos atrasar para o café!” ofereceu apenas um meio sorriso brincalhão, como se dissesse que realmente estivera junto a mim em meu sonho. E isso seria impossível, se não fosse Mihael Keehl. Ou talvez estivéssemos conectados de alguma forma, mas essa é só a maneira que eu gosto de pensar, porque eu sei que é impossível que a perfeição em esculpida em carne, sangue e ossos, esteja conectada a tudo aquilo que é o oposto, a feiúra esculpida em algo imperfeito, que nem mesmo pode ser chamado de corpo.

Mello era uma pintura do Romantismo, considerado um dos estilos mais difíceis, pois é um estilo que dispõe de todos os meios possíveis na arte, desde a cor à espiritualidade. E passa totalmente os sentimentos e emoções do pintor, por isso é tão belo, os quadros do Romantismo sempre deixam um pedacinho da alma de quem os pintou, ou da história, momento, instante relatados.

E eu era uma pintura Abstrata. Apenas uma mistura de cores, traços, linhas que se misturam entre si caoticamente, de forma não representacional. Algo que não mostra absolutamente nada ou tudo ao mesmo tempo, de forma irritantemente descontrolada.

Não importa o quanto sejam conceituadas, eu odeio pinturas abstratas.

Eu odeio a mim mesmo.

E isso é algo que nunca vai mudar.

Com esses pensamentos, eu me aprontava para descer tomar o café junto a Mello e aos outros órfãos superdotados da Wammy’s House. E ele, como se lesse meus pensamentos, bagunçou os meus cabelos de uma forma reconfortante.

E se eu já falei, irei falar novamente, irei repetir e repetir esse nome e essas palavras: Eu amo Mihael Keehl.

Ironicamente, esse sentimento que é o mais forte que tenho depois por ódio por mim mesmo, é tão abstrato quanto eu.

Todo sentimento é abstrato.

Notas finais
E o que acharam? Devo apenas terminar o que comecei em uma Two-shot logo, ou devo continuar a mais que isso? Obrigada por lerem =3 Chu ♥